A poesia palestina de Mahmud Darwich e Mohamad El
Hanini
quinta-feira, 14 de novembro de 2019
segunda-feira, 18 de março de 2019
A destruição total do perdedor
por André Lobão
Assim foi feito na Alemanha do pós-guerra, Iraque com a ocupação americana, Síria com grupos como o Estado Islâmico e na Palestina sob a implacável ditadura de Israel. Mas aqui tudo foi diferente, aconteceu e acontece em doses homeopáticas, de forma que seja absorvido e encarado pelo povo como “mudança” e na base da resiliência, com a mídia fazendo claramente isso. Em banquete com seus gurus políticos da extrema direita americana Bolsonaro disse que é preciso “desconstruir muitas coisas no Brasil para construir outras”. Essa é a exata e triste realidade que estamos no Brasil sendo submetidos. Pagamos o preço da derrota de uma guerra.
A visita oficial aos EUA do presidente do Brasil passa a sensação de capitulação e derrota ao Brasil. Perdemos uma guerra sem que tivessem ocorrido tiros, deslocamento de infantarias e bombardeios aéreos. Foi um exemplo prático da chamada Guerra Híbrida, uma tática que aplica política, mentiras e outros métodos de influência comunicacional em que se produz desconstrução de reputações, perseguições (lawfare) e intervenção eleitoral externa.
Em três anos o Brasil está sendo desmontado, privatizado, e, principalmente, humilhado. Para os conquistadores a práxis é humilhar os inimigos vencidos, seja pela destruição da estima deste povo com ações que vão desde a barbárie contra mulheres, talvez isso possa explicar o alto índice de feminicídios que ocorrem atualmente no Brasil; retirada de direitos trabalhistas e previdenciários; perda de nossas riquezas como o petróleo; a base aeroespacial de Alcântara/MA; destruição da cultura e educação e desmonte de tudo que o perdedor tenha deixado como legado.Assim foi feito na Alemanha do pós-guerra, Iraque com a ocupação americana, Síria com grupos como o Estado Islâmico e na Palestina sob a implacável ditadura de Israel. Mas aqui tudo foi diferente, aconteceu e acontece em doses homeopáticas, de forma que seja absorvido e encarado pelo povo como “mudança” e na base da resiliência, com a mídia fazendo claramente isso. Em banquete com seus gurus políticos da extrema direita americana Bolsonaro disse que é preciso “desconstruir muitas coisas no Brasil para construir outras”. Essa é a exata e triste realidade que estamos no Brasil sendo submetidos. Pagamos o preço da derrota de uma guerra.
domingo, 5 de agosto de 2018
Antonio Apoitia, o militante imprescindível
A sessão plenária da
Câmara de Vereadores do dia 9 de junho de 1969 ficaria marcada na história de
Santana e especialmente do advogado Antônio Apoitia Neto como um acerto de
contas com a ditadura militar. O Ato Institucional Nº 5 havia decretado o
fechamento do Congresso Nacional e o recesso das assembleias legislativas
estaduais e câmaras municipais, entre inúmeros outros gestos de arbítrio, como
fim do habeas corpus e instauração de censura prévia nos meios de comunicação.
Nesse ambiente de extrema tensão, Apoitia iria fazer ouvir sua voz pela última
vez no parlamento municipal. Único vereador santanense cassado pelo ato
ditatorial, o advogado criminalista, recentemente falecido, fazia parte de um
conhecido grupo de combatentes políticos marcados pela resistência ao golpe. Segundo
vereador mais votado para a legislatura 1969/1972, egresso das fileiras
comunistas, assumia a vereança em uma bancada majoritária do MDB, que não
poupava críticas ao recém-empossado interventor municipal, o general Antônio
Moreira Borges.
Na sessão de posse do
interventor santanense, Apoitia já tinha ousado quebrar o protocolo e tomar a
palavra, afirmando com ênfase suas posições nacionalistas, que batiam de frente
com as diretrizes da “revolução”. Selando
definitivamente sua sorte, pediu a palavra e falou diretamente ao interventor,
investido pelos votos que recebera. “Continuo
mais nacionalista do que antes, porque quero ver a pátria brasileira livre da
espoliação dos grupos econômicos norte-americanos que espoliam não só a nossa
Pátria mas a toda a América Latina, todo o terceiro mundo”. Mais do que suas posições contrárias ao AI5,
Antonio Apoitia já estava “marcado na paleta”, como diz o linguajar gaúcho,
devido a sua conhecida militância no sindicato dos bancários de Porto Alegre e
a intensa colaboração no trânsito de exilados pela fronteira, nos anos que se
seguiram ao golpe.
"O Apoitia era conhecido como a voz das
ruas, porque ficava dias escondido em um sótão que existia no sindicato, à
salvo da repressão, convocando os companheiros por um sistema de alto-falantes
colocado nas esquinas", lembra o companheiro de sindicato e
ex-governador do Rio Grande do Sul, Olivio Dutra. Devido a militância, em
novembro de 1964 foi sequestrado pelo Dops gaúcho e permaneceu encarcerado
durante 30 dias na penitenciária estadual, sem saber se dali sairia vivo. Após
o intenso período de tortura psicológica, vivendo em condições sub-humanas, foi
libertado e voltou para fronteira, onde perfilou-se na ala dissidente do PCB,
que buscava uma reação armada ao golpe. Com o aprofundamento da repressão
passou a trabalhar nos bastidores, vivendo em Rivera, fazendo a vez de “pombo
correio”, sempre que fosse preciso. Amaury Silva, Cláudio Braga, Leonel Brizola
e o presidente deposto, João Goulart, faziam parte da rede de exilados
auxiliados por Apoitia. “Eu tinha um amigo na policia de Rivera, e
entrava no Uruguai com uma identidade falsa, onde eu tinha o nome de Antonio
Almafuerte, que foi inspirado em um poeta argentino”, costumava lembrar.
Atuando junto ao advogado uruguaio Adán Fajardo, Apoitia iria conviver
intensamente com o colega e exilado político Tarso Genro, que recentemente
lembrou do amigo como uma pessoa “imprescindível” e “militante político de primeiro nível”.
Oriundo
de uma família de raízes anarquistas e comunistas, Apoitia foi resgatado – aos
dois anos de idade - de um incêndio, que consumiu a panificadora de seus pais,
na atual esquina das ruas General Câmara e Hugolino Andrade. Herdeiro de uma
tradição libertária, o advogado iria atravessar os anos de repressão com um
prestígio intocado, coroado pela eleição a vice-prefeito na chapa do radialista
Oriovaldo Greceller em novembro de 1985. Exemplo para toda uma nova geração de
políticos da fronteira, Antonio Apoitia abdicou até mesmo da vida pessoal para
dedicar-se a luta política e a solidariedade.
Texto e foto: Marlon
Aseff
publicado originalmente na terceira edição de Almanaque Santanense
publicado originalmente na terceira edição de Almanaque Santanense
segunda-feira, 2 de abril de 2018
Luana Mockffa: Confissões de um coração em transe
Luana Mockffa é cantora
brasilis. Luana vive em Floripa. Luana é musa do dream pop. Luana transita em
um país afogado na mediocridade dos homens de gravata. Luana acaba de lançar um
single que está causando e prepara novidades. Luana bateu um papo com Jogos da Memória sobre seu processo
criativo, seus singles, e de como é viver em um
pedacinho de terra perdido no mar...
Como é ser artista no
nosso convívio ?
Minha família nunca me
levou a sério, inclusive na música. Nunca foram nos meus shows, nunca deram
bola para ouvir minhas músicas, os vídeos, nada. Mas desta vez eles pararam...acho
que foi o vídeo do Vernizzi, e da música ser mais pop, eles levaram a sério...
do tipo “uau, nem parece que foi você que fez”. E a partir disso meu pai tem me
dado alguma sugestão de apoio no sentido financeiro...ou seja, toda uma
logística que envolve uma certa grana, e tá sendo positivo isso.
Mas já tinha lançado o
primeiro EP ?
Sim, mas o primeiro EP
foi bem atrapalhado, eu tinha 24 pra 25 anos. Foi em 2013 que começamos a
gravar e lançado em 2014. Tinha cinco faixas, sendo que em duas delas eu não
fiquei satisfeita, mas vou relançar. Chamava-se Algia, que é um sufixo de
dor....como fibromialgia.... A música já transitava pelo Dream Pop. Tem uma
versão de Manhã de Carnaval, uma bossa nova do Luiz Bonfá, de 1953...por aí.
Mas no EP não faz alusão alguma a bossa nova, é um arranjo de milonga, com uma
distorção à la Bang Bang, da Nancy Sinatra. E isso dentro do meu mundo não
precisa de significado, ou que referencie um rótulo para minha música...preciso
é que se materialize. É uma música de sintetizadores, mas a guitarra é
guitarra. Tem clarinete, no timbre, e funciona muito bem. Na época, eu tava
numa pira de entoações tribais, de cantos meio xamânicos, então tem umas
segundas vozes que lembram isso. Tem outra faixa que se chama Mount of Sugar,
que eu me inspirei na obra Revolução dos Bixos. Na versão em inglês tem uma
fábula que os bixos contam para os outros bixos, que tem um lugar que se chama
mount of sugar. Lembro que eu relacionei a morte, mas uma boa morte...na época
eu tava tão niilista que eu pensei, bom, esse lugar não existe...
O EP tem uma mensagem
ou algo que o identifica com esse momento?
Tem algo central, que é
o processo de dor que eu estava sentindo fisicamente enquanto eu fazia ele. Por
isso que se chama algia. Eu ainda não sabia lidar com a quantidade de remédios,
e fazer o meu timbre ficar... eu perdi o controle da minha voz, porque na época
eu estava tentando me acostumar ainda a falar e ter reflexos de novo, são
muitos remédios...
E o single Eu vou fugir pro Rio de Janeiro, como dá
para definir, os beats ...
Beats são bases
musicais onde tem tudo. Tem bateria, órgão, tudo o que você quiser pode ter num
beat. Originalmente era só batida, mas os beats foram evoluindo tanto que as
batidas foram ficando sofisticadas, os softwares foram ficando sofisticados, e
hoje você consegue fazer uma música inteira a partir de um beat. Então, mesmo
que tenha hip hop, rap, ali naquelas batidas, é um beat não feito para isso...
porque eu misturo com elementos bem pops. Eu tava numa fase de ouvir muito rap
nacional e muito pop nacional e internacional. Então misturou tudo. Por isso
esse trabalho tem mais lucidez. No Algia eu tava muito dopada, e eu não tinha o
controle das coisas, tudo foi feito meio que às xongas, assim (risos). Só que
agora eu sei o que eu quero, eu sento do lado do Yraq, que é meu produtor, e
falo o que eu penso. Somos co-compositores.
Quais foram suas
influencias para esse trabalho que sucedeu o Algia?
De rap tem Menestral,
Froid, Rincón Sapiencia, Criolo, Djonga.... é uma galera underground, que faz
seu sucesso. Mas eu vou na vanguarda do pop também. Porque o que me cativa no
pop é a produção. Quando entra o clap, em que parte faz a transição para o
kick, como se trabalha os graves, médios
e agudos...Na verdade eu até desconstruo o pop, mas eu ouço um pop de
bastante qualidade, como a Sia, Pharrell Williams, Drake, The Weekend, Beyoncé,
esse tipo de pop. Então fazem parte de uma pesquisa que pode até não ter método
algum, porque se trata de ouvir o que eu quero, e que naturalmente vira um
híbrido. Ah, e o Tim Bernardes, que faz uma espécie de MPB de vanguarda, e Mac
Demarco, que faz um som bem easy...tem o Devendra também, que é o gênio da
mistureba.
Eu
vou fugir pro Rio de Janeiro nasceu dessa mistura?
Sim, a música fala
dessa cantora que quer fugir pro Rio, e prospecta seus sonhos e entoa um
mantra, tipo vai dar certo! Totalmente autobiográfico, na primeira pessoa, sou
eu mesmo. E desde que eu comecei a assistir Branca de Neve com a minha filha, a
Maria Clara, eu me apaixonei por uma melodia do filme, da versão em português,
que diz um dia, um dia eu serei feliz...
mas a letra é super passiva, de uma mulher que fica esperando um homem, que
depois beija ela, salva ela...Então eu uso só a primeira frase original, mas
depois coloco minha letra como uma resposta para ela. Fiz uma releitura, uma
versão em recorte, misturado com todo o resto... No começo eu queria colocar o
início da música da Branca de Neve, e em paralelo eu tinha o refrão do vou fugir....aí o Yraq me mostrou um
beat que já era próximo de como ficou o original. Comecei com Branca de Neve, mas toda vez
que ia cantar eu saía do tom, aí eu resolvi fazer um teste, que era encaixar
o refrão e ficou perfeito, no sentido de dois pedaços darem muito certo. Aí foi
a produção do beat, onde o mérito é todo do Yraq.
O clipe também foi um
ponto alto do trabalho.
O clipe é o seguinte, eu
sempre tive vontade de trabalhar com o Felipe Vernizzi, que é um diretor e
fotógrafo, pelo qual eu sou completamente apaixonada pela linguagem
cinematográfica dele. E eu contactei ele, e mesmo com pouquíssimo orçamento,
ele veio para Florianópolis. Ele já era amigo de outro produtor com o qual eu
tenho um duo, chamado Artemisia Vulgaris, que é o Rodrigo Ramos. Eu já tinha o figurino
do clipe, e aí mostrei a música para ele, que adorou. Aí ele ouviu também outra
música, que se chama Sleep Well, que
ele adorou e quis fazer clipe dessa música também, que devemos lançar nas
próximas semanas. Esse clipe foi feito no pinheiral do Rio Vermelho, dentro de
um opala, que é um carro atemporal.
No clipe de Vernizzi
não há um lugar definido, tipo olha é
Floripa! Isso é deliberado?
É qualquer lugar. Mas
não é que não seja Floripa. Na verdade eu estou sentindo falta de uma cena em
Floripa. Tá acontecendo uma cena muito forte de mulheres, e é por isso que eu
estou sentindo falta da cena, porque existem as pessoas mas não existe espaço
de sobrevivência através da música. Pessoas incríveis, como a Renata Swoboda, a
Carol Voigt, uma mulherada.. os Skrotes são maravilhosos...aqui teve uma música
praiana, de reggae, que eu acho que se foi, ficou um vácuo. Falta subsídio,
galera tá dura de grana, nem para ir a show. O clássico agora é comprar cerveja
no mercado para beber em casa. E há um boicote a cultura que foge do padrão
“ilhéu”, infelizmente. Tem François Muleka, tem um monte gente, que eu acho que
já tem seu prestígio. O que tá faltando é um espaço de renovação. É muito
difícil a abertura da mídia daqui para coisas novas, pessoal prefere repetir a
pauta com o mesmo artista do que dar um play e ouvir de verdade o que o artista novo enviou junto
com o release.
por Marlon Aseff
quarta-feira, 29 de novembro de 2017
Espaços da memória: do Areial ao Parque Internacional
Os
espaços nunca são inocentes, tem memória, a nossa, individual, e a coletiva, que
vão se acumulando através de episódios significativos da história, de expressões
arquitetônicas e literárias. Conforme abordam os estudos sobre memória coletiva de Maurice Halbwachs e Pierre Nora,
os lugares da memória são como um palimpsesto.[1] Ou
seja, os pergaminhos gregos utilizados para escrita. Reutilizados, sobrepostos
estão a outros, conforme o tempo os vai apagando, vão surgindo vestígios
daqueles que ainda estão lá, que não se apagaram completamente. No entanto, estão todos lá acumulando
historicidade como o pergaminho que se raspa para novamente escrever deixando
as camadas com a escrita anterior nítida.
Embora
assegure lugar na história, a memória, no entanto, exige cuidado, pois às vezes
coloca relatos forjados no presente a
partir de interesses e julgamentos morais. Desta forma os espaços, paisagens,
cidades, pessoas, se configuram à medida que “nós escrevemos ou apagamos” as
lembranças que estão dentro da memória coletiva. Precisamos olhar esse espaço
transformado, destruído, desgastado pelo tempo, a cidade do passado. Foi com essa intenção que investiguei as origens
do espaço que hoje denominamos Parque Praça Internacional em minha pesquisa
sobre o lazer fronteiriço.
A Praça Internacional, mais conhecida na fronteira como o Parque Internacional, está localizada no
centro das cidades de Santana do Livramento e Rivera. Em 1851 foi assinado o Tratado de Limites
entre o Uruguai e Brasil, definindo-se a necessidade de demarcação da linha de
fronteira entre a localidade de Serrilhada e Masoller. Também foi definida a
instalação de marcos delimitadores na extensão de toda fronteira
brasileiro-uruguaia Mais tarde na década de 1910, a demarcação na região onde
atualmente está instalada a Praça Internacional foi realizada de maneira
distinta das outras.
Conforme
escreveu o historiador Ivo Caggiani, a praça foi criada com objetivo de
substituir o usual “divisor de águas” comumente utilizado para definir e marcar
o território de fronteira: “tal método demarcatório é estabelecido pela própria
natureza, quando a água da chuva, ao cair, corre uma parte para cada lado,
determina a linha por onde deve passar a fronteira”. No entanto na região da
futura praça, ao contrário de áreas rurais e periféricas, não foi possível
instalar balizas divisórias. No espaço de aproximadamente quatro quilômetros
havia construções dos dois lados que excediam a linha de fronteira. O local que
divisava as casas era constituído de um terreno irregular, arenoso e com mato
fechado, que ao centro abrigava uma pequena lagoa. Era o Areial ou tierra de nadie, como era chamado pela comunidade fronteiriça, que
se valia do local para uma série de atividades ligadas ao esporte e lazer.
A
história de sua criação teve vários protagonistas, foram muitos encontros
diplomáticos até a conclusão do projeto que vemos hoje. Em 1919, reuniram-se
para definir os limites fronteiriços os diplomatas chefes da Comissão Mista de
Limites, o uruguaio Virgílio Sampognaro e o brasileiro, ministro Mariscal
Botafogo. Em 1924, na cidade de Montevidéo, em uma reunião, os dois diplomatas
teriam acordado o projeto da praça comum aos dois países, determinando que no
centro dela estivesse um grande marco decorativo. Em 1925, os diplomatas reunidos
em Santana do Livramento, determinaram dar continuidade a construção deste espaço internacional.
Surgiu a ideia de um projeto de revitalização daquele espaço: uma praça
moderna, com arquitetura arrojada que servisse as duas comunidades,
acompanhando a urbanização da região Entretanto após várias negociações e
concepções arquitetônicas apresentadas, o projeto definitivo apareceu mais de
uma década depois, em maio de 1938, em Rivera. O projeto urbanístico atual
chegou pelas mãos do arquiteto riverense vinculado à Intendência, o maçon
Modesto Paez Seré, que buscava traduzir a unidade e irmandade cultural das cidades, inspirados em símbolos deliberadamente
maçons. O projeto estava em sintonia com os ideais dos governos uruguaio e
brasileiro no momento de sua criação, pois a praça foi “construída para dividir
e unir estas cidades”. Um projeto
gestado para marcar a história urbanística da região que posteriormente
serviria de modelo para outros países, pois se dedicava a acentuar a irmandade
entre os povos. [2]
Lembrando novamente que os espaços não são
inocentes, que tem interesses e memórias distintas, Fernando Aínsa alerta que
podemos descobrir “ consternados, que o triunfo de la ideologia intenta ser la
medida de la memoria seletiva que
controla y jerarquiza” [3] Assim
a Praça Internacional foi inaugurada em 26 de fevereiro de 1943, quando o mundo
ainda vivia os horrores da Segunda Guerra Mundial. O espaço comum, sugerido
pelo ministro Vigílio Sampognaro foi constituído para “todo él brasileño, todo
él uruguayo”, ou seja, livre de divisas entre os dois países em um mesmo
espaço. Assim, quando penetramos neste espaço, não estamos em um “lado
brasileiro” ou em um “lado uruguaio” estamos dentro dos dois países ao mesmo tempo. [4]
Por muito tempo a comunidade e turistas que visitaram e continuam visitando
a fronteira, levados muitas vezes, pelo senso comum divulgado pela publicidade
e mídia, tiveram essa imagem equivocada.
O
antigo Areial, transformado em um ambiente dotado de uma estética
contemporânea, obedecia a um impulso modernizador dos grandes centros urbanos,
ao mesmo tempo em que indicava ao mundo o exemplo ”de civilidade, fraternidade
e igualdade entre as nações”, conforme informavam artigos da época. Por outro
lado, convém aqui lembrar o cenário cultural daquele momento, determinando
expectativas em torno do conceito do novo, do moderno. A palavra se encontrava
impregnada no imaginário da sociedade brasileira em contraposição a tudo que
remetesse ao que era antigo, ou seja, em um passado recente. No momento que as
autoridades diplomáticas decidem-se pela construção do espaço, podem-se
verificar mudanças de hábitos e comportamentos nas comunidades: da emergência
do automóvel em substituição as antigas volantas, o calçamento das ruas centrais
em troca “das antigas ruas empoeiradas,” a abertura de novas e largas avenidas,
as lojas amplas e envidraçadas, enfim ocorre uma mudança de costumes. No
cenário brasileiro, portanto, o conceito de que o novo substitui o antigo, originou-se
nos primeiros anos da república brasileira através de ações dos governantes
militares positivistas impregnados com a filosofia de Augusto Conte. Ocorre um
remodelamento nos centros urbanos, apagando os vestígios da feição colonial nas
cidades. Na fronteira, a partir dos anos 40 aparecem discursos que se
constituem entre conflitos e diferenças culturais, reservando ao novo espaço o
símbolo da paz.
Em
minha visão, o imaginário da comunidade fronteiriça é impregnado por um
discurso unificador das nacionalidades que se constituem entre conflitos e
diferenças culturais estabelecidos pelos interesses dos governantes e imprensa
local. Na
fronteira, observa-se o empenho dos governos municipais em promover uma
campanha de revitalização dessa região comum às duas cidades. As primeiras
décadas do século XX haviam sido de crise econômica e social na região. É dada
a largada para algumas políticas direcionadas ao desenvolvimento do setor
turístico local. Observamos algumas leis riverenses instituídas na década de
1930:[5]
Ley de creación
de "ciudad de Turismo": 22 de diciembre de 1936. En 1938: primera
excursión "fonoeléctrica". Eran trenes donde se escuchaba música
durante el viaje, toda una novedad. En enero de 1941
se formó la Comisión de Fiestas y Turismo. En enero de 1942 se inaugura el Club
Uruguay. En agosto de 1942 el Casino. En febrero de 1943, inauguração do Parque
Internacional e a revitalização do comércio do Largo Internacional.
Em
Santana do Livramento, surgem várias salas de cinema, após a Segunda Guerra os
passeios tradicionais da população abandonam a Praça Gal. Osório e procuram às
ruas amplas da vizinha Rivera, A calle Sarandi com seu aspecto largo, arrojado,
cativa os jovens aos passeios dominicais a peatonal
e seus cafés, cinemas, lojas e novas lanchonetes. Nelson
Moreira observa em seu livro sobre a construção do passeio que a vida urbana fronteiriça nos anos 40 em nada
se assemelhava com a realidade dos anos 20 quando foi proposta a construção.
Embora o projeto do arquiteto Paes Seré fosse o mesmo aprovado em 1938, com
“leves modificações’, as cidades haviam se modificado, se urbanizado: “A população
flutuante se destacava na paisagem fronteiriça, a frequência de aeronaves e empresas
interdepartamentais de ônibus”, excursões fonoelétricas faziam crer que “ havia
uma fronteira pujante, em que já sobrava e molestava o Areal”[6]
Em
meados de 1941, finalmente, após anos de debates, reuniões diplomáticas e sete
ou oito projetos oficiais, emergem dos gabinetes a concepção arquitetônica que
temos atualmente. Infelizmente neste mesmo, faleceu o arquiteto mentor da Praça
Internacional. Contudo, em abril de 1942, após a assinatura da ata de
inauguração dos trabalhos pelos representantes oficiais dos presidentes da
república uruguaio e brasileiro, iniciaram as obras de construção do espaço. A remodelação acontecia também no entorno da
nova praça. Nas ruas centrais de Rivera, o reboliço estava na concretagem das
ruas centrais, no corte dos nostálgicos plátanos, tão estimados e cantados por
Olyntho Maria Simões e Agustin Bisio. “Desaparecia assim uma rua aldeã e em seu
lugar se abria uma rua ampla e concretada, com veredas novas e amplas. Em um
ano se apagou uma época, ainda que a novela postergasse a nostalgia por
bastante tempo” relatou Nelson Moreira. Havia consternação com os cortes dos
plátanos e o Areial, contudo as obras seguiram seu destino.
E
na manhã de sexta feira pré-carnavalesca, para celebração inesquecível na
história das cidades, inaugura-se a tão esperada Praça Internacional. Após
vinte anos de negociações e trâmites diplomáticos, uma multidão estava presente
para assistir o final desta partida. As
bandeiras de todos os países americanos dançavam enfileiradas ao vento. O
desfile tropas e de bandas militares, estudantes e instituições dos dois países
foi registrado por jornalistas de diversos lugares. As ausências dos
presidentes uruguaio, General. Arq. Alfredo Baldomir e brasileiro, Getúlio
Dornelles Vargas foi sentida e registrada nos diários e na memória da população
fronteiriça. Embora enviassem representantes oficiais, do lado oriental,
Ministro do Interior Hector Genoma, e brasileiro, Ministro do Trabalho,
Comércio, Justiça e Interior, Dr. Alexandre Marcondes Filho. Com convidados
oficiais, a viúva do arquiteto criador do projeto Sra. Páez Seré presente além
uma multidão de populares, muitos viajaram de cidades vizinhas, estava
inaugurada oficialmente a Praça Internacional.
A
construção de uma praça central, na divisa das duas cidades delimitando imaginariamente
duas nações foi sem dúvida, um elemento significativo dessa política. Nesse sentido, podemos estimar que os governos
buscassem a construção de um símbolo, um marco, uma identidade que
diferenciasse essa fronteira daquele cotidiano tumultuado da Segunda Guerra
Mundial instalada no continente europeu. Como sugeriu um escritor peruano, em
passagem pela fronteira, “justamente quando o mundo agitava-se diante desse
conflito, a região apresentava-se como um exemplar da "civilidade"
latino americano”.
Entretanto
é importante relembrar a importância do antigo Areial para as novas gerações. O
espaço esteve presente ao longo dos anos no cotidiano da comunidade
fronteiriça, que privilegiou o local como espaço genuíno do lazer. Do ancestral
descampado, chamado Areial, aos anos recentes da moderna Praça Internacional,
este espaço afirmou-se como um local político, cultural e econômico para as
cidades. Situado na linha de fronteira o
Parque vai se mostrar também um espaço de negociação, abrigando exilados e
fugitivos nas recentes ditaduras que abalaram Brasil e Uruguai.
Retrocedendo
algumas décadas, encontraremos outro espaço em um mesmo espaço. As cidades
viviam uma crise social e econômica, o Areial com frequência era referência de
esporte e lazer das comunidades. Na paisagem deste descampado “areial da
linha”, ou “tierra de nadie”, lugar baldio, irregular e de matagais, Improvam-se
atrações culturais como espetáculos de circos, cinema mudo, cavalhadas, canchas
de tênis, futebol e hockey. Havia ainda os chopes ruivos da cervejaria Gazapina,
vendidos nos Kiosques El Ribot e Biquita localizados na parte alta do areial,
na Avenida das Palmeiras (atual Largo Dr. Hugulino Andrade), que ajudava a
distrair a platéia.
O
Areial das décadas de 20 e 30 contrastava com seu vizinho, o Cine Theatro Cabaret
Internacional, um esplendoroso prédio, império da boemia, onde a roleta e o
pano verde serviam de pretexto para espetáculos luxuosos. Atrações internacionais
e muito champanhe, espetáculos artísticos e serviço de restaurante sofisticado. O luxo do Cabaré- Cassino impunha-se em contraste
com a escuridão daquele descampado Areial, que abrigava atrações circences e
ciganas para a maioria da população. Em muitas ocasiões o local também foi
palco de violência e mortes, ajuste de
contas entre capangas e contrabandistas. Segundo noticiou um jornal
santanense O Republicano, era
"lugar perigoso, esconderijo para bandidos". Portanto, longe de
constituir-se no atual espaço privilegiado do Parque, o Areial era considerado um
espaço público livre de qualquer valor moral ou mitificador. Em seus bons dias o
lugar tornou-se referência da diversão à comunidade. O memorialista Cirino,
reconstituiu seu espaço: “A linha era uma
zona de chácaras e potreiros, era mais uma estrada barrenta, em dias de chuva
do que propriamente uma rua para o pedestre transitar, o transito era a pé, em carros
ou carroças de tração animal; na cidade havia uns quatro automóveis de particulares
[...] revolucionários emigrados, entre os oficiais Siqueira Campos, Cordeiro
Campos, entre outros, estabeleceram-se como comerciantes em Rivera, e alguns
outros, menos afortunados, acamparam nas imediações do Cerro do Marco”.
Assim
como numa colcha de retalhos, os moradores dessa fronteira buscam rememorar sua
juventude através dos lugares que visitaram, das cenas pitorescas que viveram e
que preenchem o universo de suas recordações. O passado é vivenciado como outra
época, perseguido constantemente nas lembranças de outra cidade e seus espaços
perdidos na memória. Memória que também é
um espaço pantanoso e construído conforme nossas lembranças, erguido em
experiências pessoais onde muitas vezes certas vivencia são relevadas em função
de outras, essa é a construção da memoria.
O
barbeiro Humberto Bisso, que viveu intensamente estes dois espaços temporais, o
do Areial e do Parque Internacional sabiamente, costumava lembrar, que os dois
tinham muito em comum, pois se foram locais de disputa e violência, também ofereceram
muita diversão, para a população: “tu sabe, essa praça nova que está ai, veio
muito tempo depois do antigo Areial,¿” Divertia-se com os colegas ao ver a
passagem das moças que iam trabalhar no Cassino Internacional,” todas elegantes
de salto alto e caminhando e tropeçando no arenal” Pois não foi nela que ele
viu “caírem mortos operários comunistas do Armour em uma noite fria de primavera¿. Assim
como em 1956, emocionado viu passar na mesma vereda da praça, a comitiva de
boas vindas ao Presidente JK Jucelino Kubischeck, quando visitou a cidade em
seu centenário! O
Parque Praça Internacional é um espaço sentimental, cada um tem um parque
dentro de sua memória, que ao longo do tempo foi metamorfoseando-se em diversos
espaços da memória e sentimentos.
Se nos anos 1930, o Areal foi espaço dos
desmandos caudilhescos e de pistoleiros, trazendo notícias diárias nos jornais
que lembravam aos fronteiriços que aquele era um o espaço dominado pela
violência, a população também recorria a ele quando queria diversão seja pela
chegada de circos, as sessões no cinema mudo do gordo Ducos, quando havia
partida de futebol ou cavalhadas, afinal ali também encontrava-se o lazer,
comum as duas cidades.
Após
a inauguração do novo espaço internacional, entre meados dos anos 1940 e 1950,
a Praça moderna e ampla seduzirá outras gerações de famílias, que disfrutam o
lazer moderno, com seu entorno repleto de lanchonetes e restaurantes. Espaço para caminhadas, piqueniques, esporte,
fotografias e namoros. Espaço dos lambe-lambes que desde então, eternizaram nos
retratos sua população e a de turistas. Os passeios depois das sessões do
cinema e matinés dominicais. Mas também foi em suas calçadas, no novíssimo
Largo Internacional que ocorreu a chacina dos militantes comunistas mortos,
quatro homens que, nas palavras da poetisa Lila Ripol, “ousaram sonhar com um
mundo mais justo”!
Nos
domingos havia o encontro semanal dos imigrantes árabes libaneses e palestinos
aos pés do Obelisco, que ali conversavam na língua mãe, fechavam negócios e
tomavam chimarrão, apropriando-se de novos costumes. Na
década de 60 e 70, o lugar se estabelecerá como um Parque-espaço da
solidariedade e do exílio, lugar de passagem de perseguidos das ditaduras brasileira
e após, uruguaia. Em seus arbustos ocultaram-se documentos e armas dos
guerrilheiros. Por suas alamedas passearam jovens idealistas vindos de outras
regiões do país. Entretanto, a praça ainda é espaço de lazer, namoros,
fotografias, esportes, de encontros de presidentes militares que exibem sua
diplomacia e divulgam convenientemente a irmandade inscrita no marco obelisco.
Os anos 80 lembrarão de que o Parque ainda é espaço
lúdico de diversão, de lambe-lambes, da sociabilidade adolescente, dos
encontros fortuitos, de amantes, de prostituição. Contudo liga seu alerta
vermelho denunciando o início de sua descaraterização, com a chegada de trailers
gastronômicos e bancas de artesanato, aos poucos a economia informal vai se
aproximando até se estabelecer sem a devida fiscalização. A limpeza, os
cuidados de jardinagem e manutenção que desde sua inauguração foram dados às
administrações municipais iniciam seu lento processo de deterioração.
Estaria a
Praça moderna, retornando a ser aquele local esquecido lá no passado, uma
"terra de ninguém"? Entramos
nos anos 90, e nosso símbolo da irmandade, imóvel, não reconhece o
esplendor de poucas décadas passadas. O espaço será da prostituição, de shows
musicais e espaço de manifestações políticas, dos parques de diversões. A partir
dos anos 2000, a praça agoniza, pede socorro, o espaço é do abandono, Porém
ainda é apreciado para o desenvolvimento da cidadania com as manifestações políticas,
da diversidade, eventos culturais como a Feira do Livro Binacional. Também
abrigam festivais de ovino e vinho, cultos religiosos, festivais nativistas e
recentemente, gastronômicos. Ainda temos uma área concebida originalmente para
descanso e lazer? Antes da
criação do Parque, foi mais de vinte anos gerando um espaço monumento, que iria
perpetuar ao mundo os valores da irmandade, igualdade e fraternidade, um espaço
genuíno de lazer e descanso.[7]
Finalizo com as palavras para reflexão do poeta Getúlio Neves:
Deixem a
praça
para os
velhinhos e crianças que encontram no aconchego das bandeiras a segurança que
esperam e temos obrigação de dar lhes.
Deixem a
praça
Para o
sono dos cães sem dono, bêbados e mendigos.
Deixem a
praça
Para as
ciganas de saias coloridas, os retratistas de preto e aos realejos nostálgicos.
Deixem a
praça para o voo curto das pombas, ao João de barro que fez sua casa no lado
uruguaio com o barro do lado brasileiro.
Deixem a
praça
Para o
poeta que, a noite, retardatário, recolhendo seus passos diga:
Amo o silêncio
desta praça vazia [...]
É
madrugada, vem, talvez possamos
Percorrendo
de leve as alamedas
Ver a
garoa no seu ciciar de sedas
Tecendo-se
em resinas pelos ramos.
[...]
Deixem a nossa praça, para o beijo bilíngue dos namorados!
* Texto apresentado na Universidade Federal do Pampa - Unipampa, em 11 de outubro de 2017.
Liane
Chipollino Aseff é pesquisadora e Mestre Historia Cultural pela UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina.
[1] AÍNSA, Fernando. Espacios de la memória. Lugares y paisajes
de la cultur uruguaya. Montevideo: Trilce, 2008.
[2] Convém lembrar que o Itamaraty
lançou na ocasião um concurso para admissão do projeto, o arquiteto modernista
carioca Lúcio Costa enviou material para participação. Somente em 2011 seu
projeto foi descoberto e
levado
a público através da iniciativa do Cônsul Geral do Brasil em Rivera, embaixador
Vitor Candido Paim Gobato seu vice-cônsul, Cláudio Santana.
[3] AÍNSA,
Fernando. Idem, p.16. Importante também
observar nesse episódioda construção da praça que, “como toda la autoridad que domina el presente pretende determinar el
futuro y reordenar o passado. La legitimación de la orden estabelecido que esta
recuperación seletiva del passado, mas politica, que cientifica, aunque se
apoye em acontecimeientos reales, documentos fidedignos e interpretaciones
históricas”
[4] Grifos meus.
[5] Conforme informou gentilmente a
historiadora riverense Selva Chirico. Também consta no livro A história do
Parque Internacional, de Nelson Ferreira Moreira, p.17.
[6] MOREIRA, Nelson Ferreira, A história
do Parque Internacional. Rivera: Intendencia Departrtamental de Rivera, 2010,
p. 17. Grifos meus.
[7] Após 20 anos de relativo
abandono e o consequente soterramento dessa memória, mais uma vez o patrimônio
histórico e cultural da Praça é ameaçado por um projeto unilateral, entre as
prefeituras das cidades sem a participação da população fronteiriça, alijada das
decisões sobre seus espaços mais
expressivos e sentimentais.
quinta-feira, 22 de junho de 2017
Solidariedade, conflitos e traições no exílio: a última conversa
Por Pedro Dávila de Mello.
Com a morte de Roberto Fagundes, em Rivera, Ofélia caiu num
abismo de sentimentos. Primeiro veio a tristeza, depois, uma profunda depressão
jogou-a ao fundo do poço, e, por último, uma tentativa de suicídio. O amor
incondicional aos filhos Paulo e Aníbal, e o tratamento com psiquiatra
ajudaram-na a reerguer-se lentamente. Na verdade, tentou ficar bem durante mais
de quarenta anos, alternando as crises de tristeza com breves momentos de
euforia. Em todo esse tempo os filhos estiveram presentes dando-lhe apoio
emocional e financeiro. Na verdade, a dedicação à mãe foi tanta, que, impostos
pelas circunstancias, nalguns momentos chegaram a inverter os papéis de filhos
com os de pais. Condições estas que levaram os rapazes a uma exaustão física e
mental, contribuindo involuntariamente com a desestruturação familiar. Pensando
em melhorar a situação da mãe, resolveram hospedá-la numa casa de repouso.
Na tarde, antes da mudança, Ofélia Fagundes quis ter uma
conversa com seu filho mais velho. Para isso, chamou-o pelo telefone com
urgência. Em poucas horas ele já estava diante da mãe.
-- Fizeram muito bem em conseguir-me essa hospedagem, meu filho.
Começou dizendo-lhe assim que Paulo entrou na sala e a viu sentada na velha
poltrona.
-- A situação aqui em casa, com as empregadas, com a comida, com
tudo, estava ficando muito difícil. Estou velha e minha cabeça já não dá para
muitas questões. Penso que agora, na nova casa, possa descansar e conviver com
pessoas da mesma idade, aproveitando o tempo que me resta de vida.
O filho, atento e um pouco incomodado com a conversa, tentou
acomodar-se na outra poltrona a seu lado. Quando ia começar a justificar-se, a
mãe o interrompeu:
-- Não necessitas dizer-me nada. Tu e teu irmão fizeram muito
bem em conseguir-me esse asilo. Sabes que eu os amo e sempre amarei. Vocês
cuidaram-me com carinho e esmero durante todos esses anos, desde que o Roberto
faleceu, mas agora chegou a hora de descansarem um pouco.
-- Não estou entendendo, onde a senhora está querendo chegar?
--perguntou Paulo inquieto.
-- Fica tranquilo! Chamei-te porque tenho um assunto muito
importante para contar. – Ao dizer isso, olhou-o fixamente antes de continuar.
– Será a primeira e a última conversa sobre um tema que guardei a sete chaves
durante todos esses anos.
Sem dar-lhe tempo para qualquer pergunta, ela começou:
-- Eu já havia almoçado e estava prestes a sestear, quando
naquele dia de 1966 a campainha lá de casa soou. Ainda sonolenta abri a porta e
topei-me com três monges franciscanos em seus hábitos. O da frente perguntou-me
pelo teu pai. Surpresa e desconfiada, respondi-lhe que não sabia, pois ele
havia saído muito cedo de casa. Diante da negativa, despediram-se e, ao
retirarem-se, o do meio, que parecia ser o líder, apesar do capuz cobrir-lhe a
cabeça, fitou-me com ternura e esboçou um leve sorriso. Tive a sensação de
conhecê-lo, pois aqueles olhos, de certa forma, eram-me familiares. Assim que
partiram, pedi imediatamente para que o primo de vocês, Jacinto, que
casualmente estava na frente da casa, os seguisse, pois percebi algo de
estranho em seus comportamentos. Em uma hora ele retornou contando-me que os
três frades tinham ido até a Iglesia de la Inmaculada Concepción, e haviam
entrado pela porta dos fundos.
Prevendo que a história se alongaria, Paulo interrompeu o
relato.
-- Mãe, eu não estou entendendo nada. O que está acontecendo?
-- Silêncio. Não me interrompas. Essa história tenho-a guardada
no peito há muito tempo e necessito colocá-la para fora.
O tom quase áspero raramente fazia parte dos modos de sua mãe, o
que o deixou um pouco apreensivo, além de bastante curioso. Pausadamente, ela
continuou:
-- Naquele dia, o teu pai retornou tarde da noite. Eu mal podia
conter a vontade de perguntar-lhe a respeito de sua demora, quando ele
surpreendeu-me dizendo que esteve com uns monges, os mesmos que passaram em
nossa casa, e os levou em missão relâmpago até a cidade vizinha de Taquarembo.
“Até Taquarembo? Fazer o que lá?”, perguntei espantada.
“Eles estavam em missão secreta e tive que levá-los com
segurança”.
“Monges em missão secreta? Como assim?”
“Na verdade não eram bem monges. Estavam disfarçados de frades
e...”
“Fala homem, estou curiosa!”
“Estavam escoltando o Ernesto.”
“Quem é o Ernesto? E por que a escolta?”.
-- Antes de responder, teu pai deteve-se alguns segundos para
recobrar o ar. Ele estava visivelmente emocionado.
“Ernesto Guevara.”
“Quem? O Chê Guevara?”
“Sim, ele mesmo.”
“Isso são horas de zoares comigo?”
“Não estou brincando, querida. Um dos frades era o Chê. Veio em
missão secreta trazer o dinheiro que o Fidel mandou entregar aos líderes
brasileiros exilados em Taquarembo.”
-- Custei a acreditar no que o teu pai me contava. Achei que
poderia estar enganado, afinal de contas, por que mandariam o Chê a Rivera
cuidar pessoalmente de uma entrega? Além disso, era difícil crer que ele
tivesse batido à porta da nossa casa disfarçado de monge. Não, não, se teu pai
não estava enganado, então era algum tipo de brincadeira. Tratei de encará-lo,
e ele mirou-me com a ponta da sobrancelha erguida, uma reação que não deixava dúvida
sobre a seriedade do que me dizia. O nervosismo invadiu meu corpo. Tentei
extrair-lhe mais detalhes, mas foi em vão. Com muito respeito pediu-me para não
perguntar-lhe mais nada, pois era um segredo e, quanto menos eu soubesse,
melhor seria para todos. Fiquei quieta. Contudo, não me dando por vencida,
busquei informar-me com a esposa de outro camarada, dona Catalina, sobre o que
estava acontecendo. A muito custo, descobri que o Chê Guevara estava levando
quinhentos mil dólares, a fim de financiar o levante que estava sendo planejado
contra a ditadura recentemente instalada no Brasil.
-- Poderias explicar-me melhor, mamãe? -- perguntou o filho
boquiaberto.
-- Sim, para que possas entender com clareza, pois vocês eram
crianças naquela época, vou contar-te o que se sucedeu. Há um personagem muito
importante nesta história que se chama Leonel de Moura Brizola e que, em 1965,
no Uruguai, buscou unir os exilados com o propósito de organizar um levante
armado. Para tanto, tentou fazer um acordo entre os partidos de esquerda, o
famoso pacto de Montevidéu, com o PC do B, AP, PCB e o Partido Operário
Revolucionário Trotskista. Dessa união resultou a Frente Popular de Libertação,
cuja finalidade, como já te disse, era a retomada do poder por meio da luta
armada. A maioria dos integrantes era formada por ex-militares cassados das
Forças Armadas e da Brigada Militar do Rio Grande do Sul.
-- Nesse contexto que a senhora me conta, a esquerda Santanense
apoiou esse pacto? – Paulo a fitava com ansiedade. Era incrível, mas sua mãe
falava como se ainda mantivesse acesa a chama de civilidade e companheirismo
daqueles tempos.
Ofélia suspirou e, com os olhos vidrados no filho, pausadamente
continuou:
-- A esquerda de Sant´Ana do Livramento apoiou parcialmente.
Muitos comunistas da fronteira não aderiram ao pacto. Uma minoria que falava em
Marx, Hegel, Sêneca, reforma agrária, defesa dos oprimidos, paradoxalmente
vivia entrincheirada em suas fazendas, numa atitude clássica de comunistas
teóricos e de oligarcas feudais. Outros, mais cautelosos, calaram-se. Alguns
membros mais afoitos para uma resposta imediata ao golpe militar, entre eles o
teu pai, que defendiam uma postura coerente com os ideais pregados e até mesmo
o enfrentamento, caso necessário, discordavam dos discursos moderados que
outros proferiam, numa postura clara de passividade diante dos acontecimentos.
Posturas e atitudes essas que, segundo comentava-se à época, principalmente
entre os mais radicais, ficavam em descompasso entre as teorias que defendiam e
a vida que tinham. Eram comunistas de dia, mas à noite brindavam com champanhe
com os golpistas nos melhores clubes da cidade. Eram pontos de vista distintos
dos nossos que, a muito custo, aprendi a respeitar.
Paulo, cada vez mais impressionado com a eloquência da mãe, que
aos oitenta e tantos anos ainda demonstrava muita lucidez, perguntou-lhe se
queria beber algo. Ofélia respondeu-lhe que não, preferindo continuar a
história que estivera engasgada há muitos anos.
-- Devido a seu “nacionalismo anti-imperialista”, Brizola era o
líder cujas ideias mais se aproximavam das de Fidel Castro para a Revolução no
Brasil. E, após o golpe militar de 1964, o seu grupo no Uruguai obteve ajuda de
Cuba em treinamento de guerrilha e auxílio financeiro. Falava-se em mais de um
milhão de dólares. Comentava-se à época, que Fidel havia mandado no início
quinhentos mil dólares para ajudar. Desta importância, um terço teria ficado
com o Jango, pois a este estavam ligados vários exilados necessitados. Outra
parte, com Darcy Ribeiro para “segurança” e o último terço teria ficado com o
Brizola, que ficou aborrecido, tendo em vista ser pouca quantia, pois era o
único entre os três que estava tentando, de fato, montar um contra-ataque.
Importância essa que teria sido gasta, com pessoas no exílio, com os
companheiros no Brasil muito necessitados, com os presos políticos e com os
homens encarregados de fazer a comunicação entre os grupos arquitetando um
plano maior de combate armado.
A surpresa de Paulo só crescia. Parecia-lhe impossível unir
aquele corpo já deteriorado pelos anos ao discurso que ele ouvia, à altivez do
tom, à propriedade no emprego das palavras. Pensou em elogiar a mãe, mas quando
fez menção de abrir a boca, ela adiantou-se:
-- A primeira tentativa de restaurar o governo democrático
brasileiro partiu de Montevidéu. O coronel Jefferson Cardim Osório e mais dois
camaradas passaram por nossa casa, em Rivera, e teu pai participou
fornecendo-lhes armas e suporte logístico para entrarem no Brasil. Vocês eram
muito pequenos, talvez não lembrem em detalhes.
Na memória de Paulo imediatamente vieram-lhe as imagens dos três
homens que chegaram de jeep, no dia que ele e seu irmão jogavam bolinha de gude
na frente da sua casa e depois a lembrança horrível das fotos na revista dos
três homens torturados, que seu pai mostrara. O que a mãe lhe narrava, nesse
momento, era uma peça importante no mosaico de sua história familiar que ainda
restava ser preenchida.
-- De lá, eles foram até a cidade de Três Passos onde
arregimentaram, pelo caminho, alguns combatentes e tentaram tomar o quartel e
uma rádio local. A ideia era formar uma coluna, aos moldes da coluna Prestes e,
na medida em que fossem avançando, de quartelada em quartelada, iriam se juntar
no Mato Grosso com o grupo que viria da Bolívia, sob o comando do ex-coronel da
aeronáutica, Emanuel Nicoll. Mas essa tentativa foi frustrada depois da
emboscada feita pelas forças militares no interior do Paraná, onde caiu preso o
coronel Jefferson e outros companheiros. Suspeitava-se que haviam sido traídos.
E estavam certos. Mais tarde soubemos o nome do traidor.
-- Quem foi o traidor, mamãe? --perguntou Paulo com ar de
indignação e revolta.
Ofélia ficou com o nem do traidor na boca, mas optou por
cautela.
-- Com o tempo saberás quem foi, meu filho. – falou-lhe com ar
desolado. Mas o que tenho para te contar não acaba aqui -- continuou a mãe
diante do filho atônito. -- Tendo sido frustrada a primeira tentativa do
contragolpe revolucionário, os companheiros organizaram-se novamente e criaram
em 1966 o Movimento Nacionalista Revolucionário, para implantar mais um ataque
à ditadura militar, cujas ações seriam basicamente no meio rural, pegando
resquícios, talvez, das ligas campesinas implantadas por Francisco Julião anos
antes. Mas, para isso, necessitava-se de dinheiro, muito dinheiro. Fidel,
então, enviou a segunda remessa de quinhentos mil dólares, totalizando um
milhão em espécie, e quem levou pessoalmente essa quantia, disfarçado de monge,
foi o Ernesto Guevara, contou-me teu pai.
Para Paulo a história de sua mãe começava encaixar-se e fazer
sentido.
Ofélia calou-se e fitou o filho. Paulo viu na expressão suave da
mãe o quanto lhe aliviara contar esse segredo. Aproximou-se dela e passou-lhe o
braço por sobre os ombros. Finalmente comentou:
-- Então era esse o dinheiro que o “Chê” carregava disfarçado de
monge...?
-- Sim, era esse dinheiro, pertencente à segunda remessa dos
dólares enviados por Cuba, que o Ernesto carregava naquela tarde chuvosa em
nossa casa.
A novidade era bombástica. Paulo tinha certeza de que o episódio
narrado por sua mãe não fazia parte da história oficial. Acabara de ser
informado de um acontecimento ultrassecreto e, portanto, não sabia direito o
que fazer. Recompondo-se, perguntou impressionado:
-- Quanto dinheiro, mamãe? Ele foi todo gasto nesses movimentos?
Ofélia parou para pensar na resposta e, após alguns segundos,
continuou com muita cautela.
-- Eu nunca soube ao certo sobre o destino total desses dólares,
meu filho. Alguns comentaram que parte deles foi usado com treinamentos de
combatentes e na alimentação de algumas famílias, pois tinham que sobreviver no
exílio; o que é sensato. Outras pessoas disseram que o grosso dos dólares teve
paradeiro desconhecido, e que isso teria causado um desconforto abissal entre Fidel
e os líderes revolucionários brasileiros, já que estes nunca teriam prestado
conta de seu destino e tampouco mostraram os resultados esperados pelos
cubanos.
-- Mamãe o que a senhora está me contando é muito sério. Há
provas disso?
-- Não, meu filho. Não há provas.
-- Tiveram algumas casualidades que deixaram a muitos exilados
necessitados desconfiados. Algumas fazendas foram compradas no Uruguai nessa
época, mas deverão ter sido heranças de família. Esses rumores geraram brigas,
cizânias e descontrole. Mas isso não tenho certeza e tampouco conhecimento
suficiente para opinar. Se o teu pai ou o Chê estivessem vivos, poderiam contar
mais detalhes sobre o ocorrido, mas, como bem sabes, alguns meses depois
mataram-no no combate do Cerro Chato, deixando-nos em profundas dificuldades
financeiras, e o Guevara foi assassinado na Bolívia.
A maioria dos exilados que teu pai ajudou, seguiram seus
caminhos e não apareceram mais. Enquanto teu pai vivia, éramos uteis. Depois
sumiram sem deixar rastro. Poucos nos ajudaram e nos ajudam até hoje.
-- Sim, mamãe é verdade... A família que veio de São Borja são
nossos amigos até hoje. E a eles somos eternamente gratos. Quando mais
necessitamos, marcam presença e marcam até hoje.
-- Sim, meu filho é verdade. A estes somos gratos. Mas por
incrível que pareça, quem, de fato, nos estendeu a mão quando mais necessitamos
foram a nossa família e alguns vizinhos, colorados, blancos e apolíticos.
-- Mas, mãe e os dólares cubanos? Era muito dinheiro? Onde foram
parar?
A verdade sobre o destino desses dólares eu nunca soube.
Ofélia segurou então a mão do filho, estreitando o abraço que
ele, antes havia apenas insinuado ao passar-lhe o braço pelos ombros. Deu um
suspiro profundo e longo, sorriu e, por fim, disse:
-- A verdadeira solidariedade não tem lado, nem esquerda nem
direita, nem tendências políticas. Está no ser humano independentemente de
raça, credo, cor e posição econômica.
Amanhã cedo estarei esperando-te com as malas prontas.
Fim
( Dedico este conto, quase crônica, aos nossos pais, Romeu
Figueiredo de Mello, que hoje estaria completando 96 anos de vida e Orides
D´Avila de Mello, de cujas histórias passadas no exílio, tais como
solidariedade, conflitos e traições, “inspiraram-me” esta " ficção".)
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