quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Há 70 anos da chacina do Parque Internacional

 

*por Marlon Aseff

A noite de 24 de setembro de 1950 ficaria marcada na história da fronteira de Santana do Livramento e Rivera devido ao assassinato de quatro militantes comunistas, reunidos em frente ao Parque Internacional, na linha divisória que separa Brasil e Uruguai. O ato, de panfletagem e pichação, seria de afronta ao governo Dutra, de apoio aos candidatos apoiados pelos comunistas às eleições que se avizinhavam, de rechaço ao fascismo e contra o imperialismo, reforçando o teor da linha adotada pelo Partido Comunista Brasileiro, especialmente após o Manifesto de Agosto. Conhecido posteriormente como a chacina dos quatro As – o nome dos mortos iniciavam todos sob a letra A (Aladim Rosales, Ary Kulmann, Aristides Ferrão Corrêa Leite e Abdias da Rocha), o crime teve a participação ativa de policiais, pistoleiros e representantes de latifundiários, que faziam parte do grupo que chegou atirando, conforme a versão dos comunistas. À frente do bando agressor estavam o comandante da Brigada Militar em Santana do Livramento, Eleú Gomes da Silva; o comandante do Exército, Ciro de Abreu, o delegado da polícia civil, Miguel Zacarias, o advogado Mário Cunha e o inspetor de polícia Ário Castilhos, entre outros. [1] Ao final de menos de 15 minutos de confronto, jaziam os corpos dos quatro militantes assassinados, e um saldo de pelo menos mais oito feridos, entre eles o secretário do partido, Lúcio Soares Neto. 

A primeira investigação consistente sobre a chacina surgiu em 2006, através da dissertação de mestrado da historiadora Liane Chipollino Aseff.[2] A pesquisadora enfoca especialmente a vida cultural na fronteira de Santana do Livramento e Rivera entre as décadas de 1930 e 1960, e embora não fosse seu objetivo inicial, registra o crime do Parque Internacional como uma marca da violência que imperava no ambiente político de Santana, onde desde o início do século não era incomum a pistolagem, a mando de políticos e grandes proprietários de terras. Talvez o grande mérito da abordagem seja a construção dessa fronteira ao mesmo tempo envolta em jogos, cabarés e uma vida noturna repleta de atrações, contrastando com um setor subalterno da população, trabalhadores da fábrica ou dos campos, dependentes dos grandes mandatários, fossem fazendeiros, comerciantes ou políticos. Uma fronteira caracterizada como excludente àqueles que não possuíam poder ou riqueza, surge em depoimentos orais que assinalam por primeira vez o protagonismo de personagens que iriam ser abordados nas pesquisas seguintes. Conforme veremos, as causas do confronto recaem ora para a irresponsabilidade da direção do partido, que teria instado o ato, mesmo sob o clima aberto de conflito com as forças policiais e econômicas da cidade, ora a uma cilada armada deliberadamente por setores ligados ao Frigorífico, composta por forças policiais e pistoleiros.

O ex-operário do Frigorífico Armour, Hugo Nequesauert, fez questão de absolver a direção do partido em Santana, afirmando ter presenciado o telefonema em que Lúcio Soares Neto é instado a levar à frente o ato político pela direção do comitê estadual do PCB, então na clandestinidade. 

Em 1950, quando aconteceu a chacina eu não estava mais no Armour. Já tinha sido botado para a rua, por causa da greve que fizemos.  Havian sindicalistas,  casi  todos, mas era el partido que estava determinando os acontecimentos. Era época de eleição,  se supo que la policía ia tomar  represálias, e se consultó a Porto Alegre e yo era uno, solo yo,  que estava com Lúcio quando recibió ordenes de que podian hacer pichamento legalmente, que estava todo determinado de que no ia passar nada. Entonces aí se resolvió hacer, se convoco a la gente toda e se fez, se começo a pichar, quando vê, somos surpreendidos pela polícia. E chegou atirando, insultando e atirando e matando. E matou quatro!  Havia 15 o 17  personas quando mucho, no havia más...Unos dirigian el trabajo e otros executavan el trabajo. Estavam completamente desprevenidos, a arma deles era o pincel e a cal. [3]

Embora Hugo reforce a ideia de que o grupo estava desprevenido, relata a existência de uma retaguarda armada, que ficou encarregada da segurança. O iminente enfrentamento com a polícia e as forças mais conservadoras da cidade é usualmente relegado a um plano secundário, talvez para abrandar a responsabilidade pelo confronto que poderia ser imputado aos líderes comunistas, especialmente a Lúcio Soares Neto, que dirigia o ato. De fato, entre militantes comunistas remanescentes, como Jorge Ferrão, há uma velada culpabilidade a direção do partido pela atitude extrema do ato em frente ao parque, pois já existiria uma advertência, do chefe de polícia, de que não seriam toleradas manifestações do grupo comunista a uma semana das eleições. Lúcio ficaria com a imagem desgastada perante uma parte dos militantes, como Ferrão, que levantaram a versão de que ele próprio teria buscado abrigo atrás de um dos militantes, morto pela polícia, conforme versão que correu especialmente quando do julgamento dos envolvidos na chacina. Posteriormente, como veremos, foi descartada essa hipótese, embora persistam ainda hoje nos relatos orais uma reprimenda a atitude do secretário do partido, que por muito pouco escapou de ser morto no combate. Uma versão recorrente em outras narrativas[4], culpabiliza o delegado Miguel Zacarias de promover o confronto devido ao fato de estar disputando uma mesma mulher com Lúcio, hipótese passional que se demonstraria inverossímil, ao tentar isentar, ao menos sob essa alegação, o líder comunista das consequências de promover o ato ou não perceber que jogava os militantes em um enfrentamento aberto e previamente anunciado. Pouco antes do confronto, a escassos metros do local, em solo uruguaio, o pecuarista e militante Perseverando Santana e seu tio, Sona Santana, acompanhavam os preparativos de um pirão de cola, que seria usado para afixar cartazes nos tapumes que protegiam a obra do edifício Palácio do Comércio, ponto comercial que estava sendo construído bem em frente ao parque. Estavam no restaurante Doña Maria, de propriedade de Ari Kulmann, que seria assassinado logo em seguida. Conforme depoimento de Perseverando Santana, o clima de enfrentamento era de conhecimento de todos. Talvez por isso tenha se posicionado contra o ato, muito embora vencido pela direção local.

(...) sentados em uma das mesas do restaurante Doña Maria, Persevarando, Sona e Ari Kulmann, que não estava escalado para a pixação, conversavam e aguardavam. Perseverando lembra que, em meio a um ambiente tenso, o companheiro Ari disse: "Tchê, vocês não tem um revólver? Sim, porque hoje vai se dar alguma coisa". Kullman decidiu então participar das pixações e “tomou” o pincel de Magalhães, que estava já preparado para o serviço. Na praça estavam escalados para dar segurança ao grupo os companheiros  Holmos, Lucio Soares Neto, Hugo Nequesauert, Doralino Trindade, Pedro Perez, Santos Rodrigues e Amaro Gusmão.[5]

Entre os militantes da linha de frente, dois candidatos às eleições que se avizinhavam encabeçavam o ato: o vereador Solon Pereira Neto, ex pessedista convertido à causa comunista, jornalista incendiário e par de Lúcio Soares Neto nas causas operárias defendidas na Câmara Municipal, candidato a deputado estadual pelo Partido Republicano; e Aladim Rosales, reconhecido líder dos trabalhadores do frigorífico, demitido na greve do ano anterior, candidato a deputado federal. A versão de Perseverando Santana remete ao local do crime, por voltas das 22h. Conforme ele, o primeiro a ser baleado pelos policiais, que teriam chegado insultando e provocando o conflito foi Ari Kulmann.  Hélio Santana Alves levou um tiro nas nádegas. Aristides Corrêa foi baleado no peito. Santos Rodrigues também baleado, nas pernas, sobreviveu. Abdias foi atingido na boca e caiu mortalmente ferido dentro do Café Tupinambá, tradicional cafeteria localizada no Largo, exatamente em frente à calçada onde se deu o conflito. Aladim Rosales também morreria no local, com um tiro à queima roupa. Ari Kulmann ainda seria levado ao hospital, mas não resistiria. Finalmente, entre o grupo comunista, Lúcio Soares Neto escaparia ferido por entre o Parque, buscando refúgio na casa de Francisco Cabeda, localizada a poucos metros do conflito, no “lado uruguaio” da linha divisória.

Perseverando Santana rememorou, 64 anos depois dos acontecimentos, o contexto em que se deu o crime, afastando o partido de alguma responsabilidade pelas ações de confronto aberto, mas reforçando nas entrelinhas a culpabilidade de setores mais conservadores da cidade, especialmente os ruralistas e a direção do frigorífico, que não aceitavam os desdobramentos da organização dos trabalhadores, especialmente após a greve do ano anterior.

O partido foi cassado em 1947, depois cassaram os representantes do partido em 1948, entraram na clandestinidade partidária, então se usava as legendas de outro partido. Partido Socialista, Partido Republicano, e quando se aproximavama as eleições para presidente da república e o governo do estado,  em 1950,  lançamos pelo Partido Republicano o Solon Pereira Neto. Mas anterior a isso, a greve de 1949 no Armour teve grande repercussão, e os dirigentes dessa greve foram presos e até o Exército os levou para o quartel, o que não podia, e depois soltaram. Daí formou-se um clima muito grande sobre a atuação do partido, e o Armour tinha um poder muito grande, econômico, onde 50% dos impostos da cidade eram do Armour. E houve uma reunião na casa do Lúcio Soares Neto, que era o secretário naquela época, e de lá do comitê estadual veio a ordem, pode pintar que é legal. E era legal mesmo, era o Partido Republicano...Mas a polícia sabia que era o partido....ora...e tinha algumas opiniões, tava o Mário (Santana), e outros, inclusive parece que o Heron (Canabarro) também, que achavam que era provocar a polícia, que havia perigo. [6]

Hugo Nequesauert narrou sua versão do conflito, desabonando o clima de enfrentamento aberto que existia como consenso entre os militantes momentos antes do embate. Preferiu enfatizar uma situação de emboscada e legítima defesa.

Nós estávamos tranquilos, os três num acento no Parque, eu estava no meio, o Lúcio no lado uruguaio, mas no Brasil, e o Amaro (Gusmão) no lado de Santana. Todos aí tranquilos, e numa dessas o Lucio me diz, que é isso? Mas que é isso, barbaridade! E eu não entendia, até que me olhei para os lado e me dei conta e vi aquele grupo tremendo de gente, todos armados, bancando o valente, alguns com o chapéu bem requintado, pra frente, dispostos a brigar. E insultando. Comiunistas filhos deste, comunistas filhos daquilo..de tudo que é maldade diziam. E eu digo, são eles! E o Lúcio me diz, mas eles quem? E digo, eles, a polícia hombre (risos). Aí ele entendeu, se levantou, puxou o revólver, e marchou pela calçada. Eu fiquei no mesmo lugar, mas na calçada, onde eles iam passar. E “ansim” foi. O Lúcio se pegou a tiro com um policia lá adiante. Eu não vi nada disso, absolutamente nada dessa parte. Mas chegou a minha. Porque seguiram invadindo. Chegou a minha. E eu já estou atirando na montoeira, tirando vantagem. E não importa em quem pegue, que pegue em qualquer um deles tá bem pegado. Mas se terminaram as balas rápido, eram seis balitas. E eu tinha mais no bolso, porque eu sempre usava mais. Carreguei. Mas quando eu tô carregando o revólver dô uma olhada não?, porque tem que estar olhando. E o Solon vem com um boletim do pichamento, insultando a um polícia. Chamando de facista, disso e de aquilo, de corrupto, de todo lo que cabe. E eu baixei a cabeça pra carregar de novo. Porque cambiei de idéia. Digo, vou atrás do Solon...vão matar. Bem essas foram as minhas palavras. Termino de carregar, e olho e o Solon tá caído. Derrubaram ele à bala. Então eu cambiei de rumbo, eu ia prum lado, e resolvi passar a rua e acudir o Solon, que tava morrendo ou baleado, pelo menos tava caído...e atravessei a rua no meio das bala, brigando. [7]

Perseverando reforça o caráter arbitrário da ação e a prisão ilegal de Solon. Prefere retirar a responsabilidade de Lúcio Soares Neto pelo ato. Tampouco faz uma autocrítica sobre o rumo de radicalização extrema pela qual passava o partido naquele momento. 

O Solon ali tava fazendo propaganda. Não tava armado. Se ele tivesse armado....  tava fazendo propaganda como candidato. E quando veio a polícia, que esparramou, ele com um maço de jornais disse, vocês não respeitam, fascistas... e tal, como ele era,  temperamental bárbaro, o Solon. Ali ele recebeu uma pancada na cabeça e caiu... e quando vinha o policial para dar um tiro, qualquer coisa, o Hugo Nequesauert me disse, deu o tiro e feriu na perna, o Caetano. Compreendeu? E levantaram, o Solon foi preso. E colocaram ele no presídio. Ele era vereador. Mas sem partido, porque ele aderiu ao partido comunista... que foi outro erro. Como o Santos disse, ele não tinha que sair do partido, o PSD, ele tinha que ficar lá dentro. Mas, naquele sectarismo.[8]

Hugo não relata o suposto tiro no soldado Caetano. A partir do momento em que narra o momento no qual acode Solon,  leva o depoimento para a ocasião em que estaria no Parque, em meio a uma possível fuga, quando se encontra com o advogado Mário Cunha.

Me paro aí perto do Solon, e olho para a esquina de lá, e por lá só pode vim ... bem pela linha, tem um parquezinho ali que é metade Brasil, metade Uruguai, na mesma rua. E apareceu aquele homem grande gritando, em manga de camisa...(imita grunhidos de gritos), aqueles grito fantástico...reconheci...e chegou e me viu. E eu tô me retirando, dale... que que ia fazer.  E me apontou. E aí eu reconheço que era o Mário Cunha, e digo, vai me atirar...e não demorou nada, chegou perto, mas perto não?, relativamente cinco ou seis metros. E me começou a atirar. Mas mal, atirava. Eu notava, ele me apontava...eu tô aí, ele apontava aqui. E me olhava e atirava como se fosse em mim. Errado todo. Então eu calmei. Esperei que tirasse seis tiro. Quando ele tirou seis tiro eu avancei nele. Teria duas três bala ao máximo, capaz que no tuviera. Avancei nele para dar bem de pertinho, porque já nem sabia bem quantas bala tenia. E nos juntamos como el grando lua (?)  (risos), e quando ele viu o revólver, pequeno, 31, quando ele viu ele fez isso... com os braços levantou e me deu as costas...e eu ia dá-lhe igual, que cosa....(risos) e se desesperou, gritou...e o negro Ventura me grita do auto, não mate o homem seu, não mate. E eu vi que era a voz de um companheiro, grande companheiro, e obedeci.[9]

Assim como nos momentos decisivos que deflagraram a greve de 1949 no frigorífico, o ano de 1950 e especialmente os meses que antecederam a chacina ficariam marcados pelo tom das críticas comunistas sobre a ação deletéria do imperialismo, com os frigoríficos estrangeiros estabelecendo verdadeiro terror sobre a economia nacional.  O aumento crescente do preço da carne e a escassez do produto no mercado nacional, ofertado de maneira precária e de má qualidade, denunciava o jornal Voz Operária, estaria diretamente atrelado à ação nefasta dos grandes frigoríficos, que penalizavam os pequenos produtores e destinavam o melhor da produção a um esforço de guerra norte-americano na Coréia e a outros países sob ditaduras.

 

*Este texto é uma versão reduzida e adaptada de parte de um capítulo da tese de doutorado defendida na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, intitulada “No portão da fábrica -  trabalho e militância política na fronteira (1945-1954)”.

*foto: Ruínas do Frigorífico Armour em Santana do Livramento

 



[1] Depoimento de Perseverando Santana concedido a Marlon Aseff em 22 de janeiro de 2012. Santana do Livramento.

[2] CHIPOLLINO ASEFF, Liane. Op.Cit. Pgs. 164-175.

[3] Hugo Nequesauert. Entrevista a Marlon Aseff em 23 de agosto de 2011, Santana do Livramento.

[4] VARGAS DE SOUSA. Oneider. As lutas operárias na fronteira: a chacina dos quatro “As” (Livramento – RS/1950). Dissertação de Mestrado. UFSM. 2014.

[5] ASEFF. Marlon. Retratos do exílio: experiências, solidariedade e militância política de esquerda na fronteira Livramento/Rivera (1964-1974). Dissertação de Mestrado. UFSC. 2008.Pg

[6] Perseverando Santana. Depoimento ao autor em Conversas com Perseverando, documentário, 2013.

[7] Hugo Nequesauert. Depoimento ao autor em Conversas com Perseverando, documentário, 2013.

[8] Perseverando Santana. Depoimento citado.

[9] Hugo Nequesauert. Depoimento citado.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020



A poesia palestina de  Mahmud Darwich e Mohamad El Hanini 




 

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

segunda-feira, 18 de março de 2019

A destruição total do perdedor

por André Lobão 


A visita oficial aos EUA do presidente do Brasil passa a sensação de capitulação e derrota ao Brasil. Perdemos uma guerra sem que tivessem ocorrido tiros, deslocamento de infantarias e bombardeios aéreos. Foi um exemplo prático da chamada Guerra Híbrida, uma tática que aplica política, mentiras e outros métodos de influência comunicacional em que se produz desconstrução de reputações, perseguições (lawfare) e intervenção eleitoral externa.
Em três anos o Brasil está sendo desmontado, privatizado, e, principalmente, humilhado. Para os conquistadores a práxis é humilhar os inimigos vencidos, seja pela destruição da estima deste povo com ações que vão desde a barbárie contra mulheres, talvez isso possa explicar o alto índice de feminicídios que ocorrem atualmente no Brasil; retirada de direitos trabalhistas e previdenciários; perda de nossas riquezas como o petróleo; a base aeroespacial de Alcântara/MA; destruição da cultura e educação e desmonte de tudo que o perdedor tenha deixado como legado.

Assim foi feito na Alemanha do pós-guerra, Iraque com a ocupação americana, Síria com grupos como o Estado Islâmico e na Palestina sob a implacável ditadura de Israel. Mas aqui tudo foi diferente, aconteceu e acontece em doses homeopáticas, de forma que seja absorvido e encarado pelo povo como “mudança” e na base da resiliência, com a mídia fazendo claramente isso. Em banquete com seus gurus políticos da extrema direita americana Bolsonaro disse que é preciso “desconstruir muitas coisas no Brasil para construir outras”. Essa é a exata e triste realidade que estamos no Brasil sendo submetidos. Pagamos o preço da derrota de uma guerra.

domingo, 5 de agosto de 2018

Antonio Apoitia, o militante imprescindível


A sessão plenária da Câmara de Vereadores do dia 9 de junho de 1969 ficaria marcada na história de Santana e especialmente do advogado Antônio Apoitia Neto como um acerto de contas com a ditadura militar. O Ato Institucional Nº 5 havia decretado o fechamento do Congresso Nacional e o recesso das assembleias legislativas estaduais e câmaras municipais, entre inúmeros outros gestos de arbítrio, como fim do habeas corpus e instauração de censura prévia nos meios de comunicação. Nesse ambiente de extrema tensão, Apoitia iria fazer ouvir sua voz pela última vez no parlamento municipal. Único vereador santanense cassado pelo ato ditatorial, o advogado criminalista, recentemente falecido, fazia parte de um conhecido grupo de combatentes políticos marcados pela resistência ao golpe. Segundo vereador mais votado para a legislatura 1969/1972, egresso das fileiras comunistas, assumia a vereança em uma bancada majoritária do MDB, que não poupava críticas ao recém-empossado interventor municipal, o general Antônio Moreira Borges.

Na sessão de posse do interventor santanense, Apoitia já tinha ousado quebrar o protocolo e tomar a palavra, afirmando com ênfase suas posições nacionalistas, que batiam de frente com as diretrizes da “revolução”.  Selando definitivamente sua sorte, pediu a palavra e falou diretamente ao interventor, investido pelos votos que recebera. “Continuo mais nacionalista do que antes, porque quero ver a pátria brasileira livre da espoliação dos grupos econômicos norte-americanos que espoliam não só a nossa Pátria mas a toda a América Latina, todo o terceiro mundo”.  Mais do que suas posições contrárias ao AI5, Antonio Apoitia já estava “marcado na paleta”, como diz o linguajar gaúcho, devido a sua conhecida militância no sindicato dos bancários de Porto Alegre e a intensa colaboração no trânsito de exilados pela fronteira, nos anos que se seguiram ao golpe.

"O Apoitia era conhecido como a voz das ruas, porque ficava dias escondido em um sótão que existia no sindicato, à salvo da repressão, convocando os companheiros por um sistema de alto-falantes colocado nas esquinas", lembra o companheiro de sindicato e ex-governador do Rio Grande do Sul, Olivio Dutra. Devido a militância, em novembro de 1964 foi sequestrado pelo Dops gaúcho e permaneceu encarcerado durante 30 dias na penitenciária estadual, sem saber se dali sairia vivo. Após o intenso período de tortura psicológica, vivendo em condições sub-humanas, foi libertado e voltou para fronteira, onde perfilou-se na ala dissidente do PCB, que buscava uma reação armada ao golpe. Com o aprofundamento da repressão passou a trabalhar nos bastidores, vivendo em Rivera, fazendo a vez de “pombo correio”, sempre que fosse preciso. Amaury Silva, Cláudio Braga, Leonel Brizola e o presidente deposto, João Goulart, faziam parte da rede de exilados auxiliados por Apoitia.  Eu tinha um amigo na policia de Rivera, e entrava no Uruguai com uma identidade falsa, onde eu tinha o nome de Antonio Almafuerte, que foi inspirado em um poeta argentino”, costumava lembrar. 

Atuando junto ao advogado uruguaio Adán Fajardo, Apoitia iria conviver intensamente com o colega e exilado político Tarso Genro, que recentemente lembrou do amigo como uma pessoa “imprescindível”  e “militante político de primeiro nível”.
Oriundo de uma família de raízes anarquistas e comunistas, Apoitia foi resgatado – aos dois anos de idade - de um incêndio, que consumiu a panificadora de seus pais, na atual esquina das ruas General Câmara e Hugolino Andrade. Herdeiro de uma tradição libertária, o advogado iria atravessar os anos de repressão com um prestígio intocado, coroado pela eleição a vice-prefeito na chapa do radialista Oriovaldo Greceller em novembro de 1985. Exemplo para toda uma nova geração de políticos da fronteira, Antonio Apoitia abdicou até mesmo da vida pessoal para dedicar-se a luta política e a solidariedade.

Texto e foto: Marlon Aseff

publicado originalmente na terceira edição de Almanaque Santanense

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Luana Mockffa: Confissões de um coração em transe


Luana Mockffa é cantora brasilis. Luana vive em Floripa. Luana é musa do dream pop. Luana transita em um país afogado na mediocridade dos homens de gravata. Luana acaba de lançar um single que está causando e prepara novidades. Luana bateu um papo com Jogos da Memória sobre seu processo criativo, seus singles, e de como é viver em um pedacinho de terra perdido no mar...  

Como é ser artista no nosso convívio ?
Minha família nunca me levou a sério, inclusive na música. Nunca foram nos meus shows, nunca deram bola para ouvir minhas músicas, os vídeos, nada. Mas desta vez eles pararam...acho que foi o vídeo do Vernizzi, e da música ser mais pop, eles levaram a sério... do tipo “uau, nem parece que foi você que fez”. E a partir disso meu pai tem me dado alguma sugestão de apoio no sentido financeiro...ou seja, toda uma logística que envolve uma certa grana, e tá sendo positivo isso.

Mas já tinha lançado o primeiro EP ?
Sim, mas o primeiro EP foi bem atrapalhado, eu tinha 24 pra 25 anos. Foi em 2013 que começamos a gravar e lançado em 2014. Tinha cinco faixas, sendo que em duas delas eu não fiquei satisfeita, mas vou relançar. Chamava-se Algia, que é um sufixo de dor....como fibromialgia.... A música já transitava pelo Dream Pop. Tem uma versão de Manhã de Carnaval, uma bossa nova do Luiz Bonfá, de 1953...por aí. Mas no EP não faz alusão alguma a bossa nova, é um arranjo de milonga, com uma distorção à la Bang Bang, da Nancy Sinatra. E isso dentro do meu mundo não precisa de significado, ou que referencie um rótulo para minha música...preciso é que se materialize. É uma música de sintetizadores, mas a guitarra é guitarra. Tem clarinete, no timbre, e funciona muito bem. Na época, eu tava numa pira de entoações tribais, de cantos meio xamânicos, então tem umas segundas vozes que lembram isso. Tem outra faixa que se chama Mount of Sugar, que eu me inspirei na obra Revolução dos Bixos. Na versão em inglês tem uma fábula que os bixos contam para os outros bixos, que tem um lugar que se chama mount of sugar. Lembro que eu relacionei a morte, mas uma boa morte...na época eu tava tão niilista que eu pensei, bom, esse lugar não existe...

O EP tem uma mensagem ou algo que o identifica com esse momento?
Tem algo central, que é o processo de dor que eu estava sentindo fisicamente enquanto eu fazia ele. Por isso que se chama algia. Eu ainda não sabia lidar com a quantidade de remédios, e fazer o meu timbre ficar... eu perdi o controle da minha voz, porque na época eu estava tentando me acostumar ainda a falar e ter reflexos de novo, são muitos remédios...

E o single Eu vou fugir pro Rio de Janeiro, como dá para definir, os beats ...
Beats são bases musicais onde tem tudo. Tem bateria, órgão, tudo o que você quiser pode ter num beat. Originalmente era só batida, mas os beats foram evoluindo tanto que as batidas foram ficando sofisticadas, os softwares foram ficando sofisticados, e hoje você consegue fazer uma música inteira a partir de um beat. Então, mesmo que tenha hip hop, rap, ali naquelas batidas, é um beat não feito para isso... porque eu misturo com elementos bem pops. Eu tava numa fase de ouvir muito rap nacional e muito pop nacional e internacional. Então misturou tudo. Por isso esse trabalho tem mais lucidez. No Algia eu tava muito dopada, e eu não tinha o controle das coisas, tudo foi feito meio que às xongas, assim (risos). Só que agora eu sei o que eu quero, eu sento do lado do Yraq, que é meu produtor, e falo o que eu penso. Somos co-compositores.
Quais foram suas influencias para esse trabalho que sucedeu o Algia?
De rap tem Menestral, Froid, Rincón Sapiencia, Criolo, Djonga.... é uma galera underground, que faz seu sucesso. Mas eu vou na vanguarda do pop também. Porque o que me cativa no pop é a produção. Quando entra o clap, em que parte faz a transição para o kick, como se trabalha os graves, médios  e agudos...Na verdade eu até desconstruo o pop, mas eu ouço um pop de bastante qualidade, como a Sia, Pharrell Williams, Drake, The Weekend, Beyoncé, esse tipo de pop. Então fazem parte de uma pesquisa que pode até não ter método algum, porque se trata de ouvir o que eu quero, e que naturalmente vira um híbrido. Ah, e o Tim Bernardes, que faz uma espécie de MPB de vanguarda, e Mac Demarco, que faz um som bem easy...tem o Devendra também, que é o gênio da mistureba.

Eu vou fugir pro Rio de Janeiro nasceu dessa mistura?
Sim, a música fala dessa cantora que quer fugir pro Rio, e prospecta seus sonhos e entoa um mantra, tipo vai dar certo! Totalmente autobiográfico, na primeira pessoa, sou eu mesmo. E desde que eu comecei a assistir Branca de Neve com a minha filha, a Maria Clara, eu me apaixonei por uma melodia do filme, da versão em português, que diz um dia, um dia eu serei feliz... mas a letra é super passiva, de uma mulher que fica esperando um homem, que depois beija ela, salva ela...Então eu uso só a primeira frase original, mas depois coloco minha letra como uma resposta para ela. Fiz uma releitura, uma versão em recorte, misturado com todo o resto... No começo eu queria colocar o início da música da Branca de Neve, e em paralelo eu tinha o refrão do vou fugir....aí o Yraq me mostrou um beat que já era próximo de como ficou o original. Comecei com Branca de Neve, mas toda vez que ia cantar eu saía do tom, aí eu resolvi fazer um teste, que era encaixar o refrão e ficou perfeito, no sentido de dois pedaços darem muito certo. Aí foi a produção do beat, onde o mérito é todo do Yraq.

O clipe também foi um ponto alto do trabalho.
O clipe é o seguinte, eu sempre tive vontade de trabalhar com o Felipe Vernizzi, que é um diretor e fotógrafo, pelo qual eu sou completamente apaixonada pela linguagem cinematográfica dele. E eu contactei ele, e mesmo com pouquíssimo orçamento, ele veio para Florianópolis. Ele já era amigo de outro produtor com o qual eu tenho um duo, chamado Artemisia Vulgaris, que é o Rodrigo Ramos. Eu já tinha o figurino do clipe, e aí mostrei a música para ele, que adorou. Aí ele ouviu também outra música, que se chama Sleep Well, que ele adorou e quis fazer clipe dessa música também, que devemos lançar nas próximas semanas. Esse clipe foi feito no pinheiral do Rio Vermelho, dentro de um opala, que é um carro atemporal.

No clipe de Vernizzi não há um lugar definido, tipo olha é Floripa! Isso é deliberado?
É qualquer lugar. Mas não é que não seja Floripa. Na verdade eu estou sentindo falta de uma cena em Floripa. Tá acontecendo uma cena muito forte de mulheres, e é por isso que eu estou sentindo falta da cena, porque existem as pessoas mas não existe espaço de sobrevivência através da música. Pessoas incríveis, como a Renata Swoboda, a Carol Voigt, uma mulherada.. os Skrotes são maravilhosos...aqui teve uma música praiana, de reggae, que eu acho que se foi, ficou um vácuo. Falta subsídio, galera tá dura de grana, nem para ir a show. O clássico agora é comprar cerveja no mercado para beber em casa. E há um boicote a cultura que foge do padrão “ilhéu”, infelizmente. Tem François Muleka, tem um monte gente, que eu acho que já tem seu prestígio. O que tá faltando é um espaço de renovação. É muito difícil a abertura da mídia daqui para coisas novas, pessoal prefere repetir a pauta com o mesmo artista do que dar um play e ouvir de verdade o que o artista novo enviou junto com o release. 


por Marlon Aseff


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Espaços da memória: do Areial ao Parque Internacional


Os espaços nunca são inocentes, tem memória, a nossa, individual, e a coletiva, que vão se acumulando através de episódios significativos da história, de expressões arquitetônicas e literárias. Conforme abordam os estudos sobre memória coletiva de Maurice Halbwachs e Pierre Nora, os lugares da memória são como um palimpsesto.[1] Ou seja, os pergaminhos gregos utilizados para escrita. Reutilizados, sobrepostos estão a outros, conforme o tempo os vai apagando, vão surgindo vestígios daqueles que ainda estão lá, que não se apagaram completamente.  No entanto, estão todos lá acumulando historicidade como o pergaminho que se raspa para novamente escrever deixando as camadas com a escrita anterior nítida.

Embora assegure lugar na história, a memória, no entanto, exige cuidado, pois às vezes coloca relatos forjados no presente  a partir de interesses e julgamentos morais. Desta forma os espaços, paisagens, cidades, pessoas, se configuram à medida que “nós escrevemos ou apagamos”   as lembranças que estão dentro da memória coletiva. Precisamos olhar esse espaço transformado, destruído, desgastado pelo tempo, a cidade do passado.  Foi com essa intenção que investiguei as origens do espaço que hoje denominamos Parque Praça Internacional em minha pesquisa sobre o lazer fronteiriço.

 A Praça Internacional, mais conhecida na fronteira como o Parque Internacional,  está localizada no centro das cidades de Santana do Livramento e Rivera.  Em 1851 foi assinado o Tratado de Limites entre o Uruguai e Brasil, definindo-se a necessidade de demarcação da linha de fronteira entre a localidade de Serrilhada e Masoller. Também foi definida a instalação de marcos delimitadores na extensão de toda fronteira brasileiro-uruguaia Mais tarde na década de 1910, a demarcação na região onde atualmente está instalada a Praça Internacional foi realizada de maneira distinta das outras.

Conforme escreveu o historiador Ivo Caggiani, a praça foi criada com objetivo de substituir o usual “divisor de águas” comumente utilizado para definir e marcar o território de fronteira: “tal método demarcatório é estabelecido pela própria natureza, quando a água da chuva, ao cair, corre uma parte para cada lado, determina a linha por onde deve passar a fronteira”. No entanto na região da futura praça, ao contrário de áreas rurais e periféricas, não foi possível instalar balizas divisórias. No espaço de aproximadamente quatro quilômetros havia construções dos dois lados que excediam a linha de fronteira. O local que divisava as casas era constituído de um terreno irregular, arenoso e com mato fechado, que ao centro abrigava uma pequena lagoa.  Era o Areial ou tierra de nadie, como era chamado pela comunidade fronteiriça, que se valia do local para uma série de atividades ligadas ao esporte e lazer.

A história de sua criação teve vários protagonistas, foram muitos encontros diplomáticos até a conclusão do projeto que vemos hoje. Em 1919, reuniram-se para definir os limites fronteiriços os diplomatas chefes da Comissão Mista de Limites, o uruguaio Virgílio Sampognaro e o brasileiro, ministro Mariscal Botafogo. Em 1924, na cidade de Montevidéo, em uma reunião, os dois diplomatas teriam acordado o projeto da praça comum aos dois países, determinando que no centro dela estivesse um grande marco decorativo. Em 1925, os diplomatas reunidos em Santana do Livramento,  determinaram dar continuidade a construção deste espaço internacional. Surgiu a ideia de um projeto de revitalização daquele espaço: uma praça moderna, com arquitetura arrojada que servisse as duas comunidades, acompanhando a urbanização da região Entretanto após várias negociações e concepções arquitetônicas apresentadas, o projeto definitivo apareceu mais de uma década depois, em maio de 1938, em Rivera. O projeto urbanístico atual chegou pelas mãos do arquiteto riverense vinculado à Intendência, o maçon Modesto Paez Seré, que buscava traduzir a unidade e irmandade cultural das cidades, inspirados em símbolos deliberadamente maçons. O projeto estava em sintonia com os ideais dos governos uruguaio e brasileiro no momento de sua criação, pois a praça foi “construída para dividir e unir estas cidades”.  Um projeto gestado para marcar a história urbanística da região que posteriormente serviria de modelo para outros países, pois se dedicava a acentuar a irmandade entre os povos. [2]

 Lembrando novamente que os espaços não são inocentes, que tem interesses e memórias distintas, Fernando Aínsa alerta que podemos descobrir “ consternados, que o triunfo de la ideologia intenta ser la medida de la memoria seletiva que  controla y jerarquiza” [3] Assim a Praça Internacional foi inaugurada em 26 de fevereiro de 1943, quando o mundo ainda vivia os horrores da Segunda Guerra Mundial. O espaço comum, sugerido pelo ministro Vigílio Sampognaro foi constituído para “todo él brasileño, todo él uruguayo”, ou seja, livre de divisas entre os dois países em um mesmo espaço. Assim, quando penetramos neste espaço, não estamos em um “lado brasileiro” ou em um “lado uruguaio” estamos dentro dos dois países ao mesmo tempo. [4] Por muito tempo a comunidade e turistas que visitaram e continuam visitando a fronteira, levados muitas vezes, pelo senso comum divulgado pela publicidade e mídia, tiveram essa imagem equivocada.

O antigo Areial, transformado em um ambiente dotado de uma estética contemporânea, obedecia a um impulso modernizador dos grandes centros urbanos, ao mesmo tempo em que indicava ao mundo o exemplo ”de civilidade, fraternidade e igualdade entre as nações”, conforme informavam artigos da época. Por outro lado, convém aqui lembrar o cenário cultural daquele momento, determinando expectativas em torno do conceito do novo, do moderno. A palavra se encontrava impregnada no imaginário da sociedade brasileira em contraposição a tudo que remetesse ao que era antigo, ou seja, em um passado recente. No momento que as autoridades diplomáticas decidem-se pela construção do espaço, podem-se verificar mudanças de hábitos e comportamentos nas comunidades: da emergência do automóvel em substituição as antigas volantas, o calçamento das ruas centrais em troca “das antigas ruas empoeiradas,” a abertura de novas e largas avenidas, as lojas amplas e envidraçadas, enfim ocorre uma mudança de costumes. No cenário brasileiro, portanto, o conceito de que o novo substitui o antigo, originou-se nos primeiros anos da república brasileira através de ações dos governantes militares positivistas impregnados com a filosofia de Augusto Conte. Ocorre um remodelamento nos centros urbanos, apagando os vestígios da feição colonial nas cidades. Na fronteira, a partir dos anos 40 aparecem discursos que se constituem entre conflitos e diferenças culturais, reservando ao novo espaço o símbolo da paz.

Em minha visão, o imaginário da comunidade fronteiriça é impregnado por um discurso unificador das nacionalidades que se constituem entre conflitos e diferenças culturais estabelecidos pelos interesses dos governantes e imprensa local. Na fronteira, observa-se o empenho dos governos municipais em promover uma campanha de revitalização dessa região comum às duas cidades. As primeiras décadas do século XX haviam sido de crise econômica e social na região. É dada a largada para algumas políticas direcionadas ao desenvolvimento do setor turístico local. Observamos algumas leis riverenses instituídas na década de 1930:[5]

Ley de creación de "ciudad de Turismo": 22 de diciembre de 1936. En 1938: primera excursión "fonoeléctrica". Eran trenes donde se escuchaba música durante el viaje, toda una novedad. En enero de 1941 se formó la Comisión de Fiestas y Turismo. En enero de 1942 se inaugura el Club Uruguay. En agosto de 1942 el Casino. En febrero de 1943, inauguração do Parque Internacional e a revitalização do comércio do Largo Internacional.

Em Santana do Livramento, surgem várias salas de cinema, após a Segunda Guerra os passeios tradicionais da população abandonam a Praça Gal. Osório e procuram às ruas amplas da vizinha Rivera, A calle Sarandi com seu aspecto largo, arrojado, cativa os jovens aos passeios dominicais a peatonal e seus cafés, cinemas, lojas e novas lanchonetes.  Nelson Moreira observa em seu livro sobre a construção do passeio que  a vida urbana fronteiriça nos anos 40 em nada se assemelhava com a realidade dos anos 20 quando foi proposta a construção. Embora o projeto do arquiteto Paes Seré fosse o mesmo aprovado em 1938, com “leves modificações’, as cidades haviam se modificado, se urbanizado: “A população flutuante se destacava na paisagem fronteiriça, a frequência de aeronaves e empresas interdepartamentais de ônibus”, excursões fonoelétricas faziam crer que “ havia uma fronteira pujante,  em que já sobrava e molestava o Areal”[6]

Em meados de 1941, finalmente, após anos de debates, reuniões diplomáticas e sete ou oito projetos oficiais, emergem dos gabinetes a concepção arquitetônica que temos atualmente. Infelizmente neste mesmo, faleceu o arquiteto mentor da Praça Internacional. Contudo, em abril de 1942, após a assinatura da ata de inauguração dos trabalhos pelos representantes oficiais dos presidentes da república uruguaio e brasileiro, iniciaram as obras de construção do espaço.  A remodelação acontecia também no entorno da nova praça. Nas ruas centrais de Rivera, o reboliço estava na concretagem das ruas centrais, no corte dos nostálgicos plátanos, tão estimados e cantados por Olyntho Maria Simões e Agustin Bisio. “Desaparecia assim uma rua aldeã e em seu lugar se abria uma rua ampla e concretada, com veredas novas e amplas. Em um ano se apagou uma época, ainda que a novela postergasse a nostalgia por bastante tempo” relatou Nelson Moreira. Havia consternação com os cortes dos plátanos e o Areial, contudo as obras seguiram seu destino.

E na manhã de sexta feira pré-carnavalesca, para celebração inesquecível na história das cidades, inaugura-se a tão esperada Praça Internacional. Após vinte anos de negociações e trâmites diplomáticos, uma multidão estava presente para assistir o final desta partida. As bandeiras de todos os países americanos dançavam enfileiradas ao vento. O desfile tropas e de bandas militares, estudantes e instituições dos dois países foi registrado por jornalistas de diversos lugares. As ausências dos presidentes uruguaio, General. Arq. Alfredo Baldomir e brasileiro, Getúlio Dornelles Vargas foi sentida e registrada nos diários e na memória da população fronteiriça. Embora enviassem representantes oficiais, do lado oriental, Ministro do Interior Hector Genoma, e brasileiro, Ministro do Trabalho, Comércio, Justiça e Interior, Dr. Alexandre Marcondes Filho. Com convidados oficiais, a viúva do arquiteto criador do projeto Sra. Páez Seré presente além uma multidão de populares, muitos viajaram de cidades vizinhas, estava inaugurada oficialmente a Praça Internacional.

A construção de uma praça central, na divisa das duas cidades delimitando imaginariamente duas nações foi sem dúvida, um elemento significativo dessa política.  Nesse sentido, podemos estimar que os governos buscassem a construção de um símbolo, um marco, uma identidade que diferenciasse essa fronteira daquele cotidiano tumultuado da Segunda Guerra Mundial instalada no continente europeu. Como sugeriu um escritor peruano, em passagem pela fronteira, “justamente quando o mundo agitava-se diante desse conflito, a região apresentava-se como um exemplar da "civilidade" latino americano”. 

Entretanto é importante relembrar a importância do antigo Areial para as novas gerações. O espaço esteve presente ao longo dos anos no cotidiano da comunidade fronteiriça, que privilegiou o local como espaço genuíno do lazer. Do ancestral descampado, chamado Areial, aos anos recentes da moderna Praça Internacional, este espaço afirmou-se como um local  político, cultural e econômico para as cidades.  Situado na linha de fronteira o Parque vai se mostrar também um espaço de negociação, abrigando exilados e fugitivos nas recentes ditaduras que abalaram Brasil e Uruguai.

Retrocedendo algumas décadas, encontraremos outro espaço em um mesmo espaço. As cidades viviam uma crise social e econômica, o Areial com frequência era referência de esporte e lazer das comunidades. Na paisagem deste descampado “areial da linha”, ou “tierra de nadie”, lugar baldio, irregular e de matagais, Improvam-se atrações culturais como espetáculos de circos, cinema mudo, cavalhadas, canchas de tênis, futebol e hockey. Havia ainda os chopes ruivos da cervejaria Gazapina, vendidos nos Kiosques El Ribot e Biquita localizados na parte alta do areial, na Avenida das Palmeiras (atual Largo Dr. Hugulino Andrade), que ajudava a distrair a platéia. 

O Areial das décadas de 20 e 30 contrastava com seu vizinho, o Cine Theatro Cabaret Internacional, um esplendoroso prédio, império da boemia, onde a roleta e o pano verde serviam de pretexto para espetáculos luxuosos. Atrações internacionais e muito champanhe, espetáculos artísticos e serviço de restaurante sofisticado.  O luxo do Cabaré- Cassino impunha-se em contraste com a escuridão daquele descampado Areial, que abrigava atrações circences e ciganas para a maioria da população. Em muitas ocasiões o local também foi palco de  violência e mortes, ajuste de contas entre capangas e contrabandistas. Segundo noticiou um jornal santanense  O Republicano, era "lugar perigoso, esconderijo para bandidos". Portanto, longe de constituir-se no atual espaço privilegiado do Parque, o Areial era considerado um espaço público livre de qualquer valor moral ou mitificador. Em seus bons dias o lugar tornou-se referência da diversão à comunidade. O memorialista Cirino, reconstituiu seu espaço: “A linha era uma zona de chácaras e potreiros, era mais uma estrada barrenta, em dias de chuva do que propriamente uma rua para o pedestre transitar, o transito era a pé, em carros ou carroças de tração animal; na cidade havia uns quatro automóveis de particulares [...] revolucionários emigrados, entre os oficiais Siqueira Campos, Cordeiro Campos, entre outros, estabeleceram-se como comerciantes em Rivera, e alguns outros, menos afortunados, acamparam nas imediações do Cerro do Marco”.

Assim como numa colcha de retalhos, os moradores dessa fronteira buscam rememorar sua juventude através dos lugares que visitaram, das cenas pitorescas que viveram e que preenchem o universo de suas recordações. O passado é vivenciado como outra época, perseguido constantemente nas lembranças de outra cidade e seus espaços perdidos na memória. Memória que  também é um espaço pantanoso e construído conforme nossas lembranças, erguido em experiências pessoais onde muitas vezes certas vivencia são relevadas em função de outras, essa é a construção da memoria.

O barbeiro Humberto Bisso, que viveu intensamente estes dois espaços temporais, o do Areial e do Parque Internacional sabiamente, costumava lembrar, que os dois tinham muito em comum, pois se foram locais de disputa e violência, também ofereceram muita diversão, para a população: “tu sabe, essa praça nova que está ai, veio muito tempo depois do antigo Areial,¿” Divertia-se com os colegas ao ver a passagem das moças que iam trabalhar no Cassino Internacional,” todas elegantes de salto alto e caminhando e tropeçando no arenal” Pois não foi nela que ele viu “caírem mortos operários comunistas do Armour em uma noite fria de primavera¿. Assim como em 1956, emocionado viu passar na mesma vereda da praça, a comitiva de boas vindas ao Presidente JK Jucelino Kubischeck, quando visitou a cidade em seu centenário! O Parque Praça Internacional é um espaço sentimental, cada um tem um parque dentro de sua memória, que ao longo do tempo foi metamorfoseando-se em diversos espaços da memória e sentimentos. 

 Se nos anos 1930, o Areal foi espaço dos desmandos caudilhescos e de pistoleiros, trazendo notícias diárias nos jornais que lembravam aos fronteiriços que aquele era um o espaço dominado pela violência, a população também recorria a ele quando queria diversão seja pela chegada de circos, as sessões no cinema mudo do gordo Ducos, quando havia partida de futebol  ou cavalhadas,  afinal ali também encontrava-se o lazer, comum as duas cidades.

 Após a inauguração do novo espaço internacional, entre meados dos anos 1940 e 1950, a Praça moderna e ampla seduzirá outras gerações de famílias, que disfrutam o lazer moderno, com seu entorno repleto de lanchonetes e restaurantes.  Espaço para caminhadas, piqueniques, esporte, fotografias e namoros. Espaço dos lambe-lambes que desde então, eternizaram nos retratos sua população e a de turistas. Os passeios depois das sessões do cinema e matinés dominicais. Mas também foi em suas calçadas, no novíssimo Largo Internacional que ocorreu a chacina dos militantes comunistas mortos, quatro homens que, nas palavras da poetisa Lila Ripol, “ousaram sonhar com um mundo mais justo”! 

Nos domingos havia o encontro semanal dos imigrantes árabes libaneses e palestinos aos pés do Obelisco, que ali conversavam na língua mãe, fechavam negócios e tomavam chimarrão, apropriando-se de novos costumes. Na década de 60 e 70, o lugar se estabelecerá como um Parque-espaço da solidariedade e do exílio, lugar de passagem de perseguidos das ditaduras brasileira e após, uruguaia. Em seus arbustos ocultaram-se documentos e armas dos guerrilheiros. Por suas alamedas passearam jovens idealistas vindos de outras regiões do país. Entretanto, a praça ainda é espaço de lazer, namoros, fotografias, esportes, de encontros de presidentes militares que exibem sua diplomacia e divulgam convenientemente a irmandade  inscrita no marco obelisco.

 Os anos 80 lembrarão de que o Parque ainda é espaço lúdico de diversão, de lambe-lambes, da sociabilidade adolescente, dos encontros fortuitos, de amantes, de prostituição. Contudo liga seu alerta vermelho denunciando o início de sua descaraterização, com a chegada de trailers gastronômicos e bancas de artesanato, aos poucos a economia informal vai se aproximando até se estabelecer sem a devida fiscalização. A limpeza, os cuidados de jardinagem e manutenção que desde sua inauguração foram dados às administrações municipais iniciam seu lento processo de deterioração.

Estaria a Praça moderna, retornando a ser aquele local esquecido lá no passado, uma "terra de ninguém"? Entramos nos anos 90, e nosso símbolo da irmandade, imóvel, não reconhece o esplendor de poucas décadas passadas. O espaço será da prostituição, de shows musicais e espaço de manifestações políticas, dos parques de diversões. A partir dos anos 2000, a praça agoniza, pede socorro, o espaço é do abandono, Porém ainda é apreciado para o desenvolvimento da cidadania com as manifestações políticas, da diversidade, eventos culturais como a Feira do Livro Binacional. Também abrigam festivais de ovino e vinho, cultos religiosos, festivais nativistas e recentemente, gastronômicos. Ainda temos uma área concebida originalmente para descanso e lazer? Antes da criação do Parque, foi mais de vinte anos gerando um espaço monumento, que iria perpetuar ao mundo os valores da irmandade, igualdade e fraternidade, um espaço genuíno de lazer e descanso.[7] Finalizo com as palavras para reflexão do poeta Getúlio Neves:

Deixem a praça
para os velhinhos e crianças que encontram no aconchego das bandeiras a segurança que esperam e temos obrigação de  dar lhes.
Deixem a praça
Para o sono dos cães sem dono, bêbados e mendigos.
Deixem a praça
Para as ciganas de saias coloridas, os retratistas de preto e aos realejos nostálgicos.
Deixem a praça para o voo curto das pombas, ao João de barro que fez sua casa no lado uruguaio com o barro do lado brasileiro. 
Deixem a praça
Para o poeta que, a noite, retardatário, recolhendo seus passos diga:
Amo o silêncio desta praça vazia [...]
É madrugada, vem, talvez possamos
Percorrendo de leve as alamedas
Ver a garoa no seu ciciar de sedas
Tecendo-se em resinas pelos ramos.
[...] Deixem a nossa praça, para o beijo bilíngue dos namorados!


* Texto apresentado na Universidade Federal do Pampa - Unipampa, em 11 de outubro de 2017.
Liane Chipollino Aseff é pesquisadora e Mestre Historia Cultural pela UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina.


[1] AÍNSA, Fernando. Espacios de la memória. Lugares y paisajes de la cultur uruguaya. Montevideo: Trilce, 2008.
[2] Convém lembrar que o Itamaraty lançou na ocasião um concurso para admissão do projeto, o arquiteto modernista carioca Lúcio Costa enviou material para participação. Somente em 2011 seu projeto foi descoberto e levado a público através da iniciativa do Cônsul Geral do Brasil em Rivera, embaixador Vitor Candido Paim Gobato seu vice-cônsul, Cláudio Santana
[3] AÍNSA, Fernando. Idem,  p.16. Importante também observar nesse episódioda construção da praça que, “como toda la autoridad que domina el presente pretende determinar el futuro y reordenar o passado. La legitimación de la orden estabelecido que esta recuperación seletiva del passado, mas politica, que cientifica, aunque se apoye em acontecimeientos reales, documentos fidedignos e interpretaciones históricas” 
[4] Grifos meus.
[5] Conforme informou gentilmente a historiadora riverense Selva Chirico. Também consta no livro A história do Parque Internacional, de Nelson Ferreira Moreira, p.17.
[6] MOREIRA, Nelson Ferreira, A história do Parque Internacional. Rivera: Intendencia Departrtamental de Rivera, 2010, p. 17. Grifos meus.
[7] Após 20 anos de relativo abandono e o consequente soterramento dessa memória, mais uma vez o patrimônio histórico e cultural da Praça é ameaçado por um projeto unilateral, entre as prefeituras das cidades sem a participação da população fronteiriça, alijada das decisões  sobre seus espaços mais expressivos e sentimentais.