sábado, 1 de novembro de 2014

Por las calles de Recarey: a Rivera mítica do poeta



 A leitura da obra do escritor riverense Hipólito Zas Recarey nos mostra um narrador pródigo de memórias e um historiador conectado com seu tempo. Muito além da literatura – sua obra nos traz as transformações culturais, sociais, políticas e econômicas de sua amada Rivera. Hipolito era filho de libaneses, criado em meio à cultura árabe dos primeiros imigrantes, mas também castelhana e “gaucha”. Sua obra, portanto, será o produto dessa miscigenação cultural. Ler seus escritos é retornar ao tempo, a uma época em que Rivera e a fronteira fluíam, respirando ares do velho mundo.

As histórias reunidas por Recarey tem em comum o tema da identidade regional, onde o memorialista leva o leitor às profundezas do ser fronteiriço. E o faz com maestria, quando nos convida a percorrer as páginas de seu livro ”Rivera Fronteiriza e Romântica”, e também em “Cerro del marco, 30 aquarelas”. Ali nos deparamos com uma memória mágica, impregnada pelas calles daquela Rivera antiga, perdida entre personagens vívidos, flanando entre os cafés literários, as casas comerciais e os patrimônios da cultura local das primeiras décadas do século 20. Tempos de vigor cultural, econômico e de refinada cena boêmia. Através de pequenas histórias, o escritor vai tecendo a identidade de sua cultuada cidade, mas também da vizinha Santana.


A fronteira está constantemente dentro do poeta, como um órgão vital. Buscando celebrar e perpetuar esse lugar coletivo da memória, ele indaga o que é a linha? Não é uma tarefa fácil defini-la. Para ele a divisa entre os dois países não se encontra na geografia, na diplomacia, senão na alma dos seres que habitam o lugar. A linha divisória possui distintos significados para cada período de sua existência: infância, juventude e maturidade. Uma zona de características variáveis, conforme o desenvolvimento da região. A divisa  o leva ao inicio de tudo, ao lugar onde todos desfrutavam o espaço coletivo, como o apaixonante Areial - um canavial de bambus que se estendia até o Fortin -  lugar mágico e maldito, conforme as lembranças de cada um.


Território de uma infância repleta de aventuras, de troca de figurinhas, campeonato de pedradas, pandorgas e circos. A adolescência transforma-se em espaço de desconfiança, curiosidade e conquista, pois ”a Leste das esbeltas palmeiras, em direção ao Cerro do Marco, encontram-se os quiosques Ribot, Biquita, o jogo de bocha e os ruivos chopps Gazapina, circulando generosos entre os jogadores e expectadores”. As cores da linha noturna definem ao jovem poeta que é chegado a hora de entrar ao mundo dos homens que o invade, levando-o a filmes mudos do Cinema Internacional, aos cafés e rodas de amigos, as comidas das cantinas com menus baianos e aos mistérios do mundo dos Cabarés.

A cidade que Recarey nos mostra aparece então, melancólica e distante. É nesse momento que o memorialista busca o reencontro com sua Rivera, em pleno processo de desfiguração daquele tempo dos gloriosos dias de sua juventude, com os cafés, os amigos, o basquete e os clubes. Na maturidade, acerca-se da cidade imbuído de escrever suas memórias , e deixar seu testamento às novas gerações. Empenhado nesta difícil tarefa, Recarey inicialmente transporta seu leitor para a mítica fronteira, onde Rivera e Santana ainda são povoados recém oficializados a cidade.


O autor, deliberadamente, como nas estórias de fábulas infantis, encanta, ao iniciar seus relatos com a frase: “Hace ya muchos años” quando se faz necessário, direcionando o leitor ao fato histórico de grande importância, como os escolhidos para apresentar o Cerro do Marco, os personagens riverenses, a Plaza Internacional ou o muy nuestro y querido la Bica.
 

A Bica d´agua, onde os riverenses costumavam aprovisionar-se de água para suas casas é tratada como uma personagem feminina, que possui alma, o bem maior daquele lugar, pois é  “aquella pequeña maravilla de la naturaleza, misteriosa e generosa” que abastece e revigora a população da jovem cidade. A maioria de suas obras foram publicadas nos anos 80, quando o autor atingia a maturidade, levando-nos a refletir o motivo que o levou a escrever suas reminiscências nessa década. Sua Rivera estaria perdendo as feições daquela antiga cidade? Seria a chegada das construtoras e seus monumentos de vários andares trazendo o convite da “modernidade”? Estaria a sua Santana agonizando economicamente, perdendo seu patrimônio histórico, em uma fase de baixa estima?


O poeta recorria as ruas de Santana e Rivera para buscar uma resposta! Havia deixado a fronteira em meados dos anos 40, apogeu da cena cultural das cidades para ir estudar na capital, Montevideo, e quando retornou algumas décadas mais tarde, avistaria o caos urbano!

Seus escritos tão melancólicos e urgentes arrastam o leitor mais sensível a submergir naquela outra cidade, provocando sensações anacrônicas. Ouvia o Cerro do Marco, seu altar fronteiriço, gemer de dor ao ser amputado e desfigurado; o apito da usina de luz,


O farfalhar dos cristais e as conversas ao longe, nas mesas de jogo do Casino Internacional.  Ainda podemos espiar o Pinga anunciando suas balas de Mocotó no antigo Areial, aceitando o convite do autor para uma viagem ao tempo. Recarey retorna a infância, e ouvimos a trombeta do Pinga ressoar pelo Areial. Pronto, não faltava mais nada na paisagem fronteiriça! Embora para a maioria das pessoas Pinga fosse apenas um vendedor ambulante, para o cronista a era “más, mucho mas”. Pinga refletia a alegria, a alma que vivia comodamente em um corpo que recorria os quatro rincões da fronteira. Talvez fosse essa essência que o aproximava do carismático vendedor, pois para o cronista os “andarilhos” apresentavam alto valor cultural dentro da comunidade, eram sábios, ídolos que conheciam a fundo a alma dos habitantes e dos lugares. De suas lembranças emergem figuras populares inesquecíveis daquela Rivera, nos divertimos ouvindo Maria dos cachorros maldizer os rapazes que a perseguem pelas ruas com suas brincadeiras inocentes.


Recarey nasceu em uma cidade de fluência cultural e econômica distinta, que atualmente sequer podemos encontrar seus rastros. Viveu intensamente os anos dos ateneos e cafés literários, Cassinos-Cabarés, clubes desportivos e também da apaixonante política uruguaia e fronteiriça. Foi fundador do lendário Clube Esportivo Atlas, quando os rapazes de sua geração estavam persuadidos em ser “homens-ação”, acompanhando o chamado dos anos pós Primeira Guerra.


Convivendo com a geração anterior a sua, participou da formação do clube literário Ateneo de Rivera, com os mestres fundadores, Maria Luiza Larena, Augustin Bissio, Olintho Maria Simões, Alfredo Lepro e Tejera. No Clube Uruguay, Olintho Simões, solidário e apaixonado pela literatura, costumava receber os rascunhos de jovens poetas. Entre os anos 30 e 60, havia reuniões literárias nos cafés da Sarandí, lembrados pelo jornalista Ariel Pereyra como verdadeiros templos literários.


A cultura efervescente formava uma geração consistente de novos e futuros escritores. Para esses jovens ávidos pela obra de mestres da literatura, a rotina era inalterada: como num ritual, após o almoço e final da tarde o encontro marcado dava-se nos Cafés Sorocabana, a Confeitaria City e no Clube Uruguai. O Sorocabana, reunia médicos, como Hugulino Andrade, Dr.Vieira, Carambula, Joãozinho, advogados e empresários como Paco e José Siñeriz, Gallego, Irigoyen, Braga, Galo, Thomazinho Albornoz, Lucio Soares Neto, funcionários do comércio e claro, poetas como Olintho Simões.


Pacientes, ouviam e sugeriam as poesias e contos dos jovens aprendizes, como os irmãos Zas. Dependendo do fervor das conversas e debates, que podiam girar em torno dos mais diversos assuntos - da poesia a ciência, da política a cultura universal- os cafés proporcionavam momentos de deleite para uma plateia composta de comerciários e transeuntes, que se aglomeravam em torno das mesas de conversas, que reuniam os poetas, os políticos ou os médicos. Homens das mais variadas vertentes, colorados, blancos, socialistas e comunistas dividiam a mesma mesa.  

Recarey emerge no tempo e, como um fantasma andando pelas calles desertas daquela Rivera, vibrante e tomada de lugares, de círculos literários, da cultura e do lazer, aponta-nos seus valiosos altares. Podemos escutá-lo dizer: “Yo quiero mucho a Rivera!”

Liane Chipollino Aseff
texto apresentado no Seminário Una Mirada al Medio Oriente, Cultura, Religiosidad y Politica, Unipampa- Campus Santana do Livramento - RS. 13 de Outubro de 2014.


quinta-feira, 15 de maio de 2014

As negociações secretas com Geisel para a volta de Jango ao Brasil

Em junho de 1973, Peron retorna à Argentina, após dezoito anos de exílio na Espanha. Retorna e após uma eleição em que obteve mais de 60% dos votos, assume a Presidência, com o assentimento das Forças Armadas comandadas pelo General Lanusse e a posse e renúncia negociadas do Presidente Campora, justicialista que ocupara a Presidência por menos de dois meses.
 
Apesar de exilado, Peron nunca perdeu o controle da Segunda Sessão do Exército Argentino, encarregada de espionagem. O Presidente João Goulart, exilado no Uruguai, passou a residir também na Argentina, onde adquiriu uma fazenda, em Mercedes, próxima à Uruguaiana, desde que o General Lanusse assumiu o poder. Jango era grande amigo de Peron, que sempre lhe transmitia informações sobre a situação e o desempenho da Ditadura no Brasil. Com Peron na Presidência da República, Jango teria condições de fazer da Argentina uma grande plataforma, a partir da qual atuaria politicamente no Brasil, perturbando assim o livre curso da ditadura, que governava com todos os instrumentos de exceção cristalizados no Ato Institucional Número 5. Seria melhor para a ditadura brasileira ter o Presidente Goulart morando no Brasil.
 
Logo que ficou constatada a tendência para uma esmagadora vitória de Peron nas eleições de 21 de setembro, o Presidente João Goulart viaja para a Europa, como sempre pela rota do Pacífico, direto a Paris, hospedando-se como de hábito no Hotel Claridge, nos Champs Èlysees. Dona Maria Tereza desembarcou de outro voo pela rota do Atlântico, acompanhada dos filhos João Vicente e Denise.
 Dois dias após sua chegada, chega também a Paris o General Chefe do Estado Maior do Exército brasileiro, acompanhado do jornalista Carlos Castelo Branco (Castelinho), que fazia parte do círculo de amizades do General Geisel, já escolhido para substituir o General Médici na Presidência, em março de 1984. Castelinho tinha em comum com o Presidente Jango saber de cór o “Almanaque do Exército”. Vinham em missão do General Ernesto Geisel, para negociar com o Presidente Goulart seu retorno ao Brasil.
 
Foram três dias de conversações, das quais participavam apenas os dois emissários e o Presidente Jango. Durante essas conversações foi transmitido a Jango o interesse do General Geisel em que ele retornasse ao Brasil após sua posse. Algumas condições propostas e não aceitas por Jango eram: seu retorno para São Borja ou para o Rio de Janeiro, de onde só poderia sair com autorização da autoridade competente; também era proposta a exclusão de alguns nomes, entre todos aqueles que deveríamos voltar, após o retorno de Jango. Praticamente nenhuma condição foi aceita, porque o Presidente achava que ele tinha que ser o último exilado a retornar ao Brasil. De todas as condicionantes, a que mais desagradou foi a que excluía Prestes, Brizola, Arraes, Chico Julião e o Padre Lage, indicando que estes não fariam parte daquele acordo verbal.
Desde 1971, por indicação de Darcy Ribeiro, eu representava o Presidente João Goulart na Europa. À época recebi dele missão especial no sentido de coordenar uma assessoria ao ex-presidente da Argentina, Juan Peron, municiando-o com dados sobre o avanço científico e tecnológico e os complexos e sofisticados recursos humanos dos países industrializados. A assessoria na área de economia ficara a cargo de Celso Furtado.
 
Desde aquela época, portanto, o Presidente Jango se empenhava em que Peron pudesse voltar ao poder na Argentina. Todavia, embora Lopes Rega, secretário particular de Peron, soubesse que estávamos todos trabalhando pela volta do Presidente para a Argentina, ele nos fazia restrições, dificultando nosso acesso a Peron, pois estávamos ligados à esquerda peronista que nada tinha a ver com ele que representava à direita, reacionária e corrupta, como bem ficou comprovado mais tarde no escândalo da P2, Loja Maçônica que aliciou mais de mil personalidades italianas, ibéricas e latino-americanas, culminando com o escândalo do Banco Ambrosiano e o sequestro do Ex-Primeiro Ministro Aldo Moro. Internamente, na Argentina, as ligações de Jango se faziam através do Oficial do Exército Pablo Vicente, vinculado às esquerdas peronistas. Na Europa, suas ligações se faziam por intermédio de Jorge Antônio, que cuidava de interesses imobiliários de Peron, e cujo escritório situava-se no Paseo de la Castellana, no centro de Madrid.  
As conversas com os emissários do futuro Presidente do Brasil, especialmente com Castelinho, serviram para que o Presidente Jango fizesse uma avaliação de como seria o comportamento do General Geisel em relação aos exilados, servindo de termômetro para a segurança daqueles que pretendiam voltar. Uma coisa ficou evidente: retornar ao Brasil, enquanto Medici estivesse no poder, era uma temeridade.
 
O Presidente precisava ir a Lyon para uma revisão médica na Clínica Cardiológica do Doutor Froment. Iríamos de carro, e de lá, até Genebra, onde tinha encontro marcado com banqueiros judeus, a fim de alavancar recursos, a pedido de Peron, destinados a recuperar a indústria frigorífica argentina. Tinha também encontro marcado com Miguel Arraes, Paulo Freire e outros exilados que trabalhavam na Suíça. Arraes estava impedido de entrar na França, por uma denúncia feita ao Quai d’Orsay pela Embaixada do Brasil de que ele usava um passaporte argelino com nome árabe.
 
João Vicente viajou conosco, enquanto sua mãe, acompanhada de Denise, foi a Londres à procura de colégio para os filhos, que não mais voltariam ao Uruguai, onde a situação era extremamente tensa e insegura, depois do Golpe de Estado dado por Juan Bordaberry, com apoio dos militares, no dia 27 de junho.
 
Sobre essa viagem a Genebra, falarei em outra oportunidade, pois lá chegamos na véspera do Yom-Kippur, dia sagrado dos judeus, escolhido pela Síria e Egito para um ataque surpresa aos israelenses, que, naquele dia, se encontravam em orações nas sinagogas.
No retorno a Paris, passamos por Lyon, a fim de recuperarmos os medicamentos que o Dr. Froment iria fazer manipular, com doses específicas para o tratamento do Presidente João Goulart.
Em Paris, Jango me avisou que tínhamos que ir a Madrid, onde ele deveria encontrar um diretor de banco inglês, que gerenciava para ele os recursos advindos de exportações de seu frigorífico no Uruguai e ligado ao banqueiro com quem tratou dos empréstimos em Genebra dos empréstimos aos frigoríficos argentinos.
O Presidente então me disse que não iríamos a Madrid no meu carro, mas sim num automóvel Toyota que ia comprar para dar de presente ao genro do Presidente Stroessner. Tratava-se de um amigo muito bom, que supervisionava uma fazenda que ele tinha no Paraguai.
 
Deixamos João Vicente sob os cuidados de um jovem engenheiro que estagiava no escritório de Oscar Niemeyer, em Paris, Paulinho Baiano, e de outro jovem exilado, amigo do Presidente, Pedro Toulois. Lembro-me, era um domingo e saímos muito cedo de Paris. Revezando-nos ao volante, chegamos, cerca das dezenove horas, a um paradouro a quarenta quilômetros de Madrid, onde resolvemos pousar depois de percorrer mais de mil e duzentos quilômetros de estrada com mão dupla. No dia seguinte, saímos às onze horas mais ou menos, hospedando-nos pouco longe dali em um hotel pequeno e agradável, localizado em Puerta de Hierro, onde o Presidente João Goulart já se havia hospedado, pois ficava próximo à residência do Presidente Peron.
 
    Por volta das dezesseis horas, o Presidente Jango ao volante, saímos para cumprir uma agenda que ele havia definido por telefone: passaríamos no banco às dezoito horas; de lá sairíamos para visitar sua amiga Eva, que se encontrava hospedada no apartamento de Paula, sua conterrânea argentina, não muito longe, a leste do Paseo de Recoletos. Passamos em uma florista, onde compramos dois buquês de rosas vermelhas, pois daríamos um também a Paula, que aniversariava naquele dia. Chegamos à rua indicada por Paula ao anoitecer. Era uma rua larga e curta, quase uma praça, aonde se chegava pela parte de cima, voltando-se à direita, dai descendo até metade da rua, onde ficava o prédio, morada de Paula. Ao dobrarmos a esquina de chegada, o Presidente dirigia o automóvel, e eu vi, na parte de cima da rua, um caminhão parado e descarregado. Descemos e paramos à direita, na metade da rua, em frente ao edifício, onde se localizava o apartamento que procurávamos. 
 
O Presidente Jango desliga o motor do carro e abre a porta e, quase saindo, eu lhe chamo a atenção para as flores que estavam no banco traseiro. Ele se volta para o interior do carro à procura dos buquês, a porta do carro aberta, quando passa o caminhão que estava estacionado na parte de cima e, acelerando, praticamente arrancou a porta do carro, saindo em disparada, rua abaixo. As flores salvaram o Presidente Jango de um “acidente” fatal. Num átimo, não sabíamos o que havia acontecido. Saímos do carro, no qual a porta quase arrancada das dobradiças vergava-se sobre o capô. Assustados, ficamos sem entender o que se passou, naquela rua deserta, em que só algumas pessoas dos apartamentos da frente do prédio vieram às janelas, procurando ver o acontecido. Naquela época Madrid tinha poucos carros. A Espanha e Portugal eram um apêndice subdesenvolvido da Europa. A rua estava praticamente vazia.
 
Recuperados do susto, pegamos as flores e subimos ao apartamento de Paula que ficava nos fundos do prédio. As duas nem viram nem ouviram o ocorrido conosco na chegada. Forçando naturalidade, Jango entregou o buquê a Eva, e eu, a Paula, com apresentações, beijos e cumprimentos. Jango pediu para usar o telefone e ligou para o escritório de Jorge Antônio, e, uma hora depois, o Toyota era recolhido. Providenciou-se no dia seguinte seu embarque por via férrea para Paris, onde seria recuperado e despachado para Buenos Aires por Pedro Toulois.
 
Passamos mais três dias em Madrid e voltamos a Paris no final semana, por via aérea.
No seu retorno à Argentina, em meados de novembro, o Presidente João Goulart deveria fazer uma pequena parada em Caracas para um encontro agendado com o então Deputado Tancredo Neves.
 
por Ubirajara Brito, do Instituto João Goulart.

terça-feira, 1 de abril de 2014

O golpe de 1964 na Fronteira



Em Santana do Livramento, a eleição do petebista Sérgio Fuentes – o Índio Fuentes - para a prefeitura municipal significava uma ruptura no equilíbrio da política local. Embora não fosse novidade um prefeito petebista, Fuentes gozava de forte apoio popular e tinha ligação com setores progressistas do Governo Goulart, que poderiam desdobrar-se em ações ainda não mensuradas totalmente pela elite local, caso o governo federal levasse adiante os programas de reformas. Ex-combatente da mitológica “Divisão de Sant’Ana”, força revolucionária que se levantou contra a reeleição de Borges de Medeiros em 1923, herdeira dos ideais maragatos da revolução federalista, era contabilista e jornalista, diretor do prestigiado jornal Folha Popular.
Com o golpe já em andamento, nos primeiros momentos do dia 1º de abril, Sérgio Fuentes (foto) decide dispor a Prefeitura Municipal como sede da resistência. No saguão do prédio é instalado um transmissor de rádio, doado por militantes comunistas de Rivera. Para lá dirigem-se representantes sindicais, jornalistas, ativistas políticos e simpatizantes do governo deposto. A ocasião estava carregada de um simbolismo sombrio, pois na tarde de 31 de abril falecia o ex-prefeito e baluarte do trabalhismo santanense, João Souto Duarte. A Rádio Cultura sai do ar em homenagem ao filho ilustre, mas na mesma faixa de sinal passa a irradiar a rádio clandestina. Nas lembranças do jornalista Elmar Bones, a cena da primeira resistência surge em todas as suas cores,

(...) com o auxílio do partido comunista de Rivera, alguém conseguiu, não sei quem, veio a informação de que tinham conseguido um transmissor de rádio. E que era um transmissor que tinha uma potência que dava para colocar em cima da rádio local, e passar a fazer uma pregação, chamar a população para as ruas, porque ninguém sabia o que estava acontecendo, tinha um zum-zum-zum que já tinham dado um golpe, que o Jango já tinha sido derrubado, mas tinha uma boataria enorme dizendo que não, que o Jango estava no Rio Grande, que iria resistir e tal, aí nós fomos para a prefeitura, o pessoal veio, trouxeram esse técnico, trouxeram esse transmissor numa camioneta, entraram pelos fundos da prefeitura, que a prefeitura era do PTB, era do Sérgio Fuentes, e instalaram esse transmissor, e no saguão da prefeitura ficou um estúdio de rádio. E aí as pessoas se revezavam fazendo pronunciamentos. Então a gente botava a rádio no ar, em um horário assim, meio-dia, que é um horário que todo mundo tá ouvindo a rádio, botava em cima da rádio local, da Cultura, e metia discurso, convocando os estudantes...eu, o Ruschel, o Kenny falava, convocando os estudantes, convocando os jovens....aí vinha outro e convocava os camponeses. Chegou a durar um dia... até que no dia seguinte de manhã o exército descobriu. E lacrou tudo. Quando nós estávamos lá dentro o exército chegou e cercou a prefeitura com um aparato de guerra.
 
Em 1964, os jornalistas Elmar Bones e Kenny Braga eram estudantes e ensaiavam os primeiros passos na redação do jornal A Platéia, que lhes serviria de escola para a profissão que iriam abraçar com êxito dali em diante. Kenny lembra de personalidades afinadas ideológicamente com o grupo estudantil, que desenvolviam amplo diálogo político e literário, em tertúlias e reuniões informais. Uma delas era o então juiz de direito em Santana, José Paulo Bisol. O outro era o professor de literatura e escritor Alfredo Paiva. O pecuarista e membro do PCB local, Perseverando Santana também recorda da ativa participação do Bisol nos meios da esquerda local, onde freqüentava, em Rivera, a casa de Aquiles Santana, ativo membro do PCB santanense. No dia do golpe, estiveram reunidos mais uma vez, conforme recorda Perseverando,


“ Eu, em seguida imediato ao golpe fui pra a prefeitura, por recomendações do Bisol. Tínhamos um grupo de esquerda...e ele tava aqui na época, até foi impedido de embarcar no aeroporto..E teve lá na casa do Aquiles, até conversei com ele lá na casa do Aquiles, e ele aconselhou que viéssemos por precaução. Era juiz. E tinha contatos com o partido, um sujeito muito talentoso,  brilhante, fazia tertúlias literárias. E a prefeitura era do Sérgio Fuentes, um sujeito de muito valor. Era maragato, trabalhista. Mas um sujeito que não tinha restrições com esquerda, progressista.....uma coragem tremenda. Então nós fomos lá para a prefeitura, eu, o Chico Cabeda, tava esse Danilo Ucha, que pertencia a esse grupo que o Brizola meio influenciava, dirigia...E o Bisol tava na prefeitura. Ficamos conversando e tudo, e o Índio ali. Botou alto-falante, reunir o povo, resistir, essas coisas toda. Dali a um pouco, a gente sentiu que já não tinha mais resistência, e cada um tomou seu rumo. Tava todo mundo...tava o Marcos, o Aquiles, o Dalto, um paraguaio que tinha aí, médico...tanto é que ele nos aconselhou: - todos pra Rivera!”
Homem identificado com os ideais getulistas desde a revolução de 30, posteriormente ligados a vertente petebista, Sérgio Fuentes anotava suas convicções desde o primeiro editorial da Folha Popular, jornal por ele criado no alvorecer do Estado Novo, em dezembro de 1937: “terminada como está a luta política, por força da dissolvição dos partidos – áto altamente patriótico do Grande Presidente Dr. Getúlio Vargas – o nosso jornal se dedicará exclusivamente a noticiar os fatos importantes que se desenrolam diariamente na vida da comuna, do Estado e do Paiz”. 
Na edição do dia 3 de abril, junto com o anúncio do fim da resistência legalista, a Folha Popular registrava a reação das forças políticas municipais, sob o comando do prefeito Sérgio Fuentes:
Em Livramento -  S. Fuentes Campeão da Legalidade – Quando as primeiras horas da manhã de quarta-feira foi conhecida a notícia de que a forças rebeldes em Minas Gerais haviam iniciado um movimento subversivo visando depor o presidente constitucional, dr. João Goulart, o prefeito municipal jornalista Sérgio Fuentes compareceu ao palácio intendencial, onde após convocar seus assessores  instalou uma frente de resistência ao golpe. Imediatamente a prefeitura transformou-se no centro de todas as atenções da cidade, tendo a Rádio Cultura passado a transmitir diretamente de seu gabinete na Prefeitura Municipal, integrando-se na “cadeia da legalidade” liderada pelo valoroso e destemido deputado federal Leonel Brizola. A vigília cívica contou com o apoio integral da maioria da população santanense que independente de qualquer chamamento foi levar ao prefeito trabalhista o conforto moral na hora dramática em que os alicerces da democracia foram sacudidos pelo movimento golpista. Aproximadamente ao meio dia de ontem um contingente da Guarnição local compareceu a Prefeitura de onde requisitou os transmissores da Rádio Cultura, que saiu do ar. 
Da tribuna da Folha Popular, Sérgio Fuentes (foto) deu voz aos movimentos que se colocavam frontalmente contra o golpe no calor dos primeiros momentos. Ainda no dia 3 de abril, logo após os incidentes ocorridos na Prefeitura, o jornal insuflava a resistência, buscando apoios e listando manifestações contrárias ao levante, noticiando fatos como uma passeata dos estudantes uruguaios em favor do governo Goulart.
Estudantes Uruguaios Fizeram Passeata de Repúdio ao Golpe e Em Favor de JG
Montevidéu, 3 (FP) – Portando cartazes que taxavam os militares que depuseram o presidente João Goulart de “gorilas” e que diziam ainda reconhecer em João Goulart o presidente constitucional e legal de todos os brasileiros, uma grandiosa manifestação dos estudantes uruguaios foi realizada nas primeiras horas da noite de ontem, pelas principais ruas da capital uruguaia. A cidade que vive em clima agitado e de espectativa desde o momento em que foi anunciado que o presidente brasileiro João Goulart, se dirigia para Montevidéu, assistiu uma grandiosa manifestação estudantil que foi acompanhada de perto por forte dispositivo policial, que se limitou apenas a acompanhar o desenrolar pacífico da passeata. Durante toda a tarde de ontem e as primeiras horas de hoje o povo aguardou nas ruas a chegada do primeiro mandatário do Brasil, ao qual – caso se confirmasse sua vinda para território uruguaio – seria recebido ainda como chefe de Estado e lhe seria tributada uma recepção popular digna do prestígio que goza em todo o Uruguay. 

Em rápidas pinceladas, o repórter uruguaio descreve um prefeito envolto pelas pesadas circunstâncias da hora: El Prefecto Fuentes, un hombre de edad, enjuto y pequeño, decidido “legalista”, hablaba descorazonado: “Tudo não ha sido mais que un bluff”  O correspondente do jornal uruguaio El Pais estava com Sérgio Fuentes no dia 3 de abril na Estância Carpinteria, na localidade uruguaia de Vichadero, cerca de 200 quilômetros da fronteira, ainda no município de Rivera. Ali, levados pelo petebista, estavam um forte efetivo de policiais e repórteres de Santana e Montevidéu, a espera da provável chegada de João Goulart, em fuga das terras brasileiras. O bluff poderia ter sido obra do acaso, ou armado por Fuentes, soldado petebista e que muito improvavelmente acionaria a polícia uruguaia e as atenções dos golpistas para o encontro com Jango. Um despiste parece ter sido o episódio da Estância Carpinteria, muito embora não possa ser comprovado . Os jornalistas não escondiam a decepção, conforme anota a crônica do EL PAIS: “Doscientos kilómetros de intransitable camino y una espera de horas para localizar al doctor joão Goulart”.

(texto extraído do livro Retratos do Exílio - solidariedade e resistência na fronteira. Marlon Aseff)