sábado, 23 de março de 2013

Um olhar sobre a presença árabe na fronteira



Os árabes não são estrangeiros em território rio grandense. A tese defendida pelo escritor Manuelito de Ornellas já em 1948, mostrava como a presença desses povos entre nós remonta, por outras vias, a primeira ocupação luso e espanhola, que trazia em seu DNA a forte herança da presença mourisca na Península Ibérica (beduínos, berberes e maragatos). Em sua obra clássica, Gaúchos e Beduínos, o autor estabelece semelhanças entre a cultura gaúcha e árabe, examinando os costumes, hábitos, vestimenta e tradições. Numa poética referência às culturas, o escritor recorre aos hábitos comuns ao gaúcho do pampa e ao homem do deserto para miscigenar e integrar as culturas.
Cogita-se que o primeiro imigrante árabe sírio libanês chegou ao Rio da Prata, por volta de 1868, na Argentina, porém a Direción General de Inmigracón recebeu o primeiro registro oficial apenas a partir de 1887. No Uruguai, segundo o literato e pesquisador uruguaio/libanês Antonio Seluja, teria chegado em 1879/80. Ao chegarem no porto de Montevidéu, seguiram o protocolo dos emigrantes que tinham sua alcunha acentuadamente árabe, para que adotassem nomes castelhanos. Inicialmente entravam sem impedimentos, porém a partir de 1890, devido a grande afluência de estrangeiros árabes, o governo uruguaio vai fechar a porta de entrada no país. Era a resposta às consequências do surto imigratório em um país pequeno e ainda muito ligado a atividade pecuária. O certo é que muitos burlavam a nova lei e continuavam viajando clandestinamente.
 A maioria dos imigrantes sírios e libaneses que chegavam o porto de Montevidéu vieram de aldeias camponesas das montanhas do interior do país. Eles saíam de suas pequenas aldeias e povoados, localizados na região da atual Síria e Líbano, chamada naquele momento de Monte Líbano.
São variados os motivos que levaram os sírios-libaneses a deixar seu país, como o crescimento da agricultura e a diminuição de atividades ligadas ao pastoreio, forçando uma urbanização maior,  ao mesmo tempo em que aumenta o controle governamental sobre essa população. Na Grande Síria, a administração pública vai dar preferência a camponeses assentados, que pagavam impostos e que estavam sujeitos ao recrutamento militar. Por outro lado, se o aumento dessa urbanização provocou um crescimento populacional, com o declínio das epidemias e da fome, o crescimento econômico favorecia apenas a uma elite que estava ligada ao governo e aos grandes capitais.
É um momento de muita desigualdade social, e esse progresso, descontínuo e desigual entre as regiões, classes sociais e grupos religiosos aprofundam o sentimento de busca por alternativas e a emigração. A rejeição ao domínio turco-otomano, também pode explicar a saída de algumas famílias, especialmente as cristãs-maronitas. Também tornou-se mais forte a disputa entre cristãos e mulçumanos e entre as seitas maronitas e drusas, que viviam na região montanhosa de monte Líbano. Não é por acaso, que a maioria das famílias de pioneiros sírio e libaneses são do culto cristão maronita.
As famílias de descendentes dos pioneiros que vivem hoje no Rio Grande do Sul e especialmente na região da fronteira brasileiro-uruguaia, descendem de cristãos maronitas e em menor quantidade de muçulmanos drusos. Também colaborou para isso o fato do império otomano instituir em 1903 o alistamento obrigatório dos cristãos no Líbano para auxiliar na guerra dos balcãs, fazendo com que muitos cristãos maronitas e ortodoxos enviassem seus filhos para fora do país, fugindo dos dominadores otomanos. Muitos intelectuais e profissionais liberais perseguidos pelo governo buscaram o exílio nesse momento.
Quando desciam dos navios, em uma travessia que durava cerca de três meses, eram recebidos por algum parente, amigo ou veterano da comunidade libanesa que os levava então para uma casa de acolhimento, localizada nos arredores do Porto de Montevidéo, na Ciudad Vieja.
Essa região no início do anos 1900, especialmente a Calle Patagones, atual Juan Cuestas, era conhecida como Calle de los turcos, pois  ali estavam os pequenos comércios, as residências e  pensões de imigrantes árabes, e também os quintais onde as mulheres cultivavam hortaliças orientais. Ali, por muitos anos esteve instalado El Barracón,  um sobrado grande, histórica pensão que costumava acolher imigrantes árabes de todas as nacionalidades.
   Geralmente os viajantes ali se restabeleciam e enviavam notícias para a família que ficara no Líbano. Alguns mais pobres alugavam um quarto, pois se sentiam seguros com esta nova família de paisanos. Por cerca de quinze dias, recuperavam-se, conheciam a cultura local, apreendiam o básico da língua castelhana. Após dominar algumas palavras do espanhol, aprendiam o valor dos pesos uruguaios e recebiam algumas mercadorias. Passado o ritual inicial, com seus caixotes – os Katches  - estavam prontos para explorar a campanha uruguaia. Logo em seguida viajavam de trem até a cidade em que moravam seus contatos familiares. Entretanto havia os que chegavam muito doentes, não conseguindo passar pela fiscalização da Imigração. Estes eram levados por um funcionário da alfândega ao Hospital, onde depois de curados, e contando com a ajuda de algum árabe que traduzia seus documentos, eram embarcados de volta para a Argentina e de lá, se não tivessem amigos influentes e parentes, para seu país de origem. Também a entrada de estrangeiros provenientes da África e Índia não era estimulada pelo governo uruguaio.
Muito jovens solteiros viajavam em busca de uma independência econômica. Aventuravam-se pelo interior da república uruguaia, tomando a promissora campanha para si, vendendo variadas mercadorias, em busca da clientela que o novo ofício exigia. No princípio foram vistos com receio pela população rural, até que ganharam confiança e amizade da maioria das famílias da campanha. Sua freguesia principal eram as mulheres e crianças que moravam nas estâncias ou nas vilas próximas a elas. Também foram vítimas de violência, quando eram assaltados na campanha, e discriminação devido a língua e origem oriental.
A partir das primeiras décadas do novíssimo século que vinha à luz, as cidades da fronteira se tornaram alvos novos para a maioria da população estrangeira que chegava às capitais do Prata. Algo como “terra da prosperidade”.  A comunidade libanesa estabelecida em Montevidéu soube que Rivera convertera-se em centro aglutinador do comércio e da emergente indústria da carne e do couro. A modernidade havia se instalado na região com a introdução de serviços que favoreciam o franco desenvolvimento daquela comunidade do interior da república: a estação ferroviária, os lampiões para a iluminação pública, a telefonia, os liceus, constituíram-se em significativos atrativos para os novos moradores.
Havia muito tempo que o serviço dos correios atendia as cidades fronteiriças através das diligências que costumavam romper os limites, em direção a cidades como Bagé. A industrialização, por sua vez, agregou grande desenvolvimento cultural e econômico para a região. Inicialmente, as charqueadas, depois os frigoríficos estrangeiros excederam a mão de obra de trabalhadores locais, abrindo frentes para operários capacitados, como os imigrantes espanhóis, italianos e libaneses.
Porém, se os europeus buscavam trabalhos sazonais nas indústrias, os árabes preferiam a autonomia da atividade varejista, baseada na informalidade. A maioria dos entrevistados nesta pesquisa se utilizaram da expressão liberdade para justificar sua escolha pelo cotidiano do comércio ambulante, mesmo sob condições de insegurança e intempérie. Entretanto, essa é uma das questões que devem ser investigadas sob novas perspectivas, tendo em vista que nesse momento a região foi tomada por intenso movimento de greves, liderada por anarquistas espanhóis e italianos, quando então estava em gestação uma classe operária nos países do Cone Sul.
Um atrativo na região para os estrangeiros, era a economia vigorosa dos frigoríficos de Santana do Livramento. O Frigorífico Armour, teve seu início em 1917 e viveu o apogeu no período da Segunda Guerra entre 1940-44, quando a indústria de carnes abastecia as frentes aliadas. Esse processo vinha desde o advento das charqueadas e, mais tarde, com a indústria frigorificada consolidou-se a exportação de carnes de qualidade para o consumo da população da Europa e Estados Unidos. Assim a região e as cidades próximas a ela, se tornaram um porto seguro para muitas famílias de emigrantes, especialmente os libaneses.
Ao chegarem a Rivera os imigrantes árabes vivenciaram a solidariedade de seus pares já estabelecidos por aqui. Nessa primeira fase da imigração, que vai de 1890 a 1920, aqueles patrícios que já estavam estabelecidos, faziam o ritual do acolhimento aos irmãos no país desconhecido, fossem sírios, libaneses, ou - nesse momento - os raros palestinos. O abrigo e orientação nunca lhes foram negados.
 A exemplo de Juan Molke, estabelecido em Rivera desde os primeiros anos do século XX, comerciante respeitado e bem sucedido, que recebia muitos casais e jovens solteiros enviados sob sua recomendação pelos pais ou amigos. Molke era reconhecido como uma espécie de cônsul e conselheiro da comunidade diaspórica libanesa daquela região.  No Chuy, é conhecido o caso do sírio Mohamed El-Hom, emigrado em 1912, que nos anos cinquenta e meados de sessenta acolhia muitos palestinos em sua casa, dando-lhes auxilio financeiro e hospedagem para que iniciassem vida nova na região. Quando em exílio, os árabes estavam reunidos sob emblema da solidariedade, não importando suas preferências políticas ou religiosas.
Homens valentes os libaneses não foram indiferentes às transformações políticas que sacudiram o Uruguai no início do século 20. O forte sentimento de pertencimento a uma segunda pátria castelhana fez com que o imigrante acastelhanado Emilio Nizarala (em árabe, Nisrala), radicado em Rivera, se engajasse na coluna de seu amigo, o blanco Aparício Saravia defendesse sua pátria. Segundo relatos da memória oral, Juan Molke também engajara patrícios recém chegados a cidade na causa revolucionária. Embora não fossem encontrados registros documentais da presença destes soldados imigrantes nas listas oficiais dos partidos Colorados e Blanco é certo que alguns foram ao front armado. Alguns lanceiros, como o jovem Khalil Aseff, emigrado em 1900 e ardoroso seguidor do General Aparicio Saravia. Ou a turca Carmem, engajada nas colunas coloradas em Trinta y Três Orientales.
Yussef Bushada, libanês acastelhanado pela departamento de imigração como José Posada foi um dos pioneiros em Rivera. Yuseff teria chegado à cidade em 1891, radicando-se nos arredores do povoado. Inaugurando um comércio de gêneros variados na Calle Brasil, deu inicio a arabização daquela região, pois logo chegariam outros paisanos para juntar-se a ele. Constituindo um bairro de casas de comércio tradicionais como a Tienda Normey, Casa La Negra, conhecida como el banco de los pobres, com preços atrativos e variedade de confecções. A Calle Brasil, localizada próximo ao Ferro Carril, atraia imigrantes que desembarcavam na ferroviária, pois logo percebiam nos arredores um auspicioso núcleo comercial. Então, após a chegada de Yussef, a via passou a ser habitada por uma população de maioria árabe, como carinhosamente relembrou o poeta Zaz Recarey había allí una turcada maravillosa”.  Muitos libaneses viveram pelas cercanias e ao final das Av. Sarandi e Agraciada, como as famílias Dergam, Neme, Bouchacour, Curi Zagia, Najas, Chalela, Manzor, Fiat, Kauche, Sajur, Nazer entre outras. A livraria El Estudiante,  fundada na década de dez, de propriedade da Família Curi resiste ao tempo, no mesmo endereço, localizada na Av. Sarandi.  Como um monumento, continua a tradição familiar distribuindo jornais e vendendo revistas a comunidade riverense (foto acima).
Uma curiosidade sobre os pioneiros libaneses que chegavam a Rivera: geralmente jovens e solteiros, escolhiam suas noivas dentro da comunidade libanesa radicada no local. Também acontecia deles trazerem suas noivas do Líbano, depois de uns anos trabalhando, para casar e constituir família na região. Muitos eram casados, jovens casais, que iniciaram sua vida aqui. A maioria dos que vieram para Santana, casaram-se com moças locais ou de cidades próximas, que não tinham descendência árabe. Outros já emigravam casados, porém era uma minoria.
Há diversas narrativas e histórias de vidas de famílias de imigrantes, relatando suas trajetórias particulares e suas perspectivas em relação à terra de origem e à de acolhida. Atualmente, há mais de 16 milhões de árabes e descendentes no Brasil. No estado do RS, conforme dados do consulado, a comunidade libanesa é de aproximadamente 90 mil entre libaneses e descendentes. Com relação a comunidade palestina, os dados, embora defasados, apontam para uma estimativa 25 mil palestinos no estado. O Uruguai conta com uma população de descendência árabe de cerca de 120.000 pessoas, entre imigrantes e seus descendentes. Em Santana do Livramento, vivem cerca de 550 palestinos.
Mesmo sendo raro, mulheres também emigravam. Yesmin About Nagme/Normey, na ultima década de 1890, após ficar viúva, viajou com seu filho Elias, do Líbano para o Canadá, Estados Unidos e Uruguai, onde finalmente em 1912 fixou residência em Rivera. Através de indicações de seu outro filho, George, que morava na cidade, sua prioridade foi estabelecer-se no centro comercial. Estabeleceu moradia na Calle Brasil, local  que garantia de bons negócios. Ali estabeleceu sólidos laços culturais e afetivos, com o novo lar e com seus filhos, que constituindo família, estabeleceram casas de comércio, as quais ainda hoje temos na memória afetiva fronteiriça.  A Tienda Normey durou 82 anos, comercializando seções variadas, como pinturas, ferragem, cristaleria, tienda, mercearia, bazar. Seu filho Elias,  logo na  chegada, foi vítima da discriminação policial. Trabalhando com a venda de mercadorias em uma carroça, foi interpelado por um guarda, que agressivamente o chamou de turco, exigindo que o assustado jovem, que ainda não compreendia o espanhol, apresentasse sua documentação de estrangeiro e licença para “andar mascateando naquela rua.” Depois de muitas tentativas de comunicação e interferência de um veterano que mediou o conflito, a autoridade o liberou da iminência da multa e prisão.
Muitas famílias que viviam na campanha, nos arredores de Rivera, foram fotografadas pelas lentes do jovem Elias, que recorria o interior das estâncias registrando o cotidiano, as festas e costumes da população rural, logo de sua chegada à região. No nordeste no Brasil, em meados dos anos vinte, também o jovem sírio libanês Benjamin Abrahão Botto, mascate e fotógrafo, teve a coragem de acompanhar e fazer o registro iconográfico do cangaço e de seu líder, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Abrahão morreu assassinado durante o Estado Novo, em 1938, provavelmente pelas suas ligações com Lampião. Abrahão teve seus trabalhos, fotos e a película sobre Lampião apreendidos pela ditadura de Getúlio Vargas.  Alguns imigrantes que se engajaram nas convulsões sociais e políticas dos países em que se radicaram, realmente tiveram a coragem da escolha e fizeram a diferença. Seja o fotógrafo Emilio Nisrala, ou o lanceiro Khalil Aseff, integrantes da coluna de Aparicio Saraiva, seja Abrahão no Cangaço, que com suas lentes fez a espetacularização de Lampião e seu bando na mídia nacional, em uma época de restrições de liberdades individuais. Seja no Brasil ou no Uruguai, esses imigrantes libaneses foram agentes da história, vivenciando profundamente a realidade social em ebulição dessas nações.
Em Santana do Livramento, a trajetória dos irmãos Chein serve para ilustrar a adaptação e descaracterização dos costumes árabes impostos na terra estrangeira. Os irmãos Fouad e Inácio Chein, nascidos e batizados no Líbano chegaram ao Brasil em 1914, acompanhados de seus pais, Nahim Jorge Chein e Kanra Azario Chein. Inácio ainda não havia completado dois anos e Fouad com meses de vida. Seus pais, após percorrerem capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, se decidiram pela cidade de Bagé, pela proximidade com a fronteira. Também porque naquele momento a cidade contava com um grande número de imigrantes árabes, em torno de um emergente centro comercial e industrial. Durante os dezesseis anos que viveram na cidade, a família cotidianamente conversava em árabe, mantendo os costumes da pátria distante.
Esse fato foi decisivo para os irmãos Chein terem vivido sua infância e inicio de adolescência dentro da cultura libanesa. Fouad Chein, hoje com 98 anos, recorda-se das noites em que sua mãe, católica, fazia diariamente os filhos sentarem-se em roda, no chão, para rezar em árabe antes de irem para a cama. A proximidade cotidiana dos costumes e da língua árabe os aproximava de sua terra. A língua é um poderoso fator de expressão de uma identidade instintiva comum, tal como a cultura a ela associada.  No entanto, quando seus pais decidem partir para Santana do Livramento, suas vidas vão tomar um rumo muito diferente.
A família Chein sentiu de perto o desapego dos patrícios radicados ali pelas raízes libanesas. Alguns casados com mulheres brasileiras desestimularam seus filhos a falarem sua língua, os irmãos. Os irmãos devido ao trabalho em comércios brasileiros e atendendo uma clientela brasileira e uruguaia, tiveram que aprimorar a língua portuguesa e espanhola. Sem o estímulo necessário, com o passar do tempo foram desaprendendo o árabe. Embora Santana fosse atrativa para os negócios, culturalmente os desarticulava e os afastava do Líbano. Diferente de Bagé, onde existia uma vigorosa comunidade, em Santana havia poucos libaneses para dar continuidade a seus costumes. Também as famílias libanesas haviam constituído um clã brasileiro, onde a segunda geração nunca foi estimulada a falar o árabe. Outra limitação estava relacionada ao casamento. Casavam-se com mulheres brasileiras que não tinham interesse que seus filhos convivessem com a cultura árabe. Alguns motivos para esse fato, talvez seja a discriminação que essa geração de primeiros imigrantes sentiu logo no início de seu estabelecimento em Santana.
 O caso dos pioneiros em Rivera é distinto, pois geralmente, os descendentes da segunda e até terceira geração, criaram um vinculo afetivo com a pátria de seus pais, avós, e ainda hoje se pode ouvi-los discorrerem sobre o Líbano, com grande admiração e paixão. Em 1917, o grande número de imigrantes árabes exigiu que a comunidade fundasse a Sociedade Libanesa de Rivera. A associação acolhia sócios libaneses também radicados em Santana, como as famílias Salim e Mafuf, porém nem todos participavam. No local havia saraus literários, danças, concursos culinários, campeonatos de jogo de gamão, arrecadação de pesos para auxiliar alguma família que chegava, ou ainda para doar a uma instituição pública. Os homens discutiam a situação política do Líbano e Europa. Os que podiam compravam um rádio potente, de ondas curtas, que transmitia rádios árabes, após a audição, reunidos todos debatiam as notícias. A nova geração foi crescendo e aprendendo sobre a cultura árabe nos salões da Sociedade, em casa, nas rodas de conversa de seus pais. Mesmo que na escola apreendessem o espanhol, eles conheciam a língua de seus pais, embora muitos não quisessem aprender. Essa aproximação cotidiana fez a diferença.
Santana possuía uma comunidade estratificada, onde os estabelecimentos comerciais eram fundados na tradição familiar. A maioria das casas era identificada com brasileiros natos, mantendo certa resistência aos comerciantes estrangeiros. Então, muitos imigrantes árabes perceberam que naquela região, a respeitabilidade e a ascensão social estavam intimamente ligadas. Desse modo, seus descendentes tinham que estar desvinculados da condição de “turcos” imigrantes, mesmo os filhos brasileiros nascidos na cidade. A decorrência desse processo foi o esquecimento do idioma pátrio, a nova geração foi absorvendo totalmente a cultura brasileira. Uma espécie de legado a ser deixado pelos pioneiros aos descendentes, a integração plena na terra estrangeira.
Em Santana, foi importante a trajetória de Rage Maluf, que desempenhou um importante papel entre seus companheiros e permaneceu na memória da coletividade fronteiriça. Emigrou para o Brasil, para a cidade de São Paulo, em 1924. No princípio, como todos seus compatriotas, trabalhou como vendedor ambulante em várias cidades do sul do Brasil. Em 1930, após muito circular pelos estados do Paraná, Santa Catarina e São Paulo, escolheu Santana do Livramento para fixar residência. Rage tinha parentes na cidade, através de suas indicações, abriu comércio na linha divisória, próximo à aduana brasileira e uruguaia. A região havia se estabelecido em reduto da comunidade estrangeira, italiana, espanhola e árabe. Havia um restaurante italiano, uma pensão espanhola e a Pensão da turca Vitória Maluf.
No comércio de Rage se vendia de tudo, secos e molhados, alimentos, tecidos, fumo em corda, fogão a lenha, bebidas. Também havia um depósito que fazia a distribuição de bananas na cidade. Semelhante a um clube, o lugar constituía-se em espaço da sociabilidade árabe da fronteira, recebendo compatriotas que residiam em Rivera e Santana. Ali costumavam confraternizar ao final de tarde, quando terminava o expediente de trabalho. Os companheiros buscavam o local para se distraírem, fosse conversando em árabe, fumando arguile ou jogando gamão. Contudo, não eram todos que frequentavam a casa de Rage. Os que já estavam integrados a sociedade santanense, raramente visitavam o lugar.Os libaneses mais antigos da comunidade ainda recordam-se com acentuada melancolia do clube de Rage, local de relembrar a “terra dos cedros”. O comércio fechou as portas no início da década de 1960, quando  mudou-se com a família para Porto Alegre, deixando seus amigos inconsoláveis. 
Ao contrário do que se imagina o trabalho no comércio, que invariavelmente começava como mascate, não fazia parte do cotidiano dos sírios libaneses e palestinos em sua terra natal. Em seus povoados árabes eles costumavam trabalhar na agricultura. Eram em sua maioria camponeses desabituados com o cotidiano urbano e o comércio, e tiveram que se reinventar para sobreviver aqui. Os sírios libaneses que optaram por percorrer as estâncias do interior uruguaio e a fronteira se depararam com um universo distinto daquele que estavam acostumados, embora encontrassem espaço garantido nessa nova profissão de trabalhadores informais. A presença árabe foi além do comércio, impregnada na cultura nacional e local. Muitos se tornaram professores, intelectuais e artistas. Em Rivera temos a segunda geração com Tall Ramis, que nos anos trinta criou o brasão da cidade, Hipólito Zaz Recarey, grande literato e memorialista, Clarel Neme, artista plástico, que se celebrizou internacionalmente. Em Santana, os sobrenomes descendentes estão na medicina, no direito, na docência nas universidades.
A chegada da comunidade Palestina
Os primeiros imigrantes palestinos chegaram em menor número, em meados dos anos 50, como Ibrahim Hussein e mais tarde, Hilmi Abadallah. A presença mais significativa dos palestinos na região só viria a ganhar novo impulso após os conflitos da guerra israelo-palestina, em 1967. A violência da ocupação fez com que muitas famílias deixassem suas terras e casas na Palestina. Em sua maioria, os homens chegavam sozinhos. Geralmente casados, ou compromissados, viajavam com amigos ou familiares, deixando a mulher e filhos com parentes. A diáspora impunha-se frente às impossibilidades de trabalho e ao amparo da família em uma região de conflito e dor. Se a emigração era associada ao sinônimo de lugares seguros onde trabalhar e viver, também significava encarar novos caminhos e novas culturas. Os palestinos chegavam dispostos a trabalhar, adquirir capital para, mais tarde, trazer suas esposas e filhos e reunirem-se com a família, mesmo que em alguns casos esse processo perdurasse por vários anos. A relação afetiva era mantida através de cartas, fotografias, lembranças, onde os pais viam seus filhos crescendo através de imagens enviadas por suas esposas.
Para relaxar e amenizar a distância da terra mãe, seja o Líbano ou a Palestina, alguns imigrantes, no início dos anos 50, nas manhãs de domingo, reuniam-se em frente ao obelisco do Parque Internacional, para conversar em sua língua, tratar de temas como a turbulenta situação política do Oriente Médio ou, simplesmente fofocar. Alguns costumavam levar seu chimarrão, como Samir e Sami Kazzaka, outros iam acompanhados dos filhos, como Ibrahim Tarabay. Ali, reunidos, estavam  integrantes da velha guarda, como o pioneiro Nahim Chein, e recém-emigrados, Samir Kazzaka, Ismail Hussein, Antônio El Ters.
Logo de sua chegada, os palestinos traziam as angústias de uma trajetória acentuada pelo êxodo e pelo trauma da guerra. Em muitas narrativas, acentuam-se as dificuldades em se adaptar ao Brasil, seja cultural, social ou economicamente. A inserção em uma cultura diferente é desafio constante para a comunidade, pois ocasionará dilemas com relação aos hábitos e a sua identidade. Muitos se adaptaram ao novo modo de vida fronteiriço, integrando-se aos costumes locais, outros tiveram dificuldades de introduzir algum hábito. Certamente os pioneiros vivenciaram um processo dolorido de afastamento e ausência, consequência direta do conflito de 1967. Na terra natal que ficava para trás, restava à imposição de cruéis condições de subsistência com infelizmente, ainda vemos atualmente.
Nesse período a comunidade local passou a conviver com uma cultura distinta, diversa daquela tida como “fronteiriça”. O que inicialmente gerou certo encantamento, dado à diversidade e à cultura do mundo árabe, a variedade de mercadorias e métodos de vendas, também impulsionou o sucesso de suas “lojinhas”, muito coloridas, diferentes da sobriedade das casas tradicionais. Semelhante ao que ocorrido com os libaneses, que trabalharam de mascates, caixeiros viajantes, comerciantes e tinham suas lojas baseada na variedade de gêneros, mercadorias e método de vendas parcelado. Quando os palestinos chegaram encontraram os vigorosos comércios de origem libanesa, já referenciais na comunidade. Os preconceitos que alguns sofreram não alteraram a abertura positiva que sentiram por parte do povo brasileiro, e as condições favoráveis de comércio, bem como o acesso e assimilação da nova cultura.
Varejistas, em sua grande maioria, introduziam novas formas de comercializar e uma multiplicidade de mercadorias, unindo preços populares e diversidade. Geralmente suas lojas eram batizadas como um símbolo que identificavam sua terra, seja Casa Natal, Jerusalém, Belém, Palestina, ou mesmo Casa Paulista, curiosamente, em homenagem a cidade de São Paulo, que primeiramente os acolheu e que era provedora de suas mercadorias, onde havia numerosa comunidade de imigrantes e descendentes que formavam uma vigorosa identidade árabe.
O êxito dos pioneiros pode explicar o estímulo dado ao processo imigratório dos anos seguintes em todo o Rio Grande. Mas se o relacionamento com os fronteiriços foi caracterizado pela negociação entre as duas culturas, também não foi imune de desentendimentos e incompreensões mútuas. Logo após os primeiros anos da chegada, e com o êxito de seus comércios, muitas famílias tiveram que se aprimorar na língua portuguesa e observar atentamente ao seu redor a cultura local. Como seus irmãos libaneses, muitos empresários sofreram também algum tipo de preconceito, seja pela religião – a maioria muçulmana – seja pelo sucesso natural de seus empreendimentos populares e de produtos diversos que acabavam por arrebanhar uma clientela fiel. A partir dos anos 90, outro elemento foi incorporado a esse quadro, com a invasão dos EUA ao Iraque e após o 11 de setembro de 2001. Algumas famílias palestinas sofreram discriminação por serem muçulmanas em uma região predominantemente conservadora e cristã.
A partir de então, a comunidade palestina, com sua cultura fortalecida, graças também ao sucesso econômico de seus empreendimentos, vai resistir a novas ondas de estigma e preconceito, recriando estratégias de sobrevivência e convivência com a comunidade local. Seja na divulgação de seus hábitos culturais, como a adoção do véu - hijab - pelas mulheres, ou no lazer, com o fortalecimento da Sociedade Palestina e Árabe, e também a construção da Mesquita, a comunidade impõe seus costumes, revigorando sua identidade.
 Passadas mais de quatro décadas após sua tímida chegada à fronteira, a comunidade palestina santanense pode enfim comemorar sua unidade cultural e prosperidade econômica. Atualmente os palestinos fixados em Santana e Rivera contam com cerca de 550 integrantes, a maioria muçulmana. Muitos dos pioneiros residem no Brasil, porém tem empreendimentos em Rivera. Isso os distingue daqueles primeiros libaneses do início do século 20, que viviam e trabalhavam em Rivera.
As famílias pioneiras tanto as siro libanesas como palestinas inscreveram-se nos anais do crescimento econômico da região, graças a sua força de trabalho, determinação e, finalmente, a consolidação de um crescimento econômico ímpar. São proprietários de redes de hotelaria, imóveis, meios de comunicação, mega empreendimentos no comércio de importados, devolvendo a região um vigor somente vivenciado nas primeiras décadas do século passado. Embora nessa trajetória tenham encontrado alguns obstáculos para reestruturar suas vidas em uma terra estrangeira, estiveram sempre ligados a uma admirável persistência e vontade de lutar por dias melhores.
Assim constituíram novos laços culturais na região, sem esquecer sua cultura e a resistência política em busca de justiça para a terra tomada de seus pais e avós: a Palestina. Outros descendentes de pioneiros libaneses sentem orgulho de suas raízes árabes, seja da culinária, do sobrenome ou do cedro símbolo da terra de seus pais ou avós, o Líbano. Finalmente, a herança árabe é uma marca permanente em nosso cotidiano. Seus elementos culturais estão plenamente integrados seja na escrita, na arquitetura, na gastronomia, nas danças e contos populares, o fato é que o universo mourisco perdura e faz parte da nossa identidade brasileira, uruguaia e gaúcha.  Apesar de ainda haver certa dose de preconceito, por conta da desinformação e dos mitos que circulam inclusive na mídia, felizmente a maioria da comunidade árabe tem ótima relação com as demais, em um ambiente de tolerância e diversidade. Também não faltam imigrantes e descendentes de árabes que se tornaram “fãs” do churrasco e do chimarrão. O chimarrão pode ser considerado uma bebida dos “dois mundos”, pois hoje em dia, tanto palestinos, libaneses e sírios sorvem um mate amargo em seu cotidiano seja de lazer ou trabalho.
        O imaginário da presença árabe no Brasil e Uruguai é diferente que em outros países  por exemplo, é comum que os brasileiros e uruguaios associem os árabes apenas aos sírios e libaneses, povos que formaram a maior parte da colônia nos dois países. Na França, no entanto, quando se fala em árabes, eles pensam nos argelinos, nos marroquinos. Na fronteira do RS, lembramos os palestinos.
 Por último temos de lembrar que esse processo imigratório árabe que aconteceu no Uruguai e Brasil, no final do século 19 e inicio do 20 foi muito diferente do processo diaspórico que ocorre atualmente nos países árabes. Os primeiros imigrantes síro libaneses que deixaram suas casas, sua famílias, viajaram por variados motivos, mas também por melhores condições de vida na nova terra que escolheram para viver. Muitos ainda têm uma casa para retornar. A maioria pôde escolher seu destino. Os palestinos que emigraram depois de 1948 e principalmente, logo após 1967, foram obrigados a deixar sua família, seu lar e sua terra. Por conta da ocupação israelense que os expulsou violentamente, e até hoje continua fazendo que muitos jovens, que desejavam apenas constituir sua família, morar na terra de seus ancestrais, tenham que viver segregados ou em outros países, alimentando o sonho de um dia retornar e ter sua família e casa de seus avós de volta . Esses ficaram apenas com a chave da casa, mas continuam lutando e sonhando. 

Liane Chipollino Aseff.

Texto apresentado na Sala Antel (Rivera) durante o IV Festival Sul Americano da Cultura Árabe, Unipampa.

Fotos: 1. Os jovens jornaleiros de Humberto Curi, em frente a livraria El Estudiante, em Rivera, 1939. (acervo Osmar Santos). 2. Jose Seluja e um amigo, mascates no Uruguai do início do século XX (acervo Antonio Seluja). 3. O fotógrafo pioneiro Elias Normey, em seu estúdio de Rivera (acervo Osmar Santos). 4. Os irmãos Sami e Samir Kazakka, em frente a Casa Sami, rua dos Andradas, na Santana do Livramento dos anos 50 (acervo Samir Kazakka). 5. A tradicional Casa Salim, em Santana do Livramento. 6. Vitoria Maluf e sobrinhos, em frente ao comércio de Rage Maluf, na Avenida João Pessoa (Santana do Livramento), na década de 50 (acervo família Maluf). 7. O pintor Clarel Neme, fotografado em 1971 por Osmar Santos. 8. A palestina é sua, liberte-a (foto Marlon Aseff). 9.  O comerciante palestino Ahmad Musa Abdell Karin Shueik, em sua loja na cidade de Santana do Livramento. (clique nas imagens para ampliar).

terça-feira, 5 de março de 2013

Na Venezuela, ouvindo as gentes...

É 22 de janeiro de 2006 na cidade de Caracas. Os olhos, estrangeiros e curiosos, procuram a vida que pulula na grande capital venezuelana. Pela minúscula janela do pequeno e velho coletivo que atravessa a cidade é possível vislumbrar algumas bandeiras tingidas de vermelho, azul e amarelo: as cores do país. No chiquérrimo bairro de Altamira uma marcha está se formando. São os “esquálidos”, opositores do governo Chàvez, que se manifestam pedindo eleições livres. Segundo eles, até agora, as mais de dez eleições que ocorreram na Venezuela, inclusive um referendo nacional, não aconteceram dentro da legalidade. Mas, na verdade, o que querem – e é o que dizem seus cartazes e consignas – é que Chàvez deixe o cargo de presidente. Não o suportam. “É um louco, ditador. Quer acabar com o país”, dizem. Na caminhada pelas ruas bonitas dos bairros mais ricos a aparência dos manifestantes chama a atenção. São mulheres muito bem trajadas, algumas com seus cachorrinhos de estimação. Boa maquiagem, viseiras coloridas, tênis e óculos de grife. Os homens ostentam elegância e mostram um certo desajeito na prática de protestar. Mas há também algumas alas de trabalhadores, mais empobrecidos, com bandeiras de sindicatos. Vez ou outra também se percebe, tremulando, a bandeira estadunidense. Não se vê soldados. Tudo flui com tranqüilidade. É a primeira imagem da cidade captada pelas retinas, que logo vão perceber os paradoxos e contradições desta sociedade que ensaia, há sete anos, uma guinada para o socialismo.

O ônibus segue seu caminho em direção ao bairro Sabana Grande e em poucos minutos a cidade parece trocar de lugar. Como num passe de mágica, outra Caracas surge. Não mais as ruas limpas, os enormes out-doors, os prédios clarinhos, os carros importados, os centros comerciais, as gentes bem vestidas. O que se vê são calçadas tomadas pela infinidade de barracas de lona do mercado informal. As ruas estão sujas, há lixo nas esquinas e as pessoas comuns estão envolvidas em uma outra marcha: a da sobrevivência. O grande bulevar da Sabana Grande é pura degradação. Nele vicejam os hotéis de encontros fortuitos, os mendigos, alguns garotos e garotas drogados e mais e mais barracas onde se vende tudo o que há. Mais adiante, na direção da periferia, desaparecem os toldos de lona e surgem as imensas comunidades de tom marrom, que se espalham pelos morros cheias de barracos de tijolo ou lata. É gritante a divisão das duas Caracas, o que torna mais compreensível a guerra ideológica que é travada nas ruas. Nos bairros ricos e limpinhos as pessoas lutam para manter a vida pequeno burguesa, aparentemente protegida, que o dinheiro pode comprar. Nos bairros degradados e na periferia as gentes lutam por mudanças concretas que as levem para uma vida digna, de riquezas repartidas. Essa dicotomia de projetos é tão visível e densa que quase se pode tocar com as mãos.

Os informais

A grande cidade caraqueña pulsa. Ela é toda som. As ruas cheias de barracas de vendedores ambulantes são como enormes salões de baile a céu aberto. As músicas típicas da Venezuela, a “llanera”, a salsa, o merengue e o regatón ecoam por todos os trajetos que se pense fazer, numa altura inominável. Vende-se de tudo e, aparentemente, não há conflito com os vendedores formais, das lojas. O alcade (prefeito) de Caracas, Freddy Bernal tem bem claro que essa não é a vida que o povo da cidade quer ou precisa, mas afirma que está seguro de que os governos - federal e local - estão atacando as causas. “Nós poderíamos reprimir, impedir, mas em que estaríamos ajudando? A aumentar a criminalidade? O que estamos fazendo é o esforço de reativar a economia, apostando na criação de cooperativas de trabalhadores. Mas isso não se resolve num dia. A questão do trabalho informal é um assunto de Estado e é assim que o estamos enfrentando”.

Nas barracas, as opiniões se dividem. Um velho artesão é o primeiro a protestar: “Aqui temos o Fórum Mundial da fome e da insegurança e o governo não está conseguindo mudar isso. Temos médicos formados que estão trabalhando como ambulantes agora. Enquanto isso, Chàvez traz os cubanos para cuidar da saúde do povo. Ele tem que dar emprego é para nossa gente”, reclama. Já os três jovens da barraca ao lado discordam veementemente: “Por mais de 50 anos os médicos venezuelanos recém formados se recusaram a ir para interior, para os bairros, para a periferia. Só queiram ficar na capital, ganhar dinheiro às custas da dor. Agora, com Chàvez, eles tiveram sua chance de ajudar o povo. Não quiseram. Então foi preciso apelar para a solidariedade. Vieram os médicos de Cuba e estamos tendo acesso à saúde nos lugares mais distantes e pobres”.

A luta de classes está estabelecida em cada esquina. Contra ou a favor, as gentes da capital discutem e declaram suas opiniões. A batalha de idéias fervilha no metrô, nos ônibus, nos bares, nas barracas, em todo lugar. Jornais de direita e esquerda vendem aos borbotões. Raramente se vê um caraqueño sem um periódico na mão. Mesmo os que se dizem neutros arriscam falar: “Eu não sou chavista nem esquálido. Acho que têm algumas coisas boas sendo feitas, mas o que acontece é que o presidente está muito mal de acompanhantes. Muita coisa fica barrada pelos governadores e alcaides”, diz um dono de loja de material fotográfico. As pessoas tampouco desconhecem que por centenas de anos o país esteve entregue à mera extração do petróleo. Quase nada se fabrica na Venezuela, pouco se planta. Tudo o que os venezuelanos precisam, o dinheiro do petróleo traz de fora. Daí a dificuldade em resolver a questão do trabalho informal. Antes de prometer emprego para toda a gente alijada do processo produtivo, o governo de Chàvez precisa criar uma rede de produção endógena – “desde adentro”. Além disso, há que trabalhar toda uma nova cultura de produção agrícola que não é coisa que se consiga em poucos anos. “As coisas estão indo no rumo certo. Temos agora um fundo que dispõe recursos para projetos produtivos nas comunidades organizadas, temos o governo apoiando as fábricas ocupadas, temos a Missão Zamora, que incentiva o plantio das terras. A caminhada é lenta, pois as mudanças são radicais. Por isso, antes de tudo, é preciso educar o povo para uma nova sociedade. Sem isso, não avançamos”, afirma, cheia de esperança, a professora de escola infantil, Rosa Herrera. O filho de camponês, Marcos Hernandez, que vive no Estado de Zulia, fronteira com a Colômbia - e desfilava orgulhosos na marcha do fórum - confirma as palavras de Rosa. Ele, junto com toda a família, faz parte da Missão Zamora e acredita que com o incentivo do governo e a educação dos camponeses a terra vai começar a parir em todos os cantões da Venezuela. “Está na hora de plantarmos nossa própria comida”.

Os telefones de aluguel

Em meio à babel de cores e sons, a cidade de Caracas oferece um serviço absolutamente essencial: a telefonia de rua. Ao contrário do Brasil, em que quase cada ser tem um celular, na capital venezuelana as gentes usam o serviço das barraquinhas informais. Em todas as esquinas dos bairros mais populosos e do centro há uma mesa com vários celulares presos por uma corrente e uns dois telefones fixos. Por 300 bolívares – que equivalem a 30 centavos de real – qualquer um pode chamar a qualquer lugar, inclusive para o exterior. Ocorre que na Venezuela existe um serviço de telefonia fixa que é feito por satélite, portanto não é necessário que o telefone esteja conectado a um ponto na parede.

José Menezes, 33 anos, é um desses trabalhadores que monta sua barraca, todos os dias, em algum ponto movimentado da cidade. Ele não é o dono dos telefones. Trabalha para uma mulher que tem vários aparelhos distribuídos pelo centro e é ela quem fica com o lucro maior. Cada linha de telefone fixo custa em torno de 170 mil bolívares (170 reais) e os “moviles” (celulares) custam 180 mil. Assim, para montar uma barraca com telefones próprios é preciso um pequeno capital. José é soldador de profissão, mas já faz alguns meses que está desempregado. Então, o jeito foi encontrar uma saída no trabalho informal onde consegue tirar perto de 100 mil bolívares por semana (100 reais). “É pouco, mas já dá para sustentar a mulher e os dois filhos”.

Crítico do governo Chávez, ele insiste em dizer que tampouco é esquálido. Reconhece que o governo está fazendo muita coisa boa. “Os restaurantes populares são uma bênção. Têm comida de graça e salvam a nossa pele. As missões Robinson (educação superior) e a Ribas (alfabetização) são excelentes. Os médicos cubanos estão chegando aonde nunca ninguém chegou. Mas, há coisas por fazer. A Venezuela é um país muito rico por causa do petróleo e esse dinheiro tem que vir para os pobres. O presidente é bom, ampara os necessitados, mas acho que ele viaja muito. Tem que cuidar mais aqui de dentro”. José também acredita que é preciso investir mais na educação para mudança de hábitos. Diz que a missão Mercal, que distribui alimentos em mercados populares a custo muito baixo, também precisa de reformas. “O povo joga fora os alimentos que acredita não interessar. Isso é errado. Nunca se deve jogar comida fora”. Outra crítica que faz é com relação ao trabalho informal. “O presidente disse que não descansaria enquanto não tirasse todo mundo da rua. Já passou o tempo e a gente ainda está aqui”. José conta que nunca votou. Não confia em políticos. Agora, Chàvez caminha para mais uma eleição e quer fazer 10 milhões de votos. “E aí, vais votar?”. Ele sorri, pensa um pouco e brejeiramente faz suspense até responder: “No sé!”

Miraflores

Está bem ali, no meio do caos urbano, perto do fervilhar das barracas e do povo em confusão. Não é permitido andar pela calçada da frente, apenas pelo outro lado da rua. Mesmo assim, circulam livremente carros e gentes num ir e vir frenético. No portão principal do Palácio Miraflores ficam alguns “boinas rojas”, da guarda nacional, que são sempre muito simpáticos e abertos a conversas. Cumprimentam, apertam mãos, sorriem. “Do Brasil? Que belo. Estivemos lá, na semana passada, com o presidente. Estejam à vontade!”. São todos muito jovens, quase meninos. Fotografias não são permitidas e isso até parece pueril quando se percebe que, por todo o lado, estão os prédios altos de habitações populares. A impressão que passa é de que da janela do quarto andar de qualquer um daqueles edifícios pode-se ver o presidente dentro do palácio. Mas, é só impressão. A segurança de Chàvez, apesar de amistosa, é bastante eficaz e cuidadosa.

Naqueles dias de Fórum Social Mundial, com mais de 80 mil pessoas circulando por Caracas, não foram poucos os visitantes dispostos a perscrutar cada detalhe do prédio, rememorando os fatos mais quentes da história recente, quando do golpe em 2002. “Eu fiquei ali, olhando o portão de ferro onde o povo lutou bravamente para ter Chàvez de volta durante o golpe de Carmona e seus comparsas. Foi uma emoção muito forte”, conta o mexicano Adolfo Morales, professor de Economia na Universidade Autônoma do México, que perambulou pela rua por um longo tempo, a olhar com profunda reverência cada rosto caraqueño que lhe sorria. “A gente vem e vê onde o povo resistiu, onde alguns venezuelanos morreram para defender a Constituição e parece que tudo fica mais forte no coração”, diz, emocionada a estudante paraguaia Laura Torres.

Misturado ao corre-corre de Caracas, Miraflores não tem nada de especial. É um grande prédio amarelo-pálido, por onde entram e saem trabalhadores e soldados de boina vermelha. Mas, como num encantamento - que pode ser tudo o que significa a revolução bolivariana - ele adquire uma aura que transcende ao arquitetônico. Quem viu o vídeo “A revolução não será televisionada” não pode deixar de se arrepiar ao caminhar por aquele paço onde milhares de pessoas trouxeram de volta, no grito, na raça, o seu presidente. “Chàvez tem o coração bom, é um homem bendito. Nós o amamos. O que move os esquálidos contra ele é o ódio. É que antes tudo era para os ricos. Agora, é para o povo todo. Por isso o queremos”, conta a professora Sormarina Enrique, que esteve lá, na rua, em defesa do presidente. “Nas eleições, Chàvez vai varrer. Faremos os 10 milhões”.

O interior

A cidade de Puerto Ordaz fica na beira do Orinoco e tem sua economia baseada no setor de mineração e industrial. Dali sai ferro, bauxita, ouro e alumínio. Dos seus rios sai a energia elétrica que supre quase 70% do consumo do país. É uma cidade rica que também enfrenta os mesmos paradoxos que a capital, Caracas. Ali vive Alberto Soares, 54 anos, um típico trabalhador venezuelano que aposta toda a sua vida na proposta da revolução bolivariana. Filho de um maquinista de trem, criado nas minas, ele não tem dúvidas em dizer que agora o país está bem melhor. “Quando eu era soldado tinha como missão levar as cartas que chegavam para o presidente. Lembro que ninguém nem abria aqueles envelopes. O povo não tinha vez. Hoje não. As cartas são entregues ao Chàvez, ele lê, responde na televisão ou por carta também. Isso é bom. Temos os médicos cubanos que atendem a todo mundo. Antes, um trabalhador não tinha condições de comprar óculos. Hoje os ganhamos. Estamos também incrementando a indústria. A Venezuela vai fazer tratores e vender para o Irã. Havia mais de 20 anos que não eram criadas universidades. Hoje temos a Universidade Bolivariana, ensino de graça para todos. Que mais a gente pode querer?”.

Alfredo conta que trabalha atualmente num dos mercados populares criados pelo governo para abastecer as populações empobrecidas. “O Mercal é uma coisa ótima, permite que as pessoas possam comprar alimentos baratos. Antes, os empresários faziam o preço que queriam e os pobres ficavam na mão. Hoje, num Mercal, o quilo de frango - base da comida venezuelna – custa 1.500,00 bolívares (equivalente a 1,50 real), enquanto que nos mercados privados passa dos quatro mil bolívares (quatro reais). “Os empresários não gostam, mas eles precisam aprender que é preciso investir na produção e que a prioridade tem de ser o povo. Hoje, com o Mercal, o alimento chega a todos, até nas comunidades indígenas”.

Para o trabalhador de Puerto Ordaz a vida só melhora. “Imagina se eu ia conseguir emprego com 54 anos, antes da revolução bolivariana... Quando fui procurar uma vaga no Mercal, ninguém me perguntou a idade ou minha filiação partidária. Eu sou crítico. Se o governo faz algo errado, eu protesto, mas o que é bom tem que ser dito”. Alfredo conta que enfrenta a divergência dentro da própria casa. A mulher dele, professora primária, é anti-chavista mas, segundo Alfredo, sequer consegue argumentar porquê. “Eu digo que agora as coisas funcionam. Ela diz que o estado está militarizado. Está bem, é verdade. Mas eles (os militares) são mais honrados que os civis. Quando os civis tiveram sua chance de governar não responderam bem”. Como quase todo venezuelano, Alfredo está muito bem informado sobre o que acontece na Venezuela e no mundo. Diz que tem um pouco de medo do que os Estados Unidos podem fazer contra Chàvez e contra seu país. Lembra do que aconteceu no Iraque, no Afeganistão e no Chile, com Allende. Mas, como conhece todas as missões que estão em andamento, acredita que o povo vai saber defender esse patrimônio que estão construindo.

Puerto la Cruz fica na beira do mar do Caribe. Vive do turismo, de algumas indústrias e tem uma das mais importantes refinarias de petróleo. André é motorista de táxi e vive ali desde menino. Também vê com bons olhos o que acontece no país. Sabe que as coisas estão melhores do que antes, mas tem lá as suas críticas. Segundo ele, em sete anos de governo, já era para Chàvez ter resolvido algumas questões fundamentais como a da moradia e do emprego. Ele tem pressa. Jesus é produtor de TV e também acredita na mudança que a revolução bolivariana vem provocando na vida de todo mundo. “O problema é que Chàvez está mal cercado. Tem muito governador e alcaide que faz as coisas erradas. Eles têm seus protegidos e isso tira a confiança do povo. O presidente tinha que ficar mais atento a isso”. Angelita é dona de um pequeno restaurante na beira do mar. Não gosta de Chàvez e nem quer falar sobre política. “Ele é muito autoritário. Não gosto e ponto”.

Na Isla Margarita, principal reduto turístico do país, no meio do mar do Caribe, há um sentimento anti-chavista bem grande, pelo menos entre os profissionais liberais e comerciantes. Ninguém apresenta argumentos muito claros, mas é visível a incomodação que provoca qualquer comentário positivo ao presidente. “Aqui ninguém quer saber de Chàvez. E se ele ganhar as eleições alguma coisa vamos fazer. Não vamos aceitar”, diz Reñedo, que vive de levar turistas a passear no seu táxi por toda a ilha. No centro da capital, Asunción, apesar de serem visíveis as atividades das missões bolivarianas, parece que as pessoas ainda não conseguiram assimilar a importância do que está acontecendo. Na beira da praia de El Humo, um pescador, vestido com uma camiseta da missão Robinson admite que é bom que chegue a educação, mas não tem opinião alguma sobre Chàvez. Diz que nem vota.

Noris é assistente social do estado de Nova Esparta e está na estrada pedindo carona. A alcadia não tem recursos para transporte e o ônibus demora demais. Ela também compartilha da idéia de que quem estraga o trabalho de Chàvez são os governantes locais. Ela mesma se vê frustrada no seu trabalho diário. “Eu visito as famílias, vejo quem tem necessidade de ajuda, de emprego, de cesta básica. Faço os relatórios, encaminho os pedidos, mas as coisas ficam barradas na burocracia. Muitos dos alcaides e governadores primeiro ajudam seus amigos. A gente fica desacreditada”. Já os pescadores da praia de Manzanillo culpam Chàvez até pelo estado do mar. Naqueles dias de 2 e 3 de fevereiro não conseguiram sair para pescar pois havia muita agitação na água. “Aqui precisamos de novas construções para vender o peixe, de barcos mais modernos. E nada vem”. Já Noris entende que o que precisa mudar na ilha é a cultura de esperar sempre por alguém que dê as coisas de mão beijada. “O povo não tem a cultura de se organizar e lutar pelas coisas. Não consegue nem organizar o lixo, vê? Isso é um desafio para o governo bolivariano. É o que precisa mudar antes de tudo”.

A vida segue...

O certo é que na Venezuela, entre a população, as opiniões se dividem de forma muito clara. Há os que são a elite predadora de sempre e que não quer, de maneira alguma, perder seu poder. E há os que têm muito medo do socialismo, porque não o conhecem e são aterrorizados diariamente pela empresas de televisão e de radiodifusão. Os programas de debates chegam a extremos de agressividade contra a pessoa do presidente. Coisa que nenhum outro suportaria. Jornalistas famosos dizem as maiores barbaridades no rádio e na TV e ainda acusam o governo de censurar a comunicação. Nada mais falso. Eles dizem o que querem e provocam o pavor. Defendem o governo estadunidense da forma mais aberta possível e dizem que se o presidente continuar a desafiar o país de Bush, a guerra fatalmente virá. Muitos deles funcionam ainda como porta vozes das autoridades estadunidenses, respaldando-os como homens de boa fé. Isso causa confusão e muito temor nas camadas médias da população que temem perder pequenos privilégios que o dinheiro garante.

Por outro lado, as televisões estatais apresentam os discursos de Chàvez na íntegra e, neles, o presidente procura apresentar aos venezuelanos a sua versão dos fatos. Com uma linguagem simples ele vai contando histórias e trazendo informações sobre o que anda fazendo. Também as TVs e rádios comunitárias fazem sua parte tentando mostrar outras coisas que a TV comercial não mostra. A guerra ideológica também se explicita nesse campo. Vários casos de agressão a repórteres populares são registrados diariamente e há uma batalha na justiça contra um jornalista de uma grande rede que chegou a quebrar a câmera de um repórter durante uma manifestação de esquálidos. Há sempre uma tensão no ar e nada garante a estabilidade da proposta bolivariana. Há muitas consciências a ganhar e muito trabalho de base por fazer.

Nos bairros mais pobres também se apresenta uma ambigüidade. A maioria das pessoas aposta na figura de Chàvez. É ele quem monopoliza a esperança e a crença num tempo melhor. Quem nunca teve acesso à educação, saúde, lazer, alimentação, devota a ele o maior amor. Isso pode ser um caminho para o personalismo e o paternalismo, risco diário da revolução bolivariana. Chàvez mesmo sabe disso e procura, via a institucionalidade do estado, organizar as comunidades. Mas, mesmo ele acredita que essa organização tem que nascer do desejo das gentes. Não pode ser mais uma “doação” do governo. “Tivemos muitos anos de um país dependente de tudo. Agora, temos de começar do zero. Esse é o nosso maior desafio a vencer”.

Outro elemento importante para julgar os avanços sociais do governo bolivariano é a consciência de saber que nestes sete anos - que parece muito tempo – o presidente e seus aliados enfrentaram a elaboração de uma nova Constituição, novas eleições presidenciais, um golpe de estado e um referendo revocatório. Tudo isso foi feito junto com o processo de instalação das missões que cuidam dos mais variados aspectos da vida da população. Trabalho de gigantes, ainda em construção... A Venezuela é uma promessa, tudo pode acontecer!

texto getilmente cedido pela jornalista Elaine Tavares, Mestre em Comunicação Social pela PUC/RS e, segundo ela mesma, "Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos, inaugurando o esperado pachakuti". 

(foto: site Ola Bolivariana)
Publicado originalmente em 9/2/2006. 

segunda-feira, 4 de março de 2013

A comunidade palestina na fronteira: afirmação cultural e força econômica



Os árabes não são estrangeiros em território rio grandense. A tese defendida pelo escritor Manuelito de Ornellas já em 1948, mostrava como a presença desses povos entre nós remonta, por outras vias, a primeira ocupação luso e espanhola, que trazia em seu DNA a forte herança da presença mourisca na Península Ibérica (beduínos, berberes e maragatos). Em sua obra clássica, Gaúchos e Beduínos, o autor estabelece semelhanças entre a cultura gaúcha e árabe, examinando os costumes, hábitos, vestimenta e tradições. Numa poética referência às culturas, o escritor recorre aos hábitos comuns ao gaúcho do pampa e ao homem do deserto para miscigenar e integrar as culturas. Nas palavras de Manuelito: “O gaúcho mais feliz no seu habitat forma sua caravana e carretas. De aguillada em punho segue pelas estradas do pampa, estradas que serpenteiam terras cobertas de verduras- em noites e dias de pacienciosas jornadas. É como um Beduíno um homem melancólico, nostálgico, ladeado sobre pelegos do lombilho, ou serigote, no lombo do cavalo acompanha sonolento a marcha tarda dos bois. À noite, pousa em acampamentos, como o árabe, sob a colcha das estrelas. E, como o árabe, canta suas cantigas nostálgicas a som dos mesmos instrumentos comuns- a cordeona e a guitarra”.

O ano de lançamento dessa obra – 1948 - remete frontalmente a questão palestina, pois neste momento iniciava-se o conflito nascido com a criação do Estado de Israel, culminando com a invasão do território palestino e a 1ª Guerra Árabe-Israelense. Assim, a emigração palestina se deveu em um primeiro momento a fatores socioeconômicos gerados pela dissolução da Palestina e, em um segundo momento, da ocupação israelense da Cisjordânia e da Faixa de Gaza a partir de 1967.
 
Entretanto, o processo emigratório espontâneo teve inicio bem antes, quando a partir de 1860 os primeiros fluxos significativos de árabes deixaram o Oriente Médio rumo aos países da América Latina e América do Norte. Inicialmente viajaram os sírios e libaneses, e em menor número, os palestinos. Os pioneiros deixaram suas pequenas aldeias e povoados em uma longa e cansativa travessia do Atlântico, que perdurava meses. Registros oficiais apontam a chegada significativa desses imigrantes aos portos de Montevidéu, Buenos Aires, Rio de Janeiro e Santos a partir das décadas de 1870, 1880 e 1890. Muitos desses imigrantes acabaram fixando residência na faixa da fronteira gaúcha com o Uruguai, em especial, nas cidades de Santana do Livramento e Rivera, Quaraí, Artigas, Bagé e mais tarde no Chuí.
 
 A presença da comunidade árabe sírio, libanesa e palestina na fronteira de Santana do Livramento pode ser traduzida como um mundo constituído através da solidariedade, amizade e disposição para integra-se a novas experiências e lugares. As primeiras famílias palestinas chegaram ainda em menor número, em meados dos anos 50. A presença mais significativa dos palestinos na região só viria a ganhar novo impulso após os conflitos de 1967. Em sua maioria, os homens chegavam sozinhos. Eram casados, ou compromissados, viajavam com amigos ou parentes, deixando a mulher e filhos na Palestina natal. A diáspora impunha-se frente às impossibilidades de trabalho e ao amparo da família em uma região de conflito e dor. Se a emigração era associada a sinônimo de lugares seguros onde trabalhar e viver, também significava encarar novos caminhos e novas culturas. Os palestinos chegavam dispostos a trabalhar e adquirir capital para, mais tarde, trazer suas esposas e filhos e reunirem-se com a família, mesmo que em alguns casos esse processo perdurasse por vários anos. A relação afetiva era mantida através de cartas, fotografias, lembranças, onde os pais viam seus filhos crescendo através de imagens enviadas por suas esposas.
 
Certamente os pioneiros vivenciaram um processo dolorido de afastamento e ausência, conseqüência direta da guerra de 1967. Na terra natal que ficava para trás, restava à imposição de cruéis condições de subsistência. Habihi Zeidan, relembrando aqueles anos, quando então era uma adolescente, salienta o momento de instabilidade social, terror e insegurança que a população de Jerusalém padecia:
 
“Pela insegurança, realmente, deixei o colégio, eu tinha recém o segundo ano do segundo grau, tinha 15 anos, deixei colégio, casei com 16, porque fecharam a escola, os judeus! Lá, quando começou a nossa história, em 67, a guerra começou a eliminar nossos livros, começaram a tirar nossas matérias no colégio. Depois, dificuldade para terminar mesmo. Ah, no começo eles fizeram horror!E as pessoas começaram a sair, quem tinha filho mandava fora.”
 
Logo de sua chegada, os palestinos traziam as angústias de uma trajetória acentuada pelo êxodo e pelo trauma da guerra. Em muitas narrativas, acentuam-se as dificuldades em se adaptar ao Brasil, seja cultural, social ou economicamente. A inserção em uma cultura diferente é desafio constante para a comunidade, pois ocasionará dilemas com relação aos hábitos e a sua identidade. Muitos se adaptaram ao novo modo de vida fronteiriço, integrando-se aos costumes locais, outros tiveram dificuldades de introduzir algum hábito. Luciano Machado, cronista santanense, relembrando um dos pioneiros, Ismail Hussein, comenta sua resistência em cultivar o chimarrão, hábito identificador da cultura gaúcha:  “Ele simplesmente não aceitava o fato de uma série de pessoas, dispostas em uma roda, tomarem mate em um mesmo recipiente. Parecia-lhe algo pouco asseado”. No entanto, assegura o cronista, “apreciava um chá ou um café com bolachinhas, com o que obsequiava aqueles que o iam visitar ali na Casa Jerusalém”.
 
Ainda assim, muitos contemporâneos de Ismail, palestinos e libaneses, adaptaram-se e integraram-se ao novo lugar, sendo comum encontrá- los tomando seu chimarrão no ambiente de trabalho ou familiar. A chegada desses imigrantes será caracterizada pela força de vontade e a persistência em recomeçar suas vidas. Todavia, é inegável que a inserção em uma cultura diferente, bem como em outra realidade sócio-política, trouxe mudanças e dilemas em relação aos hábitos e a própria identidade. O resultado deste processo foi uma conciliação entre estas realidades, com a adesão às duas nacionalidades, tendo a comunidade cultivado uma identidade renovada, com as diferenças culturais coexistindo e integrando os palestinos e seus descendentes brasileiros ao lugar que escolheram para viver!
No fenômeno complexo e múltiplo da imigração, torna-se necessário verificar o grau de abertura, de acolhimento, enfim, de hospitalidade com que os imigrantes foram recebidos, em contraponto com as peculiaridades culturais desses imigrantes, e que proporcionou a reformulação de suas vidas. 
Nesse período a comunidade local (Santana e Rivera), passou a conviver com uma cultura distinta, diversa daquela tida como “fronteiriça”. O que inicialmente gerou certo encantamento, dado o “exotismo” de sua cultura, a variedade de mercadorias e métodos de vendas, também impulsionou o sucesso de suas “lojinhas”, assim como no início do século ocorrera com os libaneses, que trabalharam de mascates, caixeiros viajantes, circulando pelas cidades do Rio Grande. 

Quando os palestinos chegaram encontraram os vigorosos comércios de origem libanesa, já referenciais na comunidade fronteiriça. Os preconceitos que alguns sofreram não alteraram a abertura positiva que sentiram por parte do povo brasileiro, e as condições favoráveis de comércio, bem como o acesso e assimilação da nova cultura. Varejistas, em sua grande maioria, introduziam novas formas de comercializar e uma multiplicidade de mercadorias, unindo preços populares, diversidade e qualidade. Geralmente suas lojas eram batizadas como um símbolo que identificavam sua terra, seja Casa Jerusalém, Casa Natal, Casa Palestina, ou mesmo Casa Paulista, curiosamente, em homenagem a cidade de São Paulo, que primeiramente os acolheu e que era provedora de suas mercadorias.
O êxito dos pioneiros pode explicar o estímulo dado ao processo imigratório dos anos seguintes em todo o Rio Grande. Mas se o relacionamento com os fronteiriços foi caracterizado pela negociação entre as duas culturas, também não foi isento de desentendimentos e incompreensões mútuas. Logo após os primeiros anos da chegada, e com o êxito de seus comércios, muitas famílias tiveram que se aprimorar na língua portuguesa e observar atentamente ao seu redor a cultura local. Como seus irmãos libaneses, muitos empresários sofreram também algum tipo de preconceito, seja pela religião – a maioria é muçulmana – seja pelo sucesso natural de seus empreendimentos, populares e de produtos diversos, que acabavam por arrebanhar uma clientela fiel. A partir dos anos 90, outro elemento foi incorporado a esse quadro, com a invasão dos EUA ao Iraque e após o 11 de setembro de 2001.
Algumas famílias palestinas sofreram discriminação por serem muçulmanas em uma região predominantemente cristã. A partir de então, a comunidade palestina, com sua cultura fortalecida, graças também ao sucesso econômico de seus empreendimentos, vai resistir a novas ondas de estigma e preconceito, recriando estratégias de sobrevivência e convivência com a comunidade local. Seja na divulgação de seus hábitos culturais, como a adoção do véu pelas mulheres, ou no lazer, com a inauguração da sede social da Sociedade Palestina, a comunidade se fortalece e impõe seus costumes.

As mães procuram matricular seus filhos em escolas que respeitem e estimulem suas práticas religiosas, e no aspecto estritamente religioso, a construção da primeira mesquita e mais tarde o cemitério da comunidade palestina, são marcos de uma plena e exitosa fixação nas terras fronteiriças. Passadas mais de quatro décadas após sua tímida chegada à fronteira, a comunidade palestina santanense pode enfim comemorar sua unidade cultural e prosperidade econômica. Atualmente os palestinos fixados em Santana e Rivera contam com cerca de 550 integrantes, a maioria muçulmana. Muitos dos pioneiros residem no Brasil, porém tem seus negócios também e às vezes preferencialmente em Rivera. Isso os distingue daqueles primeiros libaneses do início do século 20, que viviam e trabalhavam em Rivera.
As famílias pioneiras inscreveram-se nos anais do crescimento econômico da região, graças a sua força de trabalho, determinação e, finalmente, a consolidação de um crescimento econômico ímpar. São proprietários de redes de hotelaria, meios de comunicação, mega empreendimentos no comércio de importados, devolvendo a região um vigor somente vivenciado nas primeiras décadas do século passado. Embora nessa trajetória tenham encontrado alguns percalços para reestruturar suas vidas em uma terra estrangeira, estiveram sempre ligados a uma admirável persistência e vontade de lutar por dias melhores. Assim construíram novos laços culturais na região, sem esquecer sua cultura e a resistência política em busca de justiça para a terra tomada de seus pais e avós: a Palestina!

Dedico este trabalho a memória de Ismail Hussein, Ahmad Musa Abdell Karin Shueik, Hilmi Addalah, Ahmad Suleimam, Andres Al Bahuna. Também aos apoiadores desta pesquisa, Hamad e Habihi Zeidan, Mohamad El Hannini e Monir Suleiman.

foto: em meados dos anos 50, a comunidade árabe fronteiriça confraterniza no Parque Internacional.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Documentário recupera a trajetória de Valda Costa na arte catarinense

Na Ilha de Santa Catarina, as décadas de 70 e 80 foram de artistas e de revoluções. Uma Florianópolis ainda com ares de província cuidava de não parar no tempo. À cargo dessa movida estavam jornalistas, músicos e artistas plásticos. Pintores inovadores como Max Moura, Jayro Schmidt, Rodrigo de Haro e Janga, entre outros, conviviam com ícones de um modernismo tardio e exuberante, nas figuras de Martinho de Haro, Silvio Pléticos, Vechietti e Meyer Filho.

Nesse caldeirão efervescente que refletia passado, presente e futuro surge a pintora Vivalda Costa, a Valda. Autodidata, negra e muito bonita, ela seria modelo e musa de Martinho de Haro, de quem soube recolher os melhores conselhos para sua palheta. Mas Valda foi além. Pintou a ilha e seus costumes, pintou os morros, as favelas, o folclore. Foi classificada de naif, quando na verdade superou os limites dessa escola, tornando-se única em sua arte.

No documentário Caminhos de Valda, o jornalista e historiador Marlon Aseff recupera a trajetória da artista desde seus primeiros passos na comunidade do Morro do Mocotó, até sua morte prematura, em 1993. Para mostrar a arte de Valda Costa e rememorar seus caminhos por aquela Florianópolis de outrora, o diretor buscou o depoimento de amigos, familiares e colegas de arte. Também selecionou algumas das mais significativas obras da artista, que viveu intensamente sua pintura, até a morte. O documentário, de aproximadamente 26 minutos, foi realizado com recursos do prêmio do Edital Catarinense de Cinema, do Governo do Estado de Santa Catarina.

Confira as imagens da estréia do filme, dia 18 de dezembro de 2012, no Museu Victor Meirelles.
(fotos obtidas no blog Mar Que Falta, Museu Victor Meirelles). Veja também o vídeo registrado pela equipe do Museu, aqui.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

III Feira Binacional do Livro: Êxito e afirmação das Charlas


A terceira edição da Feira Binacional do Livro, na fronteira entre Santana do Livramento e Rivera, sacramentou a eficácia da charla como uma forma genuína de encontro entre brasileiros, uruguaios e fronteiriços. Em quatro dias de indisfarçável euforia, a Feira Binacional reuniu algumas das melhores cabeças da grande região hermana, que vai de Florianópolis a Montevidéu, com rastros na Paraíba, Rio de Janeiro, Santa Cruz do Sul e claro, Buenos Aires. Gente ligada às universidades federais, estaduais e particulares, pelo lado brasileiro. Pesquisadores do Centro Universitário de Rivera, representantes das bibliotecas uruguaias e funcionários do governo oriental. Poetas, músicos, artistas plásticos e escritores completaram o caldeirão cultural que alimentou as conversas/charlas, centradas neste ano em questões ligadas a literatura fronteiriça, o urgente mapeamento e preservação do patrimônio histórico, os desafios de usos e cuidados com o bioma pampa e o necessário incremento da produção cultural na fronteira. Na mesa “As políticas e os caminhos do patrimônio”, o historiador santanense, radicado em Santa Cruz do Sul, José Remedi, demonstrou porque a cultura fronteiriça precisa ser patrimonializada, para ser guardada para as futuras gerações. Mas tratou de afastar conceitos que ligam a cultura a uma concepção estática. “Cultura é mudança, por isso não se trata simplesmente de congelar algo, mas de conservar com modificações pactuadas”, ensinou. Cultura envolve os germes da estabilidade e da mudança, já a tradição deve ser encarada como o passado atualizado no presente, definiu Remedi. Já o arqueólogo e antropólogo Fernando Acevedo tratou do turismo patrimonial e um extenso trabalho que desenvolve na preservação de festas, saberes, manifestações e conhecimentos ligados a extensa área protegida do pampa na zona de fronteira, que envolve os municípios de Santana, Alegrete, Quaraí e Rosário, além dos municípios uruguaios. A historiadora Liane Aseff assinalou as ações em prol do tombamento do Parque Internacional. Lembrou dos tempos ancestrais, onde o Areial era o espaço preferencial do lazer fronteiriço. O tombamento está sendo analizado pelo IPHAE. O historiador Eduardo Palermo, do CERP Norte, lembrou de uma Rivera histórica, através de gigantografias que mostram momentos distintos da formação da cidade uruguaia, de Villa Ceballos a Rivera. A mesa foi coordenada pelo historiador Alejandro Gau, do CERP Norte.
Pela manhã, a historiadora riverense Selva Chirico brindou a todos com um fascinante relato sobre os comércios tradicionais de Rivera, que povoaram a infância e até hoje fazem parte do imaginário local. Rosario Brochado abordou a linguagem fronteiriça desde a perspectiva do patrimônio e sua conservação, enquanto o arquiteto e urbanista Luis Eduardo Fontoura Teixeira tratou da importância do conhecimento do patrimônio regional, os usos contemporâneos e efetivos dos bens tombados e da necessidade urgente de se delimitar áreas de proteção cultural. “A população precisa conhecer a história desses lugares para poder preservá-los”, enfatizou. Miguel Angelo Peres Pereira, da Prefeitura Municipal de Livramento, colocou a todos a par das dificuldades inerentes ao poder público e as necessárias articulações entre sociedade e classe política na busca pela preservação dos bens culturais. A bela e diversa literatura produzida na fronteira, em especial os escritos de dois grandes literatos que foram Arlindo Coitinho e Hipólito Zas Recarey, foi abordada pela pesquisadora e professora de literatura uruguaia, Alejandra Rivero (ver post abaixo) e Ariel Pereira. O professor Oneider Vargas recordou da produção cultural e engajada de Coitinho, junto a viúva do escritor santanense, Sônia Cabeda, que esteve presente no evento. Já o político e empresário Ariel Pereira, criador do célebre Canal 10, falou sobre a vida e obra de seu amigo Zas Recarey. Emocionado, Ariel Pereira leu partes da obra do grande escritor riverense, que recupera a trajetória de personagens da cidade e locais tradicionais da região. A mesa foi mediada pelo radialista Antônio Carlos Valente.
A literatura produzida pelas mulheres foi o tema da mesa “Vozes femininas da literatura fronteiriça”, composta pelos professores Cláudia de La Barrera, Rosana Cottens, do CERP Norte e Maria Regina Prado Alves, da Academia Santanense de Letras, que abordou a obra literária de Tânia Alegria. A obra do escritor riverense Osvaldo Lezama e sua linguagem fronteiriça foi aboradada por seu filho, Grauert Lezama Pintos, sob a coordenação de Eduardo Palermo. Ecologia e Sustentabilidade, foi o tema que uniu as universidades brasileiras Unipampa, Urcamp e o Centro Universitário de Rivera (CUR). Mediada pelo professor e diretor do CUR, Mário Clara, a charla contou com a participação dos professores Fábio Régio Bento, Miriam Garat, Nei Edílson e Ludmila (CUR). Questões ligadas ao bioma pampa e as fragilidades inerentes ao ecossistema local formaram o núcleo dos debates. Também foram apresentados os projetos acadêmicos desenvolvidos em torno de sustentabilidade e ações futuras entre as instituições de ensino do Brasil e Uruguai.


 A charla em torno da produção musical na fronteira foi precedida pelo lançamento das memórias de Bráulio Lopez, o eterno olimareño, que relembrou de aventuras pela fronteira, entre amigos fundamentais e referências artísticas. Falou com reverência de Ruben Lena, o maestro rural que deu o impulso necessário à obra olimareña, lembrou de Amílcar Real e de Jorge Cafrune, o famoso folclorista argentino e suas andanças nas linhas de fronteira, quando foram detidos pela ditadura brasileira. Foi saudado com aplausos por um público entusiasmado. Na charla que encerrou a terceira edição da Feira, uma conversa que reuniu Adair de Freitas, o consagrado “cantautor” fronteiriço, Marcelo Dávila, poeta e letrista premiado em festivais nativistas de todo o Rio Grande, Alberto Esquivel, homem do candombe e da cultura afro-uruguaia e Richard Bértiz, legítimo representante da cena underground riverense, líder do grupo Corvus. Com tamanha diversidade, a mediação teve de esmerar-se para que a conversa não tomasse rumos aleatórios. O ponto de equilíbrio foi a questão política. Adair de Freitas lembrou da necessidade de um poder público efetivamente comprometido com a cultura local. “Museus não existem para ficar escondidos, em prédios inacessíveis ao povo”, lembrou o autor de “Previsão”. Marcelo Dávila acrescentou que a região vive um paradoxo, de integração comercial e desconhecimento cultural. “Precisamos nos interligar efetivamente, conhecer a nós mesmos!”, exortou. Alberto Esquivel mostrou a força que o candombe possui enquanto arte de inclusão e mobilização social, partindo dos afrodescendentes e encampando setores sensíveis da sociedade uruguaia. Por fim, Richard Bértiz fez um relato uma verdadeira aula sobre as origens do movimento punk e suas relações com a América Latina.




A questão da mentalidade, da aposta nos valores locais foi lembrada tanto por Adair de Freitas quanto por Marcelo Davila. “Público há, dinheiro há, o que falta é o real interesse em valorizar nossos próprios valores,”, sentenciou Dávila, que pediu o esforço coletivo na criação de uma rede frutífera de valores e cultura. A fronteira precisa dar um passo além, em aspectos como um maior profissionalismo de músicos, bares e restaurantes, e claro, a mídia. Sobrou para todos na hora de dividir a responsabilidade.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

ARLINDO COITINHO, y la construcción de la escritura operária

 
                                                                                            Alejandra Rivero
 
El domingo 27 de junio de 2010, Arlindo Coitinho decidió emprender el camino de regreso. Como varios de sus personajes, rescatados por su imaginación del oscuro olvido de la historia cotidiana de esta frontera, cruzó “a tênue linha que separa a vida da morte”. Algunos de ellos, João Bispo, Esmeralda, Flor de Liz, Coruja, Angelito de las Nieves, fueron erguidos a un estatus de permanencia a través de la literatura creada por este “chapeiro”, mientras sus vidas se vieron traspasadas por la pobreza, la aventura y por último la muerte. Arlindo, ser humano, como ellos fueron antes,  experimentó también “a ferroada definitiva da sábia poda da natureza (…) o infinito mistério, o gênio inspirador, a musa da filosofía.”

Arlindo fue uno de los mayores narradores de esta frontera. Paso a explicar este alegato tan contundente. Fue un escritor que supo retratar este lugar y su gente, a los personajes más pintorescos y fronterizos, íconos culturales de este perdido rincón del planeta. Su mirada altamente realista y su identificación total con el mundo ficcional por él creado, le permitieron obtener récords de ventas aquí, en la frontera. “Ele ensinou todo esse povão a ler”, recuerda Sônia Cabeda, su compañera de toda la vida.

Nació en Livramento, en 1942. Se inicia como escritor antes de 1975, año en que comienza a trabajar en Á Platéia (al inicio de la década del setenta escribe crónicas sobre la vida de las personas comunes, que son leídas por él mismo en un programa radial). Incentivan también a la formación del escritor las lecturas de Gracilhano Ramos, Jorge Amado y Érico Veríssimo, de quienes admitía recibir influencias. Elmar Bones (en aquel entonces, director de Á Platéia) reconoció al escritor detrás del cronista policial y le sugirió la publicación de un libro. De ahí nace Segue o baile, en 1981, primero de una serie ininterrumpida de veintiún títulos (hasta el último, O homem da coxilha, publicado en 2004).

Autodidacta, decía escribir en “santanés”, especie de dialecto portugués con profunda influencia del español, probablemente creado por él. En santanés escribió la serie Segue o baile I (1981), II (¿1981?), III (1992, 3era. ed.) y IV (2001), Bichicome (1982) y Estórias do edil Noventino (1991, 2da. ed.), apareciendo más tímidamente en los otros libros. Gozó de mucha popularidad en los 80 y en los 90, a pesar de no ser aceptado por la Academia Santanense de Letras para ocupar una de sus “cadeiras”, pues el realismo de Arlindo Coitinho pegó fuerte en la sensibilidad fronteriza, tanto para bien como para mal.

A lo largo de sus obras se percibe un desfile de personajes (la mayoría pertenecientes a la realidad fronteriza, transformados en personajes de ficción) los que dan vida a un mundo conformado por la ley del “más vivo”, donde el “abombado” o el “coió” no logran una inserción positiva debido a su ingenuidad e inocencia. En el mundo ficcional de Coitinho se construye una sociedad en la que prima la falsedad del lumpen y el mal vivir de los negocios turbios, la prostitución, el juego y el alcoholismo, actitud literaria que refleja un intento naturalista[1] por demás ortodoxo.

El “chapeiro”

“Declaro que não possuo títulos. Aprendí muito cedo a lutar na vida. Fui aprendiz de barbeiro e de sapateiro, balconista, bicheiro, chapa de caminhões de transportes, operário do Frigorífico Armour e da Companhia de Engenharia Sergen”. Así se define Arlindo Coitinho en el prólogo de Caudilhismos, rinhas, machadaços (1987), una de sus obras más importantes. Su escritura también evidencia un trabajo de obrero, que progresa hacia una narración de lenguaje y estilo propio, cuyo afán de mostrar la realidad, que para muchos debería permanecer en el anonimato, transforman a este “chapeiro” en un eximio narrador. Pero hay que destacar rotundamente que la etapa de la “chapa” de sus primeros libros es fundamental en la construcción del escritor.

Con el nombre de “chapeiro” lo define Elmar Bones en el prólogo de Segue o Baile II (¿1981?). El término proviene del acervo popular y designa a aquel parroquiano observador e irónico que, en una mesa de bar o en un lugar público, cuenta una anécdota relacionada con algún personaje conocido de su audiencia (que a veces puede ser él mismo), a la que le confiere un toque de humor y picardía. A aquel cuento humorístico realizado oralmente (y hasta podríamos afirmar, ejemplo de literatura oral), basado en una situación real, exagerado o caricaturizado de tal manera que provoca la risa, Arlindo logró traducir a un lenguaje escrito que intentó representar al real (al que lo definió “santanés”) y crear con esto (valga la osadía de afirmarlo) un subgénero nuevo dentro del género narrativo: el de la “chapa”, relato jocoso de corta extensión que busca recrear a través de la escritura, una situación ridícula protagonizada por personajes reales y, en su mayoría, conocidos directamente por los lectores, cuya identidad a veces se esconde detrás de un nombre ficcional.

Interesante destacar es que en todos los libros de Arlindo en los que el narrador es un “chapeiro”[2], la escritura es acompañada por charges que recrean las “chapas” contadas. El impacto gráfico de la charge es similar al de la escritura de la “chapa”: la condensación anecdótica de ambas intensifica el humor, destacando lo ridículo de la situación y la agudeza de la observación. El acompañamiento gráfico de la escritura (charges en las “chapas” y dibujos en varias novelas y “romances”) es constante en la obra de Coitinho; podríamos hasta decir que es un rasgo caracterizador de su producción.

Bichicome: el primer “best seller”

El caso de Bichicome (1982) es muy particular. Es su primer proyecto literario más ambicioso, en el que se percibe el intento de elaboración de una trama novelística más estructurada, pero aún dentro del relato jocoso y pintoresco. Su autor lo denomina “estorieta” y acá lo definiríamos como una chapa dividida en diecisiete segmentos (que podríamos llamar capítulos), de los que algunos tienen nombre. Sería la obra de Arlindo en la que la chapa logra su máxima expresión, tanto en el desarrollo de la anécdota como en el trabajo de los personajes, además de mostrar al santanés como en ninguna de sus demás obras.

En su carátula aparece impreso un documento de identificación con la foto de quien será su protagonista: Angelito de las Nieves, cambista de la línea divisoria, del que se cuenta que logra una fortuna fugaz a través de negocios turbios. Su destino se verá entrelazado al de Coruja, personaje típico de la frontera, cuyo nexo estará dado por el rechazo que sufrió la hija de Angelito por parte de su prometido. Esta anécdota sirve de hilo conductor a las diecisiete “acuarelas” que muestra el chapeiro en su relato, cada una de ellas elaborada con principio, medio y fin. Consisten en casos acontecidos a y realizados por los protagonistas y que gozan de una cierta independencia, rasgo de entre varios que hace con que esta obra sea incluida dentro del subgénero de la chapa.

Aunque sea una chapa, este libro no posee charges o dibujos como paratextos en el discurrir de su narración. No obstante, su carátula, como ya se dijo, muestra una ilustración que representa un documento de identidad de quien sería Angelito de las Nieves (seguramente un personaje real, oculto detrás de ese nombre de ficción), además de otro personaje retirándose a hurtadillas, con una sonrisa en los labios, que interpretamos ser Coruja. En las obras de Arlindo, el material gráfico guarda estrecha relación con el sentido del texto y, en este caso, aunque la escritura no se vea acompañada de tal representación, esta carátula proporciona al lector pistas suficientes acerca del contenido del libro, además de mantener la característica de las obras de Coitinho en lo que se refiere a la necesidad de incluir la comunicación por imágenes.

Otro factor importante y que es digno de ser destacado: al inicio del libro Bichicome, se apunta una definición del término conjuntamente con su etimología inglesa:

BEACH-COMBER – ONE Who lives on What he can fin or beg on beaches or Warf areas. 2. A long have rolling in Toward a beache. (Sense 2, from comb, in the sense “to break with foam”).

BICHICOME: Inadaptado social, que vive sin hogar permanente, protegiéndose como puede de los rigores del clima. Anda siempre andrajoso y carece de hábitos de trabajo. Paria. Do dicionário de Lenguaje Rio Platense – Juan Carlos Guarnieri.(Coitinho 1982: 9)[3]

Esta “necesidad lingüística” del narrador demuestra su intención de destacar este aspecto en su obra. Nos trasmite la información de que el lenguaje será también uno de los protagonistas de su(s) historia(s).

De “chapeiro” a novelista

Podemos afirmar que la escritura de Arlindo Coitinho nace como la de un chapeiro y crece hasta llegar a ser la de un narrador de novelas y “romances”. También es cierto que nunca abandona la chapa, sino que incursiona en ella de manera simultánea con los demás subgéneros. Pero las novelas y “romances” pasan a ganar una importancia preponderante en los intereses narrativos del escritor hasta constituirse en la producción más importante de su creación. En este ámbito, la tradición literaria de su país (Jorge Amado, Gracilhano Ramos, Érico Veríssimo) y extranjera (Oscar Wilde, Emile Zola, Ernest Hemingway) se hará presente en su obra de alguna u otra manera. Dicha tradición sustentará su postura de escritor popular que busca llevar la literatura al pueblo y que, para ello, debe escribir así como el pueblo habla y, al mismo tiempo, dar a conocer a ese pueblo un poco de la literatura universal.

Mientras que en la chapa los personajes, situaciones y ambientes transcurren en el tiempo presente de su creación (décadas del ochenta y noventa), las novelas y “romances” se trasladan al pasado, a la frontera de entre los años veinte y cincuenta, época representada como áurea, casi de una Arcadia perdida, pero también de mayor barbarie y perdición. Inicia rotundamente esta etapa el libro João Bispo, publicado en 1985. En él se evidencia una escritura extremadamente cuidada, un poco más alejada intencionalmente del santanés (salvo palabras de algunos personajes), por ende más cercana al portugués estándar local, pero con una impronta particular de narrador que pretende mantener la etiqueta de “fronterizo”. Se puede considerar a este libro una de las mejores piezas de la producción literaria de Coitinho.

También se inaugura con João Bispo (1985) la etapa del escritor investigador, actitud relacionada con su profesión (aprendida en la experiencia) de periodista. Arlindo recoge material acerca del bandolero bahiano de los años veinte, João Bispo, que huye de su tierra de origen por asesinatos cometidos, y que  lleva consigo a una joven compañera, Esmeralda, perteneciente a una familia acaudalada de Porto Alegre, lugar donde João Bispo se refugia en una primera instancia. Allí, el malhechor recibe la información de que la frontera Livramento-Rivera representaría el fin de su existencia de forajido, ya que podría cruzar hacia otro país (Uruguay) sin ser descubierto y así lograr su libertad e iniciar una nueva vida junto a su compañera. Estando ya en la frontera, su error fue creer que en Livramento estaba en Uruguay (debido a la inexistencia de parámetros explícitos que indiquen la frontera) y su permanencia en la ciudad dio lugar a que la policía santanense recibiera la información necesaria para su apresamiento. Al ser descubierto, entonces, y ser herido de gravedad en medio de una balacera (en las inmediaciones de lo que sería hoy el edificio de la empresa “Sétimo Nochi”), João Bispo decide matar a su compañera y suicidarse para no ser llevado a prisión. Al pasar el tiempo fueron santificados por el pueblo y sus espíritus recibidos periódicamente en el terrero de Mãe Eudócia.

Aunque el libro se estructura en base a esta anécdota, la misma constituye un telón de fondo para lo que verdaderamente el narrador quiere destacar: la vida fronteriza de aquel momento, el submundo del “malandrage”, las prostitutas, los “bixas” y los cabarés, los policías corruptos y los coroneles déspotas (dueños de las tierras y de las vidas), del pobrerío subsumido en el mal vivir, de los “coiós” que quieren evolucionar y transformarse en “vivos”, de los “agiotas” y los ricachones de negocios turbios, de las pensiones sucias y de mala muerte o sea, todo el lumpen fronterizo, el mejor anfitrión para un personaje de la talla de João Bispo. No así para Esmeralda.

Esmeralda es un ejemplo de las “heroínas” de Coitinho. En medio de toda la decadencia social y humana que busca representar este escritor, ellas sobresalen por su candor, inteligencia y bondad. Poseen intereses superiores, les gustan las artes y la lectura (Esmeralda lee, a escondidas de su padre, varias obras de Zola); en fin, representan a seres humanos idealizados, al estilo romántico. Sus proyectos siempre son truncados, principalmente por culpa de sus compañeros o enamorados. Esmeralda, en su visita (sin la compañía de João Bispo) al terrero de Mãe Eudocia, llora su suerte en la tierra y su belleza se ve resaltada por un largo vestido celeste y los ojos como estrellas. Otro ejemplo de las “heroínas” de este autor es Angélica de Caudilhismos, rinhas, machadaços (1987). Es casada con el español Esteban Munhoz de Arcádia, uno de los poderosos de la frontera de los años treinta, pero está enamorada de Federico Louzada, abogado que ha decidido denunciar la situación decadente de las autoridades de Livramento y de su estado. Es descripta con una belleza a la europea: cutis blanco, cabellos rubios y ojos azules, características que la hacen, justamente, angelical. Intenta convencer a su enamorado de abandonar todo e huir con ella, pero su idilio (nunca descubierto) culmina con la muerte violenta de éste.

Palabras finales

Referente al universo literario de Arlindo Coitinho (infinitamente más rico de lo que esta pequeña muestra pueda ofrecer), presentamos aquí un esbozo de los que consideramos principales ejes creativos de su producción literaria y que constituyen, para nosotros, los puntos de partida de una futura investigación. La riqueza cultural y literaria que ofrecen los diferentes libros de Coitinho y su obra en conjunto, reivindican su reconocimiento como uno de los principales escritores de la frontera Livramento-Rivera. Aunque chapas y chapeiros existan por todas partes, la creación literaria de la chapa y de la actitud narrativa del chapeiro deben serles otorgadas, sin lugar a dudas, por su osadía de llevarlos a la escritura y por el coraje de su publicación. Coraje que recibió un merecido reconocimiento en su tiempo, pero también un rotundo olvido a lo último.

En la construcción de su escritura operaria se observan altos y bajos, grandes creaciones y también repeticiones, complejidades y simplicidades, contradicciones. Claro está, ya que, y parafraseando al gran poeta norteamericano Walt Whitman, al tocar sus libros tocamos a un hombre.

 

Rivera, 30 de noviembre de 2012



[1] Referencia al movimiento artístico europeo del siglo XIX.
[2] El caso de Bichicome (1982) es diferente. Lo hablaremos a continuación.
[3] Mantengo la escritura del original.
 
 
Texto apresentado na III Feira Binacional do Livro, pela pesquisadora da literatura fronteiriça e professora do CERP - Centro Regional de Professores del Norte, Alejandra Rivero.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

No tempo do "mais velho".


A chama está sempre acesa no velho fogão à lenha da cabana que abriga o casal que já leva mais de 50 anos de convívio. Trinta deles ao pé do Morro das Aranhas, no leste da Ilha. O popular “mais velho” e sua esposa Palmira são os únicos moradores do Moçambique, a maior extensão de praia de Florianópolis, guardiões de um pedaço de terra que ainda mantém as mesmas características de uma ilha ancestral. Nascido na rua Almirante Lamego, em uma cidade já muito distante do que hoje se percebe como capital, o “mais velho”, aliás Divo Régis, relembra dos velhos tempos com a vivacidade de quem cresceu em uma outra época. “Descarreguei muito navio na Ilha do Carvão e no trapiche do Hoepcke; era gasolina, querosene e óleo em tambor”, diz o ancião que ainda mantém o sorriso franco e o espírito alegre dos dias em que viveu como estivador, na ilha do final dos anos 40. “Quando vim morar na praia, eu ia até o Rio Vermelho e de lá caminhava com o povo até o centro, levando galinha, ovos, farinha,  para trocar por coisas que faltavam aqui”, relembra.  A pé, levava-se uma madrugada inteira de caminhada até chegar ao mercado público. 


A poucos minutos do Costão do Santinho, um dos mais luxuosos resorts do país, a velha cabana do “mais velho”, não possui água nem luz, mas nem por isso deixa de abrigar um casal que vive intensamente o seu pedaço do paraíso. O mundo mudou de trinta anos para cá, “o peixe acabou em 100%”, mas ainda assim a tarrafa costuma voltar do mar com as tainhotas e cocorocas que garantem a fritada do dia.  Prestes a completar 76 anos, único remanescente de uma família de sete irmãos, o guardião do Moçambique pesa os dias de hoje nos dois lados da moeda. “Digo pra mulher que devíamos ter vindo mais tarde para essa vida, para viver as facilidades que estão aí”. Mas ressalta que  “o problema é que falta muito emprego, antigamente não faltava serviço, a gente tinha que se meter lá no Bar do Quido, perto da Igreja, quando queria descansar, mas o pessoal da estiva sempre nos encontrava”. 

Antes da estiva, porém, muita água passou embaixo da ponte Hercílio Luz. O menino Divo começou vendendo o jornal O Estado, cedo do dia, quando deixava o Morro da Ponte e caminhava até o ponto de ônibus do Arlindo. No Estreito entregava 10 jornais e vendia outros 40, de onde tirava sua comissão. “Naquela época pouca gente sabia ler”. Certa vez, um boi desgarrado da tropa que ia para o matadouro do continente quase o acertou com os chifres, levando junto todos os jornais do dia. Foi a deixa para trocar de emprego e buscar uma posição na copa do famoso Hotel La Porta, que marcou uma época de ouro da capital. Ali chegou a terceiro cozinheiro, de onde saiu para a conceituada Padaria Carioca. Mas um desentendimento com a proprietária o levaria mais uma vez às ruas, desta vez para fazer carreto no Mercado Público. “Levava café, carne salgada, peixe, cabeça de boi, para os fregueses que moravam ao redor da Praça, ou lá pelos trapiches onde hoje fica a Beira Mar Norte”. Tempos depois ganhou o mundo, como o palhaço Mandioca, no famoso circo do Biduca, que saiu de Florianópolis e foi dar no Rio de Janeiro. 

Do Rio voltou já com barba na cara, mais interessado nas moças da freguesia. Foi a época das sete mulheres, as sete namoradas que manteve por um bom tempo. “Tinha a Rosa, Anita, Alba, Emília, e outras que nem lembro o nome. Era viúva, desapartada, solteira, eu dava conta de todas”. Isso, claro, antes de conhecer Palmira, que ganharia definitivamente seu coração e com quem gerou 18 filhos, “todos vivos”.  

Hoje o “mais velho” divide seu tempo com os pescadores do costão das Aranhas, a lida caseira com a mulher e a ronda nos bares do Rio Vermelho, sempre que a ocasião se oferece. Já vão longe os tempos da estiva, onde compartilhava trabalho e lazer com os companheiros João Pretinho e Cabeça de Côco,  entre tantos outros que fizeram aquela velha cidade que já nem existe mais.