domingo, 28 de novembro de 2010

A poesia de Luis Carlos Bueno


Transição

Odeio a densidade quando ela torna-se idiota,
E meramente banal, quanto frívola.
Mesmo assim ainda podemos, apesar de tudo,
Cansarmo-nos de brincar, brindar,
Enfim divertirmo-nos de verdade.
Entretanto, antes de ensaiar a brincadeira do quatro
Tente, pelo menos, sorrir para foto.
Enquanto ainda puder.

Contudo, ainda não sabemos com relativa certeza,
se tudo realmente já passou;
Mas, mesmo assim, alguns insistem aplausos ensaiados.
Porém, não se sabe o por quê,
Dessa estranha sensação de horror.
O consolo que se tem, e isso é o melhor de tudo,
É que nada esta totalmente definitivo:
Nem tristezas nem alegrias.
Aproveitando o ensejo peço, com sua licença,
Ao menos, passagem...Gracias!

O poeta e suas erranças. Nesta obra híbrida, nascida de um tempo errante, Luis Carlos Bueno busca o verdadeiro reflexo dos espelhos. As imagens retidas no papel de bar, rascunhadas no preciso momento. Versos livres, nascidos em alguma rua amarelecida da fronteira uruguaia, ou sob a retina petrificada, viagem dentro das mil e uma noites de Porto Alegre.  Nesse universo confluente, de música regionalista e Miles Davis, de Carlos Gardel e Olavo Saldanha, revela-se um poeta antes de tudo preocupado com a crítica moral, com o desmascaramento da realidade pacífica, ilusória, e os gestos de arbitrariedade refinada. Mas também há o conflito interior, o eterno destruir das “meras ilusões de formalidades morais”.  Dentro desses mundos, vermelhos e interiores, exteriores e claros como o tórrido verão santanense, circula o poeta. Os anos que se passaram deixaram a palavra marcada pelo pó das estradas... Um livro que significa reação, um belo marco de resistência cultural da fronteira oeste. Quem sabe, o início de uma nova safra...

A propósito da Feira do Livro Binacional, lembramos acima o poeta santanense Luis Carlos Bueno (1963-2001). Abaixo da poesia, um esboço de prefácio para o livro Antes que o Dia Aconteça (ainda inédito), escrito no calor daqueles dias. Te lembramos sempre, amigo Bueno!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

1ª Feira Binacional do Livro - Santana do Livramento



De 18 a 21 de Novembro acontece a 1ª Feira Binacional do Livro, em Santana do Livramento. Clique na imagem para ampliar a programação do evento, que se realiza em diversos espaços culturais da cidade.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Clube de Rage Maluf, culto e melancolia da terra longínqua!

A trajetória de Rage Maluf  foi marcada por um importante papel aglutinador entre seus companheiros e permaneceu na memória da coletividade fronteiriça. Nascido na cidade de Schiliffa, próximo a Baalbek, emigrou para o Brasil, para a cidade de São Paulo, entre 1924 e 1925. No princípio, como todos seus compatriotas, trabalhou como vendedor ambulante em várias cidades do sul do Brasil. Em 1930, após muito circular pelos estados do Paraná, Santa Catarina e São Paulo, escolheu Santana do Livramento para fixar residência, pois havia constituído família. Rage tinha parentes na cidade, provavelmente tenha sido por indicação deles que abriu comércio na linha divisória, próximo a aduana brasileira e uruguaia. A região havia se constituído em reduto da comunidade estrangeira: italiana, espanhola e árabe. Havia um restaurante italiano, uma pensão espanhola e uma outra de sua irmã, Vitória, além de casas comerciais de grande tradição na cidade. No comércio de Rage se vendia “de tudo um pouco”, segundo rememorou sua filha, a antropóloga Sônia Maluf:


Secos e molhados, alimentos, tecidos, fumo em corda, fogão a lenha, bebidas [...] e tinha também um depósito que fazia a distribuição de bananas na cidade, lembro dos caminhões descarregando as bananas no depósito que era no subterrâneo de nossa casa”

O comercio de Rage era um sucesso devido a variedade de mercadorias. Semelhante a um clube, o lugar constituía-se em espaço da sociabilidade árabe da fronteira, recebendo compatriotas que residiam em Rivera e Santana. Ali costumavam confraternizar ao final de tarde, quando terminava o expediente de trabalho. Buscavam o local para se distraírem, fosse conversando em árabe, fumando cachimbo ou jogando xadrez. A maioria dos libaneses mais antigos da comunidade ainda recorda-se com acentuada melancolia do clube. O local fechou suas portas no início da década de 1960, quando devido uma enfermidade, Rage tranferiu-se com sua extensa família para Porto Alegre, deixando seus amigos inconsoláveis.

Para o casal Khalil Aseff e Rosa Felis, a fronteira significou a esperança de uma vida renovada. Eles deixaram Beirute com destino a Montevidéu por volta 1900, época da rigorosa lei de imigração aos estrangeiros orientais. Provavelmente tenham viajado com passagens de primeira classe.Tomaram o barco que os levaria ao Uruguai em completo mistério e anonimato. Pouco se sabe sobre os motivos que levaram o jovem que tinha entre 14 ou 18 anos a migrar e tornar-se companheiro por mais de quatro décadas de Rosa, então com cerca de quarenta anos. Khalil, pelos relatos familiares teria vindo de Beirute ou do povoado de Bcharre, embora a documentação pessoal indique que era natural da Síria, nascido em Monte Líbano. Rosa possivelmente nascida em Bcharre ou Beirute, segundo amigos libaneses, encontrou Khalil em solo fronteiriço e ali montaram um pequeno restaurante, dando início a vida conjugal. Segundo relato esparso de familiares, é certo que ambos empreenderam uma fuga. Fugiria do alistamento obrigatório imposto aos jovens libaneses? E sua companheira, de um casamento mal sucedido ou infeliz? Rosa manteve sua história encoberta até a chegada à fronteira nos anos trinta de um de seus filhos que havia deixado no Líbano. A fronteira, porém, os acolheu como segunda pátria, como fazia a todos que dela buscaram refúgio e proteção. Ao chegarem no porto de Montevidéu, seguiram o protocolo aos emigrantes que tinham sua alcunha acentuadamente árabe, para que adotassem nomes castelhanos. A partir de então Khalil tornou-se Julian. De Rosa ninguém ficou sabendo se adotou outro nome ou se conservou o de sua origem árabe.

Empreendedores, primeiro aventuram-se na cidade de Durazno, próximo da capital uruguaia e mais tarde, escolheram a fronteira para fixar residência. Em meados dos anos 20, montaram um comércio na praça Rio Branco, no centro em Rivera. Depois de terem vivenciado o centro urbano do lado oriental da fronteira, se decidiram pela mudança de lado, escolhendo uma chácara no bairro brasileiro da Carolina, para morar e trabalhar. Julian quando cruzou a linha de fronteira, teve seu nome abrasileirado para Julião. Estrategicamente, a poucos metros do Frigorífico Wilson, a indústria multinacional de carnes e couro. Sua segunda esposa, Maria, acredita que a mudança tenha se dado pelo fato de que “tinham muitos operários para comer e ali passavam muitas carroças para atender”, vindas do interior do município de Santana.

O comércio do turco Julião, no entanto, não rivalizava com o de seus patrícios estabelecidos em Rivera. Localizado na periferia da cidade, atendia operários do frigorífico, assim como trabalhadores rurais, carreteiros e todo tipo de viajantes que deixavam a cidade e passavam por aquela região. Julião era muito considerado pelos seus vizinhos e fregueses. Diferente de outros libaneses da região, costumava trabalhar com o diferencial das cadernetas. Seus clientes e amigos podiam levar mercadorias e pagar quando recebiam seus salários. Atraiu muitos clientes, mas com o passar dos anos, o sistema não deu certo e teve de fechar suas portas. O frigorífico deixou a cidade, demitindo a maioria de seus operários, que ficaram sem ter como pagar as cadernetas. Por ser considerado um benemérito, após sua morte recebeu homenagem da Câmara de Vereadores, indicado para dar nome a uma rua no bairro Carolina. Assim como a história de sua primeira companheira, sua segunda esposa, Maria, protagonizou um episódio insólito. A jovem Maria casou-se com Julião, compadre de seu pai, a pedido de Rosa, quando estava em seu leito de morte. “Ela pediu que eu cuidasse dele, que casasse com ele, eu pensei e casei”, rememora Maria, que na época contava 16 anos. Embora Maria fosse educada nos moldes da lida campeira, não dominava nenhum tipo de tarefa doméstica, e Rosa, acamada então passou a dar lições de culinária para sua jovem sucessora. Julião, então com 54 anos, não tinha filhos e nunca havia se casado oficialmente com Rosa, nem tampouco procurado se naturalizar brasileiro ou uruguaio. Era um libanês acastelhanado. Costumava falar em espanhol, quando não estava conversando com seus compadres árabes. Adotou o espanhol como segunda língua, logo de sua chegada ao Uruguai, nunca tendo se interessado em aperfeiçoar o português. Apreciador de sua cultura, sempre que podia levava sua jovem esposa e os seis filhos que teve com Maria, a visitarem seus amigos patrícios que viviam em Rivera. Falavam em árabe, comiam e festejavam em família. Entretanto a conversa em árabe era reservada aos homens, pois as mulheres cozinhavam e cuidavam das crianças. Maria no principio não entendia aquele ritual, porém com o passar do tempo foi aprendendo a respeitar e admirar “a gente da terra dele”. Julião também costumava visitar, quando vinha ao centro de Santana o clube de Rage Maluf, para rever seus amigos libaneses que tinham comércio na linha divisória. A história dos anos que Julião permaneceu no Uruguai, antes de desposar Maria, permaneceram imersos em uma aura de mistério e desconhecimento para seus descendentes. Somente nos primeiros dias deste ano de 2010 é que parte da identidade do respeitado imigrante começaram a vir à tona, fruto desta pesquisa. Isabel Najas, amiga da família, que costumava acompanhar os sogros em visitas a Julian, revelou a memória perdida. Conforme relembrou Isabel, seu sogro, Masud Najas, amigo e contemporâneo de emigração de Julian, costumava anunciar Don Julian como o valoroso “soldado de Aparício”, que se engajara na revolução blanca de 1904. Na quietude de seu lar brasileiro, com sua discreta vida de comerciante, sua nova família e vizinhos, nada indicava que na juventude Julião teria sido valoroso combatente. Por força das circunstâncias, estabeleceu-se do outro lado da linha divisória devido a derrota de Aparício e as possíveis represálias que sofreria se permanecesse em solo uruguaio. Os companheiros de partido, no entanto, nunca abandonou, participando de reuniões políticas dos blancos uruguaios e convivendo intensamente com os patrícios no Uruguai.

Outro pioneiro libanês a procurar a fronteira de Santana do Livramento foi Miguel Salim Gabriel. Nascido e batizado em Sahida deixou o Líbano com seus pais, ainda criança, em direção ao Brasil, chegando ao Espírito Santo. Porém, com a firme disposição para “trabalhar, subir e crescer” quando tinha doze anos, já naturalizado, deixou sua família em direção ao promissor pampa gaúcho. Chegando a Santana do Livramento no ano de 1907, transformou-se em um dos precursores da imigração libanesa naquela região. Conforme costumava contar a amigos e familiares, com dois pesos uruguaios comprou um cavalo encilhado e no lombo desse animal deu início a sua aventura de mascate. Por oito anos trabalhou como vendedor ambulante, percorrendo os distritos do interior de Santana e municípios vizinhos. Ofereceu bijuterias e mercadorias variadas a “agregados, capatazes, senhores e senhoras de estância”, em vilarejos que limitavam a fronteira. Com 20 anos decidiu que estava na hora de fixar residência no centro de Santana do Livramento. Em viagem de trabalho à cidade de Alegrete, conheceu a brasileira Dalila e logo se casaram. Investindo a quantia de dois contos e oitocentos, fruto de suas economias no trabalho de mercador pelo pampa, deu inicio a sua atividade de comerciante. A pequena lojinha inicial veio a se transformar numa das maiores casas do tradicional comércio da cidade, a Casa Salim. Com o passar dos anos, Salim investiu seu capital na pecuária, tornando-se um estancieiro, como outros grandes comerciantes que faziam parte da elite pecuarista da cidade. Com sua esposa realizaram muitas viagens ao Oriente Médio e aos Estados Unidos, onde possuia parentes.

O estigma sempre acompanhou a trajetória do povo árabe. Ao chegar na fronteira, a exemplo de outros lugares, foram imediatamente identificados como turcos, fossem sírios, libaneses ou palestinos. Na fronteira não importa o país de sua origem, se vinham do Oriente Médio, ou até mesmo os gregos, recebiam a mesma alcunha: “São todos turcos, Tchê!” Enquanto Rivera os acolheu de maneira amistosa e integrada, em Santana do Livramento a sociedade local mostrou-se refratária e com as mesmas características excludentes que mantinham com os despossuídos e estrangeiros em geral. Se os espanhóis e italianos eram chamados de anarquistas, os árabes eram os turcos, exóticos e pouco confiáveis. Embora as características dessa sociedade pouco tenham se alterado com o passar das décadas, a pujança comercial árabe se impôs, forjando uma aceitação gradual e que teve o ingrediente da miscigenação cultural. Atualmente na fronteira, são os imigrantes palestinos que exercem forte influência econômica. Em Santana do Livramento, o comércio local é hoje predominantemente ligado aos emigrantes jordaniano-palestinos, que chegaram em meados dos anos sessenta. Também em Rivera, algumas das tradicionais casas comerciais da cidade foram compradas por palestinos, que emigraram nos final dos anos cinqüenta para Santana do Livramento.

Imagem: Rage Maluf, entre esposa e filhos, em foto tirada nas cercanias do Cerro do Marco.

domingo, 7 de novembro de 2010

Mundo Árabe: tensões e conflitos

Boa noite. Confesso que me sinto gratificado pelo convite de falar sobre o mundo árabe seu problema crucial e crônico,um problema que chega a ameaçar a frágil paz mundial. Gostaria de me apresentar para esta platéia jovem, esclarecida, politizada, e que gosta de saber sobre os problemas internacionais, a fim de tomar uma posição justa - progressista e humana - participando assim na resolução dos problemas da humanidade e mostrando e afirmando que e um mundo melhor e possível.

Meu nome é Khader Othman, sou membro do Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino. O comitê foi criado em 2002, durante o ataque israelense ao campo de refugiados de JENEEN que mostrou uma resistência extraordinária, de maneiro que foi chamado JENEENGRAD , em alusão a Leningrad ou Stalingrad, duas cidades russas que ganharam este nome pela resistência fora de comum apresentada pela população durante a segunda guerra mundial.

A historia registra duas sérias tentativas para dominar o Oriente Médio. A primeira foi no século 11 e durou ate século 13, e que foi chamada “as cruzadas”. A segunda tentativa é o conflito árabe-israelense que esta perdurando até hoje. A causa palestina é a causa mais longa, mais injusta feita pelo colonialismo europeu, temperada por forte dose de ódio e racismo, para servir aos interesses econômicos colonialistas, sem se importar nada com os valores humanos. Suas características foram bem conhecidas, pela brava resistência do seu povo, sua vitalidade e dinamismo, e pela solidariedade dos povos amantes da paz e da justiça.

Para entendermos melhor o conflito árabe-israelense e suas conseqüências, precisamos voltar na historia, exatamente para ano de 1895, quando no final de século 19, quando Teodor Hertzel ( um jornalista judeu) consegue realizar o primeiro congresso judeu na Europa. Era o auge da euforia das idéais imperialistas e ações colonialistas no mundo, lideradas pelas forças máximas da época, a Grã-Bretanha e França. Aquele pequeno congresso produziu uma idéia que consistia em: as etnias judaicas no mundo todo poderiam buscar um projeto de povo, e que esse povo já que e perseguido na Europa, precisa de uma pátria. Esta idéia nova no cenário internacional precisava de uma mãe protetora, e não tinha melhor mãe, que o colonialismo, a mãe dominante de então. Para realizar este papel, não foi feita apenas uma aliança, muito menos foi uma cooperação. Foi a realização dos interesses entre dois, desencadeando sentimentos de violência e barbarismo na região .

Os demônios imperialistas guardavam a oportunidade para colocar a força Judaica em ação, e era necessária uma prova de fogo para dar a benção dos colonialistas. Oportunidade que veio na primeira guerra mundial 1914- 1917, onde a legião judaica participou ativamente na guerra a favor dos aliados Britânicos e Franceses, de maneira que este legião ganhou a confiança dos imperialistas que pagaram à vista o preço da sua participação na guerra.

Em 02 de novembro 1917, meses depois do fim da guerra saiu uma nota oficial do escritório do ministro das Relações Exteriores britânico, Lorde James Balfour, que dizia o seguinte : O Governo da sua majestade encara favoravelmente o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu, e empregará todo o esforço no sentido de facilitar a realização desse objetivo, entendendo-se claramente que nada será feito que possa atentar contra os direitos civis e religiosos das coletividades não-judaicas existente na palestina nem contra os direitos e o status político de que gozam os judeus em quaisquer outros países. Desde já me declaro extremamente grato a v. sa. pela gentileza de encaminhar este declaração ao conhecimento da Federação Sionista

Esta declaração desmascara claramente a conspiração feita a mão e temperada pelo racismo e o ódio cultivado pela burguesia dominante na Inglaterra e França e a burguesia judaica, pois sem consultar o povo palestino decidem enviar para palestina, sem nenhuma base legal, um indesejável intruso, contrariando frontalmente o interesse palestino. Será esta atitude “uma simples pena dos judeus perseguidos” ou será que eles acertaram um papel para esta força recém-nascida atuar no futuro da região a serviço do criador ?.

Passaram-se mais de trinta anos e uma outra guerra mundial para a promessa do governo da sua majestade se realizar e se concretizar. Foi em 1948, e os sionistas como um grupo bem treinado e bem armado com ajuda dos britânicos e franceses, exatamente em 15 de maio de 1948, conseguem expulsar uma boa parte do povo palestino e instalar um governo judeu na terra conquistada.
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Podia terminar a novela neste ponto e com o tempo se acharia uma solução para o problema dos judeus perseguidos e dos palestinos injustiçados. Mas parece que o trato acertado era diferente do papel traçado para o estado recém-nascido. Era outro. O seu papel era perturbar, desestabilizar e atrapalhar qualquer possibilidade ou tentativa de progresso econômico, militar, ou até cultural para a região, mantendo sua dependência do centro econômico mundial . Para sustentar esta teoria e não ficar na mera acusação, vamos analisar os fatos históricos que foram surgindo na região, em virtude da criação do estado de Israel.

O mundo testemunhou e documentou em 1956 (8 anos após concretizar o estado judeu) a agressão israelense ao Egito pelos britânicos e franceses com participação ativa e violenta dos Israelenses.O motivo: o Egito nacionalizou canal do Suez. O mondo testemunhou e documentou em 1967 os ataques israelenses sobre três estados árabes, ocupando grandes áreas dos três estados árabes, no que foi chamado guerra dos seis dias, sob um motivo nada aparente para um contexto de guerra.

O mundo testemunhou e documentou em 1973 a guerra de Yom Kippur entre Egito e Síria, de um lado, e Israel de outro. O motivo da guerra era a reconquista das terras perdidas em 1967. O mundo testemunhou e documentou em 1980 o ataque aéreo relâmpago dos caças israelenses às instalações do programa nuclear do Iraque, onde destruiu por completo estas instalações mantendo a supremacia nuclear israelense sobre toda a região. O mundo testemunho e documentou em 1982 o ataque israelense e a ocupação do sul de Líbano para eliminar as forças da OLP. Durante 88 dias as forças israelenses cercaram a capital do Líbano, Beirute. Terminada a guerra, com a expulsão das forças da OLP do Líbano para Tunísia.

O mundo testemunhou e documentou em 1988 e durante cinco anos o levante palestino contra ocupação e pela liberdade e independência, chamada INTIFADA, que permitiu o surgimento das conversações de OSLO. O mundo testemunhou e documentou em 1996 a agressão israelense ao sul de Líbano, atacando a resistência libanesa que lutava para libertar sua pátria , os civis, entre mulheres, velhos e crianças fugiram procurando abrigo e seguranças nas instalações das forças da ONU. Foram duramente abatidos pelos caças israelenses dentro das instalações da cidade de QUANA, matando 103 pessoas, na sua maioria crianças e idosos, e dois soldados a serviço da ONU. O mundo testemunhou e documentou em ano 2001 a segunda INTIFADA, que durou também quatro anos, proclamando a independência, a liberdade e a seriedade nas conversações.

O mundo testemunhou e documentou em 2006 o ataque israelense sobre o sul do Líbano, cujo motivo foi liquidar as forças do Hizbollah, quando morreram 97 militantes do Hizbollah e 1.397 civis, além da destruição da infra estrutura que servia o povo libanês.

Mal termina uma guerra...começa a contagem regressiva para a guerra seguinte. E agora, alguém tem dúvida do papel destrutivo e racista israelense para toda a região? Basta olhar o mapa da palestina no começo das conversações de OSLO onde todos procuravam a perdida PAZ e o mapa atual !!! Para concluir, digo que dado o papel exato das forças sionistas israelenses, nós vamos permanecer em choque constante e em luta permanente até derrotá-las para o bem da humanidade e para o bem dos próprios judeus.

Palavras de Khader Othman, membro do Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino, proferidas durante a I Semana da Cultura Árabe e do Islã no Contemporâneo, realizada na Universidade do Estado de SC, de 18 a 21 de outubro. (foto: outdoor no Forum Social Mundial 2003, em Porto Alegre).

sábado, 30 de outubro de 2010

Semana Árabe em Imagens

Martha Chalella, Liane Aseff, Laurence El Tors e filho, Ana Rosa Normey

Jose Maria Almada Sad e Ana Carletti


Lima, Zohra e Adib El Hanini, Fábio Regio Bento, Ana Carletti, Mohamad e Jamile El Hanini


Liane Aseff e Renato Costa


Zohra El Hanini e Patrícia Cossio Chaves



Liane Aseff e alunos da Unipampa


Ibrahim Al Zaben, embaixador da Palestina no Brasil, entre alunos da Unipampa


Público lotou o auditório da Unipampa


Renato Costa, Ricardo Kotz, Liane Aseff e Jose Maria Almada Sad
Imagens dos eventos que aconteceram no Auditório da Unipampa - Universidade Federal do Pampa, durante a Semana da Cultura Árabe, que aconteceu em Santana do Livramento (RS), de 25 a 28 de outubro. (clique nas imagens para ampliar)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Caminhos da solidariedade: permanências e passagens da cultura árabe na fronteira.

A presença da comunidade árabe sírio, libanesa e palestina na fronteira pode ser traduzida como um mundo constituído através da solidariedade, amizade e disposição para integrar-se a novas experiências e lugares. Difere bastante daquele universo apresentado pela literatura ocidental, que mostra o árabe como um ser constantemente bem disposto, afeito ao trabalho, a diversão e ligeiro no troco, como sugere muitas vezes, por exemplo, o escritor Jorge Amado na representação dos árabes, por ele carinhosamente chamado de turcos. Como se sabe, a confusão que tanto desagradou a nação árabe da diáspora tem origem nos passaportes emitidos aos imigrantes pelo Império Turco Otomano que dominava a região que hoje compreende a Síria e o Líbano até 1918. Parece mesmo engraçado, mas conversando recentemente com o escritor catarinense Salim Miguel, descendente de libaneses, ele lembrava que encontrou apenas um turco no Brasil, no estado do Maranhão em mais de 80 anos de vida.

Os imigrantes árabes que chegaram ao Uruguai, já ao desembarcarem no porto de Montevidéu puderam vivenciar a solidariedade de seus pares estabelecidos por aqui. Após uma viajem longa, freqüentemente insalubre e exaustiva, muitos traziam algum tipo de seqüela da travessia do Atlântico. Então, nessa primeira fase da imigração uruguaia e fronteiriça, que vai de 1890 a 1920, aqueles patrícios- ou paisanos, como costumavam ser chamados entre si- que já estavam estabelecidos, faziam o ritual do acolhimento aos irmãos no país desconhecido, fossem sírios, libaneses, ou os raros palestinos e egípcios. O abrigo e orientação nunca lhes foi negado. Recebendo referências sobre a região, a comunidade e algumas palavras do idioma local, os viajantes sentiam-se seguros para dar início a nova jornada na América. Freqüentemente foi essa a trajetória de muitas famílias descendentes de árabes que residem em Rivera e algumas que escolheram Santana do Livramento para morar. Lembro aqui de famílias libanesas da primeira geração como as famílias Posada, Normey, Najas, Curi, Mansur, Aseff, Neme, Figari, Saker e da segunda geração, a família Tarabay. Em Santana, vindas através do porto de Santos, as famílias Salim, Chein, Maluf, Hilal e segunda geração, a família El Tors, Kazzaka, entre outras, que vivenciaram os caminhos dessa solidariedade na fronteira. Em Santana do Livramento, os pioneiros palestinos que chegaram no final dos anos cinquenta foram as famílias Hussein, Abdallah, Bannura, Zaidan, Shueik e a jordaniana, Badra.

O êxito dos pioneiros, de maioria sírio e libaneses pode explicar o estímulo dado ao processo migratório nos anos seguintes. O ingresso oficial de imigrantes no Uruguai registrado pela Dirección General de Imnigración teve início em 1887. Após três anos de funcionamento, em 1890, o órgão já registrava a entrada de 2.020 imigrantes árabes ao país! Embora estivesse em vigor no país uma dura lei de imigração assinada pelo presidente Herrera y Obes que limitava a entrada de “estrangeiros asiáticos, africanos, ciganos, deficientes físicos e bohemios”.
Muitos viajaram clandestinos nos navios e aqueles que conseguiam estabelecer-se costumavam chamar seus parentes e amigos para que também viessem fazer o futuro no Uruguai e na fronteira, formando uma intensa corrente de imigrantes que se estendeu dos anos 1880 até o final da década de 1950. A maioria desses imigrantes chegava de pequenas aldeias camponesas, localizadas nas montanhas do interior da Grande Síria, (atual Líbano), na região denominada Monte Líbano. Nessa primeira fase imigratória, viajavam muito jovens solteiros em busca de uma independência econômica. Aventuravam-se pelo interior da república uruguaia, alguns, em povoados de fronteira tomando a campanha para si, vendendo suas variadas mercadorias, em busca da clientela que o novo ofício exigia. No princípio foram vistos com receio pela população rural, até ganharem confiança e amizade da maioria das famílias da campanha. Sua freguesia principal eram as mulheres e crianças que moravam nas estâncias ou nas vilas próximas a elas. Também foram vítimas de violência, discriminação e difamação, como o episódio acontecido na capital uruguaia em 1923, quando foi publicado um artigo polêmico, escrito por um articulista do jornal La Mañana. O jornalista acusava comerciantes libaneses de esperteza e má fé, e segundo seu relato, suas lojas eram freqüentemente incendiadas e seus proprietários beneficiados com o seguro.

A partir das primeiras décadas do século que vinha à luz, as cidades da fronteira se tornaram alvos novos para a maioria da população estrangeira que chegava às capitais do Prata. Logo a comunidade libanesa estabelecida em Montevidéu soube que Rivera convertera-se em centro aglutinador do comércio e da emergente indústria da carne e do couro. A modernidade havia se instalado na região com a introdução de serviços que favoreciam o franco desenvolvimento daquela comunidade do interior da república, com significativos atrativos para os novos moradores. A industrialização, por sua vez, agregou grande desenvolvimento cultural e econômico para a região. Inicialmente, as charqueadas, depois os frigoríficos estrangeiros excederam a mão de obra de trabalhadores locais, abrindo frentes para operários capacitados, como os imigrantes espanhóis, italianos e libaneses. Porém, se os europeus buscavam trabalhos sazonais nas indústrias, os árabes preferiam a autonomia da atividade varejista, baseada na informalidade. A maioria dos entrevistados nesta pesquisa se utilizaram da expressão liberdade para justificar sua escolha pelo cotidiano do comércio ambulante, mesmo sob condições de insegurança e intempérie.
Em Rivera, o comércio da rua central era dominado pelos espanhóis e italianos. Atravessar a fronteira e obter mercadorias sob baixos impostos era um atrativo para muitos comerciantes de cidades próximas. Aos imigrantes abria-se também a possibilidade de uma fiel clientela binacional, devido a constante instabilidade cambial e a economia pendular, característica da região. A comunidade libanesa estabeleceu-se na calle Brasil, próxima ao Ferro Carril, onde havia constante fluxo de pessoas, diligências, carroças. Os comerciantes árabes perceberam ali a grande oportunidade de vender suas mercadorias para a população local, que vinha tanto da cidade como do interior. Os jovens imigrantes que desembarcavam na ferroviária logo percebiam nos arredores um auspicioso núcleo comercial. Aquela via era habitada por uma população de maioria árabe, como carinhosamente relembrou o poeta Zaz Recarey que anotou: "había allí una turcada maravillosa”. Ele próprio, filho de libaneses.
Entretanto, os libaneses não tiveram atuação destacada apenas no comércio, interagindo na comunidade fronteiriça como professores, poetas, artistas. Apenas para citar alguns, lembremos de Hipólito Zaz Recarey e Clarel Neme. Homens valentes, não foram indiferentes às transformações políticas que sacudiram o Uruguai no início do século 20. O sentimento de pertencimento a uma segunda pátria, uruguaia, fez com que o imigrante acastelhanado Emilio Nizarala, radicado em Rivera, se engajasse na coluna de seu amigo, o líder blanco Aparício Saraiva e fosse defender sua pátria. Outros libaneses também apoiaram a causa como o jovem Khalil Aseff, que após ser perseguido pelo governo Batlle, cruzou a fronteira recomeçando vida nova no lado brasileiro. A figura de Juan Molke se impõe no cenário riverense dos primeiros anos de 1900 destacando-se como empresário e líder da colônia libanesa local. Estabelecido e próspero comerciante, atuará como uma espécie de cônsul, estimulando e patrocinando a vinda de jovens solteiros, que tinham esparsas oportunidades de trabalho em seu povoado.

A comunidade sírio-libanesa então constitui seus espaços de cultura e sociabilidade, quando em 1917 organiza a Liga Patriótica Libanesa, atual Sociedade Libanesa de Rivera. O lugar era cedido por um patrício, sendo frequentado pelos libaneses de Rivera e Santana, pois do lado brasileiro nunca efetivou-se nenhum tipo de sociedade recreativa. Em 1948, os sócios da Sociedade decidem-se pela construção de um Panteon no cemitério riverense. No final da década de quarenta, com o falecimento de alguns pioneiros, a Sociedade, desmobilizada é desativada retornando suas atividades somente em meados dos anos 80, com alguns velhos imigrantes e seus filhos. Porém, assim como o cônsul Molke auxiliava os jovens, também mantinha sua autoridade sobre eles, estimulando e sugerindo o casamento entre as moças libanesas que chegavam ou as que já estavam estabelecidas na cidade. Uma forma eficaz de perpetuar as raízes árabes no novo chão. Entretanto, com o decorrer do tempo muitos libaneses, especialmente os que viviam do lado brasileiro da linha divisória, e que ali haviam constituído um clã, vão integrar-se profundamente a cultura local, ocultando sua raiz árabe. Vários seriam os motivos para esta perda do referencial cultural, e a segunda geração, constituída por brasileiros-árabes, nunca foi estimulada a falar o árabe. Seus pais logo souberam que o êxito dos negócios e a mobilidade social estavam ligados à fluência da comunicação em português e ao distanciamento da imagem estigmatizada de “turcos”. A necessidade em se relacionar com os clientes e com a comunidade fronteiriça exigia dos imigrantes a fluência nos idiomas português e espanhol. Outra limitação estava relacionada ao casamento. Casaram-se com mulheres brasileiras que não tinham interesse que seus filhos convivessem com a cultura árabe. Talvez para evitar a discriminação que essa primeira geração de imigrantes sentiu, logo no início de seu estabelecimento em Santana.
Ainda assim, a busca por uma identidade remanescente constituiu-se de um elemento muito forte para alguns imigrantes, na manutenção de sua raiz nesse novo ambiente. Enquanto construção cultural, certamente cada grupo sente-se estimulado a valorizar sua identidade. Conforme ensina Edward Said, o mundo árabe é feito de identidades múltiplas, onde diferentes manifestações culturais conviveram dentro de uma mesma região. Claro que a relação entre os grupos ao longo dos séculos não se mostrou fácil ou pacífica, no entanto, o povo árabe sempre conviveu com o diferente, com o outro. Identifiquei dois fortes centros de resistência ao aculturamento, dois territórios da cultura árabe na fronteira: o armazém de Rage Maluf e os encontros dominicais de imigrantes libaneses e palestinos no Parque Internacional. O armazém de Rage, semelhante a um clube, constituía-se em espaço da sociabilidade, recebendo compatriotas que residiam em Rivera e Santana. Ali costumavam confraternizar ao final da tarde, quando terminava o expediente de trabalho. Buscavam o local para se distraírem, fosse conversando em árabe, fumando ou jogando xadrez. Nos início dos anos 50, as manhãs de domingo eram sagradas para os imigrantes, quando costumavam reunir-se em frente ao obelisco do Parque Internacional, para conversar em árabe e tratar de temas sérios como a sempre turbulenta situação política do Oriente Médio ou, simplesmente, fofocar. Alguns costumavam levar seu chimarrão, como Sami Kazzaka, outros iam acompanhados dos filhos, como Ibrahim Tarabay. Ali, reunidos, estavam os integrantes da primeira geração, como pioneiro Nahim Chein e da segunda leva, como o jovem e recém emigrado Samir Kazzaka.
O estigma sempre acompanhou a trajetória do povo árabe. Ao chegar à fronteira, a exemplo de outros lugares, foram imediatamente identificados como turcos, fossem sírios, libaneses ou palestinos. Enquanto Rivera os acolheu de maneira amistosa e integrada, em Santana do Livramento a sociedade local mostrou-se refratária e com as mesmas características excludentes que mantinham com os despossuídos e estrangeiros em geral. Se os espanhóis e italianos eram chamados de anarquistas, os árabes eram os turcos, exóticos e pouco confiáveis. Embora as características dessa sociedade pouco tenha se alterado com o passar das décadas, a pujança cultural e comercial árabe se impôs, forjando uma aceitação gradual e que teve o ingrediente da miscigenação cultural. As famílias palestinas emigradas no final dos anos 50 criaram espaços da cultura árabe, como a Mesquita, a Sede Social da Sociedade Palestina, o cemitério. Atualmente na fronteira, são os integrantes da diáspora palestina que exercem forte influência econômica.
Em Santana, o comércio local é hoje predominantemente ligado aos imigrantes jordaniano-palestinos, que chegaram em meados dos anos sessenta. Também em Rivera, algumas das tradicionais casas comerciais da cidade foram compradas por palestinos, que emigraram nos final dos anos cinqüenta para Santana do Livramento. A persistência é uma forte característica dessa geração que recebeu o respeito da comunidade por sua trajetória de lutas pelo seu território, seja no Oriente ou na América.
Palestra apresentada por Liane Chipollino Aseff, na Semana da Cultura Árabe, que acontece de 25 a 28 de outubro na Unipampa - Universidade Federal do Pampa, em Santana do Livramento (RS).

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Mundo Árabe em evidência

O mundo árabe e suas peculiaridades religiosas e culturais está mais próximo da cultura brasileira do que muita gente poderia imaginar. Os imigrantes árabes, entre católicos e muçulmanos, contribuíram decisivamente para formar o país que hoje conhecemos em toda a sua diversidade. Neste mês de outubro, uma série de encontros dedicados a cultura árabe aprofundam os debates sobre as tradições herdadas do oriente médio, a contribuição cultural desses povos para o Brasil e a humanidade, e o conturbado presente político da região. Na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), campi de Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, a Semana da Cultura Árabe acontece de 25 a 28 de outubro, reúnindo palestrantes, mostra de dança e culinária, em um evento pioneiro na região (clique nos cartazes para ampliar).
Na semana anterior, em Florianópolis (SC) aconteceu a Primeira Semana da Cultura Árabe do Islã no Contemporâneo, na sede da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina). O evento reuniu escritores, líderes religiosos e acadêmicos em torno do legado do Islã e seus dilemas políticos atuais.
Ao mesmo tempo, acontece no Rio de Janeiro, no Centro Cultural Banco do Brasil, o Projeto Islã, uma série de eventos abordando as nações do mundo islâmico, reunindo palestrantes, peças raras e ciclos de filme sobre o mundo árabe. Durante esta semana, estaremos atualizando notícias, abordando a Semana Árabe em Santana do Livramento.