Assim como seus tradicionais personagens – o contrabandista, as putas, os pequenos comerciantes, os políticos, os poderosos, os militantes – Arlindo foi um homem do povo. Foi pintor, barbeiro e jornalista, entre tantas atividades que desenvolveu ao longo de sua vida. Vendia seus livros de porta em porta, e também fazia a mesma peregrinação em busca de apoio financeiro para a edição. Mas isso não era muito difícil. Todos os que colaboravam com Arlindo – e eram muitos – sabiam que dali sairia mais um magnífico folhetim, que traduzia como ninguém a cultura da terra fronteiriça.
Foi assim que Arlindo criou algumas de suas mais significativas obras, como Segue o Baile, Bichicome, Habitante da Lua, Estórias do Edil Noventino, Pensão do Barroso, João Bispo, Caudilhismo, Rinhas e Machadaços; Vidas em Fronteira, Um tal Pardo Rivera, entre tantos outros livros magistrais. Quem, senão Arlindo, deixaria assinalada na memória coletiva as lembranças do povo, dos personagens que se foram, dos casos de crimes políticos e passionais de uma terra por vezes embrutecida, por vezes terna? Seus livros vão além da literatura, chegam no campo da memória e da História e a ultrapassam. O escritor Carlos Urbim, santanense e atual patrono da Feira do Livro de Porto Alegre já havia revelado sua opinião de que os livros de Coitinho eram os mais subestimados pela dita Literatura Gaúcha.
Para mim, que visitei o escritor nos seus últimos tempos, e convivi com sua família, fica difícil aqui tentar fazer um “ajuste de contas”, ou culpar meus conterrâneos pelo esquecimento do escritor nesses últimos anos. Melhor lembrar que Arlindo foi um legítimo guerreiro da cultura santanense, e por isso mesmo, universal. Fica uma extensa obra, a espera de novos tradutores. Fica a paixão do mestre pelo seu povo. Fica a gratidão e o reconhecimento dos fronteiriços anônimos por este grande escritor que foi Arlindo Coitinho!
A foto foi tirada em uma tarde fria de julho de 2009, quando Arlindo nos recebeu em sua casa no bairro Armour. Naquela ocasião conversamos sobre projetos futuros e seu texto sobre Lucio Soares Neto e a chacina dos militantes comunistas, que consta da obra É a Luta Doutor, que citei em Retratos do Exílio.




