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sábado, 4 de dezembro de 2010
Museos en la Noche
INTENDENCIA DEPARTAMENTAL DE RIVERA,
DIRECCIÓN GENERAL DE PROMOCIÓN Y DESARROLLO
DIRECCIÓN DE CULTURA Y MUSEO DE ARTES PLÁSTICAS
INVITAN A USTED Y FAMILIA A ACOMPAÑARNOS
EL VIERNES 10 DE DICIEMBRE DE 2010
A LA HORA 20:00 EN EL FUTURO LOCAL DEL MUSEO, EN CALLE AGRACIADA Nº 542 CASI
ESQUINA CON MONSEÑOR VERA, CON MOTIVO DE DESARROLLARSE
SIMULTÁNEAMENTE ESA NOCHE EN TODO EL URUGUAY LA ACTIVIDAD:
“MUSEOS EN LA NOCHE”
EN LA OPORTUNIDAD SE ESTARÁ PRESENTANDO LA EXPOSICIÓN Nº 203 DEL MUSEO
DENOMINADA: “LA LÍNEA DIVISORIA” , CON FOTOGRAFÍAS DE LA “LÍNEA” DESDE FINES
DEL SIGLO XIX HASTA MEDIADOS DE LA DÉCADA DE 1940, QUE SON TESTIMONIOS
DEL PASADO DE NUESTRA FRONTERA DE LA PAZ. SE TRATA DE UNA COLECCIÓN
PRIVADA CON FOTOS DIGITALIZADAS, ALGUNAS EN FORMATO DE GIGANTOGRAFÍA,
CEDIDAS AL MUSEO ESPECIALMENTE PARA ESTA MUESTRA.
LA EXPOSICIÓN PODRÁ VISITARSE HASTA EL 17 DE DICIEMBRE
DE LUNES A VIERNES DE 11:00 A 17:00 HORAS
Convite enviado pelo professor Osmar Santos, artista plástico e diretor do Museu de Artes Plásticas de Rivera.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
O velho medo de ser feliz
Observando a imagem de meu pai, Jesus Aseff, e meu tio, Antônio, ao lado de um dos cachorros da Praça Flores da Cunha, algumas coisas me vieram à cabeça. Na verdade, muitas coisas.Vendo aquela cena alegre da infância santanense, nos idos de 1940, penso em que espaços urbanos nossa infância de hoje pode ocupar, para se divertir, passear, ou apenas sorrir despreocupadamente como os meninos da foto?
Pelo que sei, a Praça da Bandeira vive já há alguns anos “assombrada” por todo o tipo de pessoas marginalizadas e com mato alto ao redor. Mesmo o Parque Internacional não oferece mais a segurança necessária, antes do sol se por. Da periferia, dos bairros afastados e esquecidos, melhor nem falarmos, pois seria ainda mais trágico.
E a Praça dos Cachorros? Para começar, roubaram os cachorros e o que sobrou do espaço público que ainda resistia bravamente nos anos 80, está intransitável. Aliás, nada sobrou.
Daí me vem à mente algumas canções e jingles que povoaram nossos anos recentes. O primeiro deles é o velho “Sem medo de ser feliz”, das campanhas de Lula, lembram?
Conversando com o escritor Luciano Machado, ele me dizia estar temeroso do real engajamento da população nessa campanha de recuperação da praça, pois os jovens de hoje não conheceram o local em seu esplendor de espaço público. Se acostumaram ao que hoje está ali. Em outras palavras, tem medo de ser felizes. Ou nem desconfiam o que é felicidade.
Aí volta na minha cabeça a velha canção que diz: “Quando nascemos fomos programados, a receber de vocês, nos empurraram com os enlatados, dos USA, de nove às seis. Desde pequenos nós comemos lixo, comercial e industrial ...”.
Quer dizer, essa geração não consegue visualizar uma cidade renovada, feliz e desfrutável, a exemplo do que acontece nas praças de Rivera (desculpem, a comparação é inevitável), que parecem estar a 100 quilômetros de distância, mas estão a poucas quadras dali.
“Nada mais me deixa chocado”, já prenunciava aquela canção dos Paralamas. Hoje, somos uma sociedade que não teve o mínimo suporte educacional e cultural, está entupida de violência e com medo, muito medo de ser feliz.
Lembro do Parque Internacional como um território ao mesmo tempo lúdico e de resistência. Por ali passaram quantos militantes das organizações de esquerda, que buscavam refúgio no Uruguai dos anos 60? Quantos agentes da CIA, dos serviços secretos brasileiros também? Antes disso, quantos comerciantes, pistoleiros e ciganos no velho Areial ? Líderes políticos sob a influência das idéias anarquistas, comunistas e depois os partidários de Prestes?
Pela Praça dos Cachorros, então, quantos enamorados se beijaram e também quantos exilados buscaram ali uma visão reconfortante do país que eram obrigados a abandonar?
Logo após a chacina que vitimou quatro militantes comunistas em frente ao Café Tupinambá, no Largo Hugolino Andrade, em setembro de 1950, foi na Praça dos Cachorros que os companheiros de Rivera se uniram para jurar vingança e execrar o arbítrio.
E hoje, onde se reuniriam? Onde está o povo que merece ser feliz? Se esse local histórico, ele mesmo é um ator dessa memória, não é justo que o tenhamos de volta?
Por isso, pede-se aos homens públicos dessa terra, ao prefeito, ao intendente e vereadores, o mínimo de responsabilidade com as gerações presentes e futuras.
Não se está pedindo que vislumbrem muito além, como Georges Haussman, que modernizou Paris no final do século 19, com os bulevares que até hoje fazem o marketing da cidade.
Nem mesmo que sejam um Pereira Passos, que saneou o Rio de Janeiro nos inícios de 1900.
Mesmo esses dois grandes administradores incorreram em muitos erros, pois mexer com o social nunca será uma receita pronta e fácil.
Não se está pedindo que estas pessoas que hoje ocupam a Praça e o largo até o Teatro de Rivera sejam colocadas “porta-afora”, como foras da lei. Não.
Aí é que entra a responsabilidade dos administradores e políticos, que antes de mais nada precisam regularizar a situação destes comerciantes, legalizá-los e colocá-los em local apropriado.
Vejam os centros populares de compra que surgiram em capitais como Belo Horizonte, Florianópolis ou Porto Alegre e tome-se como exemplo.
O que parece líquido e certo é que da maneira como está hoje, a Praça General Flores da Cunha e o Largo Hugolino Andrade não servem como paradigma de uma cidade turística, moderna e aprazível.
O espaço da Praça deve voltar a ser cristalino e todos aqueles que não tem medo de ser felizes devem lutar por isso.
Essa é a primeira de muitas batalhas que devem vir, na busca de uma Santana e uma fronteira cada vez melhor para todos. A inclusão das periferias abandonadas tem de ser o passo seguinte.
Texto publicado originalmente no blog Santana do Livramento, em defesa da liberação da Praça Flores da Cunha e sua devolução a população da fronteira.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Demônio "noqueia" no terceiro round

"Depois do teatro, eu comecei na luta, a luta livre, já tava barbado, eu só lutava, eu tinha um empresário, porque todo artista tem que ter um empresário e ele tem que ser bom. Eu lutava com tudo que viesse [...] Aqui em Livramento, era no Ginásio Irajá, e nos circo também que vinham assim, nós lutava. No circo, na quadra do Irajá, quando era no Irajá, vinha gente de fora, vinha gente da Brigada Militar, volta e meia chegava gente de fora né? Vinha de todo o lugar, vinha assim, do Uruguai, da Argentina. Pois a luta mais difícil que eu encontrei foi em Buenos Aires, com o Pascoal Perez, ele era segurança do governador, Perón, do Presidente, é. Aquele foi difícil, ele era um cara que vivia só para aquilo também né? Que vinha treinando, treinando, e era bom brigador. Eu fui ganhá dele no terceiro ou quarto round, porque ele quis dá espetáculo, dá show, e deu uma bobiada aí eu noquiei ele"
Davi Martins, o popular Demônio, foi de tudo na vida. Artista de circo, lutador de boxe e luta livre, dono de cabaré no Prado. Neste relato, ele relembra o tempo heróico das lutas. A foto foi tirada em 2004, Demônio faleceu no ano passado. Texto publicado em Memórias Boêmias - histórias de uma cidade de fronteira (Edunisc, 2008).
Davi Martins, o popular Demônio, foi de tudo na vida. Artista de circo, lutador de boxe e luta livre, dono de cabaré no Prado. Neste relato, ele relembra o tempo heróico das lutas. A foto foi tirada em 2004, Demônio faleceu no ano passado. Texto publicado em Memórias Boêmias - histórias de uma cidade de fronteira (Edunisc, 2008).
domingo, 6 de junho de 2010
A versão de Eustáquio Apoitia sobre a chacina

"Tinha o Ary, mataram, eu conheci eles todos. Quem mandou matar? Foi a burguesia. Quem mandou não apareceu matando, só dizem que os comunistas inventaram de reagir contra a polícia[...]eu tava em Rivera aquela noite, quando eu vinha subindo começou o tiroteio, eu vinha com quatro e nos disseram prás banda da linha - vocês se escondam, porque tão matando os comunistas, mataram três ou quatro lá, bem na frente doTupinambá, alí . Nós vinha bem na esquina de Rivera, na linha, subindo ali, nós tinha ido comer na Cueva, e nós vinha vindo pro comício, mas não chegou a haver nada de comício, claro. O Ari Kulmann tinha uma pensão, a pensão da Dona Maria, ali na linha, ele foi o primeiro que morreu. E veio um do Armour que morreu, o Aladim Rosales. Tinha um morto no café Tupinambá E daí eles levaram eles pra Santa Casa, todos eles mortos e lá atiraram, como bixo, e não deixaram ninguém ver. Ai todos nós do partido fomos pra frente da Praça de Esportes, e ali juntamo um grupo de gente de ponta a ponta da praça, então eles marcaram o enterro. Então botaram eles no caixão e não deixaram se despedir de ninguém! Depois que sepultaram deixaram entrar no cemitério, mas aí, não adiantava mais nada, nós sem arma, o que ia adiantar? Os caras armado com mosquetão! Depois fizeram processo e veio gente daqui e dali, bons advogados, mas não adiantou nada! A policia toda foi absolvida e o brigadiano promovido, sabe o que é isso?"
O depoimento do construtor e militante do PC santanense Eustáquio Apoitia , filho do líder anarquista espanhol, Antônio Apoitia, joga novas luzes sobre o episódio do massacre do Parque Internacional. Na foto histórica, do acervo de Perseverando Santana, os companheiros visitam o túmulo dos militantes assassinados, 10 anos depois, em companhia de Luis Carlos Prestes, líder máximo do partido. Na foto, a partir da esquerda: Padilha, Ari Saldanha, Pedro Peres, Ângelo Cabeda, Luis Carlos Prestes, Eustáquio Apoitia e Cursine. Publicado em Memórias Boêmias, histórias de uma cidade de fronteira (Edunisc, 2008).
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Humberto Bisso testemunha a truculência

" Tu sabe, de repente foi aquele fogueteio, parecia um mundo de foguete e eu digo, óia Seu Sabino, e esse mundo de foguete o que será, vamos ver o que é? E saímos, nós não tinha chegado na esquina quando uma bala assobiou. Eu digo: -olha Seu Sabino, é tiro isso. E fomos até lá, o Seu Sabino ficou na esquina em frente aonde é hoje o (supermercado) 300 e eu entrei sozinho pela calçada. Fui passá num auto e já tinha um caído aí na calçada, arruinado, morto. Caminhei mais um pouco e num canteiro já tinha outro caído, um rapaz bom que eu conhecia, morava perto da casa da minha irmã lá. E no meio da rua tinha um, que estava ventando, e a roupa dele abanava assim, tava morto, mataram uma porção de gente. E eu quando entrei caminhando no Largo, um sargento da Brigada vinha com um revólver na mão correndo atrás de mim, e eu fui e botei as mãos no bolso, e segui caminhando e ele veio e se parou na minha frente e viu que eu não era de peleia e se foi embora. É que o sargento viu que eu não reagi, me olhou só. Aí eu dei volta e disse pro Seu Sabino: - Seu Sabino, vamo embora! "
/
O barbeiro Humberto Bisso morava a uma quadra do Parque Internacional, quando deu-se a chacina dos militantes comunistas, em setembro de 1950. Aos 100 anos, em depoimento a Liane Chipollino Aseff, gozava de uma vigorosa memória. Na ocasião - julho de 2001 - lembrou daquele domingo primaveril, quando findava mais uma concorrida sessão do Cinema América. Bisso saía de um bar das redondezas, em companhia do seu amigo, o guarda noturno Sabino. Conforme o barbeiro, escutaram um forte barulho de fogos e, curiosos, foram verificar o motivo de tamanho alvoroço, deparando-se com a cena do crime. [A fotografia é de cartão postal do Parque Internacional, de meados dos anos 50. O crime se deu no Largo Hugolino Andrade, logo em frente aos automóveis estacionados].
quinta-feira, 27 de maio de 2010
24 de setembro de 1950: o assassinato dos militantes comunistas

(...)Rosales e Kulmann,
Irmãos Aristides,
E tu Abdias,
Herói camponês
- de vida singela,
de sonho tão alto
esperem
confiantes
que outrora desponte no céu de amanhã (...)
Irmãos Aristides,
E tu Abdias,
Herói camponês
- de vida singela,
de sonho tão alto
esperem
confiantes
que outrora desponte no céu de amanhã (...)
(Lila Ripoll)
“ Em 1950, quando aconteceu a chacina eu não estava mais no Armour. Já tinha sido botado para a rua, por causa da greve que fizemos. Havian sindicalistas, casi todos, mas era el partido que estava determinando os acontecimentos. Era época de eleição, se supo que la policía ia tomar represálias, e se consultó a Porto Alegre e yo era uno, solo yo, que estava com Lúcio quando recibió ordenes de que podian hacer pichamento legalmente, que estava todo determinado de que no ia passar nada. Entonces aí se resolvió hacer, se convocó a la gente toda e se fez, se começó a pichar, quando vê, somos surpreendidos pela polícia. E chegou atirando, insultando e atirando e matando. E matou quatro! Havia 15 o 17 personas quando mucho, no havia más...Unos dirigian el trabajo e otros executavan ele trabajo. Estavam completamente desprevenidos, a arma deles era o pincel e a cal. Houve um que estava pichando, era parente do Perseverando, tinha uma fustinha, sabe o que é fusta? Um relhinho, e brigou de fusta. Tinha outro, que morreu, o finado Aristides Corrêia, que tinha um aparato que vinha nos carburadores dos auto antiguo, como que uma güela, assim, flexíble, e deu três ou quatro mangasso num deles com aquilo, e caiu morto, assassinado. Era mais ou menos las diez de las noche, era temprano todavia[...] o Ari Kullmann era o dono da Cueva. E recebia a polícia, a polícia se dava com ele, os que mataram ele não saíam de lá, jantando de noite e comendo sempre. Tinha um uruguaio, me parece que si, que era do centro do Uruguai, mas que fazia muitos anos que morava em Livramento, trabalhava no Frigorífico Armour, se chamava Aladin Rosales, e esse era um dos que podia ser castilhano. Esse foi um dos que morreu também. (...)
Era o Exército castilhano que vinha para a linha, Veio para a linha, ocupou a linha, o próprio Exército salvou um comunista, o Santos, me quiero acordar del nombre del, salvou porque caiu baleado das duas pernas e veio um metralhar ele com fuzil, foi quando eu saí dali, eu já não tinha mais bala e chegou o caminhão da polícia com mosquetão, o Exército. Iam fuzilar ele, e o milico castelhano disse que não, que não permitia, que ele tava no Uruguai- portanto o responsável por ele eram eles. E levaram ele, hospitalizaram ele e tudo, mas ele foi preso e o que salvou ele, era um tocaio dele por coincidência (risos) [...] O Lúcio foi curado no Polla, na Sarandi lá no fundo, num doutor que era comunista, Dr. Polaco Polla, chamavam ele, era russo, mas era médico castelhano, curou ele e imediatamente que curou ele, deu salida para ele pelos fundos, pelos muros da casa dele e comunicou a polícia que tinha curado um ferido, porque ele tem obrigação de anunciar né? Mas só depois que curou bem, ele largou. Ah, o Lúcio ficou em Rivera, e depois quem saía com ele era eu, só eu saía com ele. Ele ia com um prato de comida e um pano agarrado assim, disfarçado de mendigo, e era tempo de eleição no Uruguai também, e ele gritava - o partido Batllista era o de maior prestígio- e ele gritava: "Viva Batlle" em castilhano (risos), não muito bom castelhano, mas, e eu atrás dele. (risos).
Era o Exército castilhano que vinha para a linha, Veio para a linha, ocupou a linha, o próprio Exército salvou um comunista, o Santos, me quiero acordar del nombre del, salvou porque caiu baleado das duas pernas e veio um metralhar ele com fuzil, foi quando eu saí dali, eu já não tinha mais bala e chegou o caminhão da polícia com mosquetão, o Exército. Iam fuzilar ele, e o milico castelhano disse que não, que não permitia, que ele tava no Uruguai- portanto o responsável por ele eram eles. E levaram ele, hospitalizaram ele e tudo, mas ele foi preso e o que salvou ele, era um tocaio dele por coincidência (risos) [...] O Lúcio foi curado no Polla, na Sarandi lá no fundo, num doutor que era comunista, Dr. Polaco Polla, chamavam ele, era russo, mas era médico castelhano, curou ele e imediatamente que curou ele, deu salida para ele pelos fundos, pelos muros da casa dele e comunicou a polícia que tinha curado um ferido, porque ele tem obrigação de anunciar né? Mas só depois que curou bem, ele largou. Ah, o Lúcio ficou em Rivera, e depois quem saía com ele era eu, só eu saía com ele. Ele ia com um prato de comida e um pano agarrado assim, disfarçado de mendigo, e era tempo de eleição no Uruguai também, e ele gritava - o partido Batllista era o de maior prestígio- e ele gritava: "Viva Batlle" em castilhano (risos), não muito bom castelhano, mas, e eu atrás dele. (risos).
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Depoimento de Hugo Nekesaurt, militante comunista (na foto, à esquerda de Perseverando Santana) sobrevivente da chacina dos quatro militantes comunistas, em frente ao Parque Internacional, em 24 de setembro de 1950. A partir deste post, iremos publicar uma série de depoimentos sobre o crime. A poetisa quaraiense Lila Ripoll, militante comunista, dona de raro talento literário, imortalizou a luta em seus versos (acima, fragmento de Elegia). Publicado originalmente em Memórias Boêmias - Histórias de uma cidade de fronteira (Edunisc, 2008).
domingo, 2 de maio de 2010
Os anos de ouro do boxe na fronteira
(...)Não tinha a fama do futebol, mas as pessoas iam muito ver. Que eu me lembre não se pagava, tinha um público, mais ou menos, não era como o futebol, que era uma enchente de gente. O público era de maioria masculino. Tinha o Mário Cunha, ele gostava muito de boxe, ele gostava de fazer rebuliço de boxe, tinha o Sezefredo Paiva, ele gostava de lutar também, ele lutava grande. Tinha uruguaios e brasileiros sim, eles se reuniam né? e ali (Rivera) tinha uma academia de boxe.(...) Às vezes mudava de sede né? Faziam lutas internacionais, claro, às vezes vinha gente do Uruguai lutar, dessas lutas eu não assisti muito, eu tava em Porto Alegre. O Maturino Osório era daqui, de apelido Mondongo, era um lutador popular. Tinha o Sezefredo Paiva, que era de família de alta sociedade lá de Rivera, esses troço e tal, parece que ele lutou com profissional e foi aí que terminou (risos). Tinha aí no Colombo, aí houve luta de boxe, sim, houve, parece que umas lutas, mas esporadicamente, tinha em diversos lugares que eles faziam ringue, depois sim que caiu o esporte era no ano de 32, 33, 34, 35, depois o Mondongo foi para Porto Alegre. (...) A luta com o Maturino, essa eu assisti! Quando inauguraram o ringue Farropilha, alí perto do cais do porto. Quem vinha para inaugurar, era o Primo Carnera, que era campeão mundial de boxe, ele vinha de passagem para Buenos Aires. O Flores da Cunha foi inaugurar o ringue, o General e Governador, eu tava lá no ringue, eu também fui, e fizeram a última luta com o Maturino e o Retamose em homenagem ao General Flores da Cunha. O Retamose era daqui (Uruguai), parece que daí de Tacuarembó, mas era um bom lutador, e o Maturino. Fizeram uma homenagem ao Flores, conterranêo naturalmente do Maturino, porque Flores era daqui não? (risos) E no primeiro ou segundo rond, (risos) O Retamose deu um soco assim, pegou o queixo e o estômago do Maturino, o Maturino largo lá fora. (risos) Terminou a luta! O Maturino era valente, mas, era cheio de coisa para lutar, e até tinha um camisão assim, um chambrão de sêda. Aqui de Rivera, tinha muito aqueles troço de sêda. Tá, se apresentou o Maturino ! E nós todos, os santanenses batendo palma pro Maturino, mas ele lutou de novo, no segundo round, pegô e foi [... ]O Retamose era bom lutador. Quem foi vencer ele foi um rapaz de Pelotas, o Geraldino Oliveira, uma luta! Sim, todo ringue contra o Retamose ! Ele ganhou por pontos do Retamose, mas era valente o Retamose ! Eu me lembro. Tinha o negro Polo Norte, que era um negro também daqui, grandão. Era bom mas não era, assim de garra que nem o Retamose, os outros faziam coisa e ele aguentava, tinha o Juca Tigre, do Rio de Janeiro, vinham todos lutar aí, eu vi todos aí, em Porto Alegre, no Clube Farropilha, no seu auge!
Nas lembranças de Perseverando Santana, o auge do boxe na fronteira retorna em todas as suas luzes. Na foto, o jovem Hermes Walter, que depois criaria seu famoso "cineminha" popular, exibe os dotes de lutador. Publicado em Memorias Boêmias, histórias de uma cidade de fronteira (Edunisc, 2008).
quarta-feira, 31 de março de 2010
Demônio, o início como artista circense

Aí, tinha um circo, na divisa de Rivera e Livramento que se chamava Os Águias Humanas, e de tarde sempre eu ia por lá, em cima do morro, no Cerro do Marco. Ali, e de maneiras que eu me dava bem com o pessoal, com os artistas e o dono do circo, fiz amizade. Aí quando eu briguei com o meu pai eu fui para lá, eu treinava com eles ali, porque no Ginásio Santanense naqueles tempos a gente tinha que treinar (boxe). Também, aprender a subir corda e baixar corda essas coisas toda, porque no momento que se formasse e fosse para o exército tinha que saber, para sua defesa própria. Aí eu conversando com o proprietário do circo, eu disse que tinha largado os estudos e queria viajar com o circo. Aí ele veio, falou com o meu pai, arrumou a licença e eu viajei, aí começamo a viajar, por toda parte desse mundo! [... ] Eu escrevo poesia, teatro, eu faço música, faço tudo, eu tô escrevendo um livro também. No circo eu fazia trapézio, fazia o globo da morte com moto, eu treinava no circo, mas daí comecei a apreender muitas coisas, a magia, junto com os artistas, era praticamente uma escola. [...] Em toda parte do Brasil, quem não conhece o "Demônio" não é brasileiro! E no estrangeiro também, tanto Uruguai, Argentina. Mas mesmo assim nunca me subiu para a cabeça que eu fosse melhor que ninguém! [...] na primeira viagem eu fiquei três anos viajando e depois vim aparecer em Rio de Janeiro! Do Rio de Janeiro eu voltei, tive um mês em casa, aí seguido peguei outro circo.
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O lutador, músico e multi-artista David Camargo, o popular Demônio (foto), recentemente falecido, relembrou seu início no circo, em depoimento a Liane Chipollino Aseff. Publicado em Memórias Boêmias - Histórias de uma cidade de fronteira (Edunisc, 2008).
segunda-feira, 22 de março de 2010
O cineminha de Hermes Walter

"Eu era guri pequeno, era bem pobre mesmo, sabe? Então eu ajudava pedindo nas casas em Rivera, nas famílias, pedindo para lavar as calçadas, limpar algo, e eles me davam uns trocados, e eu ia ao cinema ver meus filmes, eu tinha uns 10 anos... um dia quando passava um filme do Frankenstein, eu fui escondido do meu pai, e eu pensava, na portaria dos cinemas, porque eu era conhecido dos porteiros, sabe? Quanto jovem sem dinheiro como eu e querendo ver um filme...., Um dia eu vou fazer um cinema para mim e para eles! E fiz. Esses filmes passei todos lá ! (...) Um dia andando nas ruas de Montevideo, um senhor me pára e alegre me chama pelo nome- Don Hermes! - fiquei espantado, pois nunca tinha visto o sujeito. Ele notou e disse: Graças ao senhor eu pude ver filmes na minha infância. Eu ia de férias para Rivera, na casa da abuelita, e frequentava o seu cinema, o senhor passava filmes de Bang-Bang, alguns não passavam aqui... Quero dizer que tudo isso é lindo, eu vou fazer amanhã 85 anos, e estou feliz, pois aquela gurizada, hoje é tudo gente de bem, doutores, todos tem alguma profissão, não tem ninguém na rua ”.
Hermes Walter (na foto de 2005, com as lembranças do Cineminha), ou simplesmente Seu Hermes, como ficou conhecido pelos quatro cantos além-fronteira, desde a sua infância pobre alimentava o desejo da construção de um cinema popular. Hermes, pode-se dizer, foi um visionário. Em sua fantasia juvenil idealizava um lugar que acolhesse os jovens que, como ele, não tinham como pagar o ingresso das matinés. Em 1954, finalmente realizou seu almejado projeto juvenil. A inauguração do Cinema Hermes brindava a população carente com filmes de qualidade. Desde então, espectadores de Santana do Livramento e Rivera deram início com freqüência cativa ao mítico Cineminha do Seu Hermes, nesse momento construído sob a forma de um rústico galpão e que mantinha a assistência lotada. Seu público infanto-juvenil partilhava do desejo de seu proprietário de ver na cidade uma sala de exibições para crianças e jovens carentes. O Cinema Hermes estava localizado na vila Júlio de Castilhos, lugar popularmente conhecido como Beco dos Maragatos.
sexta-feira, 19 de março de 2010
Humberto Bisso, o barbeiro memorialista

Humberto Bisso sempre manteve sua barbearia no mesmo local - na rua Conde de Porto Alegre, paralela à avenida principal de Santana- a duas quadras do Parque Internacional, próximo aos centros de lazer das duas comunidades. Mesmo com a idade avançada, esse personagem mantém um diálogo vigoroso com suas lembranças, que são minuciosamente revividas enquanto as relata. Na busca pelas emoções vivenciadas naqueles anos de juventude descomprometida, surgem em suas lembranças as cenas vividas com uma bela morena. Vistosa, porém comprometida com o chefe da Alfândega. Mesmo assim, destemido, enamorou-se da moça, expondo-se ao perigoso desenlace dessa ousadia. Ameaçado de morte pelos capangas do "bandidão", recorda do companheiro de serenatas que lhe emprestou uma arma para se defender, sem ele nunca ter dado um tiro! Pois quando o capanga entra em sua barbearia para tomar satisfações, Bisso vira-se de surpresa e desfere o tiro certeiro. A bala atravessou a boca do opositor, que foi levado às pressas dali. Bisso teve de recorrer ao auxílio do comissário de Rivera, seu aliado da boemia. Depois de algum tempo, voltou para Santana, sem mais ser incomodado. O tradicional barbeiro diverte-se apresentando as características físicas e os milagrosos dotes culinários de Don Godoy, o gorducho e bonachão cozinheiro uruguaio, seu amigo, responsável pelo requintado serviço gastronômico do Cabaret Cassino Internacional. Contudo, afora seus sofisticados pratos, o cozinheiro também podia lhe servir um singelo bife com batatas fritas não importando o adiantado da hora. Mas o que mais tinha gosto em assistir eram os espetáculos musicais, não deixava de admirar nenhum, pois todos eram apresentados por artistas estrangeiros: "Ah, tinha orquestras mui boa, mui boas! Teve um o Mejon Escalada, era espanhol, era o chefe da orquestra, tinha uma orquestra que tocava no cabaré, depois foi dono do cabaré também, tá sepultado aí (melancólico) Ele tocava de tudo não? Tango, valsa. O pessoal sentava assim numa mesa, e pedia cerveja, podia até pedir comida, porque vinha. Tinha até cozinheiro, o que tu quisesse tu pedia, se tu podia pagar né? (risos) Eu, muitas vezes me sentei na mesa e eu dizia - Godoy, hagame um bife bien gostoso eh! e vinha (risos). E os bifes não eram de carne braba, eram de carne boa! E as mulheres tomavam de tudo o que viesse, porque elas eram pagas pra isso, pra fazer gastarem não? Se sentavam numa mesa com um velho de dinheiro e impeçavam a pedir de tudo né? tinham que pagar, o trabalho delas era esse né! (risos)"
O barbeiro santanense Humberto Bisso (foto) viveu a plenitude dos anos românticos da fronteira, no início do século 20. Viu erguerem-se os cabarés de luxo, presenciou a banalização dos crimes nas ruas empoeiradas, viveu a boemia plena de uma época. Faleceu aos 101 anos, mas antes, dono de uma rara lucidez, narrou estas lembranças, reunidas no livro Memórias Boêmias, Histórias de uma Cidade de Fronteira (Edunisc, 2008).
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