domingo, 5 de agosto de 2018

Antonio Apoitia, o militante imprescindível


A sessão plenária da Câmara de Vereadores do dia 9 de junho de 1969 ficaria marcada na história de Santana e especialmente do advogado Antônio Apoitia Neto como um acerto de contas com a ditadura militar. O Ato Institucional Nº 5 havia decretado o fechamento do Congresso Nacional e o recesso das assembleias legislativas estaduais e câmaras municipais, entre inúmeros outros gestos de arbítrio, como fim do habeas corpus e instauração de censura prévia nos meios de comunicação. Nesse ambiente de extrema tensão, Apoitia iria fazer ouvir sua voz pela última vez no parlamento municipal. Único vereador santanense cassado pelo ato ditatorial, o advogado criminalista, recentemente falecido, fazia parte de um conhecido grupo de combatentes políticos marcados pela resistência ao golpe. Segundo vereador mais votado para a legislatura 1969/1972, egresso das fileiras comunistas, assumia a vereança em uma bancada majoritária do MDB, que não poupava críticas ao recém-empossado interventor municipal, o general Antônio Moreira Borges.

Na sessão de posse do interventor santanense, Apoitia já tinha ousado quebrar o protocolo e tomar a palavra, afirmando com ênfase suas posições nacionalistas, que batiam de frente com as diretrizes da “revolução”.  Selando definitivamente sua sorte, pediu a palavra e falou diretamente ao interventor, investido pelos votos que recebera. “Continuo mais nacionalista do que antes, porque quero ver a pátria brasileira livre da espoliação dos grupos econômicos norte-americanos que espoliam não só a nossa Pátria mas a toda a América Latina, todo o terceiro mundo”.  Mais do que suas posições contrárias ao AI5, Antonio Apoitia já estava “marcado na paleta”, como diz o linguajar gaúcho, devido a sua conhecida militância no sindicato dos bancários de Porto Alegre e a intensa colaboração no trânsito de exilados pela fronteira, nos anos que se seguiram ao golpe.

"O Apoitia era conhecido como a voz das ruas, porque ficava dias escondido em um sótão que existia no sindicato, à salvo da repressão, convocando os companheiros por um sistema de alto-falantes colocado nas esquinas", lembra o companheiro de sindicato e ex-governador do Rio Grande do Sul, Olivio Dutra. Devido a militância, em novembro de 1964 foi sequestrado pelo Dops gaúcho e permaneceu encarcerado durante 30 dias na penitenciária estadual, sem saber se dali sairia vivo. Após o intenso período de tortura psicológica, vivendo em condições sub-humanas, foi libertado e voltou para fronteira, onde perfilou-se na ala dissidente do PCB, que buscava uma reação armada ao golpe. Com o aprofundamento da repressão passou a trabalhar nos bastidores, vivendo em Rivera, fazendo a vez de “pombo correio”, sempre que fosse preciso. Amaury Silva, Cláudio Braga, Leonel Brizola e o presidente deposto, João Goulart, faziam parte da rede de exilados auxiliados por Apoitia.  Eu tinha um amigo na policia de Rivera, e entrava no Uruguai com uma identidade falsa, onde eu tinha o nome de Antonio Almafuerte, que foi inspirado em um poeta argentino”, costumava lembrar. 

Atuando junto ao advogado uruguaio Adán Fajardo, Apoitia iria conviver intensamente com o colega e exilado político Tarso Genro, que recentemente lembrou do amigo como uma pessoa “imprescindível”  e “militante político de primeiro nível”.
Oriundo de uma família de raízes anarquistas e comunistas, Apoitia foi resgatado – aos dois anos de idade - de um incêndio, que consumiu a panificadora de seus pais, na atual esquina das ruas General Câmara e Hugolino Andrade. Herdeiro de uma tradição libertária, o advogado iria atravessar os anos de repressão com um prestígio intocado, coroado pela eleição a vice-prefeito na chapa do radialista Oriovaldo Greceller em novembro de 1985. Exemplo para toda uma nova geração de políticos da fronteira, Antonio Apoitia abdicou até mesmo da vida pessoal para dedicar-se a luta política e a solidariedade.

Texto e foto: Marlon Aseff

publicado originalmente na terceira edição de Almanaque Santanense

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Luana Mockffa: Confissões de um coração em transe


Luana Mockffa é cantora brasilis. Luana vive em Floripa. Luana é musa do dream pop. Luana transita em um país afogado na mediocridade dos homens de gravata. Luana acaba de lançar um single que está causando e prepara novidades. Luana bateu um papo com Jogos da Memória sobre seu processo criativo, seus singles, e de como é viver em um pedacinho de terra perdido no mar...  

Como é ser artista no nosso convívio ?
Minha família nunca me levou a sério, inclusive na música. Nunca foram nos meus shows, nunca deram bola para ouvir minhas músicas, os vídeos, nada. Mas desta vez eles pararam...acho que foi o vídeo do Vernizzi, e da música ser mais pop, eles levaram a sério... do tipo “uau, nem parece que foi você que fez”. E a partir disso meu pai tem me dado alguma sugestão de apoio no sentido financeiro...ou seja, toda uma logística que envolve uma certa grana, e tá sendo positivo isso.

Mas já tinha lançado o primeiro EP ?
Sim, mas o primeiro EP foi bem atrapalhado, eu tinha 24 pra 25 anos. Foi em 2013 que começamos a gravar e lançado em 2014. Tinha cinco faixas, sendo que em duas delas eu não fiquei satisfeita, mas vou relançar. Chamava-se Algia, que é um sufixo de dor....como fibromialgia.... A música já transitava pelo Dream Pop. Tem uma versão de Manhã de Carnaval, uma bossa nova do Luiz Bonfá, de 1953...por aí. Mas no EP não faz alusão alguma a bossa nova, é um arranjo de milonga, com uma distorção à la Bang Bang, da Nancy Sinatra. E isso dentro do meu mundo não precisa de significado, ou que referencie um rótulo para minha música...preciso é que se materialize. É uma música de sintetizadores, mas a guitarra é guitarra. Tem clarinete, no timbre, e funciona muito bem. Na época, eu tava numa pira de entoações tribais, de cantos meio xamânicos, então tem umas segundas vozes que lembram isso. Tem outra faixa que se chama Mount of Sugar, que eu me inspirei na obra Revolução dos Bixos. Na versão em inglês tem uma fábula que os bixos contam para os outros bixos, que tem um lugar que se chama mount of sugar. Lembro que eu relacionei a morte, mas uma boa morte...na época eu tava tão niilista que eu pensei, bom, esse lugar não existe...

O EP tem uma mensagem ou algo que o identifica com esse momento?
Tem algo central, que é o processo de dor que eu estava sentindo fisicamente enquanto eu fazia ele. Por isso que se chama algia. Eu ainda não sabia lidar com a quantidade de remédios, e fazer o meu timbre ficar... eu perdi o controle da minha voz, porque na época eu estava tentando me acostumar ainda a falar e ter reflexos de novo, são muitos remédios...

E o single Eu vou fugir pro Rio de Janeiro, como dá para definir, os beats ...
Beats são bases musicais onde tem tudo. Tem bateria, órgão, tudo o que você quiser pode ter num beat. Originalmente era só batida, mas os beats foram evoluindo tanto que as batidas foram ficando sofisticadas, os softwares foram ficando sofisticados, e hoje você consegue fazer uma música inteira a partir de um beat. Então, mesmo que tenha hip hop, rap, ali naquelas batidas, é um beat não feito para isso... porque eu misturo com elementos bem pops. Eu tava numa fase de ouvir muito rap nacional e muito pop nacional e internacional. Então misturou tudo. Por isso esse trabalho tem mais lucidez. No Algia eu tava muito dopada, e eu não tinha o controle das coisas, tudo foi feito meio que às xongas, assim (risos). Só que agora eu sei o que eu quero, eu sento do lado do Yraq, que é meu produtor, e falo o que eu penso. Somos co-compositores.
Quais foram suas influencias para esse trabalho que sucedeu o Algia?
De rap tem Menestral, Froid, Rincón Sapiencia, Criolo, Djonga.... é uma galera underground, que faz seu sucesso. Mas eu vou na vanguarda do pop também. Porque o que me cativa no pop é a produção. Quando entra o clap, em que parte faz a transição para o kick, como se trabalha os graves, médios  e agudos...Na verdade eu até desconstruo o pop, mas eu ouço um pop de bastante qualidade, como a Sia, Pharrell Williams, Drake, The Weekend, Beyoncé, esse tipo de pop. Então fazem parte de uma pesquisa que pode até não ter método algum, porque se trata de ouvir o que eu quero, e que naturalmente vira um híbrido. Ah, e o Tim Bernardes, que faz uma espécie de MPB de vanguarda, e Mac Demarco, que faz um som bem easy...tem o Devendra também, que é o gênio da mistureba.

Eu vou fugir pro Rio de Janeiro nasceu dessa mistura?
Sim, a música fala dessa cantora que quer fugir pro Rio, e prospecta seus sonhos e entoa um mantra, tipo vai dar certo! Totalmente autobiográfico, na primeira pessoa, sou eu mesmo. E desde que eu comecei a assistir Branca de Neve com a minha filha, a Maria Clara, eu me apaixonei por uma melodia do filme, da versão em português, que diz um dia, um dia eu serei feliz... mas a letra é super passiva, de uma mulher que fica esperando um homem, que depois beija ela, salva ela...Então eu uso só a primeira frase original, mas depois coloco minha letra como uma resposta para ela. Fiz uma releitura, uma versão em recorte, misturado com todo o resto... No começo eu queria colocar o início da música da Branca de Neve, e em paralelo eu tinha o refrão do vou fugir....aí o Yraq me mostrou um beat que já era próximo de como ficou o original. Comecei com Branca de Neve, mas toda vez que ia cantar eu saía do tom, aí eu resolvi fazer um teste, que era encaixar o refrão e ficou perfeito, no sentido de dois pedaços darem muito certo. Aí foi a produção do beat, onde o mérito é todo do Yraq.

O clipe também foi um ponto alto do trabalho.
O clipe é o seguinte, eu sempre tive vontade de trabalhar com o Felipe Vernizzi, que é um diretor e fotógrafo, pelo qual eu sou completamente apaixonada pela linguagem cinematográfica dele. E eu contactei ele, e mesmo com pouquíssimo orçamento, ele veio para Florianópolis. Ele já era amigo de outro produtor com o qual eu tenho um duo, chamado Artemisia Vulgaris, que é o Rodrigo Ramos. Eu já tinha o figurino do clipe, e aí mostrei a música para ele, que adorou. Aí ele ouviu também outra música, que se chama Sleep Well, que ele adorou e quis fazer clipe dessa música também, que devemos lançar nas próximas semanas. Esse clipe foi feito no pinheiral do Rio Vermelho, dentro de um opala, que é um carro atemporal.

No clipe de Vernizzi não há um lugar definido, tipo olha é Floripa! Isso é deliberado?
É qualquer lugar. Mas não é que não seja Floripa. Na verdade eu estou sentindo falta de uma cena em Floripa. Tá acontecendo uma cena muito forte de mulheres, e é por isso que eu estou sentindo falta da cena, porque existem as pessoas mas não existe espaço de sobrevivência através da música. Pessoas incríveis, como a Renata Swoboda, a Carol Voigt, uma mulherada.. os Skrotes são maravilhosos...aqui teve uma música praiana, de reggae, que eu acho que se foi, ficou um vácuo. Falta subsídio, galera tá dura de grana, nem para ir a show. O clássico agora é comprar cerveja no mercado para beber em casa. E há um boicote a cultura que foge do padrão “ilhéu”, infelizmente. Tem François Muleka, tem um monte gente, que eu acho que já tem seu prestígio. O que tá faltando é um espaço de renovação. É muito difícil a abertura da mídia daqui para coisas novas, pessoal prefere repetir a pauta com o mesmo artista do que dar um play e ouvir de verdade o que o artista novo enviou junto com o release. 


por Marlon Aseff


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Espaços da memória: do Areial ao Parque Internacional


Os espaços nunca são inocentes, tem memória, a nossa, individual, e a coletiva, que vão se acumulando através de episódios significativos da história, de expressões arquitetônicas e literárias. Conforme abordam os estudos sobre memória coletiva de Maurice Halbwachs e Pierre Nora, os lugares da memória são como um palimpsesto.[1] Ou seja, os pergaminhos gregos utilizados para escrita. Reutilizados, sobrepostos estão a outros, conforme o tempo os vai apagando, vão surgindo vestígios daqueles que ainda estão lá, que não se apagaram completamente.  No entanto, estão todos lá acumulando historicidade como o pergaminho que se raspa para novamente escrever deixando as camadas com a escrita anterior nítida.

Embora assegure lugar na história, a memória, no entanto, exige cuidado, pois às vezes coloca relatos forjados no presente  a partir de interesses e julgamentos morais. Desta forma os espaços, paisagens, cidades, pessoas, se configuram à medida que “nós escrevemos ou apagamos”   as lembranças que estão dentro da memória coletiva. Precisamos olhar esse espaço transformado, destruído, desgastado pelo tempo, a cidade do passado.  Foi com essa intenção que investiguei as origens do espaço que hoje denominamos Parque Praça Internacional em minha pesquisa sobre o lazer fronteiriço.

 A Praça Internacional, mais conhecida na fronteira como o Parque Internacional,  está localizada no centro das cidades de Santana do Livramento e Rivera.  Em 1851 foi assinado o Tratado de Limites entre o Uruguai e Brasil, definindo-se a necessidade de demarcação da linha de fronteira entre a localidade de Serrilhada e Masoller. Também foi definida a instalação de marcos delimitadores na extensão de toda fronteira brasileiro-uruguaia Mais tarde na década de 1910, a demarcação na região onde atualmente está instalada a Praça Internacional foi realizada de maneira distinta das outras.

Conforme escreveu o historiador Ivo Caggiani, a praça foi criada com objetivo de substituir o usual “divisor de águas” comumente utilizado para definir e marcar o território de fronteira: “tal método demarcatório é estabelecido pela própria natureza, quando a água da chuva, ao cair, corre uma parte para cada lado, determina a linha por onde deve passar a fronteira”. No entanto na região da futura praça, ao contrário de áreas rurais e periféricas, não foi possível instalar balizas divisórias. No espaço de aproximadamente quatro quilômetros havia construções dos dois lados que excediam a linha de fronteira. O local que divisava as casas era constituído de um terreno irregular, arenoso e com mato fechado, que ao centro abrigava uma pequena lagoa.  Era o Areial ou tierra de nadie, como era chamado pela comunidade fronteiriça, que se valia do local para uma série de atividades ligadas ao esporte e lazer.

A história de sua criação teve vários protagonistas, foram muitos encontros diplomáticos até a conclusão do projeto que vemos hoje. Em 1919, reuniram-se para definir os limites fronteiriços os diplomatas chefes da Comissão Mista de Limites, o uruguaio Virgílio Sampognaro e o brasileiro, ministro Mariscal Botafogo. Em 1924, na cidade de Montevidéo, em uma reunião, os dois diplomatas teriam acordado o projeto da praça comum aos dois países, determinando que no centro dela estivesse um grande marco decorativo. Em 1925, os diplomatas reunidos em Santana do Livramento,  determinaram dar continuidade a construção deste espaço internacional. Surgiu a ideia de um projeto de revitalização daquele espaço: uma praça moderna, com arquitetura arrojada que servisse as duas comunidades, acompanhando a urbanização da região Entretanto após várias negociações e concepções arquitetônicas apresentadas, o projeto definitivo apareceu mais de uma década depois, em maio de 1938, em Rivera. O projeto urbanístico atual chegou pelas mãos do arquiteto riverense vinculado à Intendência, o maçon Modesto Paez Seré, que buscava traduzir a unidade e irmandade cultural das cidades, inspirados em símbolos deliberadamente maçons. O projeto estava em sintonia com os ideais dos governos uruguaio e brasileiro no momento de sua criação, pois a praça foi “construída para dividir e unir estas cidades”.  Um projeto gestado para marcar a história urbanística da região que posteriormente serviria de modelo para outros países, pois se dedicava a acentuar a irmandade entre os povos. [2]

 Lembrando novamente que os espaços não são inocentes, que tem interesses e memórias distintas, Fernando Aínsa alerta que podemos descobrir “ consternados, que o triunfo de la ideologia intenta ser la medida de la memoria seletiva que  controla y jerarquiza” [3] Assim a Praça Internacional foi inaugurada em 26 de fevereiro de 1943, quando o mundo ainda vivia os horrores da Segunda Guerra Mundial. O espaço comum, sugerido pelo ministro Vigílio Sampognaro foi constituído para “todo él brasileño, todo él uruguayo”, ou seja, livre de divisas entre os dois países em um mesmo espaço. Assim, quando penetramos neste espaço, não estamos em um “lado brasileiro” ou em um “lado uruguaio” estamos dentro dos dois países ao mesmo tempo. [4] Por muito tempo a comunidade e turistas que visitaram e continuam visitando a fronteira, levados muitas vezes, pelo senso comum divulgado pela publicidade e mídia, tiveram essa imagem equivocada.

O antigo Areial, transformado em um ambiente dotado de uma estética contemporânea, obedecia a um impulso modernizador dos grandes centros urbanos, ao mesmo tempo em que indicava ao mundo o exemplo ”de civilidade, fraternidade e igualdade entre as nações”, conforme informavam artigos da época. Por outro lado, convém aqui lembrar o cenário cultural daquele momento, determinando expectativas em torno do conceito do novo, do moderno. A palavra se encontrava impregnada no imaginário da sociedade brasileira em contraposição a tudo que remetesse ao que era antigo, ou seja, em um passado recente. No momento que as autoridades diplomáticas decidem-se pela construção do espaço, podem-se verificar mudanças de hábitos e comportamentos nas comunidades: da emergência do automóvel em substituição as antigas volantas, o calçamento das ruas centrais em troca “das antigas ruas empoeiradas,” a abertura de novas e largas avenidas, as lojas amplas e envidraçadas, enfim ocorre uma mudança de costumes. No cenário brasileiro, portanto, o conceito de que o novo substitui o antigo, originou-se nos primeiros anos da república brasileira através de ações dos governantes militares positivistas impregnados com a filosofia de Augusto Conte. Ocorre um remodelamento nos centros urbanos, apagando os vestígios da feição colonial nas cidades. Na fronteira, a partir dos anos 40 aparecem discursos que se constituem entre conflitos e diferenças culturais, reservando ao novo espaço o símbolo da paz.

Em minha visão, o imaginário da comunidade fronteiriça é impregnado por um discurso unificador das nacionalidades que se constituem entre conflitos e diferenças culturais estabelecidos pelos interesses dos governantes e imprensa local. Na fronteira, observa-se o empenho dos governos municipais em promover uma campanha de revitalização dessa região comum às duas cidades. As primeiras décadas do século XX haviam sido de crise econômica e social na região. É dada a largada para algumas políticas direcionadas ao desenvolvimento do setor turístico local. Observamos algumas leis riverenses instituídas na década de 1930:[5]

Ley de creación de "ciudad de Turismo": 22 de diciembre de 1936. En 1938: primera excursión "fonoeléctrica". Eran trenes donde se escuchaba música durante el viaje, toda una novedad. En enero de 1941 se formó la Comisión de Fiestas y Turismo. En enero de 1942 se inaugura el Club Uruguay. En agosto de 1942 el Casino. En febrero de 1943, inauguração do Parque Internacional e a revitalização do comércio do Largo Internacional.

Em Santana do Livramento, surgem várias salas de cinema, após a Segunda Guerra os passeios tradicionais da população abandonam a Praça Gal. Osório e procuram às ruas amplas da vizinha Rivera, A calle Sarandi com seu aspecto largo, arrojado, cativa os jovens aos passeios dominicais a peatonal e seus cafés, cinemas, lojas e novas lanchonetes.  Nelson Moreira observa em seu livro sobre a construção do passeio que  a vida urbana fronteiriça nos anos 40 em nada se assemelhava com a realidade dos anos 20 quando foi proposta a construção. Embora o projeto do arquiteto Paes Seré fosse o mesmo aprovado em 1938, com “leves modificações’, as cidades haviam se modificado, se urbanizado: “A população flutuante se destacava na paisagem fronteiriça, a frequência de aeronaves e empresas interdepartamentais de ônibus”, excursões fonoelétricas faziam crer que “ havia uma fronteira pujante,  em que já sobrava e molestava o Areal”[6]

Em meados de 1941, finalmente, após anos de debates, reuniões diplomáticas e sete ou oito projetos oficiais, emergem dos gabinetes a concepção arquitetônica que temos atualmente. Infelizmente neste mesmo, faleceu o arquiteto mentor da Praça Internacional. Contudo, em abril de 1942, após a assinatura da ata de inauguração dos trabalhos pelos representantes oficiais dos presidentes da república uruguaio e brasileiro, iniciaram as obras de construção do espaço.  A remodelação acontecia também no entorno da nova praça. Nas ruas centrais de Rivera, o reboliço estava na concretagem das ruas centrais, no corte dos nostálgicos plátanos, tão estimados e cantados por Olyntho Maria Simões e Agustin Bisio. “Desaparecia assim uma rua aldeã e em seu lugar se abria uma rua ampla e concretada, com veredas novas e amplas. Em um ano se apagou uma época, ainda que a novela postergasse a nostalgia por bastante tempo” relatou Nelson Moreira. Havia consternação com os cortes dos plátanos e o Areial, contudo as obras seguiram seu destino.

E na manhã de sexta feira pré-carnavalesca, para celebração inesquecível na história das cidades, inaugura-se a tão esperada Praça Internacional. Após vinte anos de negociações e trâmites diplomáticos, uma multidão estava presente para assistir o final desta partida. As bandeiras de todos os países americanos dançavam enfileiradas ao vento. O desfile tropas e de bandas militares, estudantes e instituições dos dois países foi registrado por jornalistas de diversos lugares. As ausências dos presidentes uruguaio, General. Arq. Alfredo Baldomir e brasileiro, Getúlio Dornelles Vargas foi sentida e registrada nos diários e na memória da população fronteiriça. Embora enviassem representantes oficiais, do lado oriental, Ministro do Interior Hector Genoma, e brasileiro, Ministro do Trabalho, Comércio, Justiça e Interior, Dr. Alexandre Marcondes Filho. Com convidados oficiais, a viúva do arquiteto criador do projeto Sra. Páez Seré presente além uma multidão de populares, muitos viajaram de cidades vizinhas, estava inaugurada oficialmente a Praça Internacional.

A construção de uma praça central, na divisa das duas cidades delimitando imaginariamente duas nações foi sem dúvida, um elemento significativo dessa política.  Nesse sentido, podemos estimar que os governos buscassem a construção de um símbolo, um marco, uma identidade que diferenciasse essa fronteira daquele cotidiano tumultuado da Segunda Guerra Mundial instalada no continente europeu. Como sugeriu um escritor peruano, em passagem pela fronteira, “justamente quando o mundo agitava-se diante desse conflito, a região apresentava-se como um exemplar da "civilidade" latino americano”. 

Entretanto é importante relembrar a importância do antigo Areial para as novas gerações. O espaço esteve presente ao longo dos anos no cotidiano da comunidade fronteiriça, que privilegiou o local como espaço genuíno do lazer. Do ancestral descampado, chamado Areial, aos anos recentes da moderna Praça Internacional, este espaço afirmou-se como um local  político, cultural e econômico para as cidades.  Situado na linha de fronteira o Parque vai se mostrar também um espaço de negociação, abrigando exilados e fugitivos nas recentes ditaduras que abalaram Brasil e Uruguai.

Retrocedendo algumas décadas, encontraremos outro espaço em um mesmo espaço. As cidades viviam uma crise social e econômica, o Areial com frequência era referência de esporte e lazer das comunidades. Na paisagem deste descampado “areial da linha”, ou “tierra de nadie”, lugar baldio, irregular e de matagais, Improvam-se atrações culturais como espetáculos de circos, cinema mudo, cavalhadas, canchas de tênis, futebol e hockey. Havia ainda os chopes ruivos da cervejaria Gazapina, vendidos nos Kiosques El Ribot e Biquita localizados na parte alta do areial, na Avenida das Palmeiras (atual Largo Dr. Hugulino Andrade), que ajudava a distrair a platéia. 

O Areial das décadas de 20 e 30 contrastava com seu vizinho, o Cine Theatro Cabaret Internacional, um esplendoroso prédio, império da boemia, onde a roleta e o pano verde serviam de pretexto para espetáculos luxuosos. Atrações internacionais e muito champanhe, espetáculos artísticos e serviço de restaurante sofisticado.  O luxo do Cabaré- Cassino impunha-se em contraste com a escuridão daquele descampado Areial, que abrigava atrações circences e ciganas para a maioria da população. Em muitas ocasiões o local também foi palco de  violência e mortes, ajuste de contas entre capangas e contrabandistas. Segundo noticiou um jornal santanense  O Republicano, era "lugar perigoso, esconderijo para bandidos". Portanto, longe de constituir-se no atual espaço privilegiado do Parque, o Areial era considerado um espaço público livre de qualquer valor moral ou mitificador. Em seus bons dias o lugar tornou-se referência da diversão à comunidade. O memorialista Cirino, reconstituiu seu espaço: “A linha era uma zona de chácaras e potreiros, era mais uma estrada barrenta, em dias de chuva do que propriamente uma rua para o pedestre transitar, o transito era a pé, em carros ou carroças de tração animal; na cidade havia uns quatro automóveis de particulares [...] revolucionários emigrados, entre os oficiais Siqueira Campos, Cordeiro Campos, entre outros, estabeleceram-se como comerciantes em Rivera, e alguns outros, menos afortunados, acamparam nas imediações do Cerro do Marco”.

Assim como numa colcha de retalhos, os moradores dessa fronteira buscam rememorar sua juventude através dos lugares que visitaram, das cenas pitorescas que viveram e que preenchem o universo de suas recordações. O passado é vivenciado como outra época, perseguido constantemente nas lembranças de outra cidade e seus espaços perdidos na memória. Memória que  também é um espaço pantanoso e construído conforme nossas lembranças, erguido em experiências pessoais onde muitas vezes certas vivencia são relevadas em função de outras, essa é a construção da memoria.

O barbeiro Humberto Bisso, que viveu intensamente estes dois espaços temporais, o do Areial e do Parque Internacional sabiamente, costumava lembrar, que os dois tinham muito em comum, pois se foram locais de disputa e violência, também ofereceram muita diversão, para a população: “tu sabe, essa praça nova que está ai, veio muito tempo depois do antigo Areial,¿” Divertia-se com os colegas ao ver a passagem das moças que iam trabalhar no Cassino Internacional,” todas elegantes de salto alto e caminhando e tropeçando no arenal” Pois não foi nela que ele viu “caírem mortos operários comunistas do Armour em uma noite fria de primavera¿. Assim como em 1956, emocionado viu passar na mesma vereda da praça, a comitiva de boas vindas ao Presidente JK Jucelino Kubischeck, quando visitou a cidade em seu centenário! O Parque Praça Internacional é um espaço sentimental, cada um tem um parque dentro de sua memória, que ao longo do tempo foi metamorfoseando-se em diversos espaços da memória e sentimentos. 

 Se nos anos 1930, o Areal foi espaço dos desmandos caudilhescos e de pistoleiros, trazendo notícias diárias nos jornais que lembravam aos fronteiriços que aquele era um o espaço dominado pela violência, a população também recorria a ele quando queria diversão seja pela chegada de circos, as sessões no cinema mudo do gordo Ducos, quando havia partida de futebol  ou cavalhadas,  afinal ali também encontrava-se o lazer, comum as duas cidades.

 Após a inauguração do novo espaço internacional, entre meados dos anos 1940 e 1950, a Praça moderna e ampla seduzirá outras gerações de famílias, que disfrutam o lazer moderno, com seu entorno repleto de lanchonetes e restaurantes.  Espaço para caminhadas, piqueniques, esporte, fotografias e namoros. Espaço dos lambe-lambes que desde então, eternizaram nos retratos sua população e a de turistas. Os passeios depois das sessões do cinema e matinés dominicais. Mas também foi em suas calçadas, no novíssimo Largo Internacional que ocorreu a chacina dos militantes comunistas mortos, quatro homens que, nas palavras da poetisa Lila Ripol, “ousaram sonhar com um mundo mais justo”! 

Nos domingos havia o encontro semanal dos imigrantes árabes libaneses e palestinos aos pés do Obelisco, que ali conversavam na língua mãe, fechavam negócios e tomavam chimarrão, apropriando-se de novos costumes. Na década de 60 e 70, o lugar se estabelecerá como um Parque-espaço da solidariedade e do exílio, lugar de passagem de perseguidos das ditaduras brasileira e após, uruguaia. Em seus arbustos ocultaram-se documentos e armas dos guerrilheiros. Por suas alamedas passearam jovens idealistas vindos de outras regiões do país. Entretanto, a praça ainda é espaço de lazer, namoros, fotografias, esportes, de encontros de presidentes militares que exibem sua diplomacia e divulgam convenientemente a irmandade  inscrita no marco obelisco.

 Os anos 80 lembrarão de que o Parque ainda é espaço lúdico de diversão, de lambe-lambes, da sociabilidade adolescente, dos encontros fortuitos, de amantes, de prostituição. Contudo liga seu alerta vermelho denunciando o início de sua descaraterização, com a chegada de trailers gastronômicos e bancas de artesanato, aos poucos a economia informal vai se aproximando até se estabelecer sem a devida fiscalização. A limpeza, os cuidados de jardinagem e manutenção que desde sua inauguração foram dados às administrações municipais iniciam seu lento processo de deterioração.

Estaria a Praça moderna, retornando a ser aquele local esquecido lá no passado, uma "terra de ninguém"? Entramos nos anos 90, e nosso símbolo da irmandade, imóvel, não reconhece o esplendor de poucas décadas passadas. O espaço será da prostituição, de shows musicais e espaço de manifestações políticas, dos parques de diversões. A partir dos anos 2000, a praça agoniza, pede socorro, o espaço é do abandono, Porém ainda é apreciado para o desenvolvimento da cidadania com as manifestações políticas, da diversidade, eventos culturais como a Feira do Livro Binacional. Também abrigam festivais de ovino e vinho, cultos religiosos, festivais nativistas e recentemente, gastronômicos. Ainda temos uma área concebida originalmente para descanso e lazer? Antes da criação do Parque, foi mais de vinte anos gerando um espaço monumento, que iria perpetuar ao mundo os valores da irmandade, igualdade e fraternidade, um espaço genuíno de lazer e descanso.[7] Finalizo com as palavras para reflexão do poeta Getúlio Neves:

Deixem a praça
para os velhinhos e crianças que encontram no aconchego das bandeiras a segurança que esperam e temos obrigação de  dar lhes.
Deixem a praça
Para o sono dos cães sem dono, bêbados e mendigos.
Deixem a praça
Para as ciganas de saias coloridas, os retratistas de preto e aos realejos nostálgicos.
Deixem a praça para o voo curto das pombas, ao João de barro que fez sua casa no lado uruguaio com o barro do lado brasileiro. 
Deixem a praça
Para o poeta que, a noite, retardatário, recolhendo seus passos diga:
Amo o silêncio desta praça vazia [...]
É madrugada, vem, talvez possamos
Percorrendo de leve as alamedas
Ver a garoa no seu ciciar de sedas
Tecendo-se em resinas pelos ramos.
[...] Deixem a nossa praça, para o beijo bilíngue dos namorados!


* Texto apresentado na Universidade Federal do Pampa - Unipampa, em 11 de outubro de 2017.
Liane Chipollino Aseff é pesquisadora e Mestre Historia Cultural pela UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina.


[1] AÍNSA, Fernando. Espacios de la memória. Lugares y paisajes de la cultur uruguaya. Montevideo: Trilce, 2008.
[2] Convém lembrar que o Itamaraty lançou na ocasião um concurso para admissão do projeto, o arquiteto modernista carioca Lúcio Costa enviou material para participação. Somente em 2011 seu projeto foi descoberto e levado a público através da iniciativa do Cônsul Geral do Brasil em Rivera, embaixador Vitor Candido Paim Gobato seu vice-cônsul, Cláudio Santana
[3] AÍNSA, Fernando. Idem,  p.16. Importante também observar nesse episódioda construção da praça que, “como toda la autoridad que domina el presente pretende determinar el futuro y reordenar o passado. La legitimación de la orden estabelecido que esta recuperación seletiva del passado, mas politica, que cientifica, aunque se apoye em acontecimeientos reales, documentos fidedignos e interpretaciones históricas” 
[4] Grifos meus.
[5] Conforme informou gentilmente a historiadora riverense Selva Chirico. Também consta no livro A história do Parque Internacional, de Nelson Ferreira Moreira, p.17.
[6] MOREIRA, Nelson Ferreira, A história do Parque Internacional. Rivera: Intendencia Departrtamental de Rivera, 2010, p. 17. Grifos meus.
[7] Após 20 anos de relativo abandono e o consequente soterramento dessa memória, mais uma vez o patrimônio histórico e cultural da Praça é ameaçado por um projeto unilateral, entre as prefeituras das cidades sem a participação da população fronteiriça, alijada das decisões  sobre seus espaços mais expressivos e sentimentais. 

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Solidariedade, conflitos e traições no exílio: a última conversa


Por Pedro Dávila de Mello.

Com a morte de Roberto Fagundes, em Rivera, Ofélia caiu num abismo de sentimentos. Primeiro veio a tristeza, depois, uma profunda depressão jogou-a ao fundo do poço, e, por último, uma tentativa de suicídio. O amor incondicional aos filhos Paulo e Aníbal, e o tratamento com psiquiatra ajudaram-na a reerguer-se lentamente. Na verdade, tentou ficar bem durante mais de quarenta anos, alternando as crises de tristeza com breves momentos de euforia. Em todo esse tempo os filhos estiveram presentes dando-lhe apoio emocional e financeiro. Na verdade, a dedicação à mãe foi tanta, que, impostos pelas circunstancias, nalguns momentos chegaram a inverter os papéis de filhos com os de pais. Condições estas que levaram os rapazes a uma exaustão física e mental, contribuindo involuntariamente com a desestruturação familiar. Pensando em melhorar a situação da mãe, resolveram hospedá-la numa casa de repouso.
Na tarde, antes da mudança, Ofélia Fagundes quis ter uma conversa com seu filho mais velho. Para isso, chamou-o pelo telefone com urgência. Em poucas horas ele já estava diante da mãe.
-- Fizeram muito bem em conseguir-me essa hospedagem, meu filho. Começou dizendo-lhe assim que Paulo entrou na sala e a viu sentada na velha poltrona.
-- A situação aqui em casa, com as empregadas, com a comida, com tudo, estava ficando muito difícil. Estou velha e minha cabeça já não dá para muitas questões. Penso que agora, na nova casa, possa descansar e conviver com pessoas da mesma idade, aproveitando o tempo que me resta de vida.
O filho, atento e um pouco incomodado com a conversa, tentou acomodar-se na outra poltrona a seu lado. Quando ia começar a justificar-se, a mãe o interrompeu:
-- Não necessitas dizer-me nada. Tu e teu irmão fizeram muito bem em conseguir-me esse asilo. Sabes que eu os amo e sempre amarei. Vocês cuidaram-me com carinho e esmero durante todos esses anos, desde que o Roberto faleceu, mas agora chegou a hora de descansarem um pouco.
-- Não estou entendendo, onde a senhora está querendo chegar? --perguntou Paulo inquieto.
-- Fica tranquilo! Chamei-te porque tenho um assunto muito importante para contar. – Ao dizer isso, olhou-o fixamente antes de continuar. – Será a primeira e a última conversa sobre um tema que guardei a sete chaves durante todos esses anos.
Sem dar-lhe tempo para qualquer pergunta, ela começou:
-- Eu já havia almoçado e estava prestes a sestear, quando naquele dia de 1966 a campainha lá de casa soou. Ainda sonolenta abri a porta e topei-me com três monges franciscanos em seus hábitos. O da frente perguntou-me pelo teu pai. Surpresa e desconfiada, respondi-lhe que não sabia, pois ele havia saído muito cedo de casa. Diante da negativa, despediram-se e, ao retirarem-se, o do meio, que parecia ser o líder, apesar do capuz cobrir-lhe a cabeça, fitou-me com ternura e esboçou um leve sorriso. Tive a sensação de conhecê-lo, pois aqueles olhos, de certa forma, eram-me familiares. Assim que partiram, pedi imediatamente para que o primo de vocês, Jacinto, que casualmente estava na frente da casa, os seguisse, pois percebi algo de estranho em seus comportamentos. Em uma hora ele retornou contando-me que os três frades tinham ido até a Iglesia de la Inmaculada Concepción, e haviam entrado pela porta dos fundos.
Prevendo que a história se alongaria, Paulo interrompeu o relato.
-- Mãe, eu não estou entendendo nada. O que está acontecendo?
-- Silêncio. Não me interrompas. Essa história tenho-a guardada no peito há muito tempo e necessito colocá-la para fora.
O tom quase áspero raramente fazia parte dos modos de sua mãe, o que o deixou um pouco apreensivo, além de bastante curioso. Pausadamente, ela continuou:
-- Naquele dia, o teu pai retornou tarde da noite. Eu mal podia conter a vontade de perguntar-lhe a respeito de sua demora, quando ele surpreendeu-me dizendo que esteve com uns monges, os mesmos que passaram em nossa casa, e os levou em missão relâmpago até a cidade vizinha de Taquarembo. “Até Taquarembo? Fazer o que lá?”, perguntei espantada.
“Eles estavam em missão secreta e tive que levá-los com segurança”.
“Monges em missão secreta? Como assim?”
“Na verdade não eram bem monges. Estavam disfarçados de frades e...”
“Fala homem, estou curiosa!”
“Estavam escoltando o Ernesto.”
“Quem é o Ernesto? E por que a escolta?”.
-- Antes de responder, teu pai deteve-se alguns segundos para recobrar o ar. Ele estava visivelmente emocionado.
“Ernesto Guevara.”
“Quem? O Chê Guevara?”
“Sim, ele mesmo.”
“Isso são horas de zoares comigo?”
“Não estou brincando, querida. Um dos frades era o Chê. Veio em missão secreta trazer o dinheiro que o Fidel mandou entregar aos líderes brasileiros exilados em Taquarembo.”
-- Custei a acreditar no que o teu pai me contava. Achei que poderia estar enganado, afinal de contas, por que mandariam o Chê a Rivera cuidar pessoalmente de uma entrega? Além disso, era difícil crer que ele tivesse batido à porta da nossa casa disfarçado de monge. Não, não, se teu pai não estava enganado, então era algum tipo de brincadeira. Tratei de encará-lo, e ele mirou-me com a ponta da sobrancelha erguida, uma reação que não deixava dúvida sobre a seriedade do que me dizia. O nervosismo invadiu meu corpo. Tentei extrair-lhe mais detalhes, mas foi em vão. Com muito respeito pediu-me para não perguntar-lhe mais nada, pois era um segredo e, quanto menos eu soubesse, melhor seria para todos. Fiquei quieta. Contudo, não me dando por vencida, busquei informar-me com a esposa de outro camarada, dona Catalina, sobre o que estava acontecendo. A muito custo, descobri que o Chê Guevara estava levando quinhentos mil dólares, a fim de financiar o levante que estava sendo planejado contra a ditadura recentemente instalada no Brasil.
-- Poderias explicar-me melhor, mamãe? -- perguntou o filho boquiaberto.

-- Sim, para que possas entender com clareza, pois vocês eram crianças naquela época, vou contar-te o que se sucedeu. Há um personagem muito importante nesta história que se chama Leonel de Moura Brizola e que, em 1965, no Uruguai, buscou unir os exilados com o propósito de organizar um levante armado. Para tanto, tentou fazer um acordo entre os partidos de esquerda, o famoso pacto de Montevidéu, com o PC do B, AP, PCB e o Partido Operário Revolucionário Trotskista. Dessa união resultou a Frente Popular de Libertação, cuja finalidade, como já te disse, era a retomada do poder por meio da luta armada. A maioria dos integrantes era formada por ex-militares cassados das Forças Armadas e da Brigada Militar do Rio Grande do Sul.
-- Nesse contexto que a senhora me conta, a esquerda Santanense apoiou esse pacto? – Paulo a fitava com ansiedade. Era incrível, mas sua mãe falava como se ainda mantivesse acesa a chama de civilidade e companheirismo daqueles tempos.
Ofélia suspirou e, com os olhos vidrados no filho, pausadamente continuou:
-- A esquerda de Sant´Ana do Livramento apoiou parcialmente. Muitos comunistas da fronteira não aderiram ao pacto. Uma minoria que falava em Marx, Hegel, Sêneca, reforma agrária, defesa dos oprimidos, paradoxalmente vivia entrincheirada em suas fazendas, numa atitude clássica de comunistas teóricos e de oligarcas feudais. Outros, mais cautelosos, calaram-se. Alguns membros mais afoitos para uma resposta imediata ao golpe militar, entre eles o teu pai, que defendiam uma postura coerente com os ideais pregados e até mesmo o enfrentamento, caso necessário, discordavam dos discursos moderados que outros proferiam, numa postura clara de passividade diante dos acontecimentos. Posturas e atitudes essas que, segundo comentava-se à época, principalmente entre os mais radicais, ficavam em descompasso entre as teorias que defendiam e a vida que tinham. Eram comunistas de dia, mas à noite brindavam com champanhe com os golpistas nos melhores clubes da cidade. Eram pontos de vista distintos dos nossos que, a muito custo, aprendi a respeitar.
Paulo, cada vez mais impressionado com a eloquência da mãe, que aos oitenta e tantos anos ainda demonstrava muita lucidez, perguntou-lhe se queria beber algo. Ofélia respondeu-lhe que não, preferindo continuar a história que estivera engasgada há muitos anos.
-- Devido a seu “nacionalismo anti-imperialista”, Brizola era o líder cujas ideias mais se aproximavam das de Fidel Castro para a Revolução no Brasil. E, após o golpe militar de 1964, o seu grupo no Uruguai obteve ajuda de Cuba em treinamento de guerrilha e auxílio financeiro. Falava-se em mais de um milhão de dólares. Comentava-se à época, que Fidel havia mandado no início quinhentos mil dólares para ajudar. Desta importância, um terço teria ficado com o Jango, pois a este estavam ligados vários exilados necessitados. Outra parte, com Darcy Ribeiro para “segurança” e o último terço teria ficado com o Brizola, que ficou aborrecido, tendo em vista ser pouca quantia, pois era o único entre os três que estava tentando, de fato, montar um contra-ataque. Importância essa que teria sido gasta, com pessoas no exílio, com os companheiros no Brasil muito necessitados, com os presos políticos e com os homens encarregados de fazer a comunicação entre os grupos arquitetando um plano maior de combate armado.
A surpresa de Paulo só crescia. Parecia-lhe impossível unir aquele corpo já deteriorado pelos anos ao discurso que ele ouvia, à altivez do tom, à propriedade no emprego das palavras. Pensou em elogiar a mãe, mas quando fez menção de abrir a boca, ela adiantou-se:
-- A primeira tentativa de restaurar o governo democrático brasileiro partiu de Montevidéu. O coronel Jefferson Cardim Osório e mais dois camaradas passaram por nossa casa, em Rivera, e teu pai participou fornecendo-lhes armas e suporte logístico para entrarem no Brasil. Vocês eram muito pequenos, talvez não lembrem em detalhes.
Na memória de Paulo imediatamente vieram-lhe as imagens dos três homens que chegaram de jeep, no dia que ele e seu irmão jogavam bolinha de gude na frente da sua casa e depois a lembrança horrível das fotos na revista dos três homens torturados, que seu pai mostrara. O que a mãe lhe narrava, nesse momento, era uma peça importante no mosaico de sua história familiar que ainda restava ser preenchida.
-- De lá, eles foram até a cidade de Três Passos onde arregimentaram, pelo caminho, alguns combatentes e tentaram tomar o quartel e uma rádio local. A ideia era formar uma coluna, aos moldes da coluna Prestes e, na medida em que fossem avançando, de quartelada em quartelada, iriam se juntar no Mato Grosso com o grupo que viria da Bolívia, sob o comando do ex-coronel da aeronáutica, Emanuel Nicoll. Mas essa tentativa foi frustrada depois da emboscada feita pelas forças militares no interior do Paraná, onde caiu preso o coronel Jefferson e outros companheiros. Suspeitava-se que haviam sido traídos. E estavam certos. Mais tarde soubemos o nome do traidor.
-- Quem foi o traidor, mamãe? --perguntou Paulo com ar de indignação e revolta.
Ofélia ficou com o nem do traidor na boca, mas optou por cautela.
-- Com o tempo saberás quem foi, meu filho. – falou-lhe com ar desolado. Mas o que tenho para te contar não acaba aqui -- continuou a mãe diante do filho atônito. -- Tendo sido frustrada a primeira tentativa do contragolpe revolucionário, os companheiros organizaram-se novamente e criaram em 1966 o Movimento Nacionalista Revolucionário, para implantar mais um ataque à ditadura militar, cujas ações seriam basicamente no meio rural, pegando resquícios, talvez, das ligas campesinas implantadas por Francisco Julião anos antes. Mas, para isso, necessitava-se de dinheiro, muito dinheiro. Fidel, então, enviou a segunda remessa de quinhentos mil dólares, totalizando um milhão em espécie, e quem levou pessoalmente essa quantia, disfarçado de monge, foi o Ernesto Guevara, contou-me teu pai.
Para Paulo a história de sua mãe começava encaixar-se e fazer sentido.
Ofélia calou-se e fitou o filho. Paulo viu na expressão suave da mãe o quanto lhe aliviara contar esse segredo. Aproximou-se dela e passou-lhe o braço por sobre os ombros. Finalmente comentou:
-- Então era esse o dinheiro que o “Chê” carregava disfarçado de monge...?
-- Sim, era esse dinheiro, pertencente à segunda remessa dos dólares enviados por Cuba, que o Ernesto carregava naquela tarde chuvosa em nossa casa.
A novidade era bombástica. Paulo tinha certeza de que o episódio narrado por sua mãe não fazia parte da história oficial. Acabara de ser informado de um acontecimento ultrassecreto e, portanto, não sabia direito o que fazer. Recompondo-se, perguntou impressionado:
-- Quanto dinheiro, mamãe? Ele foi todo gasto nesses movimentos?
Ofélia parou para pensar na resposta e, após alguns segundos, continuou com muita cautela.
-- Eu nunca soube ao certo sobre o destino total desses dólares, meu filho. Alguns comentaram que parte deles foi usado com treinamentos de combatentes e na alimentação de algumas famílias, pois tinham que sobreviver no exílio; o que é sensato. Outras pessoas disseram que o grosso dos dólares teve paradeiro desconhecido, e que isso teria causado um desconforto abissal entre Fidel e os líderes revolucionários brasileiros, já que estes nunca teriam prestado conta de seu destino e tampouco mostraram os resultados esperados pelos cubanos.
-- Mamãe o que a senhora está me contando é muito sério. Há provas disso?
-- Não, meu filho. Não há provas.
-- Tiveram algumas casualidades que deixaram a muitos exilados necessitados desconfiados. Algumas fazendas foram compradas no Uruguai nessa época, mas deverão ter sido heranças de família. Esses rumores geraram brigas, cizânias e descontrole. Mas isso não tenho certeza e tampouco conhecimento suficiente para opinar. Se o teu pai ou o Chê estivessem vivos, poderiam contar mais detalhes sobre o ocorrido, mas, como bem sabes, alguns meses depois mataram-no no combate do Cerro Chato, deixando-nos em profundas dificuldades financeiras, e o Guevara foi assassinado na Bolívia.
A maioria dos exilados que teu pai ajudou, seguiram seus caminhos e não apareceram mais. Enquanto teu pai vivia, éramos uteis. Depois sumiram sem deixar rastro. Poucos nos ajudaram e nos ajudam até hoje.
-- Sim, mamãe é verdade... A família que veio de São Borja são nossos amigos até hoje. E a eles somos eternamente gratos. Quando mais necessitamos, marcam presença e marcam até hoje.
-- Sim, meu filho é verdade. A estes somos gratos. Mas por incrível que pareça, quem, de fato, nos estendeu a mão quando mais necessitamos foram a nossa família e alguns vizinhos, colorados, blancos e apolíticos.
-- Mas, mãe e os dólares cubanos? Era muito dinheiro? Onde foram parar?
A verdade sobre o destino desses dólares eu nunca soube.
Ofélia segurou então a mão do filho, estreitando o abraço que ele, antes havia apenas insinuado ao passar-lhe o braço pelos ombros. Deu um suspiro profundo e longo, sorriu e, por fim, disse:
-- A verdadeira solidariedade não tem lado, nem esquerda nem direita, nem tendências políticas. Está no ser humano independentemente de raça, credo, cor e posição econômica.
Amanhã cedo estarei esperando-te com as malas prontas.

Fim

( Dedico este conto, quase crônica, aos nossos pais, Romeu Figueiredo de Mello, que hoje estaria completando 96 anos de vida e Orides D´Avila de Mello, de cujas histórias passadas no exílio, tais como solidariedade, conflitos e traições, “inspiraram-me” esta " ficção".)