quinta-feira, 16 de junho de 2016

Mil vezes Robertinho Silva !



Dizer que Robertinho Silva é um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos é chover no molhado. Desde suas primeiras incursões na música, acompanhando Caubi Peixoto, em 1964, o baterista e percussionista nascido e criado em Realengo, no subúrbio do Rio de Janeiro, sempre cultivou a virtude de estar no lugar certo, na hora certa. Foi assim que ajudou Milton Nascimento a construir uma obra universal. O mesmo fez com Egberto Gismonti, como no seminal Academia de Danças, de 1974. Foi o baterista que deu impulso ao que veio a ser conhecido como o Som de Minas, com o Clube da Esquina abrindo caminhos. Tocou com Flora Purim e Airto Moreira no auge do jazz fusion, quando a música brasileira dava as cartas em Los Angeles. Fez amizades musicais com Wayne Shorter, Sarah Vaughan, Ron Carter, Herbie Hancock, Art Blakey, entre outros dinossauros do jazz americano. Quer mais? Então segura o fôlego. Robertinho foi baterista em alguns dos principais álbuns da iluminada MPB das décadas de 70 e 80, de nomes como João Donato, Marcos Valle, Lô Borges, Bebel Gilberto, Chico Buarque, João Bosco, Moacir Santos, Paulo Moura, Toninho Horta, Gal Costa, Gilberto Gil, Virgínia Rodrigues, Celso Fonseca, Zé Renato, Fagner, Nana Caymmi, Beto Guedes, entre muitos, muitos outros.  

Mas não pense que essa invejável folha de serviços prestados ao melhor da cultura brasileira mudou Robertinho. O homem mantém uma alegria e simplicidade que só os verdadeiros gênios sabem ter. De turnê por Santa Catarina, “Bob Silva”, como é conhecido pelos amigos mais chegados, apresentou o show “Sonhador Celestial”, nome do CD que gravou com o parceiro Foguete Barreto, da novíssima formação “Dudarua”, um duo de percussão que mistura referências percussivas brasileiras e orientais. Nos palcos catarinenses o show teve a especialíssima participação do violonista Thiago Zaidan, jovem mestre das cordas, de Rezende (RJ). Durante a passagem de som no Teatro do Sesc, em Florianópolis, Robertinho puxou pela memória e conversou com a gente. 
Com vocês, Bob Silva, the man.

JM - Um carioca de Realengo, então.
Robertinho – É, área militar. Criado em frente ao paiol de pólvora (risos), mas eu não tinha nada a ver com militar não, meu pai era pernambucano e minha mãe é paulista. Só não tenho avô mineiro nem tataravô baiano. No show quando eu digo isso todo mundo ri, - ainda bem...eles dizem (risos). Agora, conversando com você eu lembrei que já acompanhei até o Roberto Carlos, na TV Tupi. Ele não era ninguém. Isso foi anos 50, quando ele gravou um disco de bossa nova, antes da bossa estourar, em 1958.

JM - E o som de Minas, como foi que entrou na sua história?  porque você ajudou a construir toda uma obra que hoje é referencial para a música brasileira.
Robertinho – Eu tive vários olheiros na minha vida, desde que eu comecei a tocar no centro do Rio. Era um olheiro aqui, outro olheiro ali, e aí chegou um cidadão quando eu trabalhava no Dancing Brasil. Eu trabalhava nos domingos fazendo a folga de um baterista cearense. Aí chegou esse cara muito bem vestido, de óculos fundo de garrafa, me observando. Eu pensei: polícia. Isso aí é cana. Porque eu tinha cara de garotinho. Disfarçava, olhava, tava o cara ali, parecia um boneco. Eu pensei, meu Deus do céu, é hoje. Vou ser preso e não fiz nada. Eu desci do palco e ele disse, quero falar com você. Eu levei um susto, meu coração disparou. Aí ele disse, parabéns, você toca bem né? Sei lá, eu sou estudante ainda, eu disse. Aí ele me perguntou se eu tinha ouvido falar na Boate Drinks, em Copacabana. Eu disse que todo o músico conhece e já sonhou em tocar lá, mas ninguém  consegue. 

Aí ele me disse, então você está convidado a tocar lá! Eu falei, qué isso cara..... Porque essa boate, do Djalma Ferreira, um grande organista, era “o lugar”....No Rio tinha a Drinks e o Sacha, que eram os lugares que a high society de Copacabana frequentava, e os americanos quando chegavam no Rio, atrizes de Hollywood...  E o Djalma Ferreira vendeu para a família Peixoto, do Caubi, então esse convite foi um prêmio na minha vida. Mas eu só toquei lá só um ano, porque apareceu outro olheiro. Sempre tinha um cara de olho. E no domingo na boate, era folga. Garçom para garçom e músico para músico. Trabalhava a semana inteira e colocava um substituto para passar o final de semana com a família. Mas eu não fazia isso não, porque eu precisava trabalhar. Eu fui pai novinho. Quando entrei na boate, tinha 23, mas já tinha filho. Aí nessas folgas assim, entrou um cara que parecia garçom, meio italianado, assim...eu disse, é garçom novo na área. De repente eu ouvi um som de piano meio diferente, disse, pô o garçom toca...sabe quem era? Wagner Tiso.  Aí eu fui atrás dele, na rua, pra tomar um... E disse, pô, parabéns, você toca bem. Pensei que você era garçom. Ele me dizendo, é, eu sou mineiro, sou do sul de Minas. Aí eu disse, tem um amigo que comprou um disco de músicos de Belo Horizonte, que tem uma valsa bonita, de um tal de Wagner...e ele me diz, sou eu. Aí eu falei, caramba! E começou essa história de músicos, bate papo de músico de lá para cá. Era 1964. E ele um dia me apresentou um músico mineiro, chamado Milton Nascimento. Neguinho com violão debaixo do braço, com aquela capinha poeira, da roça...

JM – O Milton lá no início de tudo...
Robertinho – É, porque o Milton saiu de Belo Horizonte e foi morar em São Paulo. E em 1967 o Milton estoura no festival internacional da canção. Dois anos depois, o Milton vai gravar o primeiro disco pela Odeon. Tá certo, e quem vai tocar? o Milton pergunta pro Wagner. “Olha, tem o baterista  Robertinho Silva e o baixista Luiz Alves”. Aí, depois disso, a galera da MPB, todo mundo passou a me convidar. Taiguara, Marcos Valle, fulano e fulano...aí o Dori Caymmi, quando eu fui gravar com ele, traçou: “O Robertinho é a bola da vez” (risos) . Aí eu falo pro meu filho Tiago, que tem 31 anos, eu digo...Tiago, eu já fui bola, eu sei ! (risos).

JM – E como é que foi esse começo?
Robertinho – É o seguinte, foi um empresário...Tinha a boate Sachas. E tinha o filho dele, que disse, pai, eu queria fazer o Sachinha. Porque músico não entrava nessas boates. E era mais para encontro de músicos, porque tinha um movimento estudantil forte, que tinha o Gonzaguinha e outros. Então abriram o Sachinha na esquina da Avenida Atlântica. E todo mundo começou a frequentar lá, tinha um piano no centro. Foi lá que eu conheci o Zé Rodrix, e ia também a Joyce, Nelson Angelo, o Milton também.... E eu, o Wagner e o Luiz estavámos a fim de formar um trio para acompanhar cantores de bossa nova...durango kid, né? Uma cerveja para três.... E apareceu um cara maluco lá, dizendo que estava querendo investir na música do Milton, que estava cansado de ver ele no banquinho e violão. Porque acabava o festival e neguinho voltava para o banquinho e violão.
E o Luis levantou da mesa, não acreditou no cara. Só que o cara era o José Mynssen, empresário, tinha vendido a sapataria da família, tava com a maior grana no bolso. E o Wagner, como mineiro, ficou quieto. E ele me perguntou onde eu morava, e era longe dali, na zona norte....E ele me diz, você não quer morar na zona sul? Eu pago! Aí eu vi que o negócio era verdade. E disse, segunda-feira começa o trabalho porque eu já arrendei o Teatro Opinião. Eu disse, tô dentro. Já tava cansado de tocar em boate, queria palco de teatro. E o Wagner também.  Mas o Luiz não queria, disse que ia ficar tocando em bar.. aí eu disse, cara, o Milton Nascimento, já estourou no festival. Foi um sacrifício pra levar ele. E o Mynssen investiu o dinheiro todinho na gente. Ensaiamos uma semana, a irmã dele era artista plástica, pintou a nossa cara no teatro...e um dia antes eu pergunto, e o nome do grupo, não tem? Aí ele me diz, já tem sim. O show vai se chamar  “Milton Nascimento, ah, e o Som Imaginário”. E o show era o seguinte, quando o público entrava a gente já estava tocando. E estourou. Fomos para Belo Horizonte, São Paulo.... E depois deu uma parada porque o Milton voltou para Minas. E a Gal ia fazer uma turnê e a gente entrou. Foi a primeira vez que eu conheci o Brasil. Até então eu só era conhecido pelos músicos de boate, foi aí que apareceu meu nome.

JM – Você concorda que o Som Imaginário foi a grande vanguarda da época, que antecipou o Clube da Esquina e outras vertentes?
Robertinho Silva – O Som Imaginário, Egberto Gismonti, foi tudo isso. Quando eu gravei o primeiro disco com o Egberto, chamado Academia de Danças. E com a música do Milton, no começo eu achei tudo estranho. Acho que fiquei uma semana sem sentar na bateria. O Wagner é que me dava uns toques, uns compassos compostos que eu nunca tinha tocado. E o Milton não falava nada, mineiro, caladão...e eu tocava do meu jeito. De vez em quando ele fazia assim – um positivo com a mão – e foi aí que eu tive aí a liberdade de expressão de encaixar o tambor, que foi a minha formação. Na bossa nova não tinha nada disso. Foi na música mineira que eu tive essa liberdade.

JM – E o Som Imaginário ia junto....
Robertinho Silva – O Som Imaginário fez coisas que ninguém fazia. O primeiro disco que a gente gravou era de percussão livre, e ninguém tinha feito isso. Nós somos pioneiros em percussão livre, de efeito. Naquele tempo, eu conheci o Fredera, em 1967, e ele era universitário, caretinha, de gravatinha e tal. Frederico Mendonça de Oliveira. E o Som Imaginário precisava de um guitarrista solista. E quando ele chegou lá e viu aquela onda de todo mundo tocando de pés descalços, ele virou John Lennon. Deixou a barba crescer e botou os bixos pra fora. Depois foi expulso da banda, porque começou a brigar ele e Zé Rodrix. Era John Lennon e Paul McCartney (risos). Nessa época pintou também o Naná (Vasconcelos), que morava na Siqueira Campos. E no apartamento dele foi a primeira vez que eu vi alguém tocando berimbau diferente de todo mundo, sem ser levada de capoeira. Eu já tinha um berimbau, que eu tinha ido a Bahia, que estava na parede da minha casa. Aí tirei da parede e aprendi a tocar, foi com o Naná. Aí ele gravou o primeiro disco que o Som Imaginário gravou com o Milton, outros discos também, aí ele foi embora para a França, partiu para o mundo né.

JM – E como foi que você colocou o pé na música lá fora?
Robertinho Silva – Em 1974, fomos convidados eu, Milton Nascimento e Wagner Tiso para gravar o disco Native Dancer, do Wayne Shorter, em Los Angeles. Em 1975 a situação tava braba no Rio de Janeiro, com aquele negócio da ditadura. E um cara chamado Mayuto Corrêa me ligou um dia e disse que ia rolar em Los Angeles um festival chamado Brazilian Afro e que queria me levar. Mas aí eu disse que só ia se ele levasse também meu amigo, Luiz Alves. Ele disse que não dava, e eu recusei o convite. Fudido, fudido e meio. Aí ele acabou conseguindo passagem para nós dois. E a gente foi para morar mesmo. Fomos numa sexta feira de carnaval e voltamos na sexta feira de carnaval do outro ano. Só que eu vim para renovar o meu visto e voltar, mas o Luiz quis ficar. Eu voltei e fiquei lá mais três anos.

JM – Você conviveu com maestro Moacir Santos, Airto Moreira, Flora Purim, que viviam em Los Angeles.
Robertinho Silva – Eu não conhecia pessoalmente Moacir Santos no Brasil. E ele morava na rua La Mirada, que era a mesma rua que a gente morava em Los Angeles. Só que quando a gente chegou ele foi morar em Pasadena. Aí quando a gente se falou eu disse, poxa Moacir, agora que a gente chegou você foi para Pasadena. E ele era um cara sério, mas sacana. Me disse, sabe o que é, eu tinha uma aluna que não aprendia o dó maior, e para ensinar eu tive que ser vizinho dela (risos).

JM – Você considera que o Brasil hoje possui a mesma força criativa musical das décadas de 70 e 80, ou está diferente ?

Robertinho Silva – Foi a partir de 1958, com o estouro da Bossa Nova e depois no Carnegie Hall, que eu costumo dizer que ficamos todos iguais. Porque antes a gente era macaco de americano. E eles ficaram impressionados. E tem gente que acha que a bossa nova era alienada, mas veja só o que mudou depois disso. Hoje tem talento também, mas a cultura – as secretarias, o estado enfim- hoje não ajuda. Porque era assim, as gravadoras davam a chance de você ir construindo seu talento. O Milton vendia dois mil discos, mas a gravadora bancava. Hoje nem existe mais gravadora. Eu não sou contra nada não, mas veja o sertanejo e o que virou a música caipira. Isso é um veneno terrível. Não sou contra nada, mas podia distribuir, dividir, como era dividido antigamente. 


por Marlon Aseff
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segunda-feira, 28 de março de 2016

De bushinshe e portunholes

NOITE LINDA, de Jodido Bushinshe, onde fomos recebidos pelo anfitrião Hugo Lago, em seu Museu de Artes Plásticas de Rivera. A ode ao portunhol e seu merecido reconhecimento enquanto força pulsante e viva de nossa cultura fronteiriça, teve nas palestras do artista plástico Miguel Armand Ugon e Alejandra Flaka Rivero o ponto alto de uma noite fria e chuvosa. Fria e chuvosa - diga-se - apenas lá fora, pois no Jodido Bushinshe o clima foi de uma feliz confraternização. Ugon brindou o público com uma pequena retrospectiva de sua obra, cercada pela cultura local, de marcos onipresentes, uma Rivera mística e cheia de elementos de uma identidade que foi cambiando com o tempo.

Na obra de Ugon, surgem marcos enfeitiçados, murgas abrasileiradas e uma presença da religião e da cultura negra muito fortes, em uma fronteira que já não demonstra esse esplendor do encontro multicultural, pelo menos não tão forte como antes.
Já Alejandra, nos surpreendeu com uma análise sofisticada dos elementos do portunhol em poetas fundamentais da identidade fronteiriça, como Agustin Bisio, Olyntho Maria Simões, Taunay de Barros, Arlindo Coitinho.

Sempre fomos luso-parlantes, advertiu Alejandra, já de saída, em uma provocação que na verdade traduzia a presença lusa desde o início de nossas movidas coloniais. A fala de Flaka Rivero foi realmente deslumbrante, ao lembrar a platéia de detalhes intrìnsecos ao compor literário de Agustin Bisio (que usava não o portunhol, mas agregava o gauchesco-português, em sua poesia, criador do primeiro dialeto literário em Rivera, que nos traz um Uruguai intimista e original ); Olyntho Maria Simões (que traz a reivindicação da fronteira como local privilegiado e pede respeito, que mostra a cultura afro pulsante daqueles tempos, antes da ditadura uruguaia tentar apagar toda a referência); Lalo Mendonza (último escritor anterior a ditadura, que também eleva o afrodescendente a sua condição protagonista dessa cultura, antes da campanha de prescrição idiomática promovida pela nova ordem pós 1973).

Por fim, Flaka Rivero nos remete aos novíssimos Arlindo Coitinho (que reivindicava escrever em santanês, uma mistura do português, espanhol, português gaúcho e portunhol). Coitinho viria a influenciar toda uma nova geração de escritores da fronteira.
Encerrrando a viagem através do portunhol e seus poetas, temos Chito de Mello e seu rompidioma, um insulto elevado a condição de valor, exatamente como fez Oswald de Andrade em seu manifesto antropofágico, em 1922, quando o insulto tornou-se positividade, quando o pejorativo foi usado como afirmação cultural. Tudo isso nos ensinou Alejandra Rivero, nesta noite iluminada, que finalizou com um show fantástico de Ernesto Díaz, talento de Artigas, parceiro de Fabián Severo (outro autor citado, que volta aos valores semeados por Bisio, como coisa do coração, desperto por um "exílio" na capital).

Na Platéia, Marcelo Flores Da Cunha Garcia, Vladimir Fagúndez, Selva Chirico, Nestor Chumbo Chaves, Celina Albornoz e sua trupe, Richard Bértiz, Santiago Perez, entre muitos outros. O culpado por tudo isso? Enrique Da Rosa.


Confira a arte de Ernesto Diaz, Fabian Severo e Chito de Mello:

https://www.youtube.com/watch?v=tzJUuDOBFYo

https://www.youtube.com/watch?v=_ofUjsYZt7s

https://www.youtube.com/watch?v=QpsOXsQMy50

https://www.youtube.com/watch?v=8s5whuDSyyc


texto: marlon aseff (outubro 2015)
foto: Olyntho Maria Simões

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Raízes do Nacionalismo



Na obra Comunidades Imaginadas, o historiador norte-americano Benedict Anderson busca explicar as origens do nacionalismo, enquanto fenômeno abrangente nas sociedades modernas. Para entender o crescimento do nacionalismo enquanto fenômeno político, Anderson aponta as raízes históricas para o surgimento do conceito, que ele vai creditar, finalmente, a contribuição decisiva dos países colonizados, fora do eixo europeu, ligados às lutas asiáticas e latinoamericanas.

Benedict Anderson nota, logo no início da obra, que as guerras entre países que tiveram sua origem moderna em revoluções marxistas, hoje tem o “nacional” acima de outra qualquer categoria. Conforme nos lembra  Hobsbawn, os estados marxistas tem mostrado a tendência de se tornarem nacionais não só na forma, mas no conteúdo, ou seja: nacionalistas. Dessa forma, a condição nacional (nation-ness), é o valor de maior legitimidade universal na vida política de nossos tempos. (p.28)

Anderson, em sua crítica a tentativa marxista de entender o fenômeno, aponta no texto do Manifesto Comunista, as referências nacionais – aqui ligadas ao conceito de burguesia, como uma “anomalia” da teoria. Se a burguesia é uma classe mundial, na medida em que é definida pelas relações de produção, porque Marx utilizou o termo “burguesia nacional” ?, indaga-se Anderson. (p.29)

Para o autor, nacionalismo, nacionalidade e condição nacional são produtos culturais específicos, que devem ser investigados em suas origens históricas e de que maneira seus significados se transformaram ao longo do tempo, para chegar aos dias atuais com uma legitimidade emocional tão profunda.

Ao avaliar o conceito de nação, Anderson observa alguns paradoxos, como uma “modernidade objetiva” versus uma “antiguidade subjetiva” , ou seja, a universalidade formal da nacionalidade como conceito sócio-cultural, e o poder político dos nacionalismos versus uma “incoerência filosófica”.
Anderson propõe então uma definição: a nação seria uma comunidade política imaginada, intrinsicamente limitada e, ao mesmo tempo, soberana. Ele cita Renan e Gellner para sustentar os conceitos de “imaginada” e “inventada”. A Nação emergente seria limitada e soberana, devido a origem do conceito, forjado em um momento em que o iluminismo e a revolução estavam destruindo a legitimidade do reino dinástico hierárquico. Seria imaginada também, porque concebida como uma “profunda camaradagem horizontal” (p.34), que em última instância acabaria por pavimentar o terreno para tantas mortes e sacrifícios nos últimos dois séculos.

De acordo com Benedict Anderson, as raízes culturais do nacionalismo podem explicar melhor a origem do fenômeno. Nesse sentido ele aponta para alguns fatores determinantes como bases históricas. Os textos sagrados, que continham o poder de estabelecer uma verdade absoluta, entram em declínio e o nacionalismo toma o lugar do que antes era ditado unicamente pela religião e pela fé. O declínio das linguagens sagradas e o crescimento de linguagens seculares a partir do século XVI, tornaram possível a substituição do latim como língua única, perdendo gradativamente o componente sacro.

Por outro lado, o declínio das monarquias e o fim da crença em uma centralização dinástica acelerou o processo, junto ao fato de que a difusão de idéias e fatos em condição de simultaneidade criou uma noção de co-existência.

Anderson também formula o conceito de “capitalitalismo editorial”, onde aponta o aparecimento de livros em línguas seculares e de jornais como relacionados ao surgimento do nacionalismo. Seria a união da tecnologia na imprensa ao capitalismo emergente, que juntos impulsionaram o surgimento de fronteiras lingüísticas e cognitivas que, entre outros fatores associados, estabeleceriam uma base para o surgimento das nações modernas.



Comunidades imaginadas. Reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo, Benedict Anderson. Companhia da Letras, 2008.
Resenha de Marlon Aseff.



domingo, 15 de novembro de 2015

um texto de Luis Carlos Bueno....



Apenas...Impressões!

(...)O limiar da luz há de chegar, talvez não estejamos preparados para isso.  Meu motivo maior nesta vida, disto tenho certeza, não será vagar, penar ou perambular pelas pessoas.
A utilidade social a que nos permitimos, pouco adianta nessa obediência contínua e estéril: - Bom dia, como vai você?  Não quer tomar um café?  Está tudo bem?...
Passarim pelos camarins e meu aroma será degustado, apenas pelo ar e pelo brilho das canções.  Sorvido pelo cheiro inebriante dos jasmins.  Estrelas andam vigiadas e viciadas... Além de Namôr(es), além de Áfricas queremos viver, somos seres de águas claras, ilhas soltas, exóticas...  O importante nisso tudo,  é preservar a lucidez.  Nestas épocas de “crises”, sempre será possível descartar as poluições quando se está lúcido.
Penar a espera dos desconhecidos que perambulam os arrabaldes da vida, é...desesperador, pelo menos prá  mim que estou perdendo a noção real do “quereres”.  É como ficar ouvindo Sex Pistols, bem baixinho.  As ondas que navegam nas correntes límpidas de CO(monóxido de carbono), são como o próprio movimento contínuo de moléculas de poeira estelar, star dust. 
Alice Cooper esvai-me em melancolia.  Acho que para escrever terei de “curar-me” de mediocridade e medos.  As coisas passam, mas tudo está now and forever irremediável. Oh! que desilusão brega, diante de espíritos profanos sem sabor de ousadias mais profundas e profanas.  Tudo não passou de um paradoxo, as tramas se enrolam aos traumas.  Vou...ressuscitar-me.  O que mais vale dos momentos é a intensidade de vida dedicada a eles.
Detesto a juventude besteirol, quero a integridade dos momentos e neles me ilimitar.  Vivenciar os momentos, sem ao menos degustar as horas em que eles são gastos, é desperdiçar o tempo e não senti-lo.  Tudo já está inevitavelmente decidido, talvez, porque o espaço para a loucura e devaneios esteja curto demais.   Tenho que passar pelas chamas, sem virar cinzas.  O quê?  O quês?  De onde vem tantos por quês?
A “intesão” de não ser e não ter é terrível.  A eternidade em que se propagam as coisas é desproporcional à intensidade em que a vida se consome.  A “decadance” já se tornou habitual, tudo bem Rola um jazz a mil (Billy Holiday), e a vida segue rolando, rodando e rolando...Alguns dançam e a morbidez é sorvida “on the rocks”.

“...Chega do lirismo comedido, tipo funcionário público.  Estou farto do lirismo que não seja libertação...”, bradava o poeta Manuel Bandeira.  Não é preciso querer impressionar, já que tudo se tornou tudo.  Isso é o que não quero...  Desejo...                                     Apenas Impressões...

  


Texto do poeta santanense Luis Carlos Bueno (1961-2001)
Imagem:  "new", de Marlon Aseff, 2006.
 

domingo, 31 de maio de 2015

1964: Romeu Figueiredo de Mello e a resistência possível


A casa situada à rua Dr. Anollés 470, em Rivera, a menos de 300 metros do Parque Internacional, pertencia à família de Romeu Figueiredo de Mello. Ali viviam sua esposa, a sogra, e dois filhos, Pedro Antônio e Amilcar. Por seu envolvimento com o grupo brizolista de Santana do Livramento e suas claras posições antiimperialistas, que ideologizavam as conversas políticas de então, Romeu foi identificado como potencial subversivo e colocado na lista negra dos que não podiam regressar a Santana do Livramento.

Com 43 anos incompletos em abril de 1964, Romeu se estabeleceria definitivamente naquela casa, pertencente a sua sogra, e dali só regressaria ao Brasil morto, vitimado por um ataque cardíaco, menos de quatro anos depois. Pedro Antônio, o filho mais velho do casal, tinha apenas oito anos quando o movimento militar aconteceu do outro lado da linha divisória, mas em suas lembranças ficaram as marcas do autoritarismo e dos pesados dias que passou a viver desde então.

Isso para mim foi um transtorno tremendo. Isso desestruturou completamente a família. Tive um pai sem poder exercer a vida profissional como a gente esperava que fosse. E acuado, quase que acuado né? [...] ficamos sem grana. E no pátio da nossa casa em Rivera, a gente fez um pequeno aviário, e daí que nós ganhávamos o dinheiro. Nós vivíamos do abate dos frangos, dos pollos como se diz na minha terra. E quando o pai vivo ainda, porque depois que o pai morreu nem grana para comer a gente tinha. Os vizinhos nos ajudavam. Ele faleceu no dia 24 de maio de 1967. Infarto do miocárdio. [i]

Até o momento anterior ao estabelecimento do golpe militar, Romeu Figueiredo de Mello exercia uma bem sucedida atividade econômica, dividida entre um escritório de importação e exportação, que mantinha no Palácio do Comércio, um centro comercial situado em frente ao Parque Internacional, a administração de três unidades de processamento de café, em Livramento, Rivera e Montevidéu, e os proveitos de uma propriedade rural. Filho de uma família de médios proprietários de terra, na região da Coxilha Negra, na linha de fronteira com o Uruguai, Romeu vivia como um típico cidadão santanense de classe média. Nas lembranças de Pedro Antônio, o pai era uma pessoa identificada com a região, filho de uma brasileira e um uruguaio de Tacuarembó, que cresceu nos anos dourados da cidade, quando os cabarés e a vida boêmia conferia um ar de metrópole àquela distante região da campanha. Nascido em 21 de junho de 1921, Romeu viveu o apogeu dos cinemas e das reuniões literárias na fronteira, gosto que passou aos filhos sempre que pôde.

Meu pai teve a infância no cinema Colombo, e os filmes eram no cinema Colombo, e no Astral, ele ia muito no cinema Colombo e tinha uma formação cultural muito grande de cinema. Ele era um cinéfilo. E a formação literária dele foi influência da tia dele, Joaquina, irmã da minha vó, que tinha todos os livros. Tinha Camões, uma biblioteca muito farta. E ele leu quase todos os livros daquele tempo, e a gente herdou essa questão da literatura. Então, era uma pessoa que lia muito, que ia ao cinema. Tanto é que ele me dizia que o cinema era uma janela pro mundo. “Meu filho, tu tens que ir ao cinema, porque o cinema é uma janela para o mundo”, ele me dizia. Era muito culto, falava inglês, e lia muito.  [ii]

A política só entraria na vida do boêmio depois da segunda guerra mundial, quando se alistou como voluntário na FEB, e viveria dias decisivos em sua formação, na Itália conflagrada. Quando acabou a guerra, retornou com simpatias ao Partido Comunista Brasileiro e com sérias reservas a posição norte-americana no mundo a partir de então. As posições nacionalistas o fariam defender o Governo Jango e alinhar-se com as idéias de Leonel Brizola, que viriam a marcá-lo na pequena comunidade fronteiriça.

[...] foi a grande tomada de consciência me parece, por que até então era um gurizão que foi pra guerra, e volta mais maduro não tem dúvida, e aí começa a fase de militância política digamos assim, porque depois de uma guerra a pessoa volta adulta. Nos 25, 26 anos. Ele foi para a guerra com 24. [...] Ele não se dizia comunista, ele se dizia nacionalista. A princípio ele era uma pessoa, eu nunca vi ele ir a um partido político, militar e tal. A princípio ele era um homem de esquerda e nacionalista. [iii]

Perseverando Santana relembra do amigo Romeu como uma figura “maravilhosa”, que gostava da boemia e que desde cedo se mostrou mais afeito às posições revolucionárias do que a estratégia proposta pelo PCB. Depois da guerra esteve na sede do partido em Santana, falando aos companheiros sobre a realidade que encontrou na Europa, do encontro em Paris com o secretário do PC francês, Maurice Thorez. Já na campanha de Índio Fuentes para a prefeitura municipal, discordou do discurso proferido por Perseverando na Rádio Cultura, de franco apoio ao candidato petebista. Já possuia fortes convicções que a via democrática não iria se sustentar no país, e que o melhor seria o enfrentamento. 
A identificação aberta com um nacionalismo de esquerda levaria Romeu Figueiredo de Mello definitivamente para Rivera, perseguido abertamente pelo setor militar, que nem ao menos o deixava voltar aos campos da família, em plena linha divisória. O escritório teve de ser fechado e a sociedade que mantinha nos negócios de café sucumbiu. De um momento a outro, a família se viu prisioneira de um sistema político que reduziu as ambições do pai à sobrevivência do dia-a-dia. Pedro relembra do momento em que o golpe militar chegou na roda das conversas familiares.

Nós já estávamos em Rivera. Eu lembro que era um alvoroço tremendo dentro de casa. Eu tinha oito anos. Mas eu lembro que era um alvoroço tremendo, não tem como esquecer aquilo.  Eu me lembro que meu pai chamava os gorilas, os gorilas, os gorilas... e ele não pôde entrar mais em Livramento. Aí nós ficamos ilhados em Rivera. Nós já morávamos em Rivera e não pudemos sair mais de Rivera. Ele tinha as fábricas de café em Montevidéu, em Rivera e Livramento, mas acabou tendo problemas com os sócios e acabou perdendo, quebrando. [iv]

Na casa de Romeu aportariam muitos dos refugiados de primeira hora, que tiveram de deixar o país sob pena de prisão imediata. Nas lembranças de criança de Pedro Antônio, a casa paterna surge como o local de solidariedade extrema, ofertada aos viajantes que procuravam abrigo naqueles primeiros dias do golpe militar.
Pouco menos de um ano depois, por ali passariam o coronel Jefferson Cardim, Albery Vieira dos Santos e o comerciante de São Sepé, Alcyndor Aires, que deflagrariam a chamada “Guerrilha de Três Passos”, o levante frustrado que marcaria a única tentativa concreta do grupo exilado em Montevidéu de desestabilizar a ditadura instalada.

[...] como nós já morávamos lá, digamos que nós fôssemos os melhores estruturados, logo que se deu a revolução. Já tinha a casa da minha mãe, já tinha uma bela duma casa que a gente tinha ali. E por ser essa casa muita bem estruturada, serviu como porta de entrada para muita gente no Uruguai, para o exílio uruguaio. Muitas pessoas passavam por ali, eu digo que quase todas as pessoas passavam por ali. De uma maneira ou de outra meu pai interferia, ou era consultado, como melhor colocá-las dentro do Uruguai. O meu pai era a pessoa que recebia no Brasil e colocava dentro do Uruguai. (...) era insólito. Não tinha hora, chegavam de manhã, de tarde, de madrugada. Umas figuras diferentes, homens quase todos, e ficavam conversando na sala, era um mistério. E a gente queria ficar participando das conversas e acabava participando no final. Muitas pessoas dormiram no meu quarto. Eu me lembro do sargento Alberi dormindo no meu quarto, o Jefferson Osório...Doutor Benvenuto, o Oscar Fontoura Chaves, o professor Chaves - que é outro, seu Valdemar, e muitas pessoas que eu nem lembro mais o nome.[v]

                   No restrito mundo dos exilados em Rivera, as relações entre os grupos eram inevitáveis, muito  embora houvesse simpatias bem definidas pelas posições de Jango ou Brizola. É nesse ponto que entra na conexão da casa dos Mello o policial civil Oscar Fontoura Chaves, ambos ligados por uma amizade em comum com Jefferson Osório e o grupo de Três Passos. Depois de deixar a casa dos Mello em Rivera, na manhã do dia 20 de março de 1965, o grupo insurgente vindo de Montevidéu, comandado por Jefferson Cardim Osório dirigiu-se a São Sepé, aonde iria contactar Oscar Fontoura Chaves para uma adesão à causa.
Colaborador do governo Jango, o qual esteve servindo pouco antes do golpe em Brasília, Oscar Chaves absteve-se em participar diretamente do plano de Cardim e Alberi, mas seu encontro com os rebeldes seria marcado pela repressão. Nas lembranças de América Ineu Xavier, viúva do policial, a visita do grupo na tentativa de arregimentar seu marido para a guerrilha foi definitiva para a sua prisão, poucos dias depois:

[...] aí veio aquela coisa que houve lá, uma guerrilha. Em Santa Catarina né? ou lá na divisa com o Paraguai...Aí houve a formação de uma guerrilha, do Coronel Jeferson...uma coisa louca, e o cara esse, da guerrilha, segundo...ele teria passado lá e teria convidado ele pra ir e ele se recusou. Disse que não , que era uma coisa que não era organizada, tal e coisa e que ele não iria. Segundo né? Eu não sei, é o que contam. Aí esse cara foi preso, foram diversos, um tal de Alberi, foram diversos presos...e aí nos depoimentos eles teriam dito que teriam convidado ele. Tá, eles prenderam ele porque disseram que ele devia denunciar. Aí ele foi preso de novo, aí em São Gabriel.Ele foi preso em São Sepé e levaram ele para São Gabriel, que tinha quartel. Ele ficou lá abril, maio, junho, julho e agosto. E em agosto ele fugiu. E nem eu bem sei, foi um horror aquilo![vi]

Naquele momento, Montevidéu já contava com mais de dois mil exilados brasileiros e a cada dia passavam pela fronteira novos clandestinos. A repressão que a ação mal-sucedida de Três Passos desencadeou em todo o Estado iria redirecionar os destinos de muitas famílias para o caminho da fronteira. Oscar Fontoura Chaves foi preso e levado ao 9º Regimento de Cavalaria de São Gabriel, para interrogatório. O advogado Índio Vargas, natural de São Sepé, engajado posteriormente no movimento de insurreição, lembra que a população local já não suportava o trauma causado por constantes interrogatórios a que era submetida por militares oriundos de São Gabriel, Bagé e Santa Maria.[vii] Oscar Fontoura Chaves também experimentou a prisão e o interrogatório nos primeiros dias do golpe, porém logo foi liberado.

Desta segunda vez, no entanto, seria severamente torturado como cúmplice de Jefferson Cardim Osório. Menos de cinco meses depois, Oscar Chaves conseguiu cerrar
as grades da cela em que o mantinham no quartel e empreendeu assim uma fuga escondendo-se de dia nos matagais da região e deslocando-se à noite. Conhecedor da região, onde atuava no combate ao contrabando de gado, ao lado do delegado Acílio Pereira da Cruz, que mais tarde seria o chefe da 12ª região policial em Santana do Livramento, conseguiu driblar as forças do exército. Auxiliado por camponeses, Oscar chegou a Rivera, no final de 1965, onde pediu asilo político na Chefatura de Polícia. Antes, porém foi recebido na casa de Romeu Figueiredo de Mello. Pedro Antônio recorda do estado crítico que o policial chegou em sua casa, vomitando e urinando sangue, devido às torturas a que foi submetido. Para dormir, Oscar Chaves tinha de ser hipnotizado pelo doutor Adalberto Benvenutto, médico de São Borja, exilado na fronteira com a família desde os primeiros momentos do golpe, e que prestava serviços de toda ordem, desde que envolvesse a saúde da comunidade de refugiados.
Pelos olhos de uma criança, curiosos com os acontecimentos que a cada dia movimentavam o ambiente doméstico, ficaram marcadas as lembranças de solidariedade da família e as condições de extrema penúria com que chegavam os fugitivos da nova ordem, como a família Penalvo, que depois viria a administrar a fazenda de João Goulart, em Tacuarembó.

Eu lembro da chegada do doutor Oscar. Lembro mesmo, ele era um cara forte, grande. Bem, eu era uma criança de 11 anos, mas ele parecia um gigante. Era um homem encorpado, já grisalho[...]Eu lembro que chegou muito nervoso, não conseguia dormir, e expelia sangue pelas feses, pela urina...Lembro como se fosse hoje também, a minha vó cedeu o quarto dela e o doutor Oscar dormia ali. Era o único digamos que não dormiu no quarto meu e do meu irmão, que dormiu fora. Tinha o quarto meu e do meu irmão, e uma terceira cama, por onde passavam as figuras. Normalmente tinha uma cama "de varde" como se diz na minha terra e normalmente tinha um dormindo na cama. E aquele quarto da minha vó foi cedido...e era pro doutor Oscar poder dormir...eu me lembro do doutor Benvenutto hipnotizando ele, para poder dormir....E devagarinho ele foi revelando como é que foi a fuga dele. E eu me lembro que ele revelou que foi a esposa dele que alcançou uma lima dentro de um pão, ou algo assim. E com essa lima ele conseguiu fugir da cadeia. É, isso eu lembro. E passou alguns dias lá em casa e depois foi para uma pensão. Lembro também da chegada do Perci Penalvo e da Celeste, Dona Celeste. Com uma filha no colo, um frio danado, não tinha nem cobertor, eu me lembro que a minha mãe foi lá e deu um cobertor pra ele, e eles ficaram um dia ou dois e depois foram embora. [viii]
    
A rotina de abrigo aos recém chegados consistia em proporcionar um descanso por dois ou três dias, com comida, banho, e a convivência da família, até uma gradual readaptação a nova situação. Muitos seguiam viagem para Montevidéu, depois de
assegurados passes especiais. Os que ficavam na fronteira eram encaminhados para uma pensão, próxima ao Colégio das Freiras, nos arredores das ruas Ituizangó, Figueroa e Faustino Carâmbula. Nessa pensão estava hospedado Oscar Fontoura Chaves, poucas semanas depois de ter chegado à fronteira, tratando de reintegrar-se a nova situação. É então seqüestrado por uma força policial uruguaia, que o leva para Tranqueras e logo após para a cidade fronteiriça de Artigas, com o propósito de o devolverem às forças militares brasileiras, que reclamava pelo fugitivo instalado em Rivera.
 Oscar Chaves não seria devolvido à ditadura brasileira graças à intervenção do advogado Adán René Fajardo, uma figura humanista e defensor dos exilados, filiado a lista 99, do Partido Colorado, e que teve ampla atuação em casos semelhantes durante os anos da ditadura brasileira e, depois, na confluência de ambas as ditaduras, a partir de 1973.[ix] No ambiente tenso do exílio, “desgastante e verdadeiro devorador de homens”, nas palavras de Paulo Schilling, Pedro Antônio recorda das inúmeras discussões em que seu pai e seus companheiros mantinham, onde não faltavam elementos de traição e de ressentimento com a liderança de Jango e Brizola, que viviam sob uma condição monetária estável, enquanto muitos correligionários e suas famílias passavam enormes dificuldades para sobreviver no escasso mercado de fronteira, em particular de Rivera, com menos de 50 mil habitantes e uma economia atrelada ao setor de serviços e governamental.

Na difícil sobrevivência do exilio, as mágoas permeavam os distintos grupos afetados pelo golpe. “Eu lembro de muitas conversas de traição, eu lembro que se falava muito em traição. Quem traiu o quê eu não sei, mas lembro que se falava muito em traição. Alguém dedurou, alguém falou. Quem foi? Eu lembro que era a grande incógnita, quem traiu quem”.[x] Uma grande parcela dessas discussões referia-se ao destino dos recursos que Brizola, Jango e Darcy Ribeiro teriam recebido de Cuba, um total de um milhão de dólares, enviados em duas vezes, destinados a prover a insurreição e amainar as dificuldades por que passavam os exilados. Como o dinheiro nunca chegou ao grupo da fronteira, se acenderam os ressentimentos. José Wilson da Silva descreve a vida dos exilados em Montevidéu como uma sucessão de dificuldades, parte devido ao paternalismo das lideranças, que “davam o pão, mas não ensinavam a plantar o trigo”, e parte devido à falta de iniciativas dos próprios refugiados, que muitas vezes não demonstravam aptidão para mudar de vida, esperando das lideranças a eterna ajuda. Em 1966, o ponto central da discórdia entre o grupo ligado a Romeu Figueiredo de Mello, em Rivera, girava em torno do mau uso dos dólares supostamente enviados por Fidel Castro. José Wilson vivia em Montevidéu e dá a sua versão para a controvertida questão:

Que eu saiba, o primeiro contato feito com Cuba foi através do deputado uruguaio Ariel Collazo, levando nossa disposição de uma retomada da democracia no Brasil.(...) Fidel enviou, a título de ajuda, quinhentos mil dólares. Desta importância, segundo um relatório de Brizola para nós, um terço teria ficado com Jango, pois a este estavam ligados vários exilados necessitados. Outro terço teria ficado com Darcy Ribeiro, por questões de segurança e que também tinha parte de responsabilidade. O outro terço teria ficado com Brizola. Lembro-me que ele, Brizola, ficou muito aborrecido porque as ações mais positivas estavam sendo feitas pela nossa gente e ficamos desse modo com relativamente pouco dinheiro. Parte dessa importância foi gasta com elementos no exílio, parte com a assistência a companheiros no Brasil em situações críticas, como presos com a família sem recursos, etc., e parte com os nossos homens-correios para a implantação já de esquemas de trabalho, aliás, tudo em função de um plano de ação armada. Dado o número de pessoas em dificuldades pela desarticulação da sociedade, em especial gente humilde, que eram as bases trabalhistas ou de esquerda, isto não era mais do que uma gota d’água num oceano de necessidades. [xi]        

A falta de apoio financeiro de Jango ou do grupo brizolista, em Montevidéu, afetava a todos os que estavam ancorados em Rivera. Ali viviam companheiros que exerciam importantes funções de pombo-correio, ou de passagem de companheiros de um lado a outro da fronteira. Por isso a falta de uma assistência centralizada gerava notórios ressentimentos. Mas entre o grupo que gravitava em torno de Romeu Figueiredo de Mello, um detalhe deixou a questão muito mais explosiva. Parte do dinheiro, destinado a João Goulart, teria passado pela casa de Romeu, transportado por ninguém menos que o braço armado de Fidel na América Latina, Ernesto Che Guevara! Hoje seria quase impossível provar essa hipótese sem o cruzamento de relatos orais, que não foram obtidos por esta pesquisa, salvo um: o depoimento da viúva de Romeu Figueiredo de Mello a seu filho.

Minha mãe lembra que teve um contato com o Che nas escadarias de minha casa, acompanhado de mais dois homens vestidos de religiosos franciscanos. Eles estariam indo a fazenda de Jango, em Tacuarembó, por entre os corredores de campo, que eram seguros e impossíveis da polícia detectar. Traziam o dinheiro, segundo meu pai disse. E passou pela minha casa.  Minha mãe se recorda de ter visto ele, de relance, ele sorriu para ela. Eu me lembro do meu pai dizendo que eles estavam em um corredor, não sei onde, os franciscanos esses, y la plata. [xii]

Por mais fantasiosa que a versão possa parecer em um primeiro olhar, dados biográficos de Guevara colhidos pelo jornalista argentino Hugo Gambini apontam para sua estadia no Uruguai justamente no ano de 1966, onde teria chegado disfarçado de frei dominicano! Dali partiria para sua última missão, na Bolívia. Fontes ligadas a João Goulart não endossam a versão oficialmente, embora reconheçam o fato em privado. Assim, ligando as pontas desse quebra-cabeça é possível vislumbrar a imagem de Ernesto Che Guevara em pleno Parque Internacional, na fronteira de Santana do Livramento e Rivera, onde a poucos metros adentro do território uruguaio iria se valer do traçado ensinado por Romeu Figueiredo de Mello para percorrer os corredores de campanha e chegar até a estância El Rincón, de João Goulart, distante 66 quilômetros da cidade de Tacuarembó. Hugo Gambini, biógrafo de Guevara, credita certo exagero nas versões que corriam sobre o paradeiro do guerrilheiro naqueles dias, mas não se exime de anotar:

El 5 de agosto de 1966 la Cancillería del Paraguay dijo haber ordenado “una vigilancia especial en el limite con Brasil, debido a que Guevara ha sido visto en Baribao, a escassos kilômetros de la frontera paraguaya”. Las versiones confidenciales, demasiadas exageradas, sostenían que El Che cirulaba disfrazado de hermano dominico, con el nombre de Fray Hernando Juan de los Santos(...) [xiii]

Da estadia de Ernesto Guevara no Uruguai, nos primeiros meses de 1966 não restam mais dúvidas, apenas divergem as versões sobre a maneira de como teria chegado à Bolívia, vindo do Uruguai. Também é interessante notar a aproximação de Che Guevara com o grupo Tupamaro, já estabelecido como partido político revolucionário, e que manteve estreito contato com o cubano, mesmo sem compartilhar das táticas de guerrilha defendidas por Che[xiv]. Sérgio Israel, jornalista do semanário uruguaio Brecha, reuniu algumas das versões sobre a estadia do guerrilheiro no Uruguai, sob proteção do Partido Comunista Uruguaio, que mesmo não estando afinado com a proposta de guerrilha rural e o foquismo, defendido por Che, o colocou sob a proteção de seu aparato militar. O então deputado comunista Ariel Collazo, o mesmo que proporcionou a aproximação do grupo janguista exilado em Montevidéu com Fidel Castro, levanta a hipótese de que Guevara usara um campo de aviação em Taquarembó quando partiu para a Bolívia, em setembro daquele ano. Conforme o relato de Israel:

La versión difundida una década después de la muerte del guerrillero, en plena dictadura, por la inteligencia militar uruguaya, también confirma que el Che estuvo aquí, y agrega que los documentos que usó para arribar a Bolivia fueron robados del Ministerio de Relaciones Exteriores uruguayo, que en esa época era el emisor de pasaportes. Jaime Pérez, sucesor de Arismendi al frente del pcu, escribió en sus memorias que se enteró de la estadía del Che una vez que éste se había ido, pero también confirmó que "el Che salió de Montevideo y de aquí fue para Bolivia y mientras estuvo en Montevideo fue bajo protección del partido".  El ex diputado Ariel Collazo explicó a su vez a Brecha que aunque Arismendi nunca se lo confirmó, también tuvo la información de que el Che estuvo en Uruguay apoyado por el pcu. Collazo, que en ese tiempo como dirigente del Movimiento Revolucionario Oriental (Mro) era muy apreciado en Cuba, obtuvo la versión de que el Che llegó a Bolivia en un vuelo clandestino que salió desde Tacuarembó.[xv]


Do episódio restam algumas indagações. Seria o campo de aviação de Jango, para quem supostamente o guerrilheiro havia levado o dinheiro? De outra maneira, porque rumaria para a cidade de Taquarembó para alçar-se a sua empreitada boliviana?  Outro fato que coloca uma nova indagação nessa equação ainda por resolver foram as constantes declarações do piloto de avião conhecido por Ribeiro, que prestava serviços ao presidente deposto. De acordo com Vladecir Fagundes, filho de um militante comunista muito ligado a Goulart, Ribeiro apregoava aos quatro cantos em Rivera que teria transportado Guevara em uma missão secreta. Naquele momento, era comum os pilotos realizarem a rota Brasil-Paraguai-Uruguai, sempre com transporte de cigarros e uísque contrabandeados. A exemplo da morte de Jango, cujas suspeitas de assassinato tornam-se cada vez mais evidentes, Ribeiro morreria subitamente, de um ataque cardíaco, no barco que faz a travessia de Buenos Aires para Montevidéu, anos depois. Ribeiro iria depor em um inquérito que apurava roubos de documentos e de propriedades do ex-presidente. Outra informação que merece ser considerada é afirmação de Avelino Capitani, marinheiro e guerrilheiro do foco de Caparaó, que sustenta que a viagem de Che a Bolívia teria acontecido a partir do Uruguai e sob a companhia do coronel Dagoberto Rodrigues, homem de confiança de Jango e na linha de frente do MNR naquele momento. A estadia de Guevara no Uruguai em novembro de 1966 também coincide com a articulação do foco guerrilheiro de Caparaó e a organização de outros focos em Mato Grosso e na linha fronteiriça.


[i] MELLO, Pedro Antônio Dávila de. Engenheiro. Entrevista concedida ao autor em 12/10/2006.
[ii] Ibidem.
[iii] Idem.
[iv] Ibidem.
[v] Idem.
[vi] XAVIER, América Ineu. Dona de casa. Depoimento concedido ao autor em 22/12/2006.
[vii] VARGAS, Índio. Guerra é guerra, dizia o torturador. Rio de Janeiro. Codecri. 1981. p.17.
[viii] MELLO, Pedro Antônio de. Entrevista Citada.
[ix] A atuação de Adán René Fajardo na defesa dos exilados será melhor explicitada no terceiro capítulo.
[x] MELLO, Pedro Antônio de. Entrevista Citada
[xi] SILVA, José Wilson da. O Tenente Vermelho. Op. Cit., p. 202.
[xii] MELLO, Pedro Antônio de. Entrevista Citada.
[xiii] GAMBINI, Hugo. El Che Guevara: la biografia. Buenos Aires. Booket, 2006. p. 300.
[xiv] Os jornalistas Antônio Mercader e Jorge de Vera vão mais além nessa questão, e afirmam que o disfarce com que Guevara chegou na Bolívia, o de um senhor calvo sob o nome Adolfo de Mena, teria sido forjado pelo grupo Tupamaro, em apoio moral ao combatente, mesmo sem a adesão à causa da guerrilha na Bolívia. In: Tupamaros, Estrategia Y Accion. Revista Siete Dias Ilustrados. Junio 1969.
[xv] Pasage clandestino y discusiones sobre estratégica y táctica. Huellas Orientales del Che. Sergio Israel. In: www.brecha.com.uy. Acessado em 09/12/2007.