sábado, 10 de outubro de 2020

Santos Soares e a organização operária na fronteira

por Marlon Aseff


Santos Soares foi líder dos trabalhadores fronteiriços, organizador de uma Liga Operária que constituiria um impulso importante na constituição futura do Partido Comunista do Brasil. Ele nos surge, em relatos orais e nos raros textos que anotam sua trajetória, como um homem cercado pelo mistério do líder comunista, idealizado pela imprensa partidária como o modelo exemplar do transformador social, a ser construído e seguido com a exaltação comum ao mito recorrente do ideário comunista. Para encontrarmos os primeiros rastros de Santos Soares, voltemos ao começo do século, quando a fronteira gaúcha de Santana do Livramento e a cidade uruguaia de Rivera vivia  a euforia da inauguração da Cervejaria Gazzapina (1908) e o pleno funcionamento de estabelecimentos comerciais como a Padaria Aragonez, que junto ao setor de construção civil incorporavam os núcleos de trabalhadores filiados a ideias anarquistas que muitos operários argentinos, uruguaios e espanhóis alimentavam. Os ecos dessas novas demandas políticas seriam estampados no jornal anarquista A Evolução, que viria a ser impresso em português e espanhol, em Santana do Livramento, a partir de 1911. Nesse ambiente gesta-se a figura de líderes operários que viriam a ser fundamentais na organização dos trabalhadores na região, primeiramente filiados aos ideais anarquistas, e mais tarde associados ao emergente partido comunista. Surgem nesse início de século o anarquista espanhol Antônio Apoitia, e pouco depois Santos Soares, mentor da organização comunista local. A atuação de Soares, que viria a criar em 1918 a Liga Operária, uma das primeiras ligas comunistas do país, consolidou-se durante a primeira greve que eclodiu nos frigoríficos Armour e Wilson, a 13 de março de 1919. Na greve de 1919, a pauta de reivindicações exigia redução da jornada de trabalho de dez para oito horas, aumento de salários para os trabalhadores braçais e um acréscimo de 25% sobre o salário das mulheres. Também pedia a instituição de horas extras para o trabalho nos domingos ou fora de horário. O evidente desalinho entre as leis trabalhistas vigentes no Uruguai e no Brasil ganhava nova conotação no ambiente de trabalho do frigorífico. Ali, trabalhadores uruguaios, brasileiros e de outras nacionalidades submetiam-se a um ordenamento laboral arcaico.[1]

Do outro lado da linha divisória, os trabalhadores uruguaios começavam a vivenciar as mudanças preconizadas pelo presidente José Batle y Ordóñez, que criara a partir de seu primeiro mandato, em 1903, uma série de normas legais de proteção aos trabalhadores, posteriormente reforçadas pela Constituição de 1917, que incluia jornadas de trabalho de oito horas, indenização por acidentes de trabalho, licença maternidade, proteção aos idosos e inválidos e a intermediação estatal em casos de conflitos laborais. Convém lembrar aqui, conforme aponta Gustavo López, que as normas laborais uruguais, extremamente avançadas para a época, não foram  um “presente” do governo de Batlle, mas fruto de anos de lutas cruentas do movimento sindical uruguaio.[2]  Durante a greve de 1919, os operários das companhias Armour e Wilson, conseguiram que as empresas concedessem um aumento de 10% nos salários e a redução de 10 para 9 horas de trabalho diário. Mesmo sob a repressão da força militar, a greve se fazia vitoriosa. Santos Soares cria nesse momento uma associação para promover a ajuda mútua entre os trabalhadores, o Centro de Assistência e Ofícios Vários, que iria originar em 1920 o Sindicato dos Ofícios Vários.

Em 1921, conforme aponta Marçal, Santos Soares editava um semanário de pequeno formato, “O Socialista”, um “desdobramento da Liga Operária, que não tardou a ser assaltado pela polícia” e teve vida efêmera.[3] Um texto assinado pelo jornalista e militante comunista Isaac Akcelrud, em 1952, permanece como um raro relato de cunho biográfico acerca da atuação do líder santanense. Marcado pela exaltação revolucionária do período stalinista, Soares é elevado a mito do movimento comunista naqueles anos de organização dos trabalhadores na fronteira:

A Primeira Greve Contra uma Empresa Imperialista -  Na folha de serviço de Santos Soares à causa do proletariado inscreve-se em relevo a sua atuação como organizador e dirigente da primeira greve contra uma empresa imperialista no Rio Grande do Sul. Foi a greve dos trabalhadores do Frigorífico Armour. Organizada a Liga, Santos Soares não permitiu que os comunistas se fechassem num estreito círculo sectário. Esta é a segunda grande lição de sua vida. Ele comparava os efetivos do pequeno núcleo de vanguarda com as massas dispostas à luta e reclamando a direção dos comunistas. O lugar do comunista é no Sindicato. — De onde é que nós saímos? Não foi da luta sindical? É no Sindicato, lutando pelos interesses dos trabalhadores, que está o ABC. Assim, com palavras simples, utilizando a própria experiência dos trabalhadores, Santos Soares organizou uma verdadeira campanha de sindicalização. Surgiram organizações sindicais de diversas profissões. Nas assembléias, um jovem tribuno operário inflamava as massas. Aos 28 anos, Santos Soares era um líder querido dos trabalhadores, reconhecido como seu chefe.[4]

O relato de Ackcelrud elenca as lutas do líder operário, legitimando a aura da honorabilidade comunista, conforme o mito alimentado pelos anos do stalinismo, quando os herdeiros da revolução soviética eram elevados a uma condição de “super-homens”, construídos por uma moral inabalável e intocáveis em sua conduta. Perseverando Santana, pecuarista e militante do partido, reforça a imagem de Soares como o melhor condutor da luta operária na fronteira em todos os tempos. Desde sua modesta atuação como funcionário da Correaria Cruz, tradicional loja da cidade, Perseverando recorda do líder “respeitado por advogados e pessoas da burguesia local”, graças a um posicionamento firme e idealista, que professsava uma fé inabalável na revolução soviética e seus desdobramentos.[5] Ackcelrud também enfatiza o aspecto da moral inabalável de Soares:

Ele não perdia oportunidade e não desprezava nenhum setor. Operários da construção civil, padeiros, pequenos contingentes de trabalhadores de diversas profissões ele unia e organizava em seus respectivos sindicatos e no sindicato de ofícios vários. Participou de diversas diretorias e invariavelmente os trabalhadores exigiam que Santos Soares ficasse responsável pelos fundos e pelo patrimônio das suas organizações. Era a homenagem pública à honestidade dos comunistas representados por Santos Soares.[6]

Porém não tardaria para que o aglutinador da força operária na fronteira encontrasse “a empresa fundamental”, nas palavras do biógrafo comunista.

(...) o jovem dirigente à medida que ia se temperando na luta, aprendendo e acumulando experiência, compreendeu que era preciso dar atenção especial à empresa fundamental. Santos Soares lançou-se à tarefa de organizar e levar à luta os trabalhadores do Frigorífico Armour. Ali era a cidadela dos patrões estrangeiros e dos fazendeiros. Mas ali também era que se concentravam os trabalhadores. No frigorífico, Santos Soares se defrontou com um inimigo de larga experiência na repressão ao movimento operário, experiência que se aliava aos métodos mais brutais dos senhores feudais das fazendas de gado e contrabandistas da fronteira. Com paciência e tenacidade preparava a luta e a vitória. Cada escaramuça com o inimigo lhe dava a noção das forças dos trabalhadores, do seu amadurecimento para o combate, revelava os homens que deviam ser chamados para o Partido, mostrava erros que era preciso corrigir.

 

Adoentado, Santos Soares já não mais comandava a linha de frente do partido quando os gestos extremos da repressão contra os comunistas começam a intensificar-se. Conforme veremos no capítulo seguinte, o chamado massacre dos trabalhadores e militantes comunistas em frente ao Parque Internacional, no dia 24 de setembro de 1950, iria abalar a militância e cobrir de suspeitas a direção do frigorífico como mandatária do ato de repressão, que resultou em quatro mortes.  Isaac Ackselrud traz à luz o nome dos militantes mortos pela repressão, ao enfatizar a ligação do operário Aladim Rosales com Santos Soares.

 

Aladim Rosales foi assassinado em 1950 por ordem dos anglo-americanos. Pereceram com ele os camaradas Kulman, Abdias e Aristides. Esse crime monstruoso foi executado pela policia dos traidores da pátria Eurico Dutra e Walter Jobim. Santos Soares procurava capitalizar todas as lutas para o Partido. Sim, dizia, é importante e é necessário conseguir melhorias para a classe operária. Mas não estava se vendo que os fazendeiros e os gringos do frigorífico continuavam donos de tudo, permanecem no governo, com o poder na mão, mesmo quando os operários conseguem uma reivindicação? A importância da luta pelas reivindicações não está só nas melhoras que pode trazer, mas principalmente porque une os trabalhadores, abre seus olhos, mostra que são fortes e que devem empregar essa força contra os patrões sempre prontos a anular as melhorias obtidas na primeira oportunidade. Portanto, em cada luta, para que seja uma luta de verdade, é preciso ter uma perspectiva revolucionária. Somente o Partido garante que todas as lutas reforcem a causa da revolução e impede que forças da classe operária se desmanchem em mil e um pequenos combates que ficam nas pequenas melhorias.[7]

 

Filho de Favorina e Domingos Soares, Santos viveu os primeiros anos no bairro São Paulo, nas cercanias da charqueada Livramento, de Pedro Irigoyen. Casado, transferiu-se para as proximidades do batalhão da Brigada Militar, em um local ainda com características rurais, constituído por pequenas chácaras. Sempre trabalhando na construção, mudou-se com a família para os arredores do parque municipal da Hidráulica e posteriormente, para Rivera, local escolhido por aqueles que deveriam zelar por uma proteção natural às perseguições em solo brasileiro e que faziam desse pêndulo entre os dois países, se não um salvo conduto, ao menos uma forma de ganhar tempo quando fosse necessário. Gecy Rodrigues Soares, filha mais jovem de uma família de três mulheres e um homem, lembra do pai como zeloso e trabalhador. Em meados dos anos 30, ela relembra de uma prisão que o pai sofrera, quando foi levado para Porto Alegre.

O ano eu não lembro, mas eu era bem guria. À noite, quando ele estava lendo, na beira da mesa. E bateram na porta e era a polícia, e reviraram toda a casa, e aí levaram ele preso. Mas não encontraram nada, papel nenhum. Ele sempre tava prevenido, né? E esteve uns três dias preso ali em Livramento, e mandaram para Porto Alegre. E lá, em seguida se avisou um tio meu, que era capitão da Brigada, e ele foi e tirou ele da cadeia. Ele teve uns três meses, que não podia vir, depois veio e seguiu trabalhando. Mas lá quando estava solto já trabalhava lá mesmo em Porto Alegre. Eu lembro, eu tinha uns oito anos. (...) Era, pelo sindicato e pelo partido. E daí a uns meses começaram a perseguir ele de novo, aí ele passou para o Uruguai. (...) Só sei que o sargento que foi prender ele, a mãe falou muita coisa para ele, porque meu pai tinha ajudado muito ele, esse sargento era muito pobre e o meu pai com o que tinha ajudava muito ele, dava comida para essas crianças dele, e a minha mãe falava e falava, mas ele era mandado também né?[8]

Nos dois últimos anos de vida, Santos Soares, mesmo enfermo, mantinha a voz ativa entre trabalhadores e expoentes do partido, como Perseverando e Aquiles Santana, Francisco Cabeda e Hugo Nequesauert. Em janeiro de 1951, a morte do líder que, conforme Perseverando, “sabia lidar com todo mundo, tinha uma autoridade moral muito grande e não gostava que o operário fizesse qualquer deslize”, foi sentida com pesar entre as lideranças e boa parcela dos trabalhadores, especialmente os envolvidos na idealização mítica do militante revolucionário do período stalinista. O poeta Mário Santana registrou no jornal do partido uma singela homenagem ao homem que possuía predicados tão fortes como “um bloco inteiriço de valor humano, social, político e privado”:

 

Livramento perdeu com a morte de Santos Soares um de seus mais dinâmicos elementos, o quadro mais completo. Autentico tipo de lutador, apresentando sua personalidade por todos os quadrantes, um bloco inteiriço, solidamente feito de valor humano, quer político ou privado. Foi sempre tido no seio do partido como um guia de confiança, coerente e lúcido, acatado e ouvido com respeito, certos de seu equilíbrio e ponderação como organizador sindical, condutor de massas.[9]

 

Como se pode constatar pelas palavras do poeta santanense, o guia dos operários fronteiriços que acabava de falecer encarnava as qualidades que um legítimo militante da causa comunista poderia ostentar: verdadeiro homem de ferro, acima de seu tempo e de seus pares, na melhor definição do mito do mensageiro eleito. Jorge Ferreira, ao analisar as origens das concepções messiânicas que elevaram o proletariado como redentor da humanidade conclui que o sucesso obtido pelo Manifesto Comunista não se restringiu apenas a revelação de determinadas “realidades que se fundaram como verdades”, mas também a uma série de imagens, simbologias e representações imaginárias que, ao final, cumpriam a função de resgatar estruturas mitológicas milenares. Utilizando-se das reflexões propostas pelo filósofo Mirceade Eliade, argumenta que, no limite entre o político e o profetismo social, as idéias mais vulgarizadas de Marx “retomaram e prolongaram um dos grandes mitos escatológicos de sociedades antigas (...), a narrativa do modelo redentor do Justo, também conhecido em diversas versões como o ‘eleito’, o ‘ungido’, o ‘inocente’, o ‘mensageiro’, que nos tempos modernos, sobreviveu entre os comunistas, mesmo que dessacralizado, na imagem do proletariado revolucionário.[10] Imbuído das homenagens póstumas e da construção do mito, prossegue Mário Santana:

 

Nunca teve um só instante de esmorecimento ou vacilação, uma única fenda por onde penetrasse a cunha do oportunismo, sectarismo ou comodismo deformadores dos princípios no processo político. Comedido e tenaz, enérgico e ponderado, dotado de um grande senso psicológico. Incansável sempre estava em todas as frentes de luta; mesmo nos últimos momentos antes de morrer ainda se fazia ouvir aconselhando com eficiência, lamentava não poder dar mais para o seu partido: O PARTIDO COMUNISTA. Achando que a morte lhe vinha inoportunamente aniquilar, no momento em que se aproximava a luta decisiva. A compleição moral deste homem pode servir de padrão para quem quiser ser um líder de vanguarda. A estatura de sua personalidade foi sempre uniforme em tudo, porque em tudo foi honesto e sincero e bom: como político, como chefe de família, como amigo, como irmão e como filho. O nobre e grande lutador da Serrilhada se impôs no seu partido por este conjunto de qualidades excepcionais.[11] 

Hélio Santana Alves foi parceiro das lutas sindicais junto a Santos Soares. Participante do ato de pichação no Parque, ele rememorou a importância do amigo nas lutas em comum, que muitas vezes envolvia os comunistas uruguaios.

 

Eu sempre tive, na minha concepção, que nós não entendíamos de marxismo-leninismo, nós entendíamos de esquerdismo. Marxista era esse velho, Santos Soares, que mesmo com a saúde abalada, dava orientação de cima da cama. Todos os operários de fábrica e padaria lidavam com ele. Tinha mil e tantos operários militantes, entre o Armour, a Padaria Aragonez e outras, uma quantidade enorme. Foi um baluarte das lutas políticas entre Santana do Livramento e Rivera. Tinha uma biblioteca marxista, que era notável que um operário tivesse uma biblioteca tão perfeita(...) Para se analisar a situação da fronteira naquela época, era como se fosse um partido só. Tanto se militava no partido brasileiro como se militava no partido uruguaio (...) Mas o fundamental para mim é que o marxismo-leninismo vinha de Santos Soares, que muitas vezes dava aula no partido comunista uruguaio. Foi o único elemento que mais se aproximou do marxismo naquela época.[12]

 Como um legítimo território em comum para os comunistas, a fronteira que surge nas lembranças de Hélio é a que unificava a militância e as solidariedades, onde havia um ato do partido iam quase todos das duas cidades. Aos grandes atos do partido comunista brasileiro, compareciam os comunistas do partido uruguaio, e assim também do outro lado.

 

* Este texto é parte modificada da tese " No portão da fábrica: trabalho e militância política na fronteira de Santana do Livramento/ Rivera (1945-1954)", apresentada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas; Programa de Pós Graduação em História, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 



[1] João Batista Marçal, pesquisador do movimento operário no Rio Grande do Sul, nota que as greves de 1919, nos Frigoríficos Armour, em Santana do Livramento, e Swift, em Rosário, foram duramente reprimidas. Na cidade de Rosário, distante cerca de 100 quilômetros da fronteira, dois dos líderes grevistas - um maquinista uruguaio e outro espanhol - foram degolados, no caminho de uma suposta deportação para o Uruguai. MARÇAL, João Batista. Comunistas Gaúchos. A vida de 31 militantes da Classe Operária. Tchê!: Porto Alegre, 1986. Pg. 118.

[2] LOPEZ, Gustavo. Uma breve história do movimento operário uruguaio. Revista Marxismo Vivo. Nº 15. P.116.

[3] MARÇAL, João Batista. Op. Cit., Pg.119.

[4]  Idem. Pg.120.

[5] Perseverando Fernandes Santana. Depoimento ao autor.  Documentário “Conversas com Perseverando”. Santana do Livramento, dezembro de 2015.

[6] MARÇAL. João Batista. Op. Cit., Pg.121

[7] Idem.Pg.122

[8] Gessy Rodrigues Soares. Entrevista concedida ao autor, em 23 de julho de 2011, Rivera, Uruguai.

[9] A Morte de Santos Soares. Unidade. Santana do Livramento, 20 de janeiro de 1951. Pg.1

[10] FERREIRA, Jorge. Prisioneiros do Mito. Cultura e Imaginário político dos comunistas no Brasil (1930-1956). Rio de Janeiro: Eduff. 2002. Pgs 34, 35.

[11] A Morte de Santos Soares. Op.Cit.

[12] Hélio Santana Alves. Depoimento ao autor e Liane Chipollino Aseff em 5 de julho de 2005, Santana do Livramento.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Há 70 anos da chacina do Parque Internacional

 

*por Marlon Aseff

A noite de 24 de setembro de 1950 ficaria marcada na história da fronteira de Santana do Livramento e Rivera devido ao assassinato de quatro militantes comunistas, reunidos em frente ao Parque Internacional, na linha divisória que separa Brasil e Uruguai. O ato, de panfletagem e pichação, seria de afronta ao governo Dutra, de apoio aos candidatos apoiados pelos comunistas às eleições que se avizinhavam, de rechaço ao fascismo e contra o imperialismo, reforçando o teor da linha adotada pelo Partido Comunista Brasileiro, especialmente após o Manifesto de Agosto. Conhecido posteriormente como a chacina dos quatro As – o nome dos mortos iniciavam todos sob a letra A (Aladim Rosales, Ary Kulmann, Aristides Ferrão Corrêa Leite e Abdias da Rocha), o crime teve a participação ativa de policiais, pistoleiros e representantes de latifundiários, que faziam parte do grupo que chegou atirando, conforme a versão dos comunistas. À frente do bando agressor estavam o comandante da Brigada Militar em Santana do Livramento, Eleú Gomes da Silva; o comandante do Exército, Ciro de Abreu, o delegado da polícia civil, Miguel Zacarias, o advogado Mário Cunha e o inspetor de polícia Ário Castilhos, entre outros. [1] Ao final de menos de 15 minutos de confronto, jaziam os corpos dos quatro militantes assassinados, e um saldo de pelo menos mais oito feridos, entre eles o secretário do partido, Lúcio Soares Neto. 

A primeira investigação consistente sobre a chacina surgiu em 2006, através da dissertação de mestrado da historiadora Liane Chipollino Aseff.[2] A pesquisadora enfoca especialmente a vida cultural na fronteira de Santana do Livramento e Rivera entre as décadas de 1930 e 1960, e embora não fosse seu objetivo inicial, registra o crime do Parque Internacional como uma marca da violência que imperava no ambiente político de Santana, onde desde o início do século não era incomum a pistolagem, a mando de políticos e grandes proprietários de terras. Talvez o grande mérito da abordagem seja a construção dessa fronteira ao mesmo tempo envolta em jogos, cabarés e uma vida noturna repleta de atrações, contrastando com um setor subalterno da população, trabalhadores da fábrica ou dos campos, dependentes dos grandes mandatários, fossem fazendeiros, comerciantes ou políticos. Uma fronteira caracterizada como excludente àqueles que não possuíam poder ou riqueza, surge em depoimentos orais que assinalam por primeira vez o protagonismo de personagens que iriam ser abordados nas pesquisas seguintes. Conforme veremos, as causas do confronto recaem ora para a irresponsabilidade da direção do partido, que teria instado o ato, mesmo sob o clima aberto de conflito com as forças policiais e econômicas da cidade, ora a uma cilada armada deliberadamente por setores ligados ao Frigorífico, composta por forças policiais e pistoleiros.

O ex-operário do Frigorífico Armour, Hugo Nequesauert, fez questão de absolver a direção do partido em Santana, afirmando ter presenciado o telefonema em que Lúcio Soares Neto é instado a levar à frente o ato político pela direção do comitê estadual do PCB, então na clandestinidade. 

Em 1950, quando aconteceu a chacina eu não estava mais no Armour. Já tinha sido botado para a rua, por causa da greve que fizemos.  Havian sindicalistas,  casi  todos, mas era el partido que estava determinando os acontecimentos. Era época de eleição,  se supo que la policía ia tomar  represálias, e se consultó a Porto Alegre e yo era uno, solo yo,  que estava com Lúcio quando recibió ordenes de que podian hacer pichamento legalmente, que estava todo determinado de que no ia passar nada. Entonces aí se resolvió hacer, se convoco a la gente toda e se fez, se começo a pichar, quando vê, somos surpreendidos pela polícia. E chegou atirando, insultando e atirando e matando. E matou quatro!  Havia 15 o 17  personas quando mucho, no havia más...Unos dirigian el trabajo e otros executavan el trabajo. Estavam completamente desprevenidos, a arma deles era o pincel e a cal. [3]

Embora Hugo reforce a ideia de que o grupo estava desprevenido, relata a existência de uma retaguarda armada, que ficou encarregada da segurança. O iminente enfrentamento com a polícia e as forças mais conservadoras da cidade é usualmente relegado a um plano secundário, talvez para abrandar a responsabilidade pelo confronto que poderia ser imputado aos líderes comunistas, especialmente a Lúcio Soares Neto, que dirigia o ato. De fato, entre militantes comunistas remanescentes, como Jorge Ferrão, há uma velada culpabilidade a direção do partido pela atitude extrema do ato em frente ao parque, pois já existiria uma advertência, do chefe de polícia, de que não seriam toleradas manifestações do grupo comunista a uma semana das eleições. Lúcio ficaria com a imagem desgastada perante uma parte dos militantes, como Ferrão, que levantaram a versão de que ele próprio teria buscado abrigo atrás de um dos militantes, morto pela polícia, conforme versão que correu especialmente quando do julgamento dos envolvidos na chacina. Posteriormente, como veremos, foi descartada essa hipótese, embora persistam ainda hoje nos relatos orais uma reprimenda a atitude do secretário do partido, que por muito pouco escapou de ser morto no combate. Uma versão recorrente em outras narrativas[4], culpabiliza o delegado Miguel Zacarias de promover o confronto devido ao fato de estar disputando uma mesma mulher com Lúcio, hipótese passional que se demonstraria inverossímil, ao tentar isentar, ao menos sob essa alegação, o líder comunista das consequências de promover o ato ou não perceber que jogava os militantes em um enfrentamento aberto e previamente anunciado. Pouco antes do confronto, a escassos metros do local, em solo uruguaio, o pecuarista e militante Perseverando Santana e seu tio, Sona Santana, acompanhavam os preparativos de um pirão de cola, que seria usado para afixar cartazes nos tapumes que protegiam a obra do edifício Palácio do Comércio, ponto comercial que estava sendo construído bem em frente ao parque. Estavam no restaurante Doña Maria, de propriedade de Ari Kulmann, que seria assassinado logo em seguida. Conforme depoimento de Perseverando Santana, o clima de enfrentamento era de conhecimento de todos. Talvez por isso tenha se posicionado contra o ato, muito embora vencido pela direção local.

(...) sentados em uma das mesas do restaurante Doña Maria, Persevarando, Sona e Ari Kulmann, que não estava escalado para a pixação, conversavam e aguardavam. Perseverando lembra que, em meio a um ambiente tenso, o companheiro Ari disse: "Tchê, vocês não tem um revólver? Sim, porque hoje vai se dar alguma coisa". Kullman decidiu então participar das pixações e “tomou” o pincel de Magalhães, que estava já preparado para o serviço. Na praça estavam escalados para dar segurança ao grupo os companheiros  Holmos, Lucio Soares Neto, Hugo Nequesauert, Doralino Trindade, Pedro Perez, Santos Rodrigues e Amaro Gusmão.[5]

Entre os militantes da linha de frente, dois candidatos às eleições que se avizinhavam encabeçavam o ato: o vereador Solon Pereira Neto, ex pessedista convertido à causa comunista, jornalista incendiário e par de Lúcio Soares Neto nas causas operárias defendidas na Câmara Municipal, candidato a deputado estadual pelo Partido Republicano; e Aladim Rosales, reconhecido líder dos trabalhadores do frigorífico, demitido na greve do ano anterior, candidato a deputado federal. A versão de Perseverando Santana remete ao local do crime, por voltas das 22h. Conforme ele, o primeiro a ser baleado pelos policiais, que teriam chegado insultando e provocando o conflito foi Ari Kulmann.  Hélio Santana Alves levou um tiro nas nádegas. Aristides Corrêa foi baleado no peito. Santos Rodrigues também baleado, nas pernas, sobreviveu. Abdias foi atingido na boca e caiu mortalmente ferido dentro do Café Tupinambá, tradicional cafeteria localizada no Largo, exatamente em frente à calçada onde se deu o conflito. Aladim Rosales também morreria no local, com um tiro à queima roupa. Ari Kulmann ainda seria levado ao hospital, mas não resistiria. Finalmente, entre o grupo comunista, Lúcio Soares Neto escaparia ferido por entre o Parque, buscando refúgio na casa de Francisco Cabeda, localizada a poucos metros do conflito, no “lado uruguaio” da linha divisória.

Perseverando Santana rememorou, 64 anos depois dos acontecimentos, o contexto em que se deu o crime, afastando o partido de alguma responsabilidade pelas ações de confronto aberto, mas reforçando nas entrelinhas a culpabilidade de setores mais conservadores da cidade, especialmente os ruralistas e a direção do frigorífico, que não aceitavam os desdobramentos da organização dos trabalhadores, especialmente após a greve do ano anterior.

O partido foi cassado em 1947, depois cassaram os representantes do partido em 1948, entraram na clandestinidade partidária, então se usava as legendas de outro partido. Partido Socialista, Partido Republicano, e quando se aproximavama as eleições para presidente da república e o governo do estado,  em 1950,  lançamos pelo Partido Republicano o Solon Pereira Neto. Mas anterior a isso, a greve de 1949 no Armour teve grande repercussão, e os dirigentes dessa greve foram presos e até o Exército os levou para o quartel, o que não podia, e depois soltaram. Daí formou-se um clima muito grande sobre a atuação do partido, e o Armour tinha um poder muito grande, econômico, onde 50% dos impostos da cidade eram do Armour. E houve uma reunião na casa do Lúcio Soares Neto, que era o secretário naquela época, e de lá do comitê estadual veio a ordem, pode pintar que é legal. E era legal mesmo, era o Partido Republicano...Mas a polícia sabia que era o partido....ora...e tinha algumas opiniões, tava o Mário (Santana), e outros, inclusive parece que o Heron (Canabarro) também, que achavam que era provocar a polícia, que havia perigo. [6]

Hugo Nequesauert narrou sua versão do conflito, desabonando o clima de enfrentamento aberto que existia como consenso entre os militantes momentos antes do embate. Preferiu enfatizar uma situação de emboscada e legítima defesa.

Nós estávamos tranquilos, os três num acento no Parque, eu estava no meio, o Lúcio no lado uruguaio, mas no Brasil, e o Amaro (Gusmão) no lado de Santana. Todos aí tranquilos, e numa dessas o Lucio me diz, que é isso? Mas que é isso, barbaridade! E eu não entendia, até que me olhei para os lado e me dei conta e vi aquele grupo tremendo de gente, todos armados, bancando o valente, alguns com o chapéu bem requintado, pra frente, dispostos a brigar. E insultando. Comiunistas filhos deste, comunistas filhos daquilo..de tudo que é maldade diziam. E eu digo, são eles! E o Lúcio me diz, mas eles quem? E digo, eles, a polícia hombre (risos). Aí ele entendeu, se levantou, puxou o revólver, e marchou pela calçada. Eu fiquei no mesmo lugar, mas na calçada, onde eles iam passar. E “ansim” foi. O Lúcio se pegou a tiro com um policia lá adiante. Eu não vi nada disso, absolutamente nada dessa parte. Mas chegou a minha. Porque seguiram invadindo. Chegou a minha. E eu já estou atirando na montoeira, tirando vantagem. E não importa em quem pegue, que pegue em qualquer um deles tá bem pegado. Mas se terminaram as balas rápido, eram seis balitas. E eu tinha mais no bolso, porque eu sempre usava mais. Carreguei. Mas quando eu tô carregando o revólver dô uma olhada não?, porque tem que estar olhando. E o Solon vem com um boletim do pichamento, insultando a um polícia. Chamando de facista, disso e de aquilo, de corrupto, de todo lo que cabe. E eu baixei a cabeça pra carregar de novo. Porque cambiei de idéia. Digo, vou atrás do Solon...vão matar. Bem essas foram as minhas palavras. Termino de carregar, e olho e o Solon tá caído. Derrubaram ele à bala. Então eu cambiei de rumbo, eu ia prum lado, e resolvi passar a rua e acudir o Solon, que tava morrendo ou baleado, pelo menos tava caído...e atravessei a rua no meio das bala, brigando. [7]

Perseverando reforça o caráter arbitrário da ação e a prisão ilegal de Solon. Prefere retirar a responsabilidade de Lúcio Soares Neto pelo ato. Tampouco faz uma autocrítica sobre o rumo de radicalização extrema pela qual passava o partido naquele momento. 

O Solon ali tava fazendo propaganda. Não tava armado. Se ele tivesse armado....  tava fazendo propaganda como candidato. E quando veio a polícia, que esparramou, ele com um maço de jornais disse, vocês não respeitam, fascistas... e tal, como ele era,  temperamental bárbaro, o Solon. Ali ele recebeu uma pancada na cabeça e caiu... e quando vinha o policial para dar um tiro, qualquer coisa, o Hugo Nequesauert me disse, deu o tiro e feriu na perna, o Caetano. Compreendeu? E levantaram, o Solon foi preso. E colocaram ele no presídio. Ele era vereador. Mas sem partido, porque ele aderiu ao partido comunista... que foi outro erro. Como o Santos disse, ele não tinha que sair do partido, o PSD, ele tinha que ficar lá dentro. Mas, naquele sectarismo.[8]

Hugo não relata o suposto tiro no soldado Caetano. A partir do momento em que narra o momento no qual acode Solon,  leva o depoimento para a ocasião em que estaria no Parque, em meio a uma possível fuga, quando se encontra com o advogado Mário Cunha.

Me paro aí perto do Solon, e olho para a esquina de lá, e por lá só pode vim ... bem pela linha, tem um parquezinho ali que é metade Brasil, metade Uruguai, na mesma rua. E apareceu aquele homem grande gritando, em manga de camisa...(imita grunhidos de gritos), aqueles grito fantástico...reconheci...e chegou e me viu. E eu tô me retirando, dale... que que ia fazer.  E me apontou. E aí eu reconheço que era o Mário Cunha, e digo, vai me atirar...e não demorou nada, chegou perto, mas perto não?, relativamente cinco ou seis metros. E me começou a atirar. Mas mal, atirava. Eu notava, ele me apontava...eu tô aí, ele apontava aqui. E me olhava e atirava como se fosse em mim. Errado todo. Então eu calmei. Esperei que tirasse seis tiro. Quando ele tirou seis tiro eu avancei nele. Teria duas três bala ao máximo, capaz que no tuviera. Avancei nele para dar bem de pertinho, porque já nem sabia bem quantas bala tenia. E nos juntamos como el grando lua (?)  (risos), e quando ele viu o revólver, pequeno, 31, quando ele viu ele fez isso... com os braços levantou e me deu as costas...e eu ia dá-lhe igual, que cosa....(risos) e se desesperou, gritou...e o negro Ventura me grita do auto, não mate o homem seu, não mate. E eu vi que era a voz de um companheiro, grande companheiro, e obedeci.[9]

Assim como nos momentos decisivos que deflagraram a greve de 1949 no frigorífico, o ano de 1950 e especialmente os meses que antecederam a chacina ficariam marcados pelo tom das críticas comunistas sobre a ação deletéria do imperialismo, com os frigoríficos estrangeiros estabelecendo verdadeiro terror sobre a economia nacional.  O aumento crescente do preço da carne e a escassez do produto no mercado nacional, ofertado de maneira precária e de má qualidade, denunciava o jornal Voz Operária, estaria diretamente atrelado à ação nefasta dos grandes frigoríficos, que penalizavam os pequenos produtores e destinavam o melhor da produção a um esforço de guerra norte-americano na Coréia e a outros países sob ditaduras.

 

*Este texto é uma versão reduzida e adaptada de parte de um capítulo da tese de doutorado defendida na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, intitulada “No portão da fábrica -  trabalho e militância política na fronteira (1945-1954)”.

*foto: Ruínas do Frigorífico Armour em Santana do Livramento

 



[1] Depoimento de Perseverando Santana concedido a Marlon Aseff em 22 de janeiro de 2012. Santana do Livramento.

[2] CHIPOLLINO ASEFF, Liane. Op.Cit. Pgs. 164-175.

[3] Hugo Nequesauert. Entrevista a Marlon Aseff em 23 de agosto de 2011, Santana do Livramento.

[4] VARGAS DE SOUSA. Oneider. As lutas operárias na fronteira: a chacina dos quatro “As” (Livramento – RS/1950). Dissertação de Mestrado. UFSM. 2014.

[5] ASEFF. Marlon. Retratos do exílio: experiências, solidariedade e militância política de esquerda na fronteira Livramento/Rivera (1964-1974). Dissertação de Mestrado. UFSC. 2008.Pg

[6] Perseverando Santana. Depoimento ao autor em Conversas com Perseverando, documentário, 2013.

[7] Hugo Nequesauert. Depoimento ao autor em Conversas com Perseverando, documentário, 2013.

[8] Perseverando Santana. Depoimento citado.

[9] Hugo Nequesauert. Depoimento citado.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020



A poesia palestina de  Mahmud Darwich e Mohamad El Hanini 




 

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

segunda-feira, 18 de março de 2019

A destruição total do perdedor

por André Lobão 


A visita oficial aos EUA do presidente do Brasil passa a sensação de capitulação e derrota ao Brasil. Perdemos uma guerra sem que tivessem ocorrido tiros, deslocamento de infantarias e bombardeios aéreos. Foi um exemplo prático da chamada Guerra Híbrida, uma tática que aplica política, mentiras e outros métodos de influência comunicacional em que se produz desconstrução de reputações, perseguições (lawfare) e intervenção eleitoral externa.
Em três anos o Brasil está sendo desmontado, privatizado, e, principalmente, humilhado. Para os conquistadores a práxis é humilhar os inimigos vencidos, seja pela destruição da estima deste povo com ações que vão desde a barbárie contra mulheres, talvez isso possa explicar o alto índice de feminicídios que ocorrem atualmente no Brasil; retirada de direitos trabalhistas e previdenciários; perda de nossas riquezas como o petróleo; a base aeroespacial de Alcântara/MA; destruição da cultura e educação e desmonte de tudo que o perdedor tenha deixado como legado.

Assim foi feito na Alemanha do pós-guerra, Iraque com a ocupação americana, Síria com grupos como o Estado Islâmico e na Palestina sob a implacável ditadura de Israel. Mas aqui tudo foi diferente, aconteceu e acontece em doses homeopáticas, de forma que seja absorvido e encarado pelo povo como “mudança” e na base da resiliência, com a mídia fazendo claramente isso. Em banquete com seus gurus políticos da extrema direita americana Bolsonaro disse que é preciso “desconstruir muitas coisas no Brasil para construir outras”. Essa é a exata e triste realidade que estamos no Brasil sendo submetidos. Pagamos o preço da derrota de uma guerra.

domingo, 5 de agosto de 2018

Antonio Apoitia, o militante imprescindível


A sessão plenária da Câmara de Vereadores do dia 9 de junho de 1969 ficaria marcada na história de Santana e especialmente do advogado Antônio Apoitia Neto como um acerto de contas com a ditadura militar. O Ato Institucional Nº 5 havia decretado o fechamento do Congresso Nacional e o recesso das assembleias legislativas estaduais e câmaras municipais, entre inúmeros outros gestos de arbítrio, como fim do habeas corpus e instauração de censura prévia nos meios de comunicação. Nesse ambiente de extrema tensão, Apoitia iria fazer ouvir sua voz pela última vez no parlamento municipal. Único vereador santanense cassado pelo ato ditatorial, o advogado criminalista, recentemente falecido, fazia parte de um conhecido grupo de combatentes políticos marcados pela resistência ao golpe. Segundo vereador mais votado para a legislatura 1969/1972, egresso das fileiras comunistas, assumia a vereança em uma bancada majoritária do MDB, que não poupava críticas ao recém-empossado interventor municipal, o general Antônio Moreira Borges.

Na sessão de posse do interventor santanense, Apoitia já tinha ousado quebrar o protocolo e tomar a palavra, afirmando com ênfase suas posições nacionalistas, que batiam de frente com as diretrizes da “revolução”.  Selando definitivamente sua sorte, pediu a palavra e falou diretamente ao interventor, investido pelos votos que recebera. “Continuo mais nacionalista do que antes, porque quero ver a pátria brasileira livre da espoliação dos grupos econômicos norte-americanos que espoliam não só a nossa Pátria mas a toda a América Latina, todo o terceiro mundo”.  Mais do que suas posições contrárias ao AI5, Antonio Apoitia já estava “marcado na paleta”, como diz o linguajar gaúcho, devido a sua conhecida militância no sindicato dos bancários de Porto Alegre e a intensa colaboração no trânsito de exilados pela fronteira, nos anos que se seguiram ao golpe.

"O Apoitia era conhecido como a voz das ruas, porque ficava dias escondido em um sótão que existia no sindicato, à salvo da repressão, convocando os companheiros por um sistema de alto-falantes colocado nas esquinas", lembra o companheiro de sindicato e ex-governador do Rio Grande do Sul, Olivio Dutra. Devido a militância, em novembro de 1964 foi sequestrado pelo Dops gaúcho e permaneceu encarcerado durante 30 dias na penitenciária estadual, sem saber se dali sairia vivo. Após o intenso período de tortura psicológica, vivendo em condições sub-humanas, foi libertado e voltou para fronteira, onde perfilou-se na ala dissidente do PCB, que buscava uma reação armada ao golpe. Com o aprofundamento da repressão passou a trabalhar nos bastidores, vivendo em Rivera, fazendo a vez de “pombo correio”, sempre que fosse preciso. Amaury Silva, Cláudio Braga, Leonel Brizola e o presidente deposto, João Goulart, faziam parte da rede de exilados auxiliados por Apoitia.  Eu tinha um amigo na policia de Rivera, e entrava no Uruguai com uma identidade falsa, onde eu tinha o nome de Antonio Almafuerte, que foi inspirado em um poeta argentino”, costumava lembrar. 

Atuando junto ao advogado uruguaio Adán Fajardo, Apoitia iria conviver intensamente com o colega e exilado político Tarso Genro, que recentemente lembrou do amigo como uma pessoa “imprescindível”  e “militante político de primeiro nível”.
Oriundo de uma família de raízes anarquistas e comunistas, Apoitia foi resgatado – aos dois anos de idade - de um incêndio, que consumiu a panificadora de seus pais, na atual esquina das ruas General Câmara e Hugolino Andrade. Herdeiro de uma tradição libertária, o advogado iria atravessar os anos de repressão com um prestígio intocado, coroado pela eleição a vice-prefeito na chapa do radialista Oriovaldo Greceller em novembro de 1985. Exemplo para toda uma nova geração de políticos da fronteira, Antonio Apoitia abdicou até mesmo da vida pessoal para dedicar-se a luta política e a solidariedade.

Texto e foto: Marlon Aseff

publicado originalmente na terceira edição de Almanaque Santanense

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Luana Mockffa: Confissões de um coração em transe


Luana Mockffa é cantora brasilis. Luana vive em Floripa. Luana é musa do dream pop. Luana transita em um país afogado na mediocridade dos homens de gravata. Luana acaba de lançar um single que está causando e prepara novidades. Luana bateu um papo com Jogos da Memória sobre seu processo criativo, seus singles, e de como é viver em um pedacinho de terra perdido no mar...  

Como é ser artista no nosso convívio ?
Minha família nunca me levou a sério, inclusive na música. Nunca foram nos meus shows, nunca deram bola para ouvir minhas músicas, os vídeos, nada. Mas desta vez eles pararam...acho que foi o vídeo do Vernizzi, e da música ser mais pop, eles levaram a sério... do tipo “uau, nem parece que foi você que fez”. E a partir disso meu pai tem me dado alguma sugestão de apoio no sentido financeiro...ou seja, toda uma logística que envolve uma certa grana, e tá sendo positivo isso.

Mas já tinha lançado o primeiro EP ?
Sim, mas o primeiro EP foi bem atrapalhado, eu tinha 24 pra 25 anos. Foi em 2013 que começamos a gravar e lançado em 2014. Tinha cinco faixas, sendo que em duas delas eu não fiquei satisfeita, mas vou relançar. Chamava-se Algia, que é um sufixo de dor....como fibromialgia.... A música já transitava pelo Dream Pop. Tem uma versão de Manhã de Carnaval, uma bossa nova do Luiz Bonfá, de 1953...por aí. Mas no EP não faz alusão alguma a bossa nova, é um arranjo de milonga, com uma distorção à la Bang Bang, da Nancy Sinatra. E isso dentro do meu mundo não precisa de significado, ou que referencie um rótulo para minha música...preciso é que se materialize. É uma música de sintetizadores, mas a guitarra é guitarra. Tem clarinete, no timbre, e funciona muito bem. Na época, eu tava numa pira de entoações tribais, de cantos meio xamânicos, então tem umas segundas vozes que lembram isso. Tem outra faixa que se chama Mount of Sugar, que eu me inspirei na obra Revolução dos Bixos. Na versão em inglês tem uma fábula que os bixos contam para os outros bixos, que tem um lugar que se chama mount of sugar. Lembro que eu relacionei a morte, mas uma boa morte...na época eu tava tão niilista que eu pensei, bom, esse lugar não existe...

O EP tem uma mensagem ou algo que o identifica com esse momento?
Tem algo central, que é o processo de dor que eu estava sentindo fisicamente enquanto eu fazia ele. Por isso que se chama algia. Eu ainda não sabia lidar com a quantidade de remédios, e fazer o meu timbre ficar... eu perdi o controle da minha voz, porque na época eu estava tentando me acostumar ainda a falar e ter reflexos de novo, são muitos remédios...

E o single Eu vou fugir pro Rio de Janeiro, como dá para definir, os beats ...
Beats são bases musicais onde tem tudo. Tem bateria, órgão, tudo o que você quiser pode ter num beat. Originalmente era só batida, mas os beats foram evoluindo tanto que as batidas foram ficando sofisticadas, os softwares foram ficando sofisticados, e hoje você consegue fazer uma música inteira a partir de um beat. Então, mesmo que tenha hip hop, rap, ali naquelas batidas, é um beat não feito para isso... porque eu misturo com elementos bem pops. Eu tava numa fase de ouvir muito rap nacional e muito pop nacional e internacional. Então misturou tudo. Por isso esse trabalho tem mais lucidez. No Algia eu tava muito dopada, e eu não tinha o controle das coisas, tudo foi feito meio que às xongas, assim (risos). Só que agora eu sei o que eu quero, eu sento do lado do Yraq, que é meu produtor, e falo o que eu penso. Somos co-compositores.
Quais foram suas influencias para esse trabalho que sucedeu o Algia?
De rap tem Menestral, Froid, Rincón Sapiencia, Criolo, Djonga.... é uma galera underground, que faz seu sucesso. Mas eu vou na vanguarda do pop também. Porque o que me cativa no pop é a produção. Quando entra o clap, em que parte faz a transição para o kick, como se trabalha os graves, médios  e agudos...Na verdade eu até desconstruo o pop, mas eu ouço um pop de bastante qualidade, como a Sia, Pharrell Williams, Drake, The Weekend, Beyoncé, esse tipo de pop. Então fazem parte de uma pesquisa que pode até não ter método algum, porque se trata de ouvir o que eu quero, e que naturalmente vira um híbrido. Ah, e o Tim Bernardes, que faz uma espécie de MPB de vanguarda, e Mac Demarco, que faz um som bem easy...tem o Devendra também, que é o gênio da mistureba.

Eu vou fugir pro Rio de Janeiro nasceu dessa mistura?
Sim, a música fala dessa cantora que quer fugir pro Rio, e prospecta seus sonhos e entoa um mantra, tipo vai dar certo! Totalmente autobiográfico, na primeira pessoa, sou eu mesmo. E desde que eu comecei a assistir Branca de Neve com a minha filha, a Maria Clara, eu me apaixonei por uma melodia do filme, da versão em português, que diz um dia, um dia eu serei feliz... mas a letra é super passiva, de uma mulher que fica esperando um homem, que depois beija ela, salva ela...Então eu uso só a primeira frase original, mas depois coloco minha letra como uma resposta para ela. Fiz uma releitura, uma versão em recorte, misturado com todo o resto... No começo eu queria colocar o início da música da Branca de Neve, e em paralelo eu tinha o refrão do vou fugir....aí o Yraq me mostrou um beat que já era próximo de como ficou o original. Comecei com Branca de Neve, mas toda vez que ia cantar eu saía do tom, aí eu resolvi fazer um teste, que era encaixar o refrão e ficou perfeito, no sentido de dois pedaços darem muito certo. Aí foi a produção do beat, onde o mérito é todo do Yraq.

O clipe também foi um ponto alto do trabalho.
O clipe é o seguinte, eu sempre tive vontade de trabalhar com o Felipe Vernizzi, que é um diretor e fotógrafo, pelo qual eu sou completamente apaixonada pela linguagem cinematográfica dele. E eu contactei ele, e mesmo com pouquíssimo orçamento, ele veio para Florianópolis. Ele já era amigo de outro produtor com o qual eu tenho um duo, chamado Artemisia Vulgaris, que é o Rodrigo Ramos. Eu já tinha o figurino do clipe, e aí mostrei a música para ele, que adorou. Aí ele ouviu também outra música, que se chama Sleep Well, que ele adorou e quis fazer clipe dessa música também, que devemos lançar nas próximas semanas. Esse clipe foi feito no pinheiral do Rio Vermelho, dentro de um opala, que é um carro atemporal.

No clipe de Vernizzi não há um lugar definido, tipo olha é Floripa! Isso é deliberado?
É qualquer lugar. Mas não é que não seja Floripa. Na verdade eu estou sentindo falta de uma cena em Floripa. Tá acontecendo uma cena muito forte de mulheres, e é por isso que eu estou sentindo falta da cena, porque existem as pessoas mas não existe espaço de sobrevivência através da música. Pessoas incríveis, como a Renata Swoboda, a Carol Voigt, uma mulherada.. os Skrotes são maravilhosos...aqui teve uma música praiana, de reggae, que eu acho que se foi, ficou um vácuo. Falta subsídio, galera tá dura de grana, nem para ir a show. O clássico agora é comprar cerveja no mercado para beber em casa. E há um boicote a cultura que foge do padrão “ilhéu”, infelizmente. Tem François Muleka, tem um monte gente, que eu acho que já tem seu prestígio. O que tá faltando é um espaço de renovação. É muito difícil a abertura da mídia daqui para coisas novas, pessoal prefere repetir a pauta com o mesmo artista do que dar um play e ouvir de verdade o que o artista novo enviou junto com o release. 


por Marlon Aseff