terça-feira, 1 de abril de 2014

O golpe de 1964 na Fronteira



Em Santana do Livramento, a eleição do petebista Sérgio Fuentes – o Índio Fuentes - para a prefeitura municipal significava uma ruptura no equilíbrio da política local. Embora não fosse novidade um prefeito petebista, Fuentes gozava de forte apoio popular e tinha ligação com setores progressistas do Governo Goulart, que poderiam desdobrar-se em ações ainda não mensuradas totalmente pela elite local, caso o governo federal levasse adiante os programas de reformas. Ex-combatente da mitológica “Divisão de Sant’Ana”, força revolucionária que se levantou contra a reeleição de Borges de Medeiros em 1923, herdeira dos ideais maragatos da revolução federalista, era contabilista e jornalista, diretor do prestigiado jornal Folha Popular.
Com o golpe já em andamento, nos primeiros momentos do dia 1º de abril, Sérgio Fuentes (foto) decide dispor a Prefeitura Municipal como sede da resistência. No saguão do prédio é instalado um transmissor de rádio, doado por militantes comunistas de Rivera. Para lá dirigem-se representantes sindicais, jornalistas, ativistas políticos e simpatizantes do governo deposto. A ocasião estava carregada de um simbolismo sombrio, pois na tarde de 31 de abril falecia o ex-prefeito e baluarte do trabalhismo santanense, João Souto Duarte. A Rádio Cultura sai do ar em homenagem ao filho ilustre, mas na mesma faixa de sinal passa a irradiar a rádio clandestina. Nas lembranças do jornalista Elmar Bones, a cena da primeira resistência surge em todas as suas cores,

(...) com o auxílio do partido comunista de Rivera, alguém conseguiu, não sei quem, veio a informação de que tinham conseguido um transmissor de rádio. E que era um transmissor que tinha uma potência que dava para colocar em cima da rádio local, e passar a fazer uma pregação, chamar a população para as ruas, porque ninguém sabia o que estava acontecendo, tinha um zum-zum-zum que já tinham dado um golpe, que o Jango já tinha sido derrubado, mas tinha uma boataria enorme dizendo que não, que o Jango estava no Rio Grande, que iria resistir e tal, aí nós fomos para a prefeitura, o pessoal veio, trouxeram esse técnico, trouxeram esse transmissor numa camioneta, entraram pelos fundos da prefeitura, que a prefeitura era do PTB, era do Sérgio Fuentes, e instalaram esse transmissor, e no saguão da prefeitura ficou um estúdio de rádio. E aí as pessoas se revezavam fazendo pronunciamentos. Então a gente botava a rádio no ar, em um horário assim, meio-dia, que é um horário que todo mundo tá ouvindo a rádio, botava em cima da rádio local, da Cultura, e metia discurso, convocando os estudantes...eu, o Ruschel, o Kenny falava, convocando os estudantes, convocando os jovens....aí vinha outro e convocava os camponeses. Chegou a durar um dia... até que no dia seguinte de manhã o exército descobriu. E lacrou tudo. Quando nós estávamos lá dentro o exército chegou e cercou a prefeitura com um aparato de guerra.
 
Em 1964, os jornalistas Elmar Bones e Kenny Braga eram estudantes e ensaiavam os primeiros passos na redação do jornal A Platéia, que lhes serviria de escola para a profissão que iriam abraçar com êxito dali em diante. Kenny lembra de personalidades afinadas ideológicamente com o grupo estudantil, que desenvolviam amplo diálogo político e literário, em tertúlias e reuniões informais. Uma delas era o então juiz de direito em Santana, José Paulo Bisol. O outro era o professor de literatura e escritor Alfredo Paiva. O pecuarista e membro do PCB local, Perseverando Santana também recorda da ativa participação do Bisol nos meios da esquerda local, onde freqüentava, em Rivera, a casa de Aquiles Santana, ativo membro do PCB santanense. No dia do golpe, estiveram reunidos mais uma vez, conforme recorda Perseverando,


“ Eu, em seguida imediato ao golpe fui pra a prefeitura, por recomendações do Bisol. Tínhamos um grupo de esquerda...e ele tava aqui na época, até foi impedido de embarcar no aeroporto..E teve lá na casa do Aquiles, até conversei com ele lá na casa do Aquiles, e ele aconselhou que viéssemos por precaução. Era juiz. E tinha contatos com o partido, um sujeito muito talentoso,  brilhante, fazia tertúlias literárias. E a prefeitura era do Sérgio Fuentes, um sujeito de muito valor. Era maragato, trabalhista. Mas um sujeito que não tinha restrições com esquerda, progressista.....uma coragem tremenda. Então nós fomos lá para a prefeitura, eu, o Chico Cabeda, tava esse Danilo Ucha, que pertencia a esse grupo que o Brizola meio influenciava, dirigia...E o Bisol tava na prefeitura. Ficamos conversando e tudo, e o Índio ali. Botou alto-falante, reunir o povo, resistir, essas coisas toda. Dali a um pouco, a gente sentiu que já não tinha mais resistência, e cada um tomou seu rumo. Tava todo mundo...tava o Marcos, o Aquiles, o Dalto, um paraguaio que tinha aí, médico...tanto é que ele nos aconselhou: - todos pra Rivera!”
Homem identificado com os ideais getulistas desde a revolução de 30, posteriormente ligados a vertente petebista, Sérgio Fuentes anotava suas convicções desde o primeiro editorial da Folha Popular, jornal por ele criado no alvorecer do Estado Novo, em dezembro de 1937: “terminada como está a luta política, por força da dissolvição dos partidos – áto altamente patriótico do Grande Presidente Dr. Getúlio Vargas – o nosso jornal se dedicará exclusivamente a noticiar os fatos importantes que se desenrolam diariamente na vida da comuna, do Estado e do Paiz”. 
Na edição do dia 3 de abril, junto com o anúncio do fim da resistência legalista, a Folha Popular registrava a reação das forças políticas municipais, sob o comando do prefeito Sérgio Fuentes:
Em Livramento -  S. Fuentes Campeão da Legalidade – Quando as primeiras horas da manhã de quarta-feira foi conhecida a notícia de que a forças rebeldes em Minas Gerais haviam iniciado um movimento subversivo visando depor o presidente constitucional, dr. João Goulart, o prefeito municipal jornalista Sérgio Fuentes compareceu ao palácio intendencial, onde após convocar seus assessores  instalou uma frente de resistência ao golpe. Imediatamente a prefeitura transformou-se no centro de todas as atenções da cidade, tendo a Rádio Cultura passado a transmitir diretamente de seu gabinete na Prefeitura Municipal, integrando-se na “cadeia da legalidade” liderada pelo valoroso e destemido deputado federal Leonel Brizola. A vigília cívica contou com o apoio integral da maioria da população santanense que independente de qualquer chamamento foi levar ao prefeito trabalhista o conforto moral na hora dramática em que os alicerces da democracia foram sacudidos pelo movimento golpista. Aproximadamente ao meio dia de ontem um contingente da Guarnição local compareceu a Prefeitura de onde requisitou os transmissores da Rádio Cultura, que saiu do ar. 
Da tribuna da Folha Popular, Sérgio Fuentes (foto) deu voz aos movimentos que se colocavam frontalmente contra o golpe no calor dos primeiros momentos. Ainda no dia 3 de abril, logo após os incidentes ocorridos na Prefeitura, o jornal insuflava a resistência, buscando apoios e listando manifestações contrárias ao levante, noticiando fatos como uma passeata dos estudantes uruguaios em favor do governo Goulart.
Estudantes Uruguaios Fizeram Passeata de Repúdio ao Golpe e Em Favor de JG
Montevidéu, 3 (FP) – Portando cartazes que taxavam os militares que depuseram o presidente João Goulart de “gorilas” e que diziam ainda reconhecer em João Goulart o presidente constitucional e legal de todos os brasileiros, uma grandiosa manifestação dos estudantes uruguaios foi realizada nas primeiras horas da noite de ontem, pelas principais ruas da capital uruguaia. A cidade que vive em clima agitado e de espectativa desde o momento em que foi anunciado que o presidente brasileiro João Goulart, se dirigia para Montevidéu, assistiu uma grandiosa manifestação estudantil que foi acompanhada de perto por forte dispositivo policial, que se limitou apenas a acompanhar o desenrolar pacífico da passeata. Durante toda a tarde de ontem e as primeiras horas de hoje o povo aguardou nas ruas a chegada do primeiro mandatário do Brasil, ao qual – caso se confirmasse sua vinda para território uruguaio – seria recebido ainda como chefe de Estado e lhe seria tributada uma recepção popular digna do prestígio que goza em todo o Uruguay. 

Em rápidas pinceladas, o repórter uruguaio descreve um prefeito envolto pelas pesadas circunstâncias da hora: El Prefecto Fuentes, un hombre de edad, enjuto y pequeño, decidido “legalista”, hablaba descorazonado: “Tudo não ha sido mais que un bluff”  O correspondente do jornal uruguaio El Pais estava com Sérgio Fuentes no dia 3 de abril na Estância Carpinteria, na localidade uruguaia de Vichadero, cerca de 200 quilômetros da fronteira, ainda no município de Rivera. Ali, levados pelo petebista, estavam um forte efetivo de policiais e repórteres de Santana e Montevidéu, a espera da provável chegada de João Goulart, em fuga das terras brasileiras. O bluff poderia ter sido obra do acaso, ou armado por Fuentes, soldado petebista e que muito improvavelmente acionaria a polícia uruguaia e as atenções dos golpistas para o encontro com Jango. Um despiste parece ter sido o episódio da Estância Carpinteria, muito embora não possa ser comprovado . Os jornalistas não escondiam a decepção, conforme anota a crônica do EL PAIS: “Doscientos kilómetros de intransitable camino y una espera de horas para localizar al doctor joão Goulart”.




quinta-feira, 27 de março de 2014

Um diretor latinoamericano



O cinema entrou na  vida do consagrado diretor argentino Gerardo Vallejo (1942-2007) de uma maneira inusitada. Aos 12 anos, um incêndio destruiu a casa onde vivia com os pais e dois irmãos, em Tucumán. De repente a família teve de procurar abrigo em um clube da cidade, vizinho a um cinema chamado Broadway, onde o menino passou a assistir quase 10 horas de filmes por dia, fazendo bico como como auxiliar de projecionista.
"Comecei a ser diretor graças a essa tragédia". Mais tarde, quando costumava viajar até Buenos Aires, atravessando o país a bordo do trem "Estrella del Norte", o futuro documentarista descobriu os trabalhadores "andorinhas", que se deslocavam pelo país atrás de emprego. "Percebi que aquelas pessoas, que efetivamente produziam a riqueza do país, não tinham voz política e muito menos no cinema argentino. O cinema argentino para mim era uma mentira, e a imagem da Argentina de então era só Buenos Aires".
Foi a partir dessas conclusões que em 1968 ele começou a filmar seu primeiro longa metragem, com uma câmeras Rolex a corda, chamado "El camino hacia la muerte del viejo Rosales", considerado hoje um dos maiores clássicos do cinema documental latino-americano. Em 1971 o filme quase foi queimado por um general censor, mas acabou salvo pelo diretor de um laboratório e enviado a Itália, onde foi finalmente concluído. Os contratempos do diretor com a repressão, no entanto, apenas começavam.
Em dezembro de 1974, um atentado a bomba por pouco não destrói sua família. A saída foi a fuga para o Panamá e posteriormente Espanha, onde desenvolveu ainda mais a técnica, condição que sempre julgou imprescindível a um cineasta.
"Existem três elementos que não podem falhar em um grande filme: a narrativa, o ideológico e a poética". Adepto das narrativas épicas e populares, Gerardo Vallejo defendia o domínio da linguagem e do fazer cinematográfico como algo adquirido na prática. "Um velho sábio dizia que nada de virtuoso se faz facilmente, e eu acrescento que uma coisa é fazer filmes, outra é fazer cinema". "É preciso saber usar a luz de uma maneira mágica, poética, temos que saber que o enquadramento é virtual, os detalhes podem contar mais, pois a realidade cinematográfica não tem nada a ver com o real”.
Sobre atores: “Nunca se deve repreender um ator na frente da equipe, e nunca ofender um não ator que eventualmente esteja se saindo mal em um documentário”. “Temos de lembrar que um filme deve ter uma estrutura com começo, meio e fim. Mesmo que se queira começar pelo fim".
Conheci Vallejo em uma dessas oficinas impagáveis que só o FAM – Florianópolis Audiovisual Mercosul, festival de cinema latino, ancorado em Floripa, nos proporciona. Lembro de sua frase de encerramento de um dia de trabalho: "Nunca  traiam seus ideais, todos somos poetas e artistas, só temos que descobrir isso em nós".    

Por Marlon Aseff.         

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Juscelino foi assassinado !


A Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, da cidade de São Paulo, vai divulgar nesta terça-feira,  10 de dezembro de 2013, um documento com evidências de que o ex-presidente brasileiro Juscelino Kubitschek (1956-1961) foi assassinado durante viagem de carro na rodovia Presidente Dutra, e não morto em um acidente, como registra a história oficial.
O relatório reúne 90 indícios, "evidências, provas, testemunhos, circunstâncias, contradições, controvérsias e questionamentos" que concluem que o ex-presidente foi alvo de um complô em 22 de agosto de 1976. Segundo a versão oficial, JK, que tentava articular a volta da democracia ao País, morreu em um acidente com um Opala na estrada.

"Não temos dúvida de que Juscelino Kubitschek foi vítima de conspiração, complô e atentado político", afirma o vereador Gilberto Natalini, presidente da Comissão Municipal da Verdade.
As circunstâncias da morte do presidente são investigadas pelo órgão municipal, que busca ajudar a Comissão Nacional da Verdade para esclarecer o caso. Em agosto, Serafim Melo Jardim, secretário particular do ex-presidente nos seus últimos nove anos de vida, afirmou à comissão ter certeza de que JK vinha sendo vigiado. "Eu acompanhei o presidente desde que voltou do exílio. Sempre que viajávamos ele dizia: 'Estão querendo me matar'."

Outro ponto levantado pela comissão na época foi a falta de radiografia no corpo do motorista Geraldo Ribeiro, apesar do fragmento metálico de sete milímetros em seu crânio, que seria um grave indício de arma de fogo. As fotos dos corpos teriam sido retiradas do processo a mando de Francisco Gil Castello Branco, ex-diretor do Departamento Técnico-Científico da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro à época.

O esforço de JK para o retorno democrático no Brasil nos anos 1970 era motivo de preocupação para os agentes da Operação Condor, aliança político-militar entre as ditaduras do Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai.
Em uma carta enviada no dia 28 de agosto de 1975 para o presidente João Baptista Figueiredo, o chefe do serviço de inteligência de Augusto Pinochet, coronel Manuel Contreras Sepulveda, se diz preocupado com a possível vitória de Jimmy Carter nos EUA e o apoio a políticos de oposição à ditadura na região, como o chileno Orlando Letelier e o próprio JK. Segundo ele, os líderes "poderiam influenciar seriamente a estabilidade do Cone Sul". No ano seguinte ao envio da correspondência, JK morria em agosto, e Letelier, em setembro.

publicado originalmente em Carta Capital

sábado, 27 de julho de 2013

Vinte Anos sem Valda


 
No dia 27 de julho de 1993, há exatos 20 anos, a arte catarinense perdia Valda Costa. A pintora dos morros, do folclore e de toda uma paisagem humana da Ilha de Santa Catarina partia cedo demais, aos 42 anos. Para assinalar a data que marca sua despedida, iniciamos uma série de exibições do filme Caminhos de Valda, junto a outras atividades culturais que irão reunir a obra da artista, hoje dispersa, e depoimentos de amigos, marchands e artistas, em um diálogo com as comunidades da Ilha e as novas gerações. Em breve iremos anunciar o calendário de atividades de “Vinte Anos sem Valda”.




 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Pela preservação dos lugares da memória fronteiriça.



O esplendor da Praça General Flores da Cunha poderia exemplificar o glamour dos espaços de lazer do Santana do Livramento nas primeiras décadas do século vinte. Revendo meus arquivos para entender melhor o “desfalecimento” do lugar, deparei-me com o vigor das lembranças de dois grandes personagens da cidade: o barbeiro centenário Humberto Bisso e seu octagenário colega Floriano Menendes. Túnel do tempo acionado em umas fitas K-7 (gravadas em 2001) e em imagens flashback que envolve minha mente ressurgem suas vozes fracas, melancólicas, em suas reminiscências: os templos da noite, a diversão no Areial, daquela Santana escura, que “tinha apenas duas ruas, mui diferente e divertida”. Seu Bisso recorda os companheiros que tinham de atravessar a linha, para tocar serenatas para as famílias riverenses, os comerciantes e também para o Chefe da polícia Ventura Pires, quando em Santana imperava a repressão nos anos das revoltas de 1923 e 1924 . Sua orquestra era vanguarda, binacional, composta por barbeiros, alfaiates, guarda livros, estafetas e talabarteiros. Alguém ainda lembra desses ofícios? Alguém lembra o quanto era formosa a Praça Flores da Cunha, ou Pracinha dos Cachorros?

Quem recorda dos bancos de granito rosa, do moderno e vibrante calçamento petit pavê, dos lambe-lambes presentes em nossa infância no Parque Internacional? Sabemos que a construção da memória passa pela ação das forças sociais em constante luta pelo controle e exercício de poder, mas especialmente pela determinação do que se quer passar a posteridade. Creio que o momento é pertinente para tratarmos da ação da memória, quando na fronteira andamos em uma época de infertilidade no trato do patrimônio cultural. Porque temos que pensar em memória? Em que medida as memórias dessas experiências vividas, de sua construção como cidadãos, como profissionais, podem contribuir para que a comunidade passe a conhecer e respeitar seu patrimônio histórico? Pois bem, sabemos que só respeitamos o que conhecemos! Será que conhecemos a riqueza da história cultural de nossa cidade ou da fronteira? Ao longo de nossa existência tentamos rememorar e recontar a memória e os lugares do encontro fronteiriço aos nossos filhos, amigos e netos, como nossos avós, e pais o fizeram? Temos uma grande responsabilidade na preservação da memória social, precisamos nos responsabilizar e seguir o caminho do coração, sob pena de perdermos nossas referências culturais, e o pior, não termos herança a passar aos nossos descendentes. Essa advertência foi constante em minhas conversas com Bisso, Floriano, Elda Cortez e Sinhá Borba, entre outros memorialistas da cidade, que hoje não estão entre nós. “Quem irá contar que fomos grandes, que Santana teve vigor?” indagou certa vez, um deles. Calei, ouvindo muito do que eles tinham a relatar, porque naquele momento não saberia contrapor essa questão. Tentei dar uma luz ao que os memorialistas contaram, escrevendo minha pesquisa que abordava a memória oral e os lugares de lazer na fronteira. Não sei se consegui responder a eles, porém consegui registrar suas memórias para as novas gerações.

Vejo que existe uma ruptura na passagem dessa memória, seja oral ou mesmo  documental, em nossa fronteira. Prova disso é o distanciamento que nossa sociedade demonstra de temas tão atuais como a preservação do que restou do nosso patrimônio histórico, hoje ameaçado pela especulação imobiliária e falta de conservação. Se costumávamos escutar as histórias de nossos antepassados, será que contamos alguma história para esta nova geração? Por isso li com prazer o que o escritor Luciano Machado escreveu a um colunista deste jornal sobre a importância da Praça Flores da Cunha na memória da fronteira. Temos que ter o encantamento de rememorar, mas também ações para preservar os espaços da memória.

Pensar a preservação da memória de nosso patrimônio histórico e afetivo, em um tempo em que tudo deve ser novo, moderno, hiper-moderno, pós-moderno é um desafio que a comunidade e o poder público devem tomar para si.  Se os fenômenos da globalização nos conectam com o mundo todo, também nos impulsionam em direção contrária, negando muitas vezes essa representação do passado e sua força revitalizadora. Se pensarmos que a palavra patrimônio tem origem latina, derivada de pater, que significa pai, encontraremos o sentido de herança, legado, isto é, aquilo que o pai deixa para os filhos. Assim, patrimônio é o conjunto de bens produzidos por outras gerações, ou seja, os bens resultantes da experiência coletiva, que estão vivos e recentes em nosso cotidiano. E para preservá-lo precisamos de ações coletivas e individuais, pragmáticas, que contemplem também “exercícios” da memória, entre nossos familiares, vizinhos, amigos e comunidade.

O filósofo alemão Walter Benjamin, ao trabalhar com a memória como rememoração, destacou a importância da narrativa e do distanciamento como premissa para se entender a essência da função do narrador, em crise já nos anos 30. Cada momento, ensina, é importante para algum sujeito, portanto, nada é insignificante ou perdido para a história.  Sendo assim, será que observamos o som ao redor? Quem são nossos narradores? Temos milhares, basta buscá-los e, acima de tudo, registrá-los, mapeá-los e respeitá-los. Suas lembranças são nossa maior herança, em uma sociedade que a cada dia perde um significado, desfigurando-se, com a velocidade da informação. Como afirmou o poeta libanês Khalil Gibran, “as distâncias não existem para a recordação; e somente o esquecimento é um abismo que nem a voz nem o olho podem atravessar.”
 
texto: Liane Chipollino Aseff
fotos: Marlon Aseff, Lucianne Hamilton.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Pelo fim do exilio


            Há um sentimento que me liga a Livramento: um sentimento de exílio. Amo essa cidade, o cheiro desses campos me faz bem, a água é boa, nada como tomar chimarrão embaixo de um cinamomo em qualquer lugar daí. Essa linha de fronteira é mágica, há misturas de sotaques e costumes. Foi nessa linha que Aparicio Saravia caiu em combate e embaixo de um guapuruvu centenário que fica na praça em frente à prefeitura Hernandez concluiu o Martin Fierro. Há uma cidade com memória, com história, com passado, mas parece que quase só isso sobrevive hoje: memória e passado. A cidade do já teve, exilada para sempre de uma glória perdida.
            Pouca coisa vinga em Livramento, tirando um comércio sobrevivente e o melancólico papel de ser apenas corredor de passagem ou dormitório para a onda consumista que leva gente aos free-shops. O maior empregador do município  é a prefeitura, o que já é por si só uma distorção: poder público é para atender o cidadão, não um cabide de empregos. O jogo político da cidade, assim, vira um toma lá da cá de baixo clero, onde em geral gabinete de vereador vira uma central de favores a seus eleitores e apaniguados. Enfim, a cidade navega na tábua rasa da política de resultados paroquiais. A pequena política que apequena a cidade.
            Faço essas observações de longe porque sou um santanense exilado, como tantos da minha geração. A falta de  perspectiva dessa cidade expulsa pessoas para tentar a vida em outros lugares. É grande a diáspora de santanenses por esse Rio Grande e Brasil afora. Jamais conheci algum que não declare um grande amor pela cidade, sob o amargo sabor de, de certa forma, ter sido rejeitado por ela. Porque, parece, Livramento não espera construir-se pela igualdade de oportunidades, pelo esforço coletivo, pela força de novas idéias criativas. Livramento espera um salvador e um favor de quem quer que seja para patrocinar a cidade como um mecenas. Talvez isso explique a dificuldade de processos de construção coletiva. Em Livramento, as pessoas não olham para o lado. Olham pra baixo.
            Na mentalidade do já teve, há uma quixotesca nostalgia de um frigorífico e um lanifício que eram os grandes pais da cidade. Até hoje ouço pessoas medirem se governos estaduais são bons ou ruins na medida em que “trazem alguma coisa pra Livramento”. Ou seja, a cidade espera presente de um pai sempre – seja uma empresa, seja um governo. Falta entender que a gente só amadurece quando anda com as próprias pernas, quando se emancipa do pai, quando constrói a própria história.
            Um novo ciclo histórico se inicia agora na prefeitura de Livramento. Como identidade principal dessa nova administração, a insígnia de ser um governo municipal alinhado com um Governo Federal que mudou a cara do Brasil: o país que olhava pra baixo agora olha pra frente. Esse desvio do olhar, essa mudança de mentalidade, esse resgate da auto-estima, talvez sejam o ponto inicial para Livramento mudar. E se o sentimento de exílio, para muitos que se foram daí, é uma marca pessoal, penso que ele se estende também coletivamente para uma cidade que parece exilada de si mesma. Ou seja, da possibilidade de construir o presente, da  indiferença do que pode melhorar no futuro.
            Semana passada, na sua coluna no jornal uruguaio Brecha, Eric Nepomuceno analisou os dez anos dos governos do PT  no Brasil. E entre acertos e contradições, concluiu que numa coisa esses governos avançaram: deram à maioria da população o direito de ser cidadão em seu próprio país. Transportando para o campo pessoal, posso dizer que me sinto um cidadão neste país, mas isso seria difícil de acontecer se vivesse na minha cidade.
            Porque queria estar em algum projeto construindo coisas ao lado de outras pessoas. Porque não há mágica ou salvador da pátria ou da cidade. Dois verbos movem a vida: trabalha e confia. Difícil trabalhar onde não há perspectiva, difícil confiar quando o interesse público é um favor que se troca na esquina ou no armazém. Livramento precisa pensar grande. No campo da política, saltar da lógica dos favores e acertos para a elaboração de projetos e renovação da matriz produtiva, aproveitando os recursos disponíveis a nível federal. Há um governo que pede projetos. Há um país que pede campo para crescer. É isso que pode incluir a cidade num outro caminho, abrindo cancha para uma mentalidade generosa. E enfim Livramento se reconcilie consigo mesma. Uma cidade acolhedora, sem exílios, sem exilados. Uma cidade altiva, olhos à frente, em paz com uma bela história que ainda pode construir.


Renato Dalto
Jornalista, escritor, roteirista de TV e cinema