domingo, 31 de maio de 2015

1964: Romeu Figueiredo de Mello e a resistência possível


A casa situada à rua Dr. Anollés 470, em Rivera, a menos de 300 metros do Parque Internacional, pertencia à família de Romeu Figueiredo de Mello. Ali viviam sua esposa, a sogra, e dois filhos, Pedro Antônio e Amilcar. Por seu envolvimento com o grupo brizolista de Santana do Livramento e suas claras posições antiimperialistas, que ideologizavam as conversas políticas de então, Romeu foi identificado como potencial subversivo e colocado na lista negra dos que não podiam regressar a Santana do Livramento.

Com 43 anos incompletos em abril de 1964, Romeu se estabeleceria definitivamente naquela casa, pertencente a sua sogra, e dali só regressaria ao Brasil morto, vitimado por um ataque cardíaco, menos de quatro anos depois. Pedro Antônio, o filho mais velho do casal, tinha apenas oito anos quando o movimento militar aconteceu do outro lado da linha divisória, mas em suas lembranças ficaram as marcas do autoritarismo e dos pesados dias que passou a viver desde então.

Isso para mim foi um transtorno tremendo. Isso desestruturou completamente a família. Tive um pai sem poder exercer a vida profissional como a gente esperava que fosse. E acuado, quase que acuado né? [...] ficamos sem grana. E no pátio da nossa casa em Rivera, a gente fez um pequeno aviário, e daí que nós ganhávamos o dinheiro. Nós vivíamos do abate dos frangos, dos pollos como se diz na minha terra. E quando o pai vivo ainda, porque depois que o pai morreu nem grana para comer a gente tinha. Os vizinhos nos ajudavam. Ele faleceu no dia 24 de maio de 1967. Infarto do miocárdio. [i]

Até o momento anterior ao estabelecimento do golpe militar, Romeu Figueiredo de Mello exercia uma bem sucedida atividade econômica, dividida entre um escritório de importação e exportação, que mantinha no Palácio do Comércio, um centro comercial situado em frente ao Parque Internacional, a administração de três unidades de processamento de café, em Livramento, Rivera e Montevidéu, e os proveitos de uma propriedade rural. Filho de uma família de médios proprietários de terra, na região da Coxilha Negra, na linha de fronteira com o Uruguai, Romeu vivia como um típico cidadão santanense de classe média. Nas lembranças de Pedro Antônio, o pai era uma pessoa identificada com a região, filho de uma brasileira e um uruguaio de Tacuarembó, que cresceu nos anos dourados da cidade, quando os cabarés e a vida boêmia conferia um ar de metrópole àquela distante região da campanha. Nascido em 21 de junho de 1921, Romeu viveu o apogeu dos cinemas e das reuniões literárias na fronteira, gosto que passou aos filhos sempre que pôde.

Meu pai teve a infância no cinema Colombo, e os filmes eram no cinema Colombo, e no Astral, ele ia muito no cinema Colombo e tinha uma formação cultural muito grande de cinema. Ele era um cinéfilo. E a formação literária dele foi influência da tia dele, Joaquina, irmã da minha vó, que tinha todos os livros. Tinha Camões, uma biblioteca muito farta. E ele leu quase todos os livros daquele tempo, e a gente herdou essa questão da literatura. Então, era uma pessoa que lia muito, que ia ao cinema. Tanto é que ele me dizia que o cinema era uma janela pro mundo. “Meu filho, tu tens que ir ao cinema, porque o cinema é uma janela para o mundo”, ele me dizia. Era muito culto, falava inglês, e lia muito.  [ii]

A política só entraria na vida do boêmio depois da segunda guerra mundial, quando se alistou como voluntário na FEB, e viveria dias decisivos em sua formação, na Itália conflagrada. Quando acabou a guerra, retornou com simpatias ao Partido Comunista Brasileiro e com sérias reservas a posição norte-americana no mundo a partir de então. As posições nacionalistas o fariam defender o Governo Jango e alinhar-se com as idéias de Leonel Brizola, que viriam a marcá-lo na pequena comunidade fronteiriça.

[...] foi a grande tomada de consciência me parece, por que até então era um gurizão que foi pra guerra, e volta mais maduro não tem dúvida, e aí começa a fase de militância política digamos assim, porque depois de uma guerra a pessoa volta adulta. Nos 25, 26 anos. Ele foi para a guerra com 24. [...] Ele não se dizia comunista, ele se dizia nacionalista. A princípio ele era uma pessoa, eu nunca vi ele ir a um partido político, militar e tal. A princípio ele era um homem de esquerda e nacionalista. [iii]

Perseverando Santana relembra do amigo Romeu como uma figura “maravilhosa”, que gostava da boemia e que desde cedo se mostrou mais afeito às posições revolucionárias do que a estratégia proposta pelo PCB. Depois da guerra esteve na sede do partido em Santana, falando aos companheiros sobre a realidade que encontrou na Europa, do encontro em Paris com o secretário do PC francês, Maurice Thorez. Já na campanha de Índio Fuentes para a prefeitura municipal, discordou do discurso proferido por Perseverando na Rádio Cultura, de franco apoio ao candidato petebista. Já possuia fortes convicções que a via democrática não iria se sustentar no país, e que o melhor seria o enfrentamento. 
A identificação aberta com um nacionalismo de esquerda levaria Romeu Figueiredo de Mello definitivamente para Rivera, perseguido abertamente pelo setor militar, que nem ao menos o deixava voltar aos campos da família, em plena linha divisória. O escritório teve de ser fechado e a sociedade que mantinha nos negócios de café sucumbiu. De um momento a outro, a família se viu prisioneira de um sistema político que reduziu as ambições do pai à sobrevivência do dia-a-dia. Pedro relembra do momento em que o golpe militar chegou na roda das conversas familiares.

Nós já estávamos em Rivera. Eu lembro que era um alvoroço tremendo dentro de casa. Eu tinha oito anos. Mas eu lembro que era um alvoroço tremendo, não tem como esquecer aquilo.  Eu me lembro que meu pai chamava os gorilas, os gorilas, os gorilas... e ele não pôde entrar mais em Livramento. Aí nós ficamos ilhados em Rivera. Nós já morávamos em Rivera e não pudemos sair mais de Rivera. Ele tinha as fábricas de café em Montevidéu, em Rivera e Livramento, mas acabou tendo problemas com os sócios e acabou perdendo, quebrando. [iv]

Na casa de Romeu aportariam muitos dos refugiados de primeira hora, que tiveram de deixar o país sob pena de prisão imediata. Nas lembranças de criança de Pedro Antônio, a casa paterna surge como o local de solidariedade extrema, ofertada aos viajantes que procuravam abrigo naqueles primeiros dias do golpe militar.
Pouco menos de um ano depois, por ali passariam o coronel Jefferson Cardim, Albery Vieira dos Santos e o comerciante de São Sepé, Alcyndor Aires, que deflagrariam a chamada “Guerrilha de Três Passos”, o levante frustrado que marcaria a única tentativa concreta do grupo exilado em Montevidéu de desestabilizar a ditadura instalada.

[...] como nós já morávamos lá, digamos que nós fôssemos os melhores estruturados, logo que se deu a revolução. Já tinha a casa da minha mãe, já tinha uma bela duma casa que a gente tinha ali. E por ser essa casa muita bem estruturada, serviu como porta de entrada para muita gente no Uruguai, para o exílio uruguaio. Muitas pessoas passavam por ali, eu digo que quase todas as pessoas passavam por ali. De uma maneira ou de outra meu pai interferia, ou era consultado, como melhor colocá-las dentro do Uruguai. O meu pai era a pessoa que recebia no Brasil e colocava dentro do Uruguai. (...) era insólito. Não tinha hora, chegavam de manhã, de tarde, de madrugada. Umas figuras diferentes, homens quase todos, e ficavam conversando na sala, era um mistério. E a gente queria ficar participando das conversas e acabava participando no final. Muitas pessoas dormiram no meu quarto. Eu me lembro do sargento Alberi dormindo no meu quarto, o Jefferson Osório...Doutor Benvenuto, o Oscar Fontoura Chaves, o professor Chaves - que é outro, seu Valdemar, e muitas pessoas que eu nem lembro mais o nome.[v]

                   No restrito mundo dos exilados em Rivera, as relações entre os grupos eram inevitáveis, muito  embora houvesse simpatias bem definidas pelas posições de Jango ou Brizola. É nesse ponto que entra na conexão da casa dos Mello o policial civil Oscar Fontoura Chaves, ambos ligados por uma amizade em comum com Jefferson Osório e o grupo de Três Passos. Depois de deixar a casa dos Mello em Rivera, na manhã do dia 20 de março de 1965, o grupo insurgente vindo de Montevidéu, comandado por Jefferson Cardim Osório dirigiu-se a São Sepé, aonde iria contactar Oscar Fontoura Chaves para uma adesão à causa.
Colaborador do governo Jango, o qual esteve servindo pouco antes do golpe em Brasília, Oscar Chaves absteve-se em participar diretamente do plano de Cardim e Alberi, mas seu encontro com os rebeldes seria marcado pela repressão. Nas lembranças de América Ineu Xavier, viúva do policial, a visita do grupo na tentativa de arregimentar seu marido para a guerrilha foi definitiva para a sua prisão, poucos dias depois:

[...] aí veio aquela coisa que houve lá, uma guerrilha. Em Santa Catarina né? ou lá na divisa com o Paraguai...Aí houve a formação de uma guerrilha, do Coronel Jeferson...uma coisa louca, e o cara esse, da guerrilha, segundo...ele teria passado lá e teria convidado ele pra ir e ele se recusou. Disse que não , que era uma coisa que não era organizada, tal e coisa e que ele não iria. Segundo né? Eu não sei, é o que contam. Aí esse cara foi preso, foram diversos, um tal de Alberi, foram diversos presos...e aí nos depoimentos eles teriam dito que teriam convidado ele. Tá, eles prenderam ele porque disseram que ele devia denunciar. Aí ele foi preso de novo, aí em São Gabriel.Ele foi preso em São Sepé e levaram ele para São Gabriel, que tinha quartel. Ele ficou lá abril, maio, junho, julho e agosto. E em agosto ele fugiu. E nem eu bem sei, foi um horror aquilo![vi]

Naquele momento, Montevidéu já contava com mais de dois mil exilados brasileiros e a cada dia passavam pela fronteira novos clandestinos. A repressão que a ação mal-sucedida de Três Passos desencadeou em todo o Estado iria redirecionar os destinos de muitas famílias para o caminho da fronteira. Oscar Fontoura Chaves foi preso e levado ao 9º Regimento de Cavalaria de São Gabriel, para interrogatório. O advogado Índio Vargas, natural de São Sepé, engajado posteriormente no movimento de insurreição, lembra que a população local já não suportava o trauma causado por constantes interrogatórios a que era submetida por militares oriundos de São Gabriel, Bagé e Santa Maria.[vii] Oscar Fontoura Chaves também experimentou a prisão e o interrogatório nos primeiros dias do golpe, porém logo foi liberado.

Desta segunda vez, no entanto, seria severamente torturado como cúmplice de Jefferson Cardim Osório. Menos de cinco meses depois, Oscar Chaves conseguiu cerrar
as grades da cela em que o mantinham no quartel e empreendeu assim uma fuga escondendo-se de dia nos matagais da região e deslocando-se à noite. Conhecedor da região, onde atuava no combate ao contrabando de gado, ao lado do delegado Acílio Pereira da Cruz, que mais tarde seria o chefe da 12ª região policial em Santana do Livramento, conseguiu driblar as forças do exército. Auxiliado por camponeses, Oscar chegou a Rivera, no final de 1965, onde pediu asilo político na Chefatura de Polícia. Antes, porém foi recebido na casa de Romeu Figueiredo de Mello. Pedro Antônio recorda do estado crítico que o policial chegou em sua casa, vomitando e urinando sangue, devido às torturas a que foi submetido. Para dormir, Oscar Chaves tinha de ser hipnotizado pelo doutor Adalberto Benvenutto, médico de São Borja, exilado na fronteira com a família desde os primeiros momentos do golpe, e que prestava serviços de toda ordem, desde que envolvesse a saúde da comunidade de refugiados.
Pelos olhos de uma criança, curiosos com os acontecimentos que a cada dia movimentavam o ambiente doméstico, ficaram marcadas as lembranças de solidariedade da família e as condições de extrema penúria com que chegavam os fugitivos da nova ordem, como a família Penalvo, que depois viria a administrar a fazenda de João Goulart, em Tacuarembó.

Eu lembro da chegada do doutor Oscar. Lembro mesmo, ele era um cara forte, grande. Bem, eu era uma criança de 11 anos, mas ele parecia um gigante. Era um homem encorpado, já grisalho[...]Eu lembro que chegou muito nervoso, não conseguia dormir, e expelia sangue pelas feses, pela urina...Lembro como se fosse hoje também, a minha vó cedeu o quarto dela e o doutor Oscar dormia ali. Era o único digamos que não dormiu no quarto meu e do meu irmão, que dormiu fora. Tinha o quarto meu e do meu irmão, e uma terceira cama, por onde passavam as figuras. Normalmente tinha uma cama "de varde" como se diz na minha terra e normalmente tinha um dormindo na cama. E aquele quarto da minha vó foi cedido...e era pro doutor Oscar poder dormir...eu me lembro do doutor Benvenutto hipnotizando ele, para poder dormir....E devagarinho ele foi revelando como é que foi a fuga dele. E eu me lembro que ele revelou que foi a esposa dele que alcançou uma lima dentro de um pão, ou algo assim. E com essa lima ele conseguiu fugir da cadeia. É, isso eu lembro. E passou alguns dias lá em casa e depois foi para uma pensão. Lembro também da chegada do Perci Penalvo e da Celeste, Dona Celeste. Com uma filha no colo, um frio danado, não tinha nem cobertor, eu me lembro que a minha mãe foi lá e deu um cobertor pra ele, e eles ficaram um dia ou dois e depois foram embora. [viii]
    
A rotina de abrigo aos recém chegados consistia em proporcionar um descanso por dois ou três dias, com comida, banho, e a convivência da família, até uma gradual readaptação a nova situação. Muitos seguiam viagem para Montevidéu, depois de
assegurados passes especiais. Os que ficavam na fronteira eram encaminhados para uma pensão, próxima ao Colégio das Freiras, nos arredores das ruas Ituizangó, Figueroa e Faustino Carâmbula. Nessa pensão estava hospedado Oscar Fontoura Chaves, poucas semanas depois de ter chegado à fronteira, tratando de reintegrar-se a nova situação. É então seqüestrado por uma força policial uruguaia, que o leva para Tranqueras e logo após para a cidade fronteiriça de Artigas, com o propósito de o devolverem às forças militares brasileiras, que reclamava pelo fugitivo instalado em Rivera.
 Oscar Chaves não seria devolvido à ditadura brasileira graças à intervenção do advogado Adán René Fajardo, uma figura humanista e defensor dos exilados, filiado a lista 99, do Partido Colorado, e que teve ampla atuação em casos semelhantes durante os anos da ditadura brasileira e, depois, na confluência de ambas as ditaduras, a partir de 1973.[ix] No ambiente tenso do exílio, “desgastante e verdadeiro devorador de homens”, nas palavras de Paulo Schilling, Pedro Antônio recorda das inúmeras discussões em que seu pai e seus companheiros mantinham, onde não faltavam elementos de traição e de ressentimento com a liderança de Jango e Brizola, que viviam sob uma condição monetária estável, enquanto muitos correligionários e suas famílias passavam enormes dificuldades para sobreviver no escasso mercado de fronteira, em particular de Rivera, com menos de 50 mil habitantes e uma economia atrelada ao setor de serviços e governamental.

Na difícil sobrevivência do exilio, as mágoas permeavam os distintos grupos afetados pelo golpe. “Eu lembro de muitas conversas de traição, eu lembro que se falava muito em traição. Quem traiu o quê eu não sei, mas lembro que se falava muito em traição. Alguém dedurou, alguém falou. Quem foi? Eu lembro que era a grande incógnita, quem traiu quem”.[x] Uma grande parcela dessas discussões referia-se ao destino dos recursos que Brizola, Jango e Darcy Ribeiro teriam recebido de Cuba, um total de um milhão de dólares, enviados em duas vezes, destinados a prover a insurreição e amainar as dificuldades por que passavam os exilados. Como o dinheiro nunca chegou ao grupo da fronteira, se acenderam os ressentimentos. José Wilson da Silva descreve a vida dos exilados em Montevidéu como uma sucessão de dificuldades, parte devido ao paternalismo das lideranças, que “davam o pão, mas não ensinavam a plantar o trigo”, e parte devido à falta de iniciativas dos próprios refugiados, que muitas vezes não demonstravam aptidão para mudar de vida, esperando das lideranças a eterna ajuda. Em 1966, o ponto central da discórdia entre o grupo ligado a Romeu Figueiredo de Mello, em Rivera, girava em torno do mau uso dos dólares supostamente enviados por Fidel Castro. José Wilson vivia em Montevidéu e dá a sua versão para a controvertida questão:

Que eu saiba, o primeiro contato feito com Cuba foi através do deputado uruguaio Ariel Collazo, levando nossa disposição de uma retomada da democracia no Brasil.(...) Fidel enviou, a título de ajuda, quinhentos mil dólares. Desta importância, segundo um relatório de Brizola para nós, um terço teria ficado com Jango, pois a este estavam ligados vários exilados necessitados. Outro terço teria ficado com Darcy Ribeiro, por questões de segurança e que também tinha parte de responsabilidade. O outro terço teria ficado com Brizola. Lembro-me que ele, Brizola, ficou muito aborrecido porque as ações mais positivas estavam sendo feitas pela nossa gente e ficamos desse modo com relativamente pouco dinheiro. Parte dessa importância foi gasta com elementos no exílio, parte com a assistência a companheiros no Brasil em situações críticas, como presos com a família sem recursos, etc., e parte com os nossos homens-correios para a implantação já de esquemas de trabalho, aliás, tudo em função de um plano de ação armada. Dado o número de pessoas em dificuldades pela desarticulação da sociedade, em especial gente humilde, que eram as bases trabalhistas ou de esquerda, isto não era mais do que uma gota d’água num oceano de necessidades. [xi]        

A falta de apoio financeiro de Jango ou do grupo brizolista, em Montevidéu, afetava a todos os que estavam ancorados em Rivera. Ali viviam companheiros que exerciam importantes funções de pombo-correio, ou de passagem de companheiros de um lado a outro da fronteira. Por isso a falta de uma assistência centralizada gerava notórios ressentimentos. Mas entre o grupo que gravitava em torno de Romeu Figueiredo de Mello, um detalhe deixou a questão muito mais explosiva. Parte do dinheiro, destinado a João Goulart, teria passado pela casa de Romeu, transportado por ninguém menos que o braço armado de Fidel na América Latina, Ernesto Che Guevara! Hoje seria quase impossível provar essa hipótese sem o cruzamento de relatos orais, que não foram obtidos por esta pesquisa, salvo um: o depoimento da viúva de Romeu Figueiredo de Mello a seu filho.

Minha mãe lembra que teve um contato com o Che nas escadarias de minha casa, acompanhado de mais dois homens vestidos de religiosos franciscanos. Eles estariam indo a fazenda de Jango, em Tacuarembó, por entre os corredores de campo, que eram seguros e impossíveis da polícia detectar. Traziam o dinheiro, segundo meu pai disse. E passou pela minha casa.  Minha mãe se recorda de ter visto ele, de relance, ele sorriu para ela. Eu me lembro do meu pai dizendo que eles estavam em um corredor, não sei onde, os franciscanos esses, y la plata. [xii]

Por mais fantasiosa que a versão possa parecer em um primeiro olhar, dados biográficos de Guevara colhidos pelo jornalista argentino Hugo Gambini apontam para sua estadia no Uruguai justamente no ano de 1966, onde teria chegado disfarçado de frei dominicano! Dali partiria para sua última missão, na Bolívia. Fontes ligadas a João Goulart não endossam a versão oficialmente, embora reconheçam o fato em privado. Assim, ligando as pontas desse quebra-cabeça é possível vislumbrar a imagem de Ernesto Che Guevara em pleno Parque Internacional, na fronteira de Santana do Livramento e Rivera, onde a poucos metros adentro do território uruguaio iria se valer do traçado ensinado por Romeu Figueiredo de Mello para percorrer os corredores de campanha e chegar até a estância El Rincón, de João Goulart, distante 66 quilômetros da cidade de Tacuarembó. Hugo Gambini, biógrafo de Guevara, credita certo exagero nas versões que corriam sobre o paradeiro do guerrilheiro naqueles dias, mas não se exime de anotar:

El 5 de agosto de 1966 la Cancillería del Paraguay dijo haber ordenado “una vigilancia especial en el limite con Brasil, debido a que Guevara ha sido visto en Baribao, a escassos kilômetros de la frontera paraguaya”. Las versiones confidenciales, demasiadas exageradas, sostenían que El Che cirulaba disfrazado de hermano dominico, con el nombre de Fray Hernando Juan de los Santos(...) [xiii]

Da estadia de Ernesto Guevara no Uruguai, nos primeiros meses de 1966 não restam mais dúvidas, apenas divergem as versões sobre a maneira de como teria chegado à Bolívia, vindo do Uruguai. Também é interessante notar a aproximação de Che Guevara com o grupo Tupamaro, já estabelecido como partido político revolucionário, e que manteve estreito contato com o cubano, mesmo sem compartilhar das táticas de guerrilha defendidas por Che[xiv]. Sérgio Israel, jornalista do semanário uruguaio Brecha, reuniu algumas das versões sobre a estadia do guerrilheiro no Uruguai, sob proteção do Partido Comunista Uruguaio, que mesmo não estando afinado com a proposta de guerrilha rural e o foquismo, defendido por Che, o colocou sob a proteção de seu aparato militar. O então deputado comunista Ariel Collazo, o mesmo que proporcionou a aproximação do grupo janguista exilado em Montevidéu com Fidel Castro, levanta a hipótese de que Guevara usara um campo de aviação em Taquarembó quando partiu para a Bolívia, em setembro daquele ano. Conforme o relato de Israel:

La versión difundida una década después de la muerte del guerrillero, en plena dictadura, por la inteligencia militar uruguaya, también confirma que el Che estuvo aquí, y agrega que los documentos que usó para arribar a Bolivia fueron robados del Ministerio de Relaciones Exteriores uruguayo, que en esa época era el emisor de pasaportes. Jaime Pérez, sucesor de Arismendi al frente del pcu, escribió en sus memorias que se enteró de la estadía del Che una vez que éste se había ido, pero también confirmó que "el Che salió de Montevideo y de aquí fue para Bolivia y mientras estuvo en Montevideo fue bajo protección del partido".  El ex diputado Ariel Collazo explicó a su vez a Brecha que aunque Arismendi nunca se lo confirmó, también tuvo la información de que el Che estuvo en Uruguay apoyado por el pcu. Collazo, que en ese tiempo como dirigente del Movimiento Revolucionario Oriental (Mro) era muy apreciado en Cuba, obtuvo la versión de que el Che llegó a Bolivia en un vuelo clandestino que salió desde Tacuarembó.[xv]


Do episódio restam algumas indagações. Seria o campo de aviação de Jango, para quem supostamente o guerrilheiro havia levado o dinheiro? De outra maneira, porque rumaria para a cidade de Taquarembó para alçar-se a sua empreitada boliviana?  Outro fato que coloca uma nova indagação nessa equação ainda por resolver foram as constantes declarações do piloto de avião conhecido por Ribeiro, que prestava serviços ao presidente deposto. De acordo com Vladecir Fagundes, filho de um militante comunista muito ligado a Goulart, Ribeiro apregoava aos quatro cantos em Rivera que teria transportado Guevara em uma missão secreta. Naquele momento, era comum os pilotos realizarem a rota Brasil-Paraguai-Uruguai, sempre com transporte de cigarros e uísque contrabandeados. A exemplo da morte de Jango, cujas suspeitas de assassinato tornam-se cada vez mais evidentes, Ribeiro morreria subitamente, de um ataque cardíaco, no barco que faz a travessia de Buenos Aires para Montevidéu, anos depois. Ribeiro iria depor em um inquérito que apurava roubos de documentos e de propriedades do ex-presidente. Outra informação que merece ser considerada é afirmação de Avelino Capitani, marinheiro e guerrilheiro do foco de Caparaó, que sustenta que a viagem de Che a Bolívia teria acontecido a partir do Uruguai e sob a companhia do coronel Dagoberto Rodrigues, homem de confiança de Jango e na linha de frente do MNR naquele momento. A estadia de Guevara no Uruguai em novembro de 1966 também coincide com a articulação do foco guerrilheiro de Caparaó e a organização de outros focos em Mato Grosso e na linha fronteiriça.


[i] MELLO, Pedro Antônio Dávila de. Engenheiro. Entrevista concedida ao autor em 12/10/2006.
[ii] Ibidem.
[iii] Idem.
[iv] Ibidem.
[v] Idem.
[vi] XAVIER, América Ineu. Dona de casa. Depoimento concedido ao autor em 22/12/2006.
[vii] VARGAS, Índio. Guerra é guerra, dizia o torturador. Rio de Janeiro. Codecri. 1981. p.17.
[viii] MELLO, Pedro Antônio de. Entrevista Citada.
[ix] A atuação de Adán René Fajardo na defesa dos exilados será melhor explicitada no terceiro capítulo.
[x] MELLO, Pedro Antônio de. Entrevista Citada
[xi] SILVA, José Wilson da. O Tenente Vermelho. Op. Cit., p. 202.
[xii] MELLO, Pedro Antônio de. Entrevista Citada.
[xiii] GAMBINI, Hugo. El Che Guevara: la biografia. Buenos Aires. Booket, 2006. p. 300.
[xiv] Os jornalistas Antônio Mercader e Jorge de Vera vão mais além nessa questão, e afirmam que o disfarce com que Guevara chegou na Bolívia, o de um senhor calvo sob o nome Adolfo de Mena, teria sido forjado pelo grupo Tupamaro, em apoio moral ao combatente, mesmo sem a adesão à causa da guerrilha na Bolívia. In: Tupamaros, Estrategia Y Accion. Revista Siete Dias Ilustrados. Junio 1969.
[xv] Pasage clandestino y discusiones sobre estratégica y táctica. Huellas Orientales del Che. Sergio Israel. In: www.brecha.com.uy. Acessado em 09/12/2007.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Sobre história e novos eufemismos



A partir da divulgação do relatório final da Comissão Nacional da Verdade – CNV, sobre os crimes praticados pelo o Estado brasileiro durante a ditadura, e sua posterior repercussão na grande imprensa aqui no Brasil, fiz algumas reflexões: infelizmente, como a memória histórica e social ainda é um problema sério que temos que resolver. Ela simplesmente é apagada ou omitida da maioria do povo brasileiro. E de alguma forma precisamos tentar entender como isso é feito.

Historicamente, é notório que o Brasil é um país sem referências, elas são apagadas da memória coletiva por ação regular do estado, que começa a fazer isso de forma processual a partir do Século XX, com o apoio da mídia controlada pelas oligarquias políticas. Cito a Abolição em que a população negra foi jogada ao relento; a proclamação da República, um acordo construído a partir de acordos oligárquicos em represália à própria Abolição; a Guerra de Canudos aonde se negava a revolta da miséria brasileira com extermínio de quem bradava contra isso: o povo; a revolta do Contestado; Revolta da Chibata contra os maus-tratos medievais denunciados por Antônio Cândido contra o baixo oficialato da Marinha; greves de trabalhadores anarquistas que eram imigrantes italianos, espanhóis e portugueses no Rio e em São Paulo  em tecelagens e tantos outros episódios da história brasileira esquecidos propositalmente. Isso é controle social.

 Desta forma, é sim possível demonstrar como a nossa elite faz uma verdadeira “lobotomia” e apaga tudo. E esse processo se repete mais uma vez após a divulgação deste relatório. De imediato houve uma orquestração midiática para a uma ‘eufemização’ dos sanguinários atos da ditadura civil militar iniciada em primeiro de abril de 1964.

Percebo que essa é uma pratica habitual em nossa sociedade. Dou mais um exemplo, a partir do que acontece aqui no Rio de Janeiro. Antes mesmo da implantação das UPPs essa ‘lobotomia’ já acontecia de forma que é muito intensa no viés cultural e religioso, nas favelas e morros cariocas.  Hoje em dia, o samba aqui é agora restrito a uma classe mais abastada em áreas como Botafogo e alguns pontos restritos do Centro e Zona Norte Carioca. Aquele “samba da favela e do morro” acabou.  Imaginemos a figura do malandro que saía de sua sessão de Umbanda ou Candomblé na parte da manhã, que ia para o bar batucar na sua caixinha de fósforo em plena alvorada do dia, como cantava Cartola em seus versos. 

Ali ele compunha sua obra musical depois de se cuidar espiritualmente, e bebia uma cerveja naquela birosca. Ali mesmo criava e pensava um samba com referência naquele batuque africano, como também com maestria faziam Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, entre outros gênios da música.

Hoje, praticamente, acabou essa figura que frequentava os terreiros nessas “Pequenas Áfricas” como costuma dizer o pesquisador Luiz Antônio Simas.  Nesses recantos, agora em maioria, só existem igrejas evangélicas. Assim, os cultos afro-brasileiros foram aos poucos sendo expulsos destas áreas, pelo tráfico, que se associou com essas igrejas, gerando um processo que elimina aos poucos essa ponte com a história da nossa ancestralidade africana, essa referência com o passado. 

Notem que esse processo de ‘lobotomia’ é práxis em nossa sociedade. Ela derruba nossas pontes com as memórias históricas e sociais do Brasil. Essa pode sim ser considerada uma razão para a nossa falta de memória. E é o que querem fazer com o relatório final da Comissão Nacional da Verdade.


Por André Lobão – jornalista e escritor

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Sob as cinzas de Cruz e Sousa



O cineasta Joel Zito Araújo é um dos mais ativos produtores de conteúdo audiovisual sobre as relações raciais na sociedade brasileira. Autor de documentários de referência como São Paulo abraça Mandela (1991), Retrato em preto e branco (1993), Ondas brancas nas pupilas pretas (1995) e A exceção e a regra (1997), venceu o festival É Tudo Verdade, em 2001, com A negação do Brasil, onde aborda o papel conferido aos atores negros na teledramaturgia brasileira, dos anos 50 até hoje. Seu primeiro longa, As Filhas do Vento, ganhou o 32º Festival de Gramado e recebeu críticas positivas no The New York Times, após a première mundial, em Nova Iorque, onde participou a convite do Museu de Arte Moderna (MoMA). O currículo invejável, no entanto, não afastou Joel Zito da militância diária e da defesa dos valores democráticos e inclusivos na sociedade  brasileira. Quis o destino que no dia 20 de Novembro, quando se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra, Joel Zito estivesse no Museu Cruz e Sousa, em Florianópolis, para participar de uma série de eventos alusivos a data, mas que foram cancelados pelo Governo do Estado no último momento. A seguir, publicamos a primeira parte de uma entrevista com o cineasta, realizada nos jardins do Palácio, a poucos metros dos restos mortais do poeta simbolista Cruz e Sousa.


JM - Você esteve ontem na Universidade Federal de Santa Catarina, apresentando A negação do Brasil e debatendo com estudantes. Hoje, no Dia da Consciência Negra, depara-se com um revés na programação do evento, e pouquíssima divulgação da data entre os órgãos de imprensa da capital. A que atribui a escassa importância conferida a uma data tão significativa ?

Joel Zito Araújo – Eu quero crer que é irresponsabilidade mesmo. A melhor hipótese, e a mais otimista das hipóteses para avaliar isso seria a irresponsabilidade.  Não só a imprensa, como o cancelamento dos eventos pelo governo do estado, é sintomático. Eu poderia relevar isso seu eu não soubesse que na Universidade de Santa Catarina existem grupos neonazistas cada vez mais ativos, em cursos importantes como medicina. E não só entre alunos, mas com professor também. Eu relevaria isso se eu não soubesse que no interior do estado tem cidade que comemora o nascimento do Hitler. Eu relevaria isso se eu não soubesse que Santa Catarina é o estado que  mais baixa conteúdos neonazistas na internet.

Mas essa é a realidade. Então porque que o governo do estado, porque que a prefeitura, porque a mídia local  não entende que a importância de comemorar um dia da consciência negra significa incluir Santa Catarina no Brasil, incluir em um país onde os afrodescendentes são 52% da população. Há que se entender isso tendo em vista que nas últimas eleições surgiu uma direita retrógrada, propondo a separação do Brasil do norte e do sul. Por isso eu quero crer que isso é apenas irresponsabilidade, que não existe por trás disso uma intencionalidade perversa. Como sou um cara otimista eu aposto que é apenas irresponsabilidade, imaturidade do governo municipal e estadual, da mídia local, diante de uma questão grave que estamos vivendo. Porque, de fato, eles estão alimentando no sul, na população de Santa Catarina, que é de maioria branca, uma arrogância racista de superioridade. 

Ao invés de alimentar um orgulho de participar de um país que é da diversidade, composto por negros, índios, brancos de Portugal, brancos da Alemanha, brancos da França, de vários locais da europa, asiáticos.  Então, ao invés de alimentar esse orgulho e fazer com que no futuro a gente seja um exemplo de democracia racial, com esse tipo de irresponsabilidade eles estão fomentando uma separação, no ódio, fomentando na população de Santa Catarina uma sensação de ser superior ao resto do Brasil e não integrada ao resto do Brasil. Então eu assisto tudo isso com uma sensação muito ruim e com muita gravidade.

JM - Você poderia destacar quais foram os grandes momentos de empoderamento da população negra no Brasil e como vivemos hoje a condição de inclusão social dessa população?  

Joel Zito Araújo - A população negra, através de seus líderes, de seus intelectuais, de seus artistas, tiveram momentos históricos, digamos, de pico, de afirmação, no Brasil. Um momento histórico que agora estamos comemorando é a resistência, por volta de um século, do Quilombo de Palmares, por Zumbi. Isso nos séculos 16 e 17. Depois nós tivemos outro movimento nacional, de muita magnitude, que foi o movimento abolicionista. Entre as grandes lideranças, destaca-se José do Patrocínio. Um negro nascido na cidade de Campos do Goytacazes, jornalista, mas que junto com ele tinha outro negro, o André Rebouças. Os irmãos Rebouças, os engenheiros irmãos Rebouças. Muita gente não sabe que os túneis Rebouças do Rio e de São Paulo são homenagens a esses engenheiros negros, que eram engenheiros de ponta naquela época, com cursos na Europa. Então o movimento abolicionista teve essas grandes lideranças.

Depois, nos anos 30, você vai ter um novo grande pico, que foi a Frente Negra Brasileira, que surgiu em São Paulo, mas se espalhou pelo país inteiro, e que formou um partido negro. Um partido de curta existência porque o Getúlio Vargas proibiu a existência. Por fim, nós tivemos esse novo movimento, que nós vivemos até hoje, que é o Movimento Negro Unificado, que surgiu no final dos anos 70, e embora ele tenha se desarticulado como movimento único, é responsável pelas conquistas recentes, como cotas, terra para quilombos e tudo isso.

JM - Se compararmos a experiência do movimento negro brasileiro com o norte americano é possível traçar similaridades e divergências?

Joel Zito Araújo – Temos em comum o fato de que ambas as sociedades foram escravocratas, e sua riqueza baseada na exploração do homem negro e da mulher negra. E sociedades que até hoje vivem o drama de não terem adotado no período de abolição, medidas de ascensão social do negro. Então essas duas sociedades vivem o problema da extrema desigualdade entre negros e brancos. Só que a colonização norte-americana foi de origem inglesa, puritana, protestante. Que não acreditava e não queria a miscigenação entre negros e brancos. Então é uma sociedade muito apartada até hoje, que não acredita nessa possibilidade. E a dureza do apartheid norte-americano provocou um movimento mais contundente do que o movimento brasileiro. Isso fez com que nos anos 50 surgisse o movimento de direitos civis, que tem início no ato simbólico daquela senhora, Rosa Parks, de se negar a sentar em um lugar segregado no ônibus, e que teve o Martin Luther King, como a primeira grande liderança. Mas depois veio o Malcom X, os Panteras Negras, entre outros. 

Em minha opinião esse profundo apartheid provocou conquistas muito mais rápidas do que no Brasil. Os negros norte-americanos são 15% da população, mas se você olhar a televisão e o cinema norte-americano você tem a impressão de que os Estados Unidos tem os 52% de população negra brasileira, e se você olhar a televisão e o cinema brasileiro parece que nós é que temos os 15% deles. Aqui a estratégia de miscigenação como estratégia de poder desarticulou o movimento negro. E provoca numa parcela ainda grande da população negra a baixa autoestima por ser negro, ou um desejo de branqueamento, o que desarticula as conquistas sociais. Apesar disso, nós temos cada vez mais conquistas. 

Eu acho que a maior conquista dos últimos tempos foi quando nós começamos a adotar, por pressão do movimento negro, as politicas afirmativas que beneficiaram não só os negros, mas a população indígena e os brancos pobres também. As cotas são para escolas públicas, portanto também beneficia o jovem branco pobre. Enfim, nós vivemos um momento de conquistas, mas comparativo aos Estados Unidos eu diria que estamos ainda a uns 20 anos de distância do nível de conquista de lá, comparando especialmente naquilo que é minha especialidade, que é a leitura sobre a representação do negro na mídia e na televisão.