quinta-feira, 15 de maio de 2014

As negociações secretas com Geisel para a volta de Jango ao Brasil

Em junho de 1973, Peron retorna à Argentina, após dezoito anos de exílio na Espanha. Retorna e após uma eleição em que obteve mais de 60% dos votos, assume a Presidência, com o assentimento das Forças Armadas comandadas pelo General Lanusse e a posse e renúncia negociadas do Presidente Campora, justicialista que ocupara a Presidência por menos de dois meses.
 
Apesar de exilado, Peron nunca perdeu o controle da Segunda Sessão do Exército Argentino, encarregada de espionagem. O Presidente João Goulart, exilado no Uruguai, passou a residir também na Argentina, onde adquiriu uma fazenda, em Mercedes, próxima à Uruguaiana, desde que o General Lanusse assumiu o poder. Jango era grande amigo de Peron, que sempre lhe transmitia informações sobre a situação e o desempenho da Ditadura no Brasil. Com Peron na Presidência da República, Jango teria condições de fazer da Argentina uma grande plataforma, a partir da qual atuaria politicamente no Brasil, perturbando assim o livre curso da ditadura, que governava com todos os instrumentos de exceção cristalizados no Ato Institucional Número 5. Seria melhor para a ditadura brasileira ter o Presidente Goulart morando no Brasil.
 
Logo que ficou constatada a tendência para uma esmagadora vitória de Peron nas eleições de 21 de setembro, o Presidente João Goulart viaja para a Europa, como sempre pela rota do Pacífico, direto a Paris, hospedando-se como de hábito no Hotel Claridge, nos Champs Èlysees. Dona Maria Tereza desembarcou de outro voo pela rota do Atlântico, acompanhada dos filhos João Vicente e Denise.
 Dois dias após sua chegada, chega também a Paris o General Chefe do Estado Maior do Exército brasileiro, acompanhado do jornalista Carlos Castelo Branco (Castelinho), que fazia parte do círculo de amizades do General Geisel, já escolhido para substituir o General Médici na Presidência, em março de 1984. Castelinho tinha em comum com o Presidente Jango saber de cór o “Almanaque do Exército”. Vinham em missão do General Ernesto Geisel, para negociar com o Presidente Goulart seu retorno ao Brasil.
 
Foram três dias de conversações, das quais participavam apenas os dois emissários e o Presidente Jango. Durante essas conversações foi transmitido a Jango o interesse do General Geisel em que ele retornasse ao Brasil após sua posse. Algumas condições propostas e não aceitas por Jango eram: seu retorno para São Borja ou para o Rio de Janeiro, de onde só poderia sair com autorização da autoridade competente; também era proposta a exclusão de alguns nomes, entre todos aqueles que deveríamos voltar, após o retorno de Jango. Praticamente nenhuma condição foi aceita, porque o Presidente achava que ele tinha que ser o último exilado a retornar ao Brasil. De todas as condicionantes, a que mais desagradou foi a que excluía Prestes, Brizola, Arraes, Chico Julião e o Padre Lage, indicando que estes não fariam parte daquele acordo verbal.
Desde 1971, por indicação de Darcy Ribeiro, eu representava o Presidente João Goulart na Europa. À época recebi dele missão especial no sentido de coordenar uma assessoria ao ex-presidente da Argentina, Juan Peron, municiando-o com dados sobre o avanço científico e tecnológico e os complexos e sofisticados recursos humanos dos países industrializados. A assessoria na área de economia ficara a cargo de Celso Furtado.
 
Desde aquela época, portanto, o Presidente Jango se empenhava em que Peron pudesse voltar ao poder na Argentina. Todavia, embora Lopes Rega, secretário particular de Peron, soubesse que estávamos todos trabalhando pela volta do Presidente para a Argentina, ele nos fazia restrições, dificultando nosso acesso a Peron, pois estávamos ligados à esquerda peronista que nada tinha a ver com ele que representava à direita, reacionária e corrupta, como bem ficou comprovado mais tarde no escândalo da P2, Loja Maçônica que aliciou mais de mil personalidades italianas, ibéricas e latino-americanas, culminando com o escândalo do Banco Ambrosiano e o sequestro do Ex-Primeiro Ministro Aldo Moro. Internamente, na Argentina, as ligações de Jango se faziam através do Oficial do Exército Pablo Vicente, vinculado às esquerdas peronistas. Na Europa, suas ligações se faziam por intermédio de Jorge Antônio, que cuidava de interesses imobiliários de Peron, e cujo escritório situava-se no Paseo de la Castellana, no centro de Madrid.  
As conversas com os emissários do futuro Presidente do Brasil, especialmente com Castelinho, serviram para que o Presidente Jango fizesse uma avaliação de como seria o comportamento do General Geisel em relação aos exilados, servindo de termômetro para a segurança daqueles que pretendiam voltar. Uma coisa ficou evidente: retornar ao Brasil, enquanto Medici estivesse no poder, era uma temeridade.
 
O Presidente precisava ir a Lyon para uma revisão médica na Clínica Cardiológica do Doutor Froment. Iríamos de carro, e de lá, até Genebra, onde tinha encontro marcado com banqueiros judeus, a fim de alavancar recursos, a pedido de Peron, destinados a recuperar a indústria frigorífica argentina. Tinha também encontro marcado com Miguel Arraes, Paulo Freire e outros exilados que trabalhavam na Suíça. Arraes estava impedido de entrar na França, por uma denúncia feita ao Quai d’Orsay pela Embaixada do Brasil de que ele usava um passaporte argelino com nome árabe.
 
João Vicente viajou conosco, enquanto sua mãe, acompanhada de Denise, foi a Londres à procura de colégio para os filhos, que não mais voltariam ao Uruguai, onde a situação era extremamente tensa e insegura, depois do Golpe de Estado dado por Juan Bordaberry, com apoio dos militares, no dia 27 de junho.
 
Sobre essa viagem a Genebra, falarei em outra oportunidade, pois lá chegamos na véspera do Yom-Kippur, dia sagrado dos judeus, escolhido pela Síria e Egito para um ataque surpresa aos israelenses, que, naquele dia, se encontravam em orações nas sinagogas.
No retorno a Paris, passamos por Lyon, a fim de recuperarmos os medicamentos que o Dr. Froment iria fazer manipular, com doses específicas para o tratamento do Presidente João Goulart.
Em Paris, Jango me avisou que tínhamos que ir a Madrid, onde ele deveria encontrar um diretor de banco inglês, que gerenciava para ele os recursos advindos de exportações de seu frigorífico no Uruguai e ligado ao banqueiro com quem tratou dos empréstimos em Genebra dos empréstimos aos frigoríficos argentinos.
O Presidente então me disse que não iríamos a Madrid no meu carro, mas sim num automóvel Toyota que ia comprar para dar de presente ao genro do Presidente Stroessner. Tratava-se de um amigo muito bom, que supervisionava uma fazenda que ele tinha no Paraguai.
 
Deixamos João Vicente sob os cuidados de um jovem engenheiro que estagiava no escritório de Oscar Niemeyer, em Paris, Paulinho Baiano, e de outro jovem exilado, amigo do Presidente, Pedro Toulois. Lembro-me, era um domingo e saímos muito cedo de Paris. Revezando-nos ao volante, chegamos, cerca das dezenove horas, a um paradouro a quarenta quilômetros de Madrid, onde resolvemos pousar depois de percorrer mais de mil e duzentos quilômetros de estrada com mão dupla. No dia seguinte, saímos às onze horas mais ou menos, hospedando-nos pouco longe dali em um hotel pequeno e agradável, localizado em Puerta de Hierro, onde o Presidente João Goulart já se havia hospedado, pois ficava próximo à residência do Presidente Peron.
 
    Por volta das dezesseis horas, o Presidente Jango ao volante, saímos para cumprir uma agenda que ele havia definido por telefone: passaríamos no banco às dezoito horas; de lá sairíamos para visitar sua amiga Eva, que se encontrava hospedada no apartamento de Paula, sua conterrânea argentina, não muito longe, a leste do Paseo de Recoletos. Passamos em uma florista, onde compramos dois buquês de rosas vermelhas, pois daríamos um também a Paula, que aniversariava naquele dia. Chegamos à rua indicada por Paula ao anoitecer. Era uma rua larga e curta, quase uma praça, aonde se chegava pela parte de cima, voltando-se à direita, dai descendo até metade da rua, onde ficava o prédio, morada de Paula. Ao dobrarmos a esquina de chegada, o Presidente dirigia o automóvel, e eu vi, na parte de cima da rua, um caminhão parado e descarregado. Descemos e paramos à direita, na metade da rua, em frente ao edifício, onde se localizava o apartamento que procurávamos. 
 
O Presidente Jango desliga o motor do carro e abre a porta e, quase saindo, eu lhe chamo a atenção para as flores que estavam no banco traseiro. Ele se volta para o interior do carro à procura dos buquês, a porta do carro aberta, quando passa o caminhão que estava estacionado na parte de cima e, acelerando, praticamente arrancou a porta do carro, saindo em disparada, rua abaixo. As flores salvaram o Presidente Jango de um “acidente” fatal. Num átimo, não sabíamos o que havia acontecido. Saímos do carro, no qual a porta quase arrancada das dobradiças vergava-se sobre o capô. Assustados, ficamos sem entender o que se passou, naquela rua deserta, em que só algumas pessoas dos apartamentos da frente do prédio vieram às janelas, procurando ver o acontecido. Naquela época Madrid tinha poucos carros. A Espanha e Portugal eram um apêndice subdesenvolvido da Europa. A rua estava praticamente vazia.
 
Recuperados do susto, pegamos as flores e subimos ao apartamento de Paula que ficava nos fundos do prédio. As duas nem viram nem ouviram o ocorrido conosco na chegada. Forçando naturalidade, Jango entregou o buquê a Eva, e eu, a Paula, com apresentações, beijos e cumprimentos. Jango pediu para usar o telefone e ligou para o escritório de Jorge Antônio, e, uma hora depois, o Toyota era recolhido. Providenciou-se no dia seguinte seu embarque por via férrea para Paris, onde seria recuperado e despachado para Buenos Aires por Pedro Toulois.
 
Passamos mais três dias em Madrid e voltamos a Paris no final semana, por via aérea.
No seu retorno à Argentina, em meados de novembro, o Presidente João Goulart deveria fazer uma pequena parada em Caracas para um encontro agendado com o então Deputado Tancredo Neves.
 
por Ubirajara Brito, do Instituto João Goulart.

terça-feira, 1 de abril de 2014

O golpe de 1964 na Fronteira



Em Santana do Livramento, a eleição do petebista Sérgio Fuentes – o Índio Fuentes - para a prefeitura municipal significava uma ruptura no equilíbrio da política local. Embora não fosse novidade um prefeito petebista, Fuentes gozava de forte apoio popular e tinha ligação com setores progressistas do Governo Goulart, que poderiam desdobrar-se em ações ainda não mensuradas totalmente pela elite local, caso o governo federal levasse adiante os programas de reformas. Ex-combatente da mitológica “Divisão de Sant’Ana”, força revolucionária que se levantou contra a reeleição de Borges de Medeiros em 1923, herdeira dos ideais maragatos da revolução federalista, era contabilista e jornalista, diretor do prestigiado jornal Folha Popular.
Com o golpe já em andamento, nos primeiros momentos do dia 1º de abril, Sérgio Fuentes (foto) decide dispor a Prefeitura Municipal como sede da resistência. No saguão do prédio é instalado um transmissor de rádio, doado por militantes comunistas de Rivera. Para lá dirigem-se representantes sindicais, jornalistas, ativistas políticos e simpatizantes do governo deposto. A ocasião estava carregada de um simbolismo sombrio, pois na tarde de 31 de abril falecia o ex-prefeito e baluarte do trabalhismo santanense, João Souto Duarte. A Rádio Cultura sai do ar em homenagem ao filho ilustre, mas na mesma faixa de sinal passa a irradiar a rádio clandestina. Nas lembranças do jornalista Elmar Bones, a cena da primeira resistência surge em todas as suas cores,

(...) com o auxílio do partido comunista de Rivera, alguém conseguiu, não sei quem, veio a informação de que tinham conseguido um transmissor de rádio. E que era um transmissor que tinha uma potência que dava para colocar em cima da rádio local, e passar a fazer uma pregação, chamar a população para as ruas, porque ninguém sabia o que estava acontecendo, tinha um zum-zum-zum que já tinham dado um golpe, que o Jango já tinha sido derrubado, mas tinha uma boataria enorme dizendo que não, que o Jango estava no Rio Grande, que iria resistir e tal, aí nós fomos para a prefeitura, o pessoal veio, trouxeram esse técnico, trouxeram esse transmissor numa camioneta, entraram pelos fundos da prefeitura, que a prefeitura era do PTB, era do Sérgio Fuentes, e instalaram esse transmissor, e no saguão da prefeitura ficou um estúdio de rádio. E aí as pessoas se revezavam fazendo pronunciamentos. Então a gente botava a rádio no ar, em um horário assim, meio-dia, que é um horário que todo mundo tá ouvindo a rádio, botava em cima da rádio local, da Cultura, e metia discurso, convocando os estudantes...eu, o Ruschel, o Kenny falava, convocando os estudantes, convocando os jovens....aí vinha outro e convocava os camponeses. Chegou a durar um dia... até que no dia seguinte de manhã o exército descobriu. E lacrou tudo. Quando nós estávamos lá dentro o exército chegou e cercou a prefeitura com um aparato de guerra.
 
Em 1964, os jornalistas Elmar Bones e Kenny Braga eram estudantes e ensaiavam os primeiros passos na redação do jornal A Platéia, que lhes serviria de escola para a profissão que iriam abraçar com êxito dali em diante. Kenny lembra de personalidades afinadas ideológicamente com o grupo estudantil, que desenvolviam amplo diálogo político e literário, em tertúlias e reuniões informais. Uma delas era o então juiz de direito em Santana, José Paulo Bisol. O outro era o professor de literatura e escritor Alfredo Paiva. O pecuarista e membro do PCB local, Perseverando Santana também recorda da ativa participação do Bisol nos meios da esquerda local, onde freqüentava, em Rivera, a casa de Aquiles Santana, ativo membro do PCB santanense. No dia do golpe, estiveram reunidos mais uma vez, conforme recorda Perseverando,


“ Eu, em seguida imediato ao golpe fui pra a prefeitura, por recomendações do Bisol. Tínhamos um grupo de esquerda...e ele tava aqui na época, até foi impedido de embarcar no aeroporto..E teve lá na casa do Aquiles, até conversei com ele lá na casa do Aquiles, e ele aconselhou que viéssemos por precaução. Era juiz. E tinha contatos com o partido, um sujeito muito talentoso,  brilhante, fazia tertúlias literárias. E a prefeitura era do Sérgio Fuentes, um sujeito de muito valor. Era maragato, trabalhista. Mas um sujeito que não tinha restrições com esquerda, progressista.....uma coragem tremenda. Então nós fomos lá para a prefeitura, eu, o Chico Cabeda, tava esse Danilo Ucha, que pertencia a esse grupo que o Brizola meio influenciava, dirigia...E o Bisol tava na prefeitura. Ficamos conversando e tudo, e o Índio ali. Botou alto-falante, reunir o povo, resistir, essas coisas toda. Dali a um pouco, a gente sentiu que já não tinha mais resistência, e cada um tomou seu rumo. Tava todo mundo...tava o Marcos, o Aquiles, o Dalto, um paraguaio que tinha aí, médico...tanto é que ele nos aconselhou: - todos pra Rivera!”
Homem identificado com os ideais getulistas desde a revolução de 30, posteriormente ligados a vertente petebista, Sérgio Fuentes anotava suas convicções desde o primeiro editorial da Folha Popular, jornal por ele criado no alvorecer do Estado Novo, em dezembro de 1937: “terminada como está a luta política, por força da dissolvição dos partidos – áto altamente patriótico do Grande Presidente Dr. Getúlio Vargas – o nosso jornal se dedicará exclusivamente a noticiar os fatos importantes que se desenrolam diariamente na vida da comuna, do Estado e do Paiz”. 
Na edição do dia 3 de abril, junto com o anúncio do fim da resistência legalista, a Folha Popular registrava a reação das forças políticas municipais, sob o comando do prefeito Sérgio Fuentes:
Em Livramento -  S. Fuentes Campeão da Legalidade – Quando as primeiras horas da manhã de quarta-feira foi conhecida a notícia de que a forças rebeldes em Minas Gerais haviam iniciado um movimento subversivo visando depor o presidente constitucional, dr. João Goulart, o prefeito municipal jornalista Sérgio Fuentes compareceu ao palácio intendencial, onde após convocar seus assessores  instalou uma frente de resistência ao golpe. Imediatamente a prefeitura transformou-se no centro de todas as atenções da cidade, tendo a Rádio Cultura passado a transmitir diretamente de seu gabinete na Prefeitura Municipal, integrando-se na “cadeia da legalidade” liderada pelo valoroso e destemido deputado federal Leonel Brizola. A vigília cívica contou com o apoio integral da maioria da população santanense que independente de qualquer chamamento foi levar ao prefeito trabalhista o conforto moral na hora dramática em que os alicerces da democracia foram sacudidos pelo movimento golpista. Aproximadamente ao meio dia de ontem um contingente da Guarnição local compareceu a Prefeitura de onde requisitou os transmissores da Rádio Cultura, que saiu do ar. 
Da tribuna da Folha Popular, Sérgio Fuentes (foto) deu voz aos movimentos que se colocavam frontalmente contra o golpe no calor dos primeiros momentos. Ainda no dia 3 de abril, logo após os incidentes ocorridos na Prefeitura, o jornal insuflava a resistência, buscando apoios e listando manifestações contrárias ao levante, noticiando fatos como uma passeata dos estudantes uruguaios em favor do governo Goulart.
Estudantes Uruguaios Fizeram Passeata de Repúdio ao Golpe e Em Favor de JG
Montevidéu, 3 (FP) – Portando cartazes que taxavam os militares que depuseram o presidente João Goulart de “gorilas” e que diziam ainda reconhecer em João Goulart o presidente constitucional e legal de todos os brasileiros, uma grandiosa manifestação dos estudantes uruguaios foi realizada nas primeiras horas da noite de ontem, pelas principais ruas da capital uruguaia. A cidade que vive em clima agitado e de espectativa desde o momento em que foi anunciado que o presidente brasileiro João Goulart, se dirigia para Montevidéu, assistiu uma grandiosa manifestação estudantil que foi acompanhada de perto por forte dispositivo policial, que se limitou apenas a acompanhar o desenrolar pacífico da passeata. Durante toda a tarde de ontem e as primeiras horas de hoje o povo aguardou nas ruas a chegada do primeiro mandatário do Brasil, ao qual – caso se confirmasse sua vinda para território uruguaio – seria recebido ainda como chefe de Estado e lhe seria tributada uma recepção popular digna do prestígio que goza em todo o Uruguay. 

Em rápidas pinceladas, o repórter uruguaio descreve um prefeito envolto pelas pesadas circunstâncias da hora: El Prefecto Fuentes, un hombre de edad, enjuto y pequeño, decidido “legalista”, hablaba descorazonado: “Tudo não ha sido mais que un bluff”  O correspondente do jornal uruguaio El Pais estava com Sérgio Fuentes no dia 3 de abril na Estância Carpinteria, na localidade uruguaia de Vichadero, cerca de 200 quilômetros da fronteira, ainda no município de Rivera. Ali, levados pelo petebista, estavam um forte efetivo de policiais e repórteres de Santana e Montevidéu, a espera da provável chegada de João Goulart, em fuga das terras brasileiras. O bluff poderia ter sido obra do acaso, ou armado por Fuentes, soldado petebista e que muito improvavelmente acionaria a polícia uruguaia e as atenções dos golpistas para o encontro com Jango. Um despiste parece ter sido o episódio da Estância Carpinteria, muito embora não possa ser comprovado . Os jornalistas não escondiam a decepção, conforme anota a crônica do EL PAIS: “Doscientos kilómetros de intransitable camino y una espera de horas para localizar al doctor joão Goulart”.




quinta-feira, 27 de março de 2014

Um diretor latinoamericano



O cinema entrou na  vida do consagrado diretor argentino Gerardo Vallejo (1942-2007) de uma maneira inusitada. Aos 12 anos, um incêndio destruiu a casa onde vivia com os pais e dois irmãos, em Tucumán. De repente a família teve de procurar abrigo em um clube da cidade, vizinho a um cinema chamado Broadway, onde o menino passou a assistir quase 10 horas de filmes por dia, fazendo bico como como auxiliar de projecionista.
"Comecei a ser diretor graças a essa tragédia". Mais tarde, quando costumava viajar até Buenos Aires, atravessando o país a bordo do trem "Estrella del Norte", o futuro documentarista descobriu os trabalhadores "andorinhas", que se deslocavam pelo país atrás de emprego. "Percebi que aquelas pessoas, que efetivamente produziam a riqueza do país, não tinham voz política e muito menos no cinema argentino. O cinema argentino para mim era uma mentira, e a imagem da Argentina de então era só Buenos Aires".
Foi a partir dessas conclusões que em 1968 ele começou a filmar seu primeiro longa metragem, com uma câmeras Rolex a corda, chamado "El camino hacia la muerte del viejo Rosales", considerado hoje um dos maiores clássicos do cinema documental latino-americano. Em 1971 o filme quase foi queimado por um general censor, mas acabou salvo pelo diretor de um laboratório e enviado a Itália, onde foi finalmente concluído. Os contratempos do diretor com a repressão, no entanto, apenas começavam.
Em dezembro de 1974, um atentado a bomba por pouco não destrói sua família. A saída foi a fuga para o Panamá e posteriormente Espanha, onde desenvolveu ainda mais a técnica, condição que sempre julgou imprescindível a um cineasta.
"Existem três elementos que não podem falhar em um grande filme: a narrativa, o ideológico e a poética". Adepto das narrativas épicas e populares, Gerardo Vallejo defendia o domínio da linguagem e do fazer cinematográfico como algo adquirido na prática. "Um velho sábio dizia que nada de virtuoso se faz facilmente, e eu acrescento que uma coisa é fazer filmes, outra é fazer cinema". "É preciso saber usar a luz de uma maneira mágica, poética, temos que saber que o enquadramento é virtual, os detalhes podem contar mais, pois a realidade cinematográfica não tem nada a ver com o real”.
Sobre atores: “Nunca se deve repreender um ator na frente da equipe, e nunca ofender um não ator que eventualmente esteja se saindo mal em um documentário”. “Temos de lembrar que um filme deve ter uma estrutura com começo, meio e fim. Mesmo que se queira começar pelo fim".
Conheci Vallejo em uma dessas oficinas impagáveis que só o FAM – Florianópolis Audiovisual Mercosul, festival de cinema latino, ancorado em Floripa, nos proporciona. Lembro de sua frase de encerramento de um dia de trabalho: "Nunca  traiam seus ideais, todos somos poetas e artistas, só temos que descobrir isso em nós".    

Por Marlon Aseff.         

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Juscelino foi assassinado !


A Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, da cidade de São Paulo, vai divulgar nesta terça-feira,  10 de dezembro de 2013, um documento com evidências de que o ex-presidente brasileiro Juscelino Kubitschek (1956-1961) foi assassinado durante viagem de carro na rodovia Presidente Dutra, e não morto em um acidente, como registra a história oficial.
O relatório reúne 90 indícios, "evidências, provas, testemunhos, circunstâncias, contradições, controvérsias e questionamentos" que concluem que o ex-presidente foi alvo de um complô em 22 de agosto de 1976. Segundo a versão oficial, JK, que tentava articular a volta da democracia ao País, morreu em um acidente com um Opala na estrada.

"Não temos dúvida de que Juscelino Kubitschek foi vítima de conspiração, complô e atentado político", afirma o vereador Gilberto Natalini, presidente da Comissão Municipal da Verdade.
As circunstâncias da morte do presidente são investigadas pelo órgão municipal, que busca ajudar a Comissão Nacional da Verdade para esclarecer o caso. Em agosto, Serafim Melo Jardim, secretário particular do ex-presidente nos seus últimos nove anos de vida, afirmou à comissão ter certeza de que JK vinha sendo vigiado. "Eu acompanhei o presidente desde que voltou do exílio. Sempre que viajávamos ele dizia: 'Estão querendo me matar'."

Outro ponto levantado pela comissão na época foi a falta de radiografia no corpo do motorista Geraldo Ribeiro, apesar do fragmento metálico de sete milímetros em seu crânio, que seria um grave indício de arma de fogo. As fotos dos corpos teriam sido retiradas do processo a mando de Francisco Gil Castello Branco, ex-diretor do Departamento Técnico-Científico da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro à época.

O esforço de JK para o retorno democrático no Brasil nos anos 1970 era motivo de preocupação para os agentes da Operação Condor, aliança político-militar entre as ditaduras do Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai.
Em uma carta enviada no dia 28 de agosto de 1975 para o presidente João Baptista Figueiredo, o chefe do serviço de inteligência de Augusto Pinochet, coronel Manuel Contreras Sepulveda, se diz preocupado com a possível vitória de Jimmy Carter nos EUA e o apoio a políticos de oposição à ditadura na região, como o chileno Orlando Letelier e o próprio JK. Segundo ele, os líderes "poderiam influenciar seriamente a estabilidade do Cone Sul". No ano seguinte ao envio da correspondência, JK morria em agosto, e Letelier, em setembro.

publicado originalmente em Carta Capital

sábado, 27 de julho de 2013

Vinte Anos sem Valda


 
No dia 27 de julho de 1993, há exatos 20 anos, a arte catarinense perdia Valda Costa. A pintora dos morros, do folclore e de toda uma paisagem humana da Ilha de Santa Catarina partia cedo demais, aos 42 anos. Para assinalar a data que marca sua despedida, iniciamos uma série de exibições do filme Caminhos de Valda, junto a outras atividades culturais que irão reunir a obra da artista, hoje dispersa, e depoimentos de amigos, marchands e artistas, em um diálogo com as comunidades da Ilha e as novas gerações. Em breve iremos anunciar o calendário de atividades de “Vinte Anos sem Valda”.




 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Pela preservação dos lugares da memória fronteiriça.



O esplendor da Praça General Flores da Cunha poderia exemplificar o glamour dos espaços de lazer do Santana do Livramento nas primeiras décadas do século vinte. Revendo meus arquivos para entender melhor o “desfalecimento” do lugar, deparei-me com o vigor das lembranças de dois grandes personagens da cidade: o barbeiro centenário Humberto Bisso e seu octagenário colega Floriano Menendes. Túnel do tempo acionado em umas fitas K-7 (gravadas em 2001) e em imagens flashback que envolve minha mente ressurgem suas vozes fracas, melancólicas, em suas reminiscências: os templos da noite, a diversão no Areial, daquela Santana escura, que “tinha apenas duas ruas, mui diferente e divertida”. Seu Bisso recorda os companheiros que tinham de atravessar a linha, para tocar serenatas para as famílias riverenses, os comerciantes e também para o Chefe da polícia Ventura Pires, quando em Santana imperava a repressão nos anos das revoltas de 1923 e 1924 . Sua orquestra era vanguarda, binacional, composta por barbeiros, alfaiates, guarda livros, estafetas e talabarteiros. Alguém ainda lembra desses ofícios? Alguém lembra o quanto era formosa a Praça Flores da Cunha, ou Pracinha dos Cachorros?

Quem recorda dos bancos de granito rosa, do moderno e vibrante calçamento petit pavê, dos lambe-lambes presentes em nossa infância no Parque Internacional? Sabemos que a construção da memória passa pela ação das forças sociais em constante luta pelo controle e exercício de poder, mas especialmente pela determinação do que se quer passar a posteridade. Creio que o momento é pertinente para tratarmos da ação da memória, quando na fronteira andamos em uma época de infertilidade no trato do patrimônio cultural. Porque temos que pensar em memória? Em que medida as memórias dessas experiências vividas, de sua construção como cidadãos, como profissionais, podem contribuir para que a comunidade passe a conhecer e respeitar seu patrimônio histórico? Pois bem, sabemos que só respeitamos o que conhecemos! Será que conhecemos a riqueza da história cultural de nossa cidade ou da fronteira? Ao longo de nossa existência tentamos rememorar e recontar a memória e os lugares do encontro fronteiriço aos nossos filhos, amigos e netos, como nossos avós, e pais o fizeram? Temos uma grande responsabilidade na preservação da memória social, precisamos nos responsabilizar e seguir o caminho do coração, sob pena de perdermos nossas referências culturais, e o pior, não termos herança a passar aos nossos descendentes. Essa advertência foi constante em minhas conversas com Bisso, Floriano, Elda Cortez e Sinhá Borba, entre outros memorialistas da cidade, que hoje não estão entre nós. “Quem irá contar que fomos grandes, que Santana teve vigor?” indagou certa vez, um deles. Calei, ouvindo muito do que eles tinham a relatar, porque naquele momento não saberia contrapor essa questão. Tentei dar uma luz ao que os memorialistas contaram, escrevendo minha pesquisa que abordava a memória oral e os lugares de lazer na fronteira. Não sei se consegui responder a eles, porém consegui registrar suas memórias para as novas gerações.

Vejo que existe uma ruptura na passagem dessa memória, seja oral ou mesmo  documental, em nossa fronteira. Prova disso é o distanciamento que nossa sociedade demonstra de temas tão atuais como a preservação do que restou do nosso patrimônio histórico, hoje ameaçado pela especulação imobiliária e falta de conservação. Se costumávamos escutar as histórias de nossos antepassados, será que contamos alguma história para esta nova geração? Por isso li com prazer o que o escritor Luciano Machado escreveu a um colunista deste jornal sobre a importância da Praça Flores da Cunha na memória da fronteira. Temos que ter o encantamento de rememorar, mas também ações para preservar os espaços da memória.

Pensar a preservação da memória de nosso patrimônio histórico e afetivo, em um tempo em que tudo deve ser novo, moderno, hiper-moderno, pós-moderno é um desafio que a comunidade e o poder público devem tomar para si.  Se os fenômenos da globalização nos conectam com o mundo todo, também nos impulsionam em direção contrária, negando muitas vezes essa representação do passado e sua força revitalizadora. Se pensarmos que a palavra patrimônio tem origem latina, derivada de pater, que significa pai, encontraremos o sentido de herança, legado, isto é, aquilo que o pai deixa para os filhos. Assim, patrimônio é o conjunto de bens produzidos por outras gerações, ou seja, os bens resultantes da experiência coletiva, que estão vivos e recentes em nosso cotidiano. E para preservá-lo precisamos de ações coletivas e individuais, pragmáticas, que contemplem também “exercícios” da memória, entre nossos familiares, vizinhos, amigos e comunidade.

O filósofo alemão Walter Benjamin, ao trabalhar com a memória como rememoração, destacou a importância da narrativa e do distanciamento como premissa para se entender a essência da função do narrador, em crise já nos anos 30. Cada momento, ensina, é importante para algum sujeito, portanto, nada é insignificante ou perdido para a história.  Sendo assim, será que observamos o som ao redor? Quem são nossos narradores? Temos milhares, basta buscá-los e, acima de tudo, registrá-los, mapeá-los e respeitá-los. Suas lembranças são nossa maior herança, em uma sociedade que a cada dia perde um significado, desfigurando-se, com a velocidade da informação. Como afirmou o poeta libanês Khalil Gibran, “as distâncias não existem para a recordação; e somente o esquecimento é um abismo que nem a voz nem o olho podem atravessar.”
 
texto: Liane Chipollino Aseff
fotos: Marlon Aseff, Lucianne Hamilton.