segunda-feira, 19 de março de 2012

A vida por um fio


Uma fronteira pode significar a vida ou a morte. Pode ser uma linha divisória ou um traço de união. Um muro ou uma passagem. O confronto ou o encontro. A guerra ou a confraternização. A prisão ou a liberdade. O exílio ou o retorno.
Certas fronteiras são imensas, como o oceano. Outras são apenas uma linha imaginária ou pintada no chão, entre marcos que assinalam a diferença dos países. Este último é o caso da fronteira entre o Brasil e o Uruguai, quando atravessa as cidades geminadas de Santana do Livramento, do lado brasileiro, e Rivera, do lado uruguaio.
Geminadas desde o seu nascimento no século XIX, Rivera e Santana foram palco de exílios e retornos, fugas em busca da liberdade e perseguições, lutas sangrentas e fratricidas. Não raro perseguidos de morte foram salvos por estarem poucos metros para lá da linha virtual que corta o meio de uma rua. Exilados ilustres ali encontraram refúgio, como o argentino José Hernandez: diz a tradição que o primeiro livro do Martin Fierro foi escrito em Santana. Outros, por vezes desconhecidos pela maioria de seus contemporâneos, ali desempenharam papéis fundamentais no salvamento de vidas ameaçadas por ditaduras e desavenças políticas.
Todo esse mundo peculiar da fronteira e de Santana/Riveira é evocado nesse livro, de paciente e ampla pesquisa, de Marlon Aseff, sua tese de doutorado. Mas a obra tem seu foco nos eventos que ali se passaram durante a recente Ditadura Militar que, de 1964 a 1985, mergulhou o Brasil no seu pior cerceamento das liberdades básicas da cidadania, entre as muitas que nossa história teve.
Como núcleo urbano unificado de maior porte em toda a fronteira em grande parte seca entre o Brasil e o Uruguai, a conurbação internacional Santana/Rivera tornou-se espaço privilegiado para perseguidos e mensageiros de oposição ao regime autoritário buscarem refúgio, passagem ou mesmo a volta clandestina ao país de origem. Para usar uma metáfora paradoxal e provocante, pode-se dizer que não raro o protagonista de uma fuga dormia numa casa de um lado da fronteira e acordava noutra, do lado oposto. Tudo isso graças ao heroísmo por vezes anônimo, mas sempre dedicado e ardente, dos que amavam a liberdade, a solidariedade, a justiça, muitas vezes com risco da própria integridade física, senão da vida.
Entretanto, atravessar essa fronteira nem sempre era fácil. Os protagonistas dessas fugas vinham por vezes de longe, de estados distantes, como São Paulo, Pernambuco e outros. Tinham que chegar a Porto Alegre e depois passar pelos 600 km. da capital até Santana, indo por estradas cujas pontes e paragens estavam ocupadas por barreiras policiais e militares. Por vezes era necessário descer antes da ponte ou da barreira, percorrer longos caminhos a pé, através dos corredores, que são as servidões de passagem na região sulina, ou buscar as velhas pontes ferroviárias, menos vigiadas, quando não atravessar banhados e vaus de rios.
Os exilados brasileiros eram estritamente vigiados, não só nos países vizinhos, mas até no norte da África e nos aeroportos europeus. Por isso o trabalho de despistamento era constante e necessário, e por vezes atingia o auge quando o perseguido chegava na cidade geminada. Ali era necessário faze-lo “desaparecer” debaixo do nariz dos vigilantes, e faze-lo “renasccer”, por vezes literalmente, do outro lado. Para tanto o conhecimento minucioso do ambiente era indispensável, para se esgueirar entre as pilhas de tábuas de uma estação de trem ou no burburinho de uma rodoviária, quando as pegadas se perdiam para que seus donos pudessem se salvar.
O livro de Marlon nos leva a uma narrativa emocionante, mas que nunca perde o sentido da precisão e da pesquisa rigorosa. Também estabelece alguns critérios de análise para aprofundar o conhecimento dessa região e desse momento da vida brasileira.
Em primeiro lugar, o livro compartilha com outras pesquisas a visão de dois momentos nas rotas do exílio durante os 21 anos de regime de exceção. Há um primeiro momento, que vai de 1964 a 1968, em que predominam nessa rota os membros do governo anterior, ou mesmo os habitantes da região que devem fugir para salvaguardar a liberdade ou salvar a vida. De 1968 em diante predominam os remanescentes da luta armada que toma conta da resistência nos grandes centros urbanos, sobretudo, do Brasil. No primeiro caso, os exilados muitas vezes se estabelecem na região, tentam reestruturar suas próprias vidas, nem sempre com sucesso, ou se dirigem para Montevidéu. No segundo momento, a passagem pela fronteira costuma levar a Montevidéu, e daí para o Chile, a Bolívia, a Argentina, não raro a Europa, sobretudo depois que o clima político também se fechou nesses países vizinhos. Também chama a atenção que muitas vezes a trajetória se dá no sentido inverso: são exilados que buscam retornar ao país para estabelecer contatos e continuar a luta, num movimento que por vezes levou à morte seus protagonistas.
Outro aspecto decisivo é a natureza dos laços, por vezes fugazes, que se estabelecem entre os personagens desse momento e desse micro- e macrocosmo da fronteira. Os que de algum e variado modo tiveram contato com o mundo da clandestinidade do período ditatorial hão de recordar que nas instruções orais ou mesmo escritas sobre o comportamento, predominava o traço da impessoalidade. Devia-se confiar apenas em senhas, sinais de identificação pré-combinados e mutáveis, evitar nomes próprios, usar “nomes de guerra” no jargão revolucionário ou “codinomes” no jargão repressor, etc. Também devia-se confiar apenas na própria organização e em nada mais.
Entretanto, na prática a práxis muitas vezes era bem outra, e aqui no caso em foco não foi diferente. Valia mais o traço pessoal, o laço de família ou de amizade, o desejo de integridade pessoal convivia com o traço da opção ideológica, criando uma “ética de solidariedade” que se sobrepunha até mesmo as divisões políticas ou de classe social. E também vale assinalar que isso ocorria num momento de profunda fragmentação e desagregação da esquerda brasileira, acuada por suas sucessivas derrotas no campo armado em que grande parte da juventude e de militantes mais experientes tinha escolhido para atuar. Para complicar esse caldo de cultura já avantajado, os quadros dramáticos dessa luta pela sobrevivência física e política se dá sob uma moldura em que muitas vezes supostos inimigos figadais confraternizam em solidariedade, em que ex-maragatos ajudam (quando não se tornam) comunistas, estancieiros abastados se tornam campeões e simpatizantes das causas sociais, tanto por opção ideológica, quanto, novamente, por questões de família, amizade, ou simplesmente aquela tenção tenaz de ajudar o perseguido e se opor ao perseguidor.
Por que trilha se vá, o livro de Marlon conduz o leitor a um universo pouco conhecido, ainda hoje, das lutas pela liberdade e da resistência brasileira ao regime discricionário instalado em 1964 e que deixou feridas dolorosas na nossa história e na nossa cultura. Felizmente, como aponta o livro, ali ficou também a sutura indelével da solidariedade humana e a marca imorredoura dos que, de diversas maneiras, optaram pela coragem da liberdade.

Flávio Aguiar*

*Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira da Universidade de S. Paulo, autor de A palavra no Purgatório: literatura e cultura nos anos 70 (São Paulo: Boitempo Editorial, 1996), além de autor ou organizador de mais de 20 livros. Jornalista, militou na imprensa alternativa durante a Ditadura Militar e hoje é correspondente em Berlim da Agência Carta Maior (www.cartamaior.com.br) e da Rede Brasil Atual (www.redebrasilatual.com.br), que publica a Revista do Brasil.

Apresentação do livro Retratos do exílio (solidariedade e resistência política na fronteira), de Marlon Gonsales Aseff. (Santa Cruz do Sul: Edunisc, 2009)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Floripa Instrumental: Músicos e Comunidade da Freguesia afinados


A comunidade do Ribeirão da Ilha já vive o clima de confraternização musical que o Floripa Instrumental promete para o próximo final de semana. As melhores cozinheiras da região, reunidas no grande salão comunitário da Paróquia Nossa Senhora da Lapa, preparam os ingredientes que farão parte de um banquete destinado a saciar o apetite de quem for curtir os dois dias de música. Dos torpedos de camarão e ostras gratinadas ao risoto de camarão, o festival gastronômico promete. Como se não bastasse, os músicos que farão parte da festa na Freguesia, já adiantaram que tocar naquele local será de uma inspiração “divina”.


Arismar do Espírito Santo, que faz um dos shows mais esperados do sábado, ao lado de Toninho Horta e Robertinho Silva, avisa que não vê a hora de tocar em um lugar “abençoado” como o Ribeirão da Ilha, que segundo ele, tem um povo extremamente musical. “Vamos tocar o repertório de nosso disco, Cape Horn, e também alguns hits, como Beijo Partido e Manuel, o Audaz, de Toninho; e Sonhando Acordado e Vestido Longo, meus”, diz. O multi-instrumentista também espera encontrar grandes amigos entre os músicos que tocam no sábado, como o trompetista gaúcho, Jorginho do Trompete. “Vai ser genial poder encontrar o Jorginho e todos os músicos que participam desse festival”, lembra Arismar.

O mesmo espírito de confraternização também move o violonista Yamandu Costa, que toca com os músicos do Ginga do Mané. “Estou feliz por poder voltar à Ilha e encontrar todo mundo de novo, em um festival já pode ser considerado um patrimônio cultural da cidade, não é mesmo?”, enfatiza Yamandu, recém saído do estúdio onde finaliza seu mais recente trabalho. O violonista adianta que vai tocar duas músicas solo e depois cair no choro com os músicos do Ginga. “Sou um chorão por opção, porque essa é a minha praia, e uma linguagem que todo músico brasileiro deve dominar”, diz. O músico gaúcho, radicado há 10 anos no Rio de Janeiro, adianta que também está finalizando um disco só com composições próprias, que estão sendo mixadas em um estúdio no Rio Vermelho, no norte da Ilha.

Para Zito Nerto Fraga, coordenador do Conselho Pastoral Comunitário da Paróquia, a população do Ribeirão, verdadeiros anfitriões da festa, já estão mobilizadas para acolher o público e fazer novamente do Floripa Instrumental um momento mágico e inesquecível para a cidade. Ele lembra que a Banda da Lapa, entidade fundada há 115 anos no Ribeirão, e que encerrará o evento no domingo, está contagiada pela alegria e as parcerias que o festival proporciona. Com um trabalho comunitário e cultural muito bem estruturado na região, a Banda da Lapa conta com aproximadamente 25 músicos das mais diversas idades e procedências, acolhidos no Ribeirão. “Não quero arriscar, mas diria que o Floripa Instrumental, de tantas nuances musicais e com tantos músicos de primeira linha, pode acabar em carnaval, nas mãos dos nossos músicos da Banda da Lapa”, diverte-se Zito.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

De Viaje por La Feria

                                                                                                                       por Michel Croz

“Damos vueltas en la noche y somos consumidos por el fuego”
palíndromo latino y título del film de Guy Debord

Los libros son frontera. Conflagrada. Su condición es la de transgredir fronteras y limitaciones humanas. Los libros vagaron por los espacios del Parque Internacional. Durante 4 días. Se posaron los libros, por entre marcos y límites que no limitan ni dividen nada, “border line”,en una suerte de viaje vagabundo y apasionado. Los libros nos ganaron. Le ganaron a la mentalidad bovina de nuestras ciudades tan pobremente “fenicias”, tan “free”.
Pero resulta que uno no elige, somos elegidos. La gente piensa que el escritor escribe, que el poeta “poieseia”, que el lector lee; pero no es eso. Es otra cosa. Es un destino. Séptimo sello. Es la noche cerrada y sin salida. Escribir es algo de eso. Después hay un viaje: desde la gente que escribe a la gente que lo publica y finalmente al “espectador” que lee. En la Feria. Entre las carpas de los milicos, dentro: un mundo. Polifonía de voces habitadas (título de un libro escrito por Marta Pujol y por mí). El viaje empezó el 3 y se fue hasta el 6 de noviembre en el Parque Plaza Internacional. Para el próximo sugiero: exponer los nuevos soportes multimediales: e-books, cds, dvds etc… Tambien las fronteras materiales de la “especie libro” deberán ser transgredidas. Yo sigo prefiriendo el papel, el objeto libro. Pero reconozco una nueva contemporaneidad sobremodernizada: las fronteras deben licuarse (Bauman).

También fue el encuentro de escritores y lectores, de gestores y libreros, de gente e
instituciones de Riveramento. Muchos estuvieron allí. Podrían haber sido más (pero ¿para
qué masificar? Éxito es condición de consumo. El libro se merece algo más que participar de una industria cultural. Por otro lado no se le puede negar lo que es: una industria cultural. Em fin… “yo me contradigo, pues bien yo me contradigo, soy amplio abrigo multitudes” decía Walt Whitman).
Fue una apuesta, la Feria. La primera pasó sin pena ni gloria. Pero fue alfa. Necesaria. La segunda fue asumida por las intendencias y por otros actores sociales fronterizos. Un acierto: el lugar. Otro acierto: Una comisión autónoma. Y otro, otro acierto: la elección de Carlos Urbim, como patrono del lado de Santana. Un animador con mayúscula: señalado con el fuego de la empatía.
Una palabra para Urbim: el polisémico “entusiasmo” (fui al diccionario y no me equivoque: “Exaltación de la sibilas / Inspiración fogosa y arrebatada del escritor o del artista / Exaltación y fogosidad del ánimo, excitado por cosa que le admire o cautive / Adhesión fervorosa que mueve a favorecer una causa o empeño”.).

La mesa
Llegué el sábado para participar de una mesa que llevaba como título “La Multifrontera hoy y ayer”, idea de mi amiga e investigadora, orgullosamente fronteriza: Liane Chipollino Assef. La mesa se integró con Carlos Urbim, Duda Hamilton, Marlon Assef, la propia Liane, Cacho Silveira, Fabian Severo, Alejandra Rivero y yo.

Fue un recorrido múltiple (y transdisciplinario) con muchas concordancias, pocas discrepâncias y un consenso: la literatura y el arte de frontera merecen ser difundidos en su especificidad lingüística y antropológica. La charla se inició con el poema “Santana” del poeta Olyntho Maria Simoes, saludado por Liane; derivó a otros tópicos; lectura de poemas de Fabián Severo (poeta mayor artíguense) y en un díscolo poema mío; intervenciones muy ajustadas (emotivas y reflexivas de Duda y Marlon), recuerdos del Teatro Florencio Sánchez y un llamado para no dejar privatizar el Teatro Municipal de Rivera, lo denuncio Cacho Silveira; todo ese río de voces desembocaron en una reseña de la profesora de literatura Alejandra Rivero quien habilitó un riquísimo dialogo con los presentes, sobre el gran cronista y novelista del “santanés”, Arlindo Coitinho.

Duda Pinto, Arlindo y los intelectualoides
Un enfático Duda Pinto (columnista de “A Plateia”) confirmó el empeño y la tarea titánica de Arlindo Coitinho. De un Arlindo solitario y poco reconocido por parte de los intelectuales “fashion” (generalmente mediocres) agrupados en la Academia Santanense de Letras y en otros circuitos elitizados. Arlindo fue celebrado (quiero creer que por casi todos los presentes) como el escritor popular contemporáneo que mejor ha reflejado el alma y la historia fronteriza. Urbim, de pie, proclamó para el año siguiente el “premio Arlindo Coitinho” a ser instituido en el marco de la 3era. Feria Binacional (y a pesar del calor: calurosos aplausos!!).

Un corte y una quebrada
El domingo a la noche, por entre cortes de calles y desfiles de carrozas, me instalé a disfrutar de tango y milonga de “Rica Cosa”, un grupo de guitarras criollas montevideanas, tocadas por jóvenes (interesante), para escuchar y aplaudir la alegría “tropicalia” de Urbim y del vicecónsul brasilero en Rivera.

A mi alrrededor Alba, Artur de Marco Zero, los amigos del CUR, un Eddy ya claudicante (fue un gran animador durante toda la feria), una exultante Marta y su afiatado equipo de guris y gurias, tan gentiles que hasta me dieron un vino (al que tuve que declinar –mea culpa mea culpa mea culpa – gracias a la gastritis). Aunque hubo tiempo para una sorpresa hacia el final de los finales: “Vira – Lata”, muchachos y muchachas fronterizos, fronterizas, que fuera de programa propusieron un “toque” de percusión y coreografía con plásticos y latas (por demás interesante).

Otra Feria Otra
Me comentaron que la próxima feria binacional tendrá más apoyos y más espacio de exposición. Y una mejor programación. Creo que hay ganas de hacer cosas, de darle más vida al Parque (ya bastante colonizada por los “pare de sufrir” y otros apocalípticos) y más allá de direcciones de cultura que no manejan presupuestos propios, y de directores con cargos políticos que entienden poco de gestión cultural. Desde nuestro lugar, y para que no nos sigam ganando la noche, seguiremos aportando a estos fuegos tan necesarios.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Segunda Feira Binacional do Livro

A abertura da Segunda Feira Binacional do Livro nos presenteou com um simbolismo marcante, prenúncio do sucesso que vinha à galope. A banda militar que se posicionava no ensolarado Parque Internacional, na verdade não era uma, mas duas. Os músicos do exército uruguaio perfilavam-se aos do exército brasileiro em uma só formação, imperceptível ao cidadão menos avisado. Estávamos eufóricos: Uruguai e Brasil se namoram, se gostam, nada mais separa nossos povos!. Os políticos falaram. Wainer Machado, prefeito de Santana, bem lembrou os vizinhos, do Paraguai, da Argentina, do Chile. Marne Osório, intendente de Rivera, propôs abolirmos de uma vez a expressão “linha divisória” de nosso alfabeto em comum.
Chegava a hora de todos conhecerem os “padrinhos”. O santanense Carlos Urbim, patrono brasileiro, e Tomás de Mattos, o patrono uruguaio, não poderiam ter sido melhor escolhidos para a ocasião. Se Urbim era um guri de pé no chão, a reinar absoluto por seu território de infância, Tomás de Mattos impôs uma energia contagiante, de fé no futuro de nossas nações que se olham em um auto-conhecimento desta vez irreversível. Foram durante todo o tempo, dois literatos que se mostraram em toda sua generosidade, afinados com os anseios de um novo tempo, de uma nova geração, eles mesmos embebidos de uma juventude contagiante.
Na feira, as carpas militares fervilhavam de crianças brasileiras, uruguaias, doble-chapas, enfim...de crianças em estado puro, que participavam com um desejo incontido de engolir o mundo de letras e artes à sua volta. Na Primeira Conferência Binacional de Cultura, Margarete de Moraes, do Ministério da Cultura do Brasil, e Alejandro Gortázar, do Ministério da Educação do Uruguai, mostraram que os governos Dilma e Mujica estão afinadíssimos, mas que temos que fazer acontecer além do institucional. Margarete, interessadíssima em nossas nuances de fronteira; Alejandro, enfático na constatação das mazelas da população local e a situação de risco social dos afrodescendentes. Uma única nota cinza: o secretário de cultura de Santana tinha agenda mais importante para a ocasião e teve de se ausentar do encontro.

O saldo extremamente positivo prevaleceu, no entanto, na figura do embaixador Vitor Gobato, do Consulado Geral do Brasil em Rivera, que demonstrou sua paixão pela fronteira, que deve render uma parceria fundamental para os próximos anos. Entre tantos eventos paralelos, de dramatizações, lançamentos, talleres e debates, nossa mesa, intitulada “ A Multi-Fronteira, Hoje & Ayer”, foi inesquecível. No início da conversa, a idealizadora do encontro, Liane Chipollino Aseff, leu um poema do poeta riverense Olyntho Maria Simões, e sem esperar, nos deparamos com a presença de sua filha logo na primeira fila. Circunstâncias que emocionam. A jornalista Duda Hamilton lembrou da emergência do resgate de nossos acervos documentais, dispersos e em situação de conservação alarmante. Cacho Silveira, o radialista e memorialista riverense, jogou afinado com o teatrólogo e poeta Michel Croz, pedindo pela não-privatização do Teatro Municipal de Rivera. Michel recitou um poema abismal sobre o ser fronteiriço: “Vivo en una ciudad que amo, que ódio, que detesto, que sueño, paraíso lleno de paraísos y cerros y pandorgas y mariamoles, y el infierno tan temido de mis enemigos (que son lo mejor que tengo)”.
Eu lembrei do Parque, ele mesmo um território e personagem de nossa história social, impregnado ainda pelas marcas da chacina dos militantes comunistas em 1950, dos tipógrafos e jornalistas federalistas em 1903, da presença dos exilados e dos espiões da ditadura recente, dos que se alistavam na “Coluna Internacional”, em pleno CTG Fronteira Aberta, no episódio da Legalidade em 1961. Algo em comum com a poesia de Michel, onde demarcamos uma fronteira assinalada por uma luta de classes, a dividir, uma fronteira excludente e por vezes brutal. Como diria o amigo Gilberto Selau, com energias que ainda gravitam ao redor.
Entretanto, a poesia falou ainda mais alto, a literatura marcou pé. O que dizer de Fabián Severo, poeta artiguense que nos trouxe o portuñol, a força de seus versos e uma objetividade à toda prova, ao analisar o que vem a ser afinal uma literatura de fronteira (se é que realmemte existe). Fabián, a “nova paixão literária de Carlos Urbim”, conforme nos confessou o patrono, revelou seu amor pela literatura de João Guimarães Rosa e Simões Lopes Neto, entre um mate e outro. O link com a literatura de Arlindo Coitinho, o cronista maior de Santana, foi inevitável, e coube a Alejandra Rivero uma análise rica em detalhes e reveladora do artista, que ela teve o privilégio de entrevistar.
Personagens da arte fronteiriça, amizades novas, e um convívio afetuoso não faltaram nesses dias de Feira. O “bat-local”, para onde invariavelmente levávamos Carlos Urbim e seus amigos foi o restaurante Girasoles, em frente a Praça Flores. Ali, as noites da fronteira foram legítimas “noites du norte”, acaloradas e ricas em brindes e boas palavras. O jornalista montevideano Guille Garat e sua Vera, vieram de “buquebus” para conferir de perto essa aura de aire libre y carne gorda, que ainda impregna o imaginário das bordas da nação oriental. Nereo Mendes, Richard Bértiz e Marcelinho Garcia completavam a roda dos amigos imprescindíveis...
Brilharam nesta feira as crônicas do patrono juvenil, Rafael Fischer, de uma humildade tão vasta quanto um mundo particular, permeado por uma prosa deliciosa. Também as reminiscências de juventude do dr. Zuil Pujol, que recitava de cor, entre outros, os poemas do alferes Wamosy. O ator J.N. Canabarro esteve no Parque e as gestoras Marta Pujol e Magaly Ivañez consagraram-se de vez! O vice-cônsul do Brasil no Uruguai, o paraibano Cláudio Santana, emprestou toda a sua incansável solicitude, a lembrar-nos com sua presença e seu sotaque “nortista”, de uma enorme nação às nossas costas, que nos molda com intensidade. Foi o que percebi ao reverenciarmos os músicos Taiguara e Sérgio Sampaio, ou o escritor Guimarães Rosa, que tanto inspirou Fabián Severo.

Outras forças fundamentais a impulsionar a Feira foram os incríveis monitores da escola Carlos Vidal, orientados pela professora Sônia; a professora Idene e a presença da Urcamp, que estiveram o tempo todo imersos em um universo histórico, político e literário, informando e auxiliando os leitores binacionais.
Um parênteses para os números parciais: nada menos que 3.500 livros foram vendidos somente nos dois primeiros dias e pelo menos 15 mil pessoas passaram pela Feira. Tudo isso confluiu para um encerramento grandioso, quando o patrono brasileiro, Carlos Urbim, comandou, levitando, um passeio em torno do Parque. De minha parte, embebido pela euforia contagiante de nosso eterno patrono, acho que avistei ao cair da tarde, três vultos felizes, passeando lado a lado, perto da fonte luminosa. Um gordinho simpático, um negro esbelto e um senhor, meio alemão, de cabelos brancos. Tchê, não quero te dizer nada, mas juro que eram o Miguel, o Bueno e o professor Müller.

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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

História e Biografia, por Sabina Loriga

A fronteira que separa história e biografia sempre foi ressaltada e, em todas as épocas, podemos observar historiadores esperando delas uma separação definitiva. Arnaldo Momigliano nos lembrou que durante o período ático Tucídides não escondia seu desprezo aristocrático pela biografia, considerada como um gênero por demais popular e que, dois séculos mais tarde, Políbio insistiria na necessidade de ultrapassar a monografia e vislumbrar a síntese geral. Mas o fosso entre os dois gêneros seria cavado em profundidade ao longo do século XIX, quando o pensamento histórico atinge seu apogeu. Dois momentos chave encorajaram uma separação definitiva. O primeiro remonta ao fim do século XVIII e início do XIX e é ligado sobretudo ao sucesso e ao impacto da história filosófica, enquanto que o segundo momento é precipitado nas últimas décadas do século XIX pelos historiadores e coincide com o divórcio entre história política e história social.

Durante a segunda metade do século XX, quando o projeto biográfico parecia definitivamente abandonado, ele é retomado por alguns autores difíceis de classificar, porém ávidos por dar voz àqueles que a História com H maiúsculo havia silenciado. E é precisamente nessa ótica - distante da abordagem tradicional da história política - que pouco a pouco se dissipou a desconfiança a respeito da dimensão individual. Dimensão essa que deu lugar à memória dos marginais, dos perdedores, dos vencidos, ou ainda daqueles que, tão simplesmente, não eram contados (no despertar da história oral, dos estudos sobre cultura popular e da história das mulheres), incluindo-os progressivamente na historiografia através da reflexão biográfica.

A crise dos grandes modelos de interpretação, marxista e estruturalista, dentre outros, sugeriu a diversos historiadores que se interrogassem sobre a noção de indivíduo. Decepcionados e insatisfeitos com as categorias englobantes de classe social ou de mentalidade (mentalité), que reduziam o sentido das ações humanas ao efeito das forças econômicas, sociais ou culturais globais, mesmo os historiadores sociais começaram a refletir sobre trajetórias pessoais. Em pouco tempo, a dimensão individual transformou-se numa questão central e a biografia foi de algum modo democratizada: a questão não é mais hoje em dia o grande homem (cuja noção foi ostracisada, ou mesmo por vezes utilizada de modo pejorativo), mas sim o indivíduo comum. Essa transformação democrática mostrou-se, e mostra-se ainda, penosa.

Quais são os critérios que nós utilizamos para avaliar o peso dos fatos históricos, das práticas sociais, das relações emocionais? E, por outro lado, podemos compreender a evolução histórica a partir das experiências individuais? Começaremos por um exame da fronteira, difusa e instável, que separa a biografia da literatura e da história. A seguir, abordaremos as diferentes figuras biográficas elaboradas pela historiografia ao longo dos séculos XIX e XX (os heróis, o homem patológico, o homem particular, etc.).

Tradução livre de Rodrigo Bragio Bonaldo - Doutorando em História pelo PPG-História/UFRGS do original em Francês.

Conferência:

"Le moi de l' historien'
Dia: 10/10/2011
Horário: 14:30 h
Local: Pantheon do IFCH, Campus do Vale


MINI-CURSO:
'Historie et biographie'
Dia: 11/10/2011
Horário: das 10h às 12h e das 14h às 16h
Local: Pantheon do IFCH, Campus do Vale

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Dia em que o Vingador da Ilha encontrou o Poeta do Bonfa

Carlos Gardel devia estar cantando a plenos pulmões lá na eternidade. Onde os viajantes estão ébrios de enigmas e as almas são seduzidas por flautas que levam a abismos ilusórios, como bem lembrou o filósofo alemão. Assim estava configurado o dia em que Valdir Agostinho resolveu visitar Nei Lisboa. O vingador da Ilha, roqueiro intrépido, bruxo e aventureiro, iria ter com o niilista do Bom Fim, o poeta das baladas perdidas, de uma geração tão romântica quanto atormentada. "- A vida é mágica, na mais pura acepção da palavra" , insistia Valdir. Lembro assim daquele dia, com Agostinho cantando pelas ruas do bairro gaúcho. “Não quero dinheiro, só quero amar, só quero amar...". O tempo ainda não havia se precipitado, e Tim Maia - como tantos outros malucos - ainda curtia das suas.
Partimos da nossa Barra da Lagoa pela manhã, e o almoço aconteceu entre os precipícios de Torres. Depois de avistarmos águas gaúchas, num rasgo de visão, Valdir captou as vibrações de Nei, a perambular pelas ruelas toscas do interior do Bom Fim. Conversamos sobre os caras que nos fazem a cabeça, como Antônio Adolfo, Eliete Negreiros, Paulinho Nogueira....e os gringos também. Mas esquecemos de Allen Ginsberg, Woody Allen, Andy Wahrol, Marshall Berman, Lou Reed. Nada de Robert Raushenberg, Laurie Anderson, Debby Harry, Miles Davis, Truman Capote, nada disso. Acho que o novo belicismo ianque nos afastou de Nova Iorque. Queríamos los cucarachas. Queríamos Charly Garcia, Ruben Rada, Sivuca e Lô Borges. A vida levitava na mágica estrada, revivendo o sonho de velhos roqueiros e tantos loucos que andam pelas ruas de Buenos Aires e Montevidéu.
A Estrada do Mar e seus motoristas enigmáticos. Como aquele garotão de chapéu de cowboy, que tentou um racha conosco. Enfim, a infinita highway veio dar na capital sulista, último reduto do torrão brazuca antes das terras castelhanas. Finalmente o bairro, o alvo, reduto do poeta. As estrelas luzindo no céu. Nei demorou para abrir a porta, disse que estava imerso em um programa de computador, lá no quarto dos fundos. Abaixo de nós, o Parque da Redenção, cenário de noites mal dormidas, de batalhas campais entre os loucos e a polícia, reduto de velhos uivos. Nei e Valdir, é nessa hora que um amigo estende a mão. Declarações de admiração recíproca e já estamos de volta às ruelas do bairro. "Vou pedir pra você ficar, eu te amo, eu te quero bem..." Valdir iluminava com seus gestos o que ainda restava de uma década ingrata.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Como fabricar um suicida



Susan Abdalalah
(Poetisa palestina)


Despoje-o de água e de comida.
Rodeie sua casa de armas de guerra.
Ataque-o por todos os meios
E a todas as horas,
Especialmente pela noite.



Derrube sua casa,
Arrase sua terra cultivada,
Mate seus entes queridos,
Especialmente crianças,
Ou deixe-os mutilados.



Parabéns: você acaba de criar
Um exército de homens-bomba.




(*) Este pequeno poema, terrível em seu grito, doloroso em sua angústia, instigante em sua denúncia- quebra todos os cristais interiores. Poderia chamar simplesmente: PAREM DE MATAR PALESTINOS!


Leia e passe adiante-
João Batista Marçal ( historiador gaúcho)

Jogos da Memória segue o apelo de nosso amigo publicando esta poesia-denúncia, em solidariedade as milhares de vítimas deste conflito: Salam, Shalon, peace, paz!