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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Como fabricar um suicida



Susan Abdalalah
(Poetisa palestina)


Despoje-o de água e de comida.
Rodeie sua casa de armas de guerra.
Ataque-o por todos os meios
E a todas as horas,
Especialmente pela noite.



Derrube sua casa,
Arrase sua terra cultivada,
Mate seus entes queridos,
Especialmente crianças,
Ou deixe-os mutilados.



Parabéns: você acaba de criar
Um exército de homens-bomba.




(*) Este pequeno poema, terrível em seu grito, doloroso em sua angústia, instigante em sua denúncia- quebra todos os cristais interiores. Poderia chamar simplesmente: PAREM DE MATAR PALESTINOS!


Leia e passe adiante-
João Batista Marçal ( historiador gaúcho)

Jogos da Memória segue o apelo de nosso amigo publicando esta poesia-denúncia, em solidariedade as milhares de vítimas deste conflito: Salam, Shalon, peace, paz! 

terça-feira, 29 de março de 2011

A imigração árabe no Rio Grande do Sul


Entrevista de Liane Chipollino Aseff a Marcelo Campos.

Quem eram os imigrantes árabes que chegaram ao Rio Grande do Sul?
Os primeiros imigrantes árabes que chegaram por aqui deixaram o Oriente Médio por volta de 1860. Tinham basicamente a nacionalidade sírio- libanesa, e em menor número os palestinos. Eles deixavam suas pequenas aldeias e povoados, localizados na região da atual Síria e Líbano, chamada naquele momento de Monte Líbano. Os registros oficiais apontam a chegada significativa desses imigrantes aos portos de Montevidéo, Buenos Aires, Rio de Janeiro e Santos. Posteriormente, nas décadas de 1870, 1880 e 1890 essa movimentação iria se acentuar, sendo que muitos desses imigrantes acabaram fixando residência na faixa de fronteira gaúcha, em especial nas cidades de Santana do Livramento e Rivera, Barra do Quaraí, Bagé, Quaraí, Artigas e Chuí.

Como esses imigrantes libaneses e sírios chegaram à fronteira?
Chegavam à região através de cartas e indicações de parentes de suas cidades originárias, que já estavam estabelecidos na fronteira gaúcha. A grande maioria vinha através do Porto de Montevidéo. Eram recebidos por algum parente e logo em seguida viajavam de trem até a cidade em que moravam seus familiares. Ao chegarem nas cidades gaúchas, os imigrantes árabes vivenciaram a solidariedade de seus pares já estabelecidos por aqui. Após uma viagem longa e exaustiva, muitos traziam algum tipo de seqüela da travessia do atlântico. Então, nessa primeira fase da imigração, que vai de 1890 a 1920, aqueles patrícios que já estavam estabelecidos, faziam o ritual do acolhimento aos irmãos no país desconhecido, Fossem sírios, libaneses, ou os raros palestinos e egípcios. O abrigo e orientação nunca lhes foram negados. Recebendo referências sobre os costumes e algumas palavras do idioma local, os viajantes sentiam-se seguros para dar início a sua jornada no sul da América. Essa foi a trajetória comum entre as famílias e descendentes de árabes que residem no Rio Grande do Sul.

Quais os motivos que levaram os emigrantes árabes deixar a região?
Podemos falar de uma série de motivos como o crescimento da agricultura e a diminuição de atividades ligadas ao pastoreio, forçando uma urbanização maior ao mesmo tempo em que aumenta o controle governamental sobre essa população: a administração pública vai dar preferência a camponeses assentados, que pagavam impostos e que estavam sujeitos ao recrutamento militar. Por outro lado, se o aumento dessa urbanização provocou um crescimento populacional, com o declínio das epidemias e da fome, o crescimento econômico favorecia apenas a uma elite que estava ligada ao governo e aos grandes capitais. É um momento de muita desigualdade social, e esse progresso, descontínuo e desigual entre as regiões, classes sociais e grupos religiosos aprofundam o sentimento de busca por alternativas e a emigração.

Houve também motivos políticos e religiosos?
Sim, a rejeição ao domínio turco-otomano alcançou seu auge entre os séculos 18 e 19 Tornou-se mais forte também a disputa entre cristãos e mulçumanos e entre as seitas maronitas e drusas, que viviam na região montanhosa de monte Líbano. Não é por acaso, que a maioria das famílias de pioneiros sírio e libaneses
que vivem hoje no Rio Grande do Sul e especialmente na região da fronteira brasileiro-uruguaia, descende de cristãos maronitas e em menor quantidade de muçulmanos drusos. Também colaborou para isso o fato do império otomano instituir em 1903 o alistamento obrigatório dos cristãos no Líbano para auxiliar a guerra dos balcãs, fazendo com que muitos cristãos maronitas e ortodoxos enviassem seus filhos para fora do país, fugindo dos dominadores otomanos. muitos intelectuais e profissionais liberais perseguidos pelo governo buscaram o exílio nesse momento.
Os palestinos, quando chegaram?
A presença significativa de imigrantes palestinos no Brasil pode-se dizer que irá ocorrer após a criação do estado de Israel em 1948 e nas décadas seguintes, quando o conflito pela disputa do território palestino se acentua. A partir daí toda a faixa de fronteira será escolhida como destino de muitas famílias oriundas da diáspora palestina. No final da década de 60 uma segunda e maior imigração palestina se acentua com a guerra dos seis dias e a ocupação do território por Israel.

O que esses estrangeiros encontraram na nova terra?
Encontraram o que eles passaram a chamar de a terra da promissão, pois tanto nas pequenas cidades do pampa gaúcho como no interior uruguaio, foram ganhando um espaço privilegiado para sua nova profissão de trabalhadores informais, geralmente ligados ao comércio de tecidos, produtos de armarinho e miscelâneas.

Os imigrantes árabes sempre foram comerciantes ?
Muitos fizeram riqueza dessa maneira, mas ao contrário do que se imagina o trabalho no comércio, que invariavelmente começava como mascate, não fazia parte do cotidiano dos sírios e libaneses em sua terra natal. Em seus povoados árabes eles costumavam trabalhar na agricultura. Eram em sua maioria camponeses desabituados com o urbano e o comércio, e tiveram que se reinventar para sobreviver aqui. Os sírios e libaneses que optaram por percorrer as estâncias do interior uruguaio e a fronteira se depararam com um universo distinto daquele que estavam acostumados, embora encontrassem espaço garantido nessa nova profissão de trabalhadores informais.

Como foram recebidos pela população gaúcha ?
A população rural e das pequenas cidades do interior os observava chegar com seus caixotes de mercadorias em um misto de estranheza e fascínio, seja pela vestimenta, seja pela sonoridade da língua, e também pelo exotismo que trazia a simpatia e um certo encanto oriental. O fato é que muitos árabes que vendiam suas mercadorias de campo em campo, de vilarejo em vilarejo, auxiliaram na criação de um novo grupo de consumidores que estava afastado desse universo: as mulheres, os jovens e as crianças.

Como esses imigrantes se consolidaram na terra nova?
Através de muito trabalho e determinação para vencer nesse novo lar. Vale lembrar a importância do papel da mulher árabe no processo imigratório. Enquanto o marido trabalhava fora, geralmente mascateando, a mulher tomava conta da casa, da
família, em muitos casos promovendo alguma atividade que aumentava a renda familiar, garantindo em muitos casos o êxito dos negócios. Na falta da figura masculina, a mulher árabe tomou a frente do compromisso com o sustento da família, muitas vezes cuidando dos negócios. No princípio os árabes sofreram estranhamento e rejeição por parte da sociedade local, sendo imediatamente identificados como turcos. A confusão que tanto desagradou a nação árabe da diáspora tem origem nos passaportes emitidos aos emigrantes pelo império turco otomano que dominou a região até 1918. Para preservar seus filhos deste constrangimento, em alguns casos, foi imposta a segunda geração o afastamento da cultura e raiz árabe. Os descendentes cultivaram a tradição do país que seus pais escolheram para morar, tornando-se cidadãos genuinamente gaúchos. Na fronteira, a maioria das famílias oriundas dos pioneiros sírios, libaneses e palestinos encontra-se estabelecida como tradicionais comerciantes, profissionais liberais autônomos, escritores, artistas. Bem sucedidos, plenamente integrados a cultura pampeana e brasileira.

Atualmente, quantas famílias sírio, libanesas e palestinas vivem no estado do Rio Grande do Sul?
É difícil apontar, pois não existe um censo específico dessas comunidades, mas conforme dados do consulado, que são estimativas, a comunidade libanesa é de aproximadamente 90mil libaneses e descendentes que vivem no estado. Em relação ao número de famílias que deram origem às descendências, o consulado não tem essa informação. Alguns membros da comunidade trabalham com uma estimativa de 600 a 1200 famílias no estado.
Com relação a comunidade palestina, os dados estão defasados, apontam para uma estimativa 25 mil palestinos no estado. Mesmo que não exista um censo oficial sobre a comunidade, a Fepal/ RS, (Federação das Entidades Palestinas no Brasil) trabalha com a informação dos anos 80. Em 2000, acredito que este número subiu consideravelmente, visto os constantes conflitos naquela região e todo oriente médio.

A comunidade árabe vivenciou algum tipo de preconceito?
No início sofreram discriminação e preconceito por sua origem, especialmente no interior do estado e pampa. Eram erroneamente identificados como turcos, ainda existia aquele mito do turco cruel, impiedoso, transmitido em parte pelos cristãos.
Ainda hoje se ouve algumas pessoas usando esse apelido e outras difamações contra a comunidade. Felizmente a maioria da comunidade não árabe tem ótima relação com os descendentes e imigrantes. Embora o preconceito não seja somente para o povo árabe, os preconceitos são seculares, não? Recentemente, após o 11 de setembro de 2001, quando do ataque às torres gêmeas nos estados unidos, houve um retorno a esse tema, com a associação por parte da grande mídia da comunidade árabe em geral, ao extremismo e ao chamado terrorismo.

O que poderíamos falar sobre a miscigenação, a mistura dos costumes árabes com o povo riograndense, a herança cultural que deixaram aqueles primeiros imigrantes?
A herança árabe é uma marca permanente em nosso cotidiano. Está na escrita, na arquitetura, na gastronomia, nas danças e contos populares. O que logo nos aparece à lembrança é a culinária. A comercialização de comidas típicas daquela região, como o kibe e a esfiha hoje são popularmente conhecidas, entre tantas outras. Também os temperos, como a hortelã, o gergelim...o fato é que o universo mourisco perdura e faz parte da nossa identidade brasileira e gaúcha.
Apesar de ainda haver certa dose de preconceito, por conta da desinformação e dos mitos que circulam inclusive na mídia, felizmente a maioria da comunidade árabe tem ótima relação com as demais, em um ambiente de tolerância e diversidade. Seus elementos culturais estão plenamente integrados a identidade brasileira e gaúcha, se fazendo presente na escrita, arquitetura, gastronomia, danças, contos populares e vocabulário. Também não faltam imigrantes e descendentes de árabes e palestinos que se tornaram “fãs” do churrasco e do chimarrão. O chimarrão pode ser considerado uma bebida dos “dois mundos”, pois hoje em dia, tanto palestinos, libaneses e sírios sorvem um mate amargo em seu cotidiano seja de lazer ou trabalho. Alguns historiadores chegam a defender a tese de que a própria bombacha é herança árabe, pois seu desenho teria sido adotado pelos espanhóis do norte da espanha, da região conhecida como “La Maragateira”, chegando à América do Sul com esses imigrantes, chamados de maragatos.

Texto base do programa O Rio Grande em Capítulos, da rádio Guaíba, de Porto Alegre. Este programa teve por foco a imigração árabe no Rio Grande do Sul e foi ao ar em capítulos diários de 3 minutos, entre os dias 13 e 25 de fevereiro.
Fotos: abertura - grupo de imigrantes árabes reunidos sob o obelisco do Parque Internacional, na fronteira Santana do Livramento e Rivera, em 1953 (acervo Samir Kasakka). Passaporte: Documento do imigrante libanês Jorge Adelo Fidelis (acervo Sibia Adelo Bouchacourt). Família - grupo de libaneses reunidos em Rivera, por volta de 1935 (acervo Maria Aseff). Clique na imagem para ampliar.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Caligrafia Árabe


Após a revelação do Alcorão, a escrita árabe se consolidou e a caligrafia começou a ganhar um sentido artístico, pois a palavra possuía um caráter sagrado e sua representação gráfica precisava estar à sua altura.

Desse modo, as letras começaram a ganhar belas formas nas mãos dos escribas artistas que se destacaram ao longo dos séculos. A caligrafia árabe expandiu-se especialmente nos países em que houve presença significativa de muçulmanos. Nessas regiões, os calígrafos buscavam desenvolver a melhor criação artística; dessa forma, pintavam e desenhavam, transformando a letra em movimento vital.











De fato, procura mostrar a beleza em formas e movimentos que se expressavam sem dizer. Nesta longa caminhada, a trajetória da caligrafia árabe seguiu dentro e fora da Península Arábica. A caligrafia era utilizada nas sepulturas e nos sítios arqueológicos, nas telas dos museus e em exposições caligráficas.

Os artistas e calígrafos incorporaram a caligrafia árabe, colocando nela corpo e espírito, coração e mente. Já foi dito que, nas artes plásticas mostra outro mundo , com a música, a língua - fotografia e poesia, a consciência. A caligrafia árabe representa o corpo, a alma e os sentimentos desse mundo da arte.


Este texto é uma colaboração do calígrafo e artista plástico libanês, Moafak Dib Helaihel, radicado em Curitiba. Na foto, Moafak e a obra "Caligrafia Árabe", lançado no dia 24 de março, durante o II Festival Latino-Americano de Cultura Árabe.

domingo, 27 de março de 2011

domingo, 7 de novembro de 2010

Mundo Árabe: tensões e conflitos

Boa noite. Confesso que me sinto gratificado pelo convite de falar sobre o mundo árabe seu problema crucial e crônico,um problema que chega a ameaçar a frágil paz mundial. Gostaria de me apresentar para esta platéia jovem, esclarecida, politizada, e que gosta de saber sobre os problemas internacionais, a fim de tomar uma posição justa - progressista e humana - participando assim na resolução dos problemas da humanidade e mostrando e afirmando que e um mundo melhor e possível.

Meu nome é Khader Othman, sou membro do Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino. O comitê foi criado em 2002, durante o ataque israelense ao campo de refugiados de JENEEN que mostrou uma resistência extraordinária, de maneiro que foi chamado JENEENGRAD , em alusão a Leningrad ou Stalingrad, duas cidades russas que ganharam este nome pela resistência fora de comum apresentada pela população durante a segunda guerra mundial.

A historia registra duas sérias tentativas para dominar o Oriente Médio. A primeira foi no século 11 e durou ate século 13, e que foi chamada “as cruzadas”. A segunda tentativa é o conflito árabe-israelense que esta perdurando até hoje. A causa palestina é a causa mais longa, mais injusta feita pelo colonialismo europeu, temperada por forte dose de ódio e racismo, para servir aos interesses econômicos colonialistas, sem se importar nada com os valores humanos. Suas características foram bem conhecidas, pela brava resistência do seu povo, sua vitalidade e dinamismo, e pela solidariedade dos povos amantes da paz e da justiça.

Para entendermos melhor o conflito árabe-israelense e suas conseqüências, precisamos voltar na historia, exatamente para ano de 1895, quando no final de século 19, quando Teodor Hertzel ( um jornalista judeu) consegue realizar o primeiro congresso judeu na Europa. Era o auge da euforia das idéais imperialistas e ações colonialistas no mundo, lideradas pelas forças máximas da época, a Grã-Bretanha e França. Aquele pequeno congresso produziu uma idéia que consistia em: as etnias judaicas no mundo todo poderiam buscar um projeto de povo, e que esse povo já que e perseguido na Europa, precisa de uma pátria. Esta idéia nova no cenário internacional precisava de uma mãe protetora, e não tinha melhor mãe, que o colonialismo, a mãe dominante de então. Para realizar este papel, não foi feita apenas uma aliança, muito menos foi uma cooperação. Foi a realização dos interesses entre dois, desencadeando sentimentos de violência e barbarismo na região .

Os demônios imperialistas guardavam a oportunidade para colocar a força Judaica em ação, e era necessária uma prova de fogo para dar a benção dos colonialistas. Oportunidade que veio na primeira guerra mundial 1914- 1917, onde a legião judaica participou ativamente na guerra a favor dos aliados Britânicos e Franceses, de maneira que este legião ganhou a confiança dos imperialistas que pagaram à vista o preço da sua participação na guerra.

Em 02 de novembro 1917, meses depois do fim da guerra saiu uma nota oficial do escritório do ministro das Relações Exteriores britânico, Lorde James Balfour, que dizia o seguinte : O Governo da sua majestade encara favoravelmente o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu, e empregará todo o esforço no sentido de facilitar a realização desse objetivo, entendendo-se claramente que nada será feito que possa atentar contra os direitos civis e religiosos das coletividades não-judaicas existente na palestina nem contra os direitos e o status político de que gozam os judeus em quaisquer outros países. Desde já me declaro extremamente grato a v. sa. pela gentileza de encaminhar este declaração ao conhecimento da Federação Sionista

Esta declaração desmascara claramente a conspiração feita a mão e temperada pelo racismo e o ódio cultivado pela burguesia dominante na Inglaterra e França e a burguesia judaica, pois sem consultar o povo palestino decidem enviar para palestina, sem nenhuma base legal, um indesejável intruso, contrariando frontalmente o interesse palestino. Será esta atitude “uma simples pena dos judeus perseguidos” ou será que eles acertaram um papel para esta força recém-nascida atuar no futuro da região a serviço do criador ?.

Passaram-se mais de trinta anos e uma outra guerra mundial para a promessa do governo da sua majestade se realizar e se concretizar. Foi em 1948, e os sionistas como um grupo bem treinado e bem armado com ajuda dos britânicos e franceses, exatamente em 15 de maio de 1948, conseguem expulsar uma boa parte do povo palestino e instalar um governo judeu na terra conquistada.
.
Podia terminar a novela neste ponto e com o tempo se acharia uma solução para o problema dos judeus perseguidos e dos palestinos injustiçados. Mas parece que o trato acertado era diferente do papel traçado para o estado recém-nascido. Era outro. O seu papel era perturbar, desestabilizar e atrapalhar qualquer possibilidade ou tentativa de progresso econômico, militar, ou até cultural para a região, mantendo sua dependência do centro econômico mundial . Para sustentar esta teoria e não ficar na mera acusação, vamos analisar os fatos históricos que foram surgindo na região, em virtude da criação do estado de Israel.

O mundo testemunhou e documentou em 1956 (8 anos após concretizar o estado judeu) a agressão israelense ao Egito pelos britânicos e franceses com participação ativa e violenta dos Israelenses.O motivo: o Egito nacionalizou canal do Suez. O mondo testemunhou e documentou em 1967 os ataques israelenses sobre três estados árabes, ocupando grandes áreas dos três estados árabes, no que foi chamado guerra dos seis dias, sob um motivo nada aparente para um contexto de guerra.

O mundo testemunhou e documentou em 1973 a guerra de Yom Kippur entre Egito e Síria, de um lado, e Israel de outro. O motivo da guerra era a reconquista das terras perdidas em 1967. O mundo testemunhou e documentou em 1980 o ataque aéreo relâmpago dos caças israelenses às instalações do programa nuclear do Iraque, onde destruiu por completo estas instalações mantendo a supremacia nuclear israelense sobre toda a região. O mundo testemunho e documentou em 1982 o ataque israelense e a ocupação do sul de Líbano para eliminar as forças da OLP. Durante 88 dias as forças israelenses cercaram a capital do Líbano, Beirute. Terminada a guerra, com a expulsão das forças da OLP do Líbano para Tunísia.

O mundo testemunhou e documentou em 1988 e durante cinco anos o levante palestino contra ocupação e pela liberdade e independência, chamada INTIFADA, que permitiu o surgimento das conversações de OSLO. O mundo testemunhou e documentou em 1996 a agressão israelense ao sul de Líbano, atacando a resistência libanesa que lutava para libertar sua pátria , os civis, entre mulheres, velhos e crianças fugiram procurando abrigo e seguranças nas instalações das forças da ONU. Foram duramente abatidos pelos caças israelenses dentro das instalações da cidade de QUANA, matando 103 pessoas, na sua maioria crianças e idosos, e dois soldados a serviço da ONU. O mundo testemunhou e documentou em ano 2001 a segunda INTIFADA, que durou também quatro anos, proclamando a independência, a liberdade e a seriedade nas conversações.

O mundo testemunhou e documentou em 2006 o ataque israelense sobre o sul do Líbano, cujo motivo foi liquidar as forças do Hizbollah, quando morreram 97 militantes do Hizbollah e 1.397 civis, além da destruição da infra estrutura que servia o povo libanês.

Mal termina uma guerra...começa a contagem regressiva para a guerra seguinte. E agora, alguém tem dúvida do papel destrutivo e racista israelense para toda a região? Basta olhar o mapa da palestina no começo das conversações de OSLO onde todos procuravam a perdida PAZ e o mapa atual !!! Para concluir, digo que dado o papel exato das forças sionistas israelenses, nós vamos permanecer em choque constante e em luta permanente até derrotá-las para o bem da humanidade e para o bem dos próprios judeus.

Palavras de Khader Othman, membro do Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino, proferidas durante a I Semana da Cultura Árabe e do Islã no Contemporâneo, realizada na Universidade do Estado de SC, de 18 a 21 de outubro. (foto: outdoor no Forum Social Mundial 2003, em Porto Alegre).

sábado, 30 de outubro de 2010

Semana Árabe em Imagens

Martha Chalella, Liane Aseff, Laurence El Tors e filho, Ana Rosa Normey

Jose Maria Almada Sad e Ana Carletti


Lima, Zohra e Adib El Hanini, Fábio Regio Bento, Ana Carletti, Mohamad e Jamile El Hanini


Liane Aseff e Renato Costa


Zohra El Hanini e Patrícia Cossio Chaves



Liane Aseff e alunos da Unipampa


Ibrahim Al Zaben, embaixador da Palestina no Brasil, entre alunos da Unipampa


Público lotou o auditório da Unipampa


Renato Costa, Ricardo Kotz, Liane Aseff e Jose Maria Almada Sad
Imagens dos eventos que aconteceram no Auditório da Unipampa - Universidade Federal do Pampa, durante a Semana da Cultura Árabe, que aconteceu em Santana do Livramento (RS), de 25 a 28 de outubro. (clique nas imagens para ampliar)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Caminhos da solidariedade: permanências e passagens da cultura árabe na fronteira.

A presença da comunidade árabe sírio, libanesa e palestina na fronteira pode ser traduzida como um mundo constituído através da solidariedade, amizade e disposição para integrar-se a novas experiências e lugares. Difere bastante daquele universo apresentado pela literatura ocidental, que mostra o árabe como um ser constantemente bem disposto, afeito ao trabalho, a diversão e ligeiro no troco, como sugere muitas vezes, por exemplo, o escritor Jorge Amado na representação dos árabes, por ele carinhosamente chamado de turcos. Como se sabe, a confusão que tanto desagradou a nação árabe da diáspora tem origem nos passaportes emitidos aos imigrantes pelo Império Turco Otomano que dominava a região que hoje compreende a Síria e o Líbano até 1918. Parece mesmo engraçado, mas conversando recentemente com o escritor catarinense Salim Miguel, descendente de libaneses, ele lembrava que encontrou apenas um turco no Brasil, no estado do Maranhão em mais de 80 anos de vida.

Os imigrantes árabes que chegaram ao Uruguai, já ao desembarcarem no porto de Montevidéu puderam vivenciar a solidariedade de seus pares estabelecidos por aqui. Após uma viajem longa, freqüentemente insalubre e exaustiva, muitos traziam algum tipo de seqüela da travessia do Atlântico. Então, nessa primeira fase da imigração uruguaia e fronteiriça, que vai de 1890 a 1920, aqueles patrícios- ou paisanos, como costumavam ser chamados entre si- que já estavam estabelecidos, faziam o ritual do acolhimento aos irmãos no país desconhecido, fossem sírios, libaneses, ou os raros palestinos e egípcios. O abrigo e orientação nunca lhes foi negado. Recebendo referências sobre a região, a comunidade e algumas palavras do idioma local, os viajantes sentiam-se seguros para dar início a nova jornada na América. Freqüentemente foi essa a trajetória de muitas famílias descendentes de árabes que residem em Rivera e algumas que escolheram Santana do Livramento para morar. Lembro aqui de famílias libanesas da primeira geração como as famílias Posada, Normey, Najas, Curi, Mansur, Aseff, Neme, Figari, Saker e da segunda geração, a família Tarabay. Em Santana, vindas através do porto de Santos, as famílias Salim, Chein, Maluf, Hilal e segunda geração, a família El Tors, Kazzaka, entre outras, que vivenciaram os caminhos dessa solidariedade na fronteira. Em Santana do Livramento, os pioneiros palestinos que chegaram no final dos anos cinquenta foram as famílias Hussein, Abdallah, Bannura, Zaidan, Shueik e a jordaniana, Badra.

O êxito dos pioneiros, de maioria sírio e libaneses pode explicar o estímulo dado ao processo migratório nos anos seguintes. O ingresso oficial de imigrantes no Uruguai registrado pela Dirección General de Imnigración teve início em 1887. Após três anos de funcionamento, em 1890, o órgão já registrava a entrada de 2.020 imigrantes árabes ao país! Embora estivesse em vigor no país uma dura lei de imigração assinada pelo presidente Herrera y Obes que limitava a entrada de “estrangeiros asiáticos, africanos, ciganos, deficientes físicos e bohemios”.
Muitos viajaram clandestinos nos navios e aqueles que conseguiam estabelecer-se costumavam chamar seus parentes e amigos para que também viessem fazer o futuro no Uruguai e na fronteira, formando uma intensa corrente de imigrantes que se estendeu dos anos 1880 até o final da década de 1950. A maioria desses imigrantes chegava de pequenas aldeias camponesas, localizadas nas montanhas do interior da Grande Síria, (atual Líbano), na região denominada Monte Líbano. Nessa primeira fase imigratória, viajavam muito jovens solteiros em busca de uma independência econômica. Aventuravam-se pelo interior da república uruguaia, alguns, em povoados de fronteira tomando a campanha para si, vendendo suas variadas mercadorias, em busca da clientela que o novo ofício exigia. No princípio foram vistos com receio pela população rural, até ganharem confiança e amizade da maioria das famílias da campanha. Sua freguesia principal eram as mulheres e crianças que moravam nas estâncias ou nas vilas próximas a elas. Também foram vítimas de violência, discriminação e difamação, como o episódio acontecido na capital uruguaia em 1923, quando foi publicado um artigo polêmico, escrito por um articulista do jornal La Mañana. O jornalista acusava comerciantes libaneses de esperteza e má fé, e segundo seu relato, suas lojas eram freqüentemente incendiadas e seus proprietários beneficiados com o seguro.

A partir das primeiras décadas do século que vinha à luz, as cidades da fronteira se tornaram alvos novos para a maioria da população estrangeira que chegava às capitais do Prata. Logo a comunidade libanesa estabelecida em Montevidéu soube que Rivera convertera-se em centro aglutinador do comércio e da emergente indústria da carne e do couro. A modernidade havia se instalado na região com a introdução de serviços que favoreciam o franco desenvolvimento daquela comunidade do interior da república, com significativos atrativos para os novos moradores. A industrialização, por sua vez, agregou grande desenvolvimento cultural e econômico para a região. Inicialmente, as charqueadas, depois os frigoríficos estrangeiros excederam a mão de obra de trabalhadores locais, abrindo frentes para operários capacitados, como os imigrantes espanhóis, italianos e libaneses. Porém, se os europeus buscavam trabalhos sazonais nas indústrias, os árabes preferiam a autonomia da atividade varejista, baseada na informalidade. A maioria dos entrevistados nesta pesquisa se utilizaram da expressão liberdade para justificar sua escolha pelo cotidiano do comércio ambulante, mesmo sob condições de insegurança e intempérie.
Em Rivera, o comércio da rua central era dominado pelos espanhóis e italianos. Atravessar a fronteira e obter mercadorias sob baixos impostos era um atrativo para muitos comerciantes de cidades próximas. Aos imigrantes abria-se também a possibilidade de uma fiel clientela binacional, devido a constante instabilidade cambial e a economia pendular, característica da região. A comunidade libanesa estabeleceu-se na calle Brasil, próxima ao Ferro Carril, onde havia constante fluxo de pessoas, diligências, carroças. Os comerciantes árabes perceberam ali a grande oportunidade de vender suas mercadorias para a população local, que vinha tanto da cidade como do interior. Os jovens imigrantes que desembarcavam na ferroviária logo percebiam nos arredores um auspicioso núcleo comercial. Aquela via era habitada por uma população de maioria árabe, como carinhosamente relembrou o poeta Zaz Recarey que anotou: "había allí una turcada maravillosa”. Ele próprio, filho de libaneses.
Entretanto, os libaneses não tiveram atuação destacada apenas no comércio, interagindo na comunidade fronteiriça como professores, poetas, artistas. Apenas para citar alguns, lembremos de Hipólito Zaz Recarey e Clarel Neme. Homens valentes, não foram indiferentes às transformações políticas que sacudiram o Uruguai no início do século 20. O sentimento de pertencimento a uma segunda pátria, uruguaia, fez com que o imigrante acastelhanado Emilio Nizarala, radicado em Rivera, se engajasse na coluna de seu amigo, o líder blanco Aparício Saraiva e fosse defender sua pátria. Outros libaneses também apoiaram a causa como o jovem Khalil Aseff, que após ser perseguido pelo governo Batlle, cruzou a fronteira recomeçando vida nova no lado brasileiro. A figura de Juan Molke se impõe no cenário riverense dos primeiros anos de 1900 destacando-se como empresário e líder da colônia libanesa local. Estabelecido e próspero comerciante, atuará como uma espécie de cônsul, estimulando e patrocinando a vinda de jovens solteiros, que tinham esparsas oportunidades de trabalho em seu povoado.

A comunidade sírio-libanesa então constitui seus espaços de cultura e sociabilidade, quando em 1917 organiza a Liga Patriótica Libanesa, atual Sociedade Libanesa de Rivera. O lugar era cedido por um patrício, sendo frequentado pelos libaneses de Rivera e Santana, pois do lado brasileiro nunca efetivou-se nenhum tipo de sociedade recreativa. Em 1948, os sócios da Sociedade decidem-se pela construção de um Panteon no cemitério riverense. No final da década de quarenta, com o falecimento de alguns pioneiros, a Sociedade, desmobilizada é desativada retornando suas atividades somente em meados dos anos 80, com alguns velhos imigrantes e seus filhos. Porém, assim como o cônsul Molke auxiliava os jovens, também mantinha sua autoridade sobre eles, estimulando e sugerindo o casamento entre as moças libanesas que chegavam ou as que já estavam estabelecidas na cidade. Uma forma eficaz de perpetuar as raízes árabes no novo chão. Entretanto, com o decorrer do tempo muitos libaneses, especialmente os que viviam do lado brasileiro da linha divisória, e que ali haviam constituído um clã, vão integrar-se profundamente a cultura local, ocultando sua raiz árabe. Vários seriam os motivos para esta perda do referencial cultural, e a segunda geração, constituída por brasileiros-árabes, nunca foi estimulada a falar o árabe. Seus pais logo souberam que o êxito dos negócios e a mobilidade social estavam ligados à fluência da comunicação em português e ao distanciamento da imagem estigmatizada de “turcos”. A necessidade em se relacionar com os clientes e com a comunidade fronteiriça exigia dos imigrantes a fluência nos idiomas português e espanhol. Outra limitação estava relacionada ao casamento. Casaram-se com mulheres brasileiras que não tinham interesse que seus filhos convivessem com a cultura árabe. Talvez para evitar a discriminação que essa primeira geração de imigrantes sentiu, logo no início de seu estabelecimento em Santana.
Ainda assim, a busca por uma identidade remanescente constituiu-se de um elemento muito forte para alguns imigrantes, na manutenção de sua raiz nesse novo ambiente. Enquanto construção cultural, certamente cada grupo sente-se estimulado a valorizar sua identidade. Conforme ensina Edward Said, o mundo árabe é feito de identidades múltiplas, onde diferentes manifestações culturais conviveram dentro de uma mesma região. Claro que a relação entre os grupos ao longo dos séculos não se mostrou fácil ou pacífica, no entanto, o povo árabe sempre conviveu com o diferente, com o outro. Identifiquei dois fortes centros de resistência ao aculturamento, dois territórios da cultura árabe na fronteira: o armazém de Rage Maluf e os encontros dominicais de imigrantes libaneses e palestinos no Parque Internacional. O armazém de Rage, semelhante a um clube, constituía-se em espaço da sociabilidade, recebendo compatriotas que residiam em Rivera e Santana. Ali costumavam confraternizar ao final da tarde, quando terminava o expediente de trabalho. Buscavam o local para se distraírem, fosse conversando em árabe, fumando ou jogando xadrez. Nos início dos anos 50, as manhãs de domingo eram sagradas para os imigrantes, quando costumavam reunir-se em frente ao obelisco do Parque Internacional, para conversar em árabe e tratar de temas sérios como a sempre turbulenta situação política do Oriente Médio ou, simplesmente, fofocar. Alguns costumavam levar seu chimarrão, como Sami Kazzaka, outros iam acompanhados dos filhos, como Ibrahim Tarabay. Ali, reunidos, estavam os integrantes da primeira geração, como pioneiro Nahim Chein e da segunda leva, como o jovem e recém emigrado Samir Kazzaka.
O estigma sempre acompanhou a trajetória do povo árabe. Ao chegar à fronteira, a exemplo de outros lugares, foram imediatamente identificados como turcos, fossem sírios, libaneses ou palestinos. Enquanto Rivera os acolheu de maneira amistosa e integrada, em Santana do Livramento a sociedade local mostrou-se refratária e com as mesmas características excludentes que mantinham com os despossuídos e estrangeiros em geral. Se os espanhóis e italianos eram chamados de anarquistas, os árabes eram os turcos, exóticos e pouco confiáveis. Embora as características dessa sociedade pouco tenha se alterado com o passar das décadas, a pujança cultural e comercial árabe se impôs, forjando uma aceitação gradual e que teve o ingrediente da miscigenação cultural. As famílias palestinas emigradas no final dos anos 50 criaram espaços da cultura árabe, como a Mesquita, a Sede Social da Sociedade Palestina, o cemitério. Atualmente na fronteira, são os integrantes da diáspora palestina que exercem forte influência econômica.
Em Santana, o comércio local é hoje predominantemente ligado aos imigrantes jordaniano-palestinos, que chegaram em meados dos anos sessenta. Também em Rivera, algumas das tradicionais casas comerciais da cidade foram compradas por palestinos, que emigraram nos final dos anos cinqüenta para Santana do Livramento. A persistência é uma forte característica dessa geração que recebeu o respeito da comunidade por sua trajetória de lutas pelo seu território, seja no Oriente ou na América.
Palestra apresentada por Liane Chipollino Aseff, na Semana da Cultura Árabe, que acontece de 25 a 28 de outubro na Unipampa - Universidade Federal do Pampa, em Santana do Livramento (RS).

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Mundo Árabe em evidência

O mundo árabe e suas peculiaridades religiosas e culturais está mais próximo da cultura brasileira do que muita gente poderia imaginar. Os imigrantes árabes, entre católicos e muçulmanos, contribuíram decisivamente para formar o país que hoje conhecemos em toda a sua diversidade. Neste mês de outubro, uma série de encontros dedicados a cultura árabe aprofundam os debates sobre as tradições herdadas do oriente médio, a contribuição cultural desses povos para o Brasil e a humanidade, e o conturbado presente político da região. Na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), campi de Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, a Semana da Cultura Árabe acontece de 25 a 28 de outubro, reúnindo palestrantes, mostra de dança e culinária, em um evento pioneiro na região (clique nos cartazes para ampliar).
Na semana anterior, em Florianópolis (SC) aconteceu a Primeira Semana da Cultura Árabe do Islã no Contemporâneo, na sede da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina). O evento reuniu escritores, líderes religiosos e acadêmicos em torno do legado do Islã e seus dilemas políticos atuais.
Ao mesmo tempo, acontece no Rio de Janeiro, no Centro Cultural Banco do Brasil, o Projeto Islã, uma série de eventos abordando as nações do mundo islâmico, reunindo palestrantes, peças raras e ciclos de filme sobre o mundo árabe. Durante esta semana, estaremos atualizando notícias, abordando a Semana Árabe em Santana do Livramento.