terça-feira, 11 de novembro de 2014

Encontro com Valda Costa




Ao olhar um quadro de Valda Costa no MASC, na década de 1980, fui capturada por uma imagem que me deteve por alguns instantes: uma ninfa negra de cabelos loiros, tal qual Afrodite, nascida das espumas do mar, que me olhava com olhos grandes, tristes e penetrantes como das estátuas votivas da antiga Mesopotâmia. A roupa leve e transparente confundia-se com as ondas do mar e com o corpo bem torneado da deusa do amor, do sexo, da fecundidade, do casamento e da beleza corporal. De quem era essa obra? Quem era essa deusa que se projetava no primeiro plano do quadro com leveza, sensualidade, com ar melancólico e brejeiro? Seria um auto-retrato da artista que pintou a tela?

No mesmo museu, descobri mais quatro obras da mesma artista. Todas as quatro, diferentemente da primeira, retratavam temas vinculados à cidade de Florianópolis, nos seus aspectos urbanos e culturais. Outra coisa me intrigou, sobretudo na obra intitulada Morro, na qual também projetados no primeiro plano do quadro se encontram e desencontram “casebres” de madeiras espremendo-se uns aos outros.


 O que se destaca aos olhos do observador são os telhados que dão ritmo e profundidade à composição. Seria esse o quintal da casa de Valda Costa? O ângulo de visão da artista é o de quem tinha intimidade com o local: roupas penduradas nos varais, portas e janelas semi-abertas, simplicidade, frescor. A vida que passa de forma simples elaborada e vivida na tela: poética das imagens do dia-a-dia da artista. Na introdução do seu livro A Poética do Espaço, Bachelard (1993, p. 6) diz que no “devaneio poético a alma está em vigília, [pois] [...] para ter uma imagem poética não lhe é necessário mais do que um movimento da alma”. O quadro da artista retrata o movimento do deslumbramento diante das imagens banais do cotidiano.

Com um olhar próprio e peculiar sobre os aspectos físicos e culturais de Florianópolis, Valda Costa tratou a temática da cidade, muito difundida e apreciada pelos colecionadores e tão presente na iconografia artística local, de forma inovadora: incorporou às suas telas o elemento “morro” e os personagens afrodescendentes. Seriam essas obras narrativas biográficas? Seriam espelhos opacos de uma vida? As superfícies das telas de Valda Costa seriam espelhos de suas várias imagens, dos seus vários “eus”? Seriam os espaços criados para a reinvenção de outros mundos, lugares, vidas desejadas e, talvez, jamais vividas, a não ser pelo desejo?
Para compartilhar o mundo de Valda Costa, fez-se necessário penetrar nas entranhas de sua vasta produção, pois muito pouco resta documentado sobre a artista, nada ou quase nada foi escrito sobre ela: sobraram somente alguns fragmentos de jornais que anunciam as suas exposições e as narrativas orais daqueles que a conheceram, além de algumas poucas entrevistas concedidas pela própria artista. 


As imagens ficaram retidas na minha memória como um enigma. Em 2004, quando da elaboração do projeto de doutorado, novamente essas imagens povoaram os meus pensamentos. Debruçando-me mais sobre a obra de Valda Costa, percebi o quanto está impregnada de vida. As referências de vida estão na obra, e vice-versa: o morro, o negro, a negra, o Hospital de Caridade, local onde Valda trabalhou por muitos anos como atendente de enfermagem[1] e onde vendeu as suas primeiras obras.

A Alfândega foi o espaço que “a acolheu”. Foi por meio da Associação Catarinense de Artistas Plásticos (ACAP), localizada na Alfândega, na figura do seu presidente, José Pedro Heil, que Valda conseguiu ser internada no Instituto de Psiquiatria, em 1993. Além disso, foi nesse mesmo espaço que ela produziu boa parte de sua obra nos momentos mais difíceis do final de sua curta vida. Seria a obra de Valda Costa um auto-retrato? Uma autobiografia? 


O fenômeno, se assim pudermos descrever Valda Costa, foi marcado pela fugacidade e pelo paradoxo. Sua vida e sua obra também estavam presas pelo paradoxo, talvez em virtude da procura por algo que sempre lhe tenha escapado pelos dedos. Valda ficou presa ao seu mundo, avançou num lugar fixo, viveu sem ter sido capaz de juntar os seus traços incompletos de identidade, foi privada de identidades construídas por ela mesma[2]. Será essa a sua angústia melancólica traduzida nos olhos dos personagens pintados em suas telas?

Texto extraído da Tese “Para uma história das sensibilidades e das percepções: Vida e Obra em Valda Costa”, de Jacqueline Wildi Lins.


[1] Essa informação consta no currículo da artista, extraído da pasta encontrada no acervo do Museu de Arte de Santa Catarina. Entretanto, alguns funcionários do Hospital de Caridade (que trabalharam com Valda Costa) e os médicos Vilmar Gerent e Hercílio Varela, ambos funcionários daquela instituição e também colecionadores das obras da artista, afirmaram em depoimentos que ela atuou não como enfermeira ou ajudante de enfermagem, e sim como servente ou serviços gerais.
[2] Valda Costa, como veremos na seqüência desta pesquisa, circulou em diferentes espaços de Florianópolis, conviveu com pessoas de diversas classes sociais, morou em diversos locais da cidade: viveu várias vidas e incorporou várias personagens. Entretanto, ficou presa ao seu mundo, terminando a sua trajetória de vida (ou “das várias vidas”) num lugar de passagem, porém fixo, ou seja, do mesmo ponto de onde partiu. Nesse sentido, utilizo o termo “lugar fixo” inspirada na metáfora do barco utilizada por Foucault (2001, p. 421-22): “o barco é um pedaço de espaço flutuante, um lugar sem lugar que vive por si mesmo, que é fechado em si e ao mesmo tempo lançado ao infinito do mar e que, de porto em porto, de escapada em escapada para a terra, de bordel a bordel, chega até as colônias para procurar o que elas encerram de mais precioso em seus jardins”. Você compreenderá por que o barco foi para a nossa civilização, do século XVI aos nossos dias, ao mesmo tempo e não apenas, certamente, o maior instrumento de desenvolvimento econômico (não é disso que falo hoje), mas a maior reserva de imaginação. O navio é a heterotopia por excelência”. É importante não perder de vista que, a partir de análises literárias, Foucault (1981) afirma que não vivemos em espaços homogêneos: “o espaço no qual vivemos, pelo qual somos atraídos para fora de nós mesmos, no qual decorre precisamente a erosão de nossa vida, de nosso tempo, de nossa história, esse espaço que nos corrói e nos sulca é também em si mesmo um espaço heterogêneo”. O autor nomeia os espaços, ou seja, as utopias, que são os posicionamentos sem lugar real, espaços essencialmente irreais que nos possibilitam as fábulas e as heterotopias: lugares reais, delineados pela instituição sociedade, nos quais os posicionamentos reais estão representados e invertidos. Esses lugares são utopias realizadas, lugares de representações culturais. O lugar existe realmente, e nele há a representação de posicionamentos culturais. São lugares que estão fora de todos os lugares (FOUCAULT, 1981).

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