sábado, 23 de março de 2013

Um olhar sobre a presença árabe na fronteira



Os árabes não são estrangeiros em território rio grandense. A tese defendida pelo escritor Manuelito de Ornellas já em 1948, mostrava como a presença desses povos entre nós remonta, por outras vias, a primeira ocupação luso e espanhola, que trazia em seu DNA a forte herança da presença mourisca na Península Ibérica (beduínos, berberes e maragatos). Em sua obra clássica, Gaúchos e Beduínos, o autor estabelece semelhanças entre a cultura gaúcha e árabe, examinando os costumes, hábitos, vestimenta e tradições. Numa poética referência às culturas, o escritor recorre aos hábitos comuns ao gaúcho do pampa e ao homem do deserto para miscigenar e integrar as culturas.
Cogita-se que o primeiro imigrante árabe sírio libanês chegou ao Rio da Prata, por volta de 1868, na Argentina, porém a Direción General de Inmigracón recebeu o primeiro registro oficial apenas a partir de 1887. No Uruguai, segundo o literato e pesquisador uruguaio/libanês Antonio Seluja, teria chegado em 1879/80. Ao chegarem no porto de Montevidéu, seguiram o protocolo dos emigrantes que tinham sua alcunha acentuadamente árabe, para que adotassem nomes castelhanos. Inicialmente entravam sem impedimentos, porém a partir de 1890, devido a grande afluência de estrangeiros árabes, o governo uruguaio vai fechar a porta de entrada no país. Era a resposta às consequências do surto imigratório em um país pequeno e ainda muito ligado a atividade pecuária. O certo é que muitos burlavam a nova lei e continuavam viajando clandestinamente.
 A maioria dos imigrantes sírios e libaneses que chegavam o porto de Montevidéu vieram de aldeias camponesas das montanhas do interior do país. Eles saíam de suas pequenas aldeias e povoados, localizados na região da atual Síria e Líbano, chamada naquele momento de Monte Líbano.
São variados os motivos que levaram os sírios-libaneses a deixar seu país, como o crescimento da agricultura e a diminuição de atividades ligadas ao pastoreio, forçando uma urbanização maior,  ao mesmo tempo em que aumenta o controle governamental sobre essa população. Na Grande Síria, a administração pública vai dar preferência a camponeses assentados, que pagavam impostos e que estavam sujeitos ao recrutamento militar. Por outro lado, se o aumento dessa urbanização provocou um crescimento populacional, com o declínio das epidemias e da fome, o crescimento econômico favorecia apenas a uma elite que estava ligada ao governo e aos grandes capitais.
É um momento de muita desigualdade social, e esse progresso, descontínuo e desigual entre as regiões, classes sociais e grupos religiosos aprofundam o sentimento de busca por alternativas e a emigração. A rejeição ao domínio turco-otomano, também pode explicar a saída de algumas famílias, especialmente as cristãs-maronitas. Também tornou-se mais forte a disputa entre cristãos e mulçumanos e entre as seitas maronitas e drusas, que viviam na região montanhosa de monte Líbano. Não é por acaso, que a maioria das famílias de pioneiros sírio e libaneses são do culto cristão maronita.
As famílias de descendentes dos pioneiros que vivem hoje no Rio Grande do Sul e especialmente na região da fronteira brasileiro-uruguaia, descendem de cristãos maronitas e em menor quantidade de muçulmanos drusos. Também colaborou para isso o fato do império otomano instituir em 1903 o alistamento obrigatório dos cristãos no Líbano para auxiliar na guerra dos balcãs, fazendo com que muitos cristãos maronitas e ortodoxos enviassem seus filhos para fora do país, fugindo dos dominadores otomanos. Muitos intelectuais e profissionais liberais perseguidos pelo governo buscaram o exílio nesse momento.
Quando desciam dos navios, em uma travessia que durava cerca de três meses, eram recebidos por algum parente, amigo ou veterano da comunidade libanesa que os levava então para uma casa de acolhimento, localizada nos arredores do Porto de Montevidéo, na Ciudad Vieja.
Essa região no início do anos 1900, especialmente a Calle Patagones, atual Juan Cuestas, era conhecida como Calle de los turcos, pois  ali estavam os pequenos comércios, as residências e  pensões de imigrantes árabes, e também os quintais onde as mulheres cultivavam hortaliças orientais. Ali, por muitos anos esteve instalado El Barracón,  um sobrado grande, histórica pensão que costumava acolher imigrantes árabes de todas as nacionalidades.
   Geralmente os viajantes ali se restabeleciam e enviavam notícias para a família que ficara no Líbano. Alguns mais pobres alugavam um quarto, pois se sentiam seguros com esta nova família de paisanos. Por cerca de quinze dias, recuperavam-se, conheciam a cultura local, apreendiam o básico da língua castelhana. Após dominar algumas palavras do espanhol, aprendiam o valor dos pesos uruguaios e recebiam algumas mercadorias. Passado o ritual inicial, com seus caixotes – os Katches  - estavam prontos para explorar a campanha uruguaia. Logo em seguida viajavam de trem até a cidade em que moravam seus contatos familiares. Entretanto havia os que chegavam muito doentes, não conseguindo passar pela fiscalização da Imigração. Estes eram levados por um funcionário da alfândega ao Hospital, onde depois de curados, e contando com a ajuda de algum árabe que traduzia seus documentos, eram embarcados de volta para a Argentina e de lá, se não tivessem amigos influentes e parentes, para seu país de origem. Também a entrada de estrangeiros provenientes da África e Índia não era estimulada pelo governo uruguaio.
Muito jovens solteiros viajavam em busca de uma independência econômica. Aventuravam-se pelo interior da república uruguaia, tomando a promissora campanha para si, vendendo variadas mercadorias, em busca da clientela que o novo ofício exigia. No princípio foram vistos com receio pela população rural, até que ganharam confiança e amizade da maioria das famílias da campanha. Sua freguesia principal eram as mulheres e crianças que moravam nas estâncias ou nas vilas próximas a elas. Também foram vítimas de violência, quando eram assaltados na campanha, e discriminação devido a língua e origem oriental.
A partir das primeiras décadas do novíssimo século que vinha à luz, as cidades da fronteira se tornaram alvos novos para a maioria da população estrangeira que chegava às capitais do Prata. Algo como “terra da prosperidade”.  A comunidade libanesa estabelecida em Montevidéu soube que Rivera convertera-se em centro aglutinador do comércio e da emergente indústria da carne e do couro. A modernidade havia se instalado na região com a introdução de serviços que favoreciam o franco desenvolvimento daquela comunidade do interior da república: a estação ferroviária, os lampiões para a iluminação pública, a telefonia, os liceus, constituíram-se em significativos atrativos para os novos moradores.
Havia muito tempo que o serviço dos correios atendia as cidades fronteiriças através das diligências que costumavam romper os limites, em direção a cidades como Bagé. A industrialização, por sua vez, agregou grande desenvolvimento cultural e econômico para a região. Inicialmente, as charqueadas, depois os frigoríficos estrangeiros excederam a mão de obra de trabalhadores locais, abrindo frentes para operários capacitados, como os imigrantes espanhóis, italianos e libaneses.
Porém, se os europeus buscavam trabalhos sazonais nas indústrias, os árabes preferiam a autonomia da atividade varejista, baseada na informalidade. A maioria dos entrevistados nesta pesquisa se utilizaram da expressão liberdade para justificar sua escolha pelo cotidiano do comércio ambulante, mesmo sob condições de insegurança e intempérie. Entretanto, essa é uma das questões que devem ser investigadas sob novas perspectivas, tendo em vista que nesse momento a região foi tomada por intenso movimento de greves, liderada por anarquistas espanhóis e italianos, quando então estava em gestação uma classe operária nos países do Cone Sul.
Um atrativo na região para os estrangeiros, era a economia vigorosa dos frigoríficos de Santana do Livramento. O Frigorífico Armour, teve seu início em 1917 e viveu o apogeu no período da Segunda Guerra entre 1940-44, quando a indústria de carnes abastecia as frentes aliadas. Esse processo vinha desde o advento das charqueadas e, mais tarde, com a indústria frigorificada consolidou-se a exportação de carnes de qualidade para o consumo da população da Europa e Estados Unidos. Assim a região e as cidades próximas a ela, se tornaram um porto seguro para muitas famílias de emigrantes, especialmente os libaneses.
Ao chegarem a Rivera os imigrantes árabes vivenciaram a solidariedade de seus pares já estabelecidos por aqui. Nessa primeira fase da imigração, que vai de 1890 a 1920, aqueles patrícios que já estavam estabelecidos, faziam o ritual do acolhimento aos irmãos no país desconhecido, fossem sírios, libaneses, ou - nesse momento - os raros palestinos. O abrigo e orientação nunca lhes foram negados.
 A exemplo de Juan Molke, estabelecido em Rivera desde os primeiros anos do século XX, comerciante respeitado e bem sucedido, que recebia muitos casais e jovens solteiros enviados sob sua recomendação pelos pais ou amigos. Molke era reconhecido como uma espécie de cônsul e conselheiro da comunidade diaspórica libanesa daquela região.  No Chuy, é conhecido o caso do sírio Mohamed El-Hom, emigrado em 1912, que nos anos cinquenta e meados de sessenta acolhia muitos palestinos em sua casa, dando-lhes auxilio financeiro e hospedagem para que iniciassem vida nova na região. Quando em exílio, os árabes estavam reunidos sob emblema da solidariedade, não importando suas preferências políticas ou religiosas.
Homens valentes os libaneses não foram indiferentes às transformações políticas que sacudiram o Uruguai no início do século 20. O forte sentimento de pertencimento a uma segunda pátria castelhana fez com que o imigrante acastelhanado Emilio Nizarala (em árabe, Nisrala), radicado em Rivera, se engajasse na coluna de seu amigo, o blanco Aparício Saravia defendesse sua pátria. Segundo relatos da memória oral, Juan Molke também engajara patrícios recém chegados a cidade na causa revolucionária. Embora não fossem encontrados registros documentais da presença destes soldados imigrantes nas listas oficiais dos partidos Colorados e Blanco é certo que alguns foram ao front armado. Alguns lanceiros, como o jovem Khalil Aseff, emigrado em 1900 e ardoroso seguidor do General Aparicio Saravia. Ou a turca Carmem, engajada nas colunas coloradas em Trinta y Três Orientales.
Yussef Bushada, libanês acastelhanado pela departamento de imigração como José Posada foi um dos pioneiros em Rivera. Yuseff teria chegado à cidade em 1891, radicando-se nos arredores do povoado. Inaugurando um comércio de gêneros variados na Calle Brasil, deu inicio a arabização daquela região, pois logo chegariam outros paisanos para juntar-se a ele. Constituindo um bairro de casas de comércio tradicionais como a Tienda Normey, Casa La Negra, conhecida como el banco de los pobres, com preços atrativos e variedade de confecções. A Calle Brasil, localizada próximo ao Ferro Carril, atraia imigrantes que desembarcavam na ferroviária, pois logo percebiam nos arredores um auspicioso núcleo comercial. Então, após a chegada de Yussef, a via passou a ser habitada por uma população de maioria árabe, como carinhosamente relembrou o poeta Zaz Recarey había allí una turcada maravillosa”.  Muitos libaneses viveram pelas cercanias e ao final das Av. Sarandi e Agraciada, como as famílias Dergam, Neme, Bouchacour, Curi Zagia, Najas, Chalela, Manzor, Fiat, Kauche, Sajur, Nazer entre outras. A livraria El Estudiante,  fundada na década de dez, de propriedade da Família Curi resiste ao tempo, no mesmo endereço, localizada na Av. Sarandi.  Como um monumento, continua a tradição familiar distribuindo jornais e vendendo revistas a comunidade riverense (foto acima).
Uma curiosidade sobre os pioneiros libaneses que chegavam a Rivera: geralmente jovens e solteiros, escolhiam suas noivas dentro da comunidade libanesa radicada no local. Também acontecia deles trazerem suas noivas do Líbano, depois de uns anos trabalhando, para casar e constituir família na região. Muitos eram casados, jovens casais, que iniciaram sua vida aqui. A maioria dos que vieram para Santana, casaram-se com moças locais ou de cidades próximas, que não tinham descendência árabe. Outros já emigravam casados, porém era uma minoria.
Há diversas narrativas e histórias de vidas de famílias de imigrantes, relatando suas trajetórias particulares e suas perspectivas em relação à terra de origem e à de acolhida. Atualmente, há mais de 16 milhões de árabes e descendentes no Brasil. No estado do RS, conforme dados do consulado, a comunidade libanesa é de aproximadamente 90 mil entre libaneses e descendentes. Com relação a comunidade palestina, os dados, embora defasados, apontam para uma estimativa 25 mil palestinos no estado. O Uruguai conta com uma população de descendência árabe de cerca de 120.000 pessoas, entre imigrantes e seus descendentes. Em Santana do Livramento, vivem cerca de 550 palestinos.
Mesmo sendo raro, mulheres também emigravam. Yesmin About Nagme/Normey, na ultima década de 1890, após ficar viúva, viajou com seu filho Elias, do Líbano para o Canadá, Estados Unidos e Uruguai, onde finalmente em 1912 fixou residência em Rivera. Através de indicações de seu outro filho, George, que morava na cidade, sua prioridade foi estabelecer-se no centro comercial. Estabeleceu moradia na Calle Brasil, local  que garantia de bons negócios. Ali estabeleceu sólidos laços culturais e afetivos, com o novo lar e com seus filhos, que constituindo família, estabeleceram casas de comércio, as quais ainda hoje temos na memória afetiva fronteiriça.  A Tienda Normey durou 82 anos, comercializando seções variadas, como pinturas, ferragem, cristaleria, tienda, mercearia, bazar. Seu filho Elias,  logo na  chegada, foi vítima da discriminação policial. Trabalhando com a venda de mercadorias em uma carroça, foi interpelado por um guarda, que agressivamente o chamou de turco, exigindo que o assustado jovem, que ainda não compreendia o espanhol, apresentasse sua documentação de estrangeiro e licença para “andar mascateando naquela rua.” Depois de muitas tentativas de comunicação e interferência de um veterano que mediou o conflito, a autoridade o liberou da iminência da multa e prisão.
Muitas famílias que viviam na campanha, nos arredores de Rivera, foram fotografadas pelas lentes do jovem Elias, que recorria o interior das estâncias registrando o cotidiano, as festas e costumes da população rural, logo de sua chegada à região. No nordeste no Brasil, em meados dos anos vinte, também o jovem sírio libanês Benjamin Abrahão Botto, mascate e fotógrafo, teve a coragem de acompanhar e fazer o registro iconográfico do cangaço e de seu líder, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Abrahão morreu assassinado durante o Estado Novo, em 1938, provavelmente pelas suas ligações com Lampião. Abrahão teve seus trabalhos, fotos e a película sobre Lampião apreendidos pela ditadura de Getúlio Vargas.  Alguns imigrantes que se engajaram nas convulsões sociais e políticas dos países em que se radicaram, realmente tiveram a coragem da escolha e fizeram a diferença. Seja o fotógrafo Emilio Nisrala, ou o lanceiro Khalil Aseff, integrantes da coluna de Aparicio Saraiva, seja Abrahão no Cangaço, que com suas lentes fez a espetacularização de Lampião e seu bando na mídia nacional, em uma época de restrições de liberdades individuais. Seja no Brasil ou no Uruguai, esses imigrantes libaneses foram agentes da história, vivenciando profundamente a realidade social em ebulição dessas nações.
Em Santana do Livramento, a trajetória dos irmãos Chein serve para ilustrar a adaptação e descaracterização dos costumes árabes impostos na terra estrangeira. Os irmãos Fouad e Inácio Chein, nascidos e batizados no Líbano chegaram ao Brasil em 1914, acompanhados de seus pais, Nahim Jorge Chein e Kanra Azario Chein. Inácio ainda não havia completado dois anos e Fouad com meses de vida. Seus pais, após percorrerem capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, se decidiram pela cidade de Bagé, pela proximidade com a fronteira. Também porque naquele momento a cidade contava com um grande número de imigrantes árabes, em torno de um emergente centro comercial e industrial. Durante os dezesseis anos que viveram na cidade, a família cotidianamente conversava em árabe, mantendo os costumes da pátria distante.
Esse fato foi decisivo para os irmãos Chein terem vivido sua infância e inicio de adolescência dentro da cultura libanesa. Fouad Chein, hoje com 98 anos, recorda-se das noites em que sua mãe, católica, fazia diariamente os filhos sentarem-se em roda, no chão, para rezar em árabe antes de irem para a cama. A proximidade cotidiana dos costumes e da língua árabe os aproximava de sua terra. A língua é um poderoso fator de expressão de uma identidade instintiva comum, tal como a cultura a ela associada.  No entanto, quando seus pais decidem partir para Santana do Livramento, suas vidas vão tomar um rumo muito diferente.
A família Chein sentiu de perto o desapego dos patrícios radicados ali pelas raízes libanesas. Alguns casados com mulheres brasileiras desestimularam seus filhos a falarem sua língua, os irmãos. Os irmãos devido ao trabalho em comércios brasileiros e atendendo uma clientela brasileira e uruguaia, tiveram que aprimorar a língua portuguesa e espanhola. Sem o estímulo necessário, com o passar do tempo foram desaprendendo o árabe. Embora Santana fosse atrativa para os negócios, culturalmente os desarticulava e os afastava do Líbano. Diferente de Bagé, onde existia uma vigorosa comunidade, em Santana havia poucos libaneses para dar continuidade a seus costumes. Também as famílias libanesas haviam constituído um clã brasileiro, onde a segunda geração nunca foi estimulada a falar o árabe. Outra limitação estava relacionada ao casamento. Casavam-se com mulheres brasileiras que não tinham interesse que seus filhos convivessem com a cultura árabe. Alguns motivos para esse fato, talvez seja a discriminação que essa geração de primeiros imigrantes sentiu logo no início de seu estabelecimento em Santana.
 O caso dos pioneiros em Rivera é distinto, pois geralmente, os descendentes da segunda e até terceira geração, criaram um vinculo afetivo com a pátria de seus pais, avós, e ainda hoje se pode ouvi-los discorrerem sobre o Líbano, com grande admiração e paixão. Em 1917, o grande número de imigrantes árabes exigiu que a comunidade fundasse a Sociedade Libanesa de Rivera. A associação acolhia sócios libaneses também radicados em Santana, como as famílias Salim e Mafuf, porém nem todos participavam. No local havia saraus literários, danças, concursos culinários, campeonatos de jogo de gamão, arrecadação de pesos para auxiliar alguma família que chegava, ou ainda para doar a uma instituição pública. Os homens discutiam a situação política do Líbano e Europa. Os que podiam compravam um rádio potente, de ondas curtas, que transmitia rádios árabes, após a audição, reunidos todos debatiam as notícias. A nova geração foi crescendo e aprendendo sobre a cultura árabe nos salões da Sociedade, em casa, nas rodas de conversa de seus pais. Mesmo que na escola apreendessem o espanhol, eles conheciam a língua de seus pais, embora muitos não quisessem aprender. Essa aproximação cotidiana fez a diferença.
Santana possuía uma comunidade estratificada, onde os estabelecimentos comerciais eram fundados na tradição familiar. A maioria das casas era identificada com brasileiros natos, mantendo certa resistência aos comerciantes estrangeiros. Então, muitos imigrantes árabes perceberam que naquela região, a respeitabilidade e a ascensão social estavam intimamente ligadas. Desse modo, seus descendentes tinham que estar desvinculados da condição de “turcos” imigrantes, mesmo os filhos brasileiros nascidos na cidade. A decorrência desse processo foi o esquecimento do idioma pátrio, a nova geração foi absorvendo totalmente a cultura brasileira. Uma espécie de legado a ser deixado pelos pioneiros aos descendentes, a integração plena na terra estrangeira.
Em Santana, foi importante a trajetória de Rage Maluf, que desempenhou um importante papel entre seus companheiros e permaneceu na memória da coletividade fronteiriça. Emigrou para o Brasil, para a cidade de São Paulo, em 1924. No princípio, como todos seus compatriotas, trabalhou como vendedor ambulante em várias cidades do sul do Brasil. Em 1930, após muito circular pelos estados do Paraná, Santa Catarina e São Paulo, escolheu Santana do Livramento para fixar residência. Rage tinha parentes na cidade, através de suas indicações, abriu comércio na linha divisória, próximo à aduana brasileira e uruguaia. A região havia se estabelecido em reduto da comunidade estrangeira, italiana, espanhola e árabe. Havia um restaurante italiano, uma pensão espanhola e a Pensão da turca Vitória Maluf.
No comércio de Rage se vendia de tudo, secos e molhados, alimentos, tecidos, fumo em corda, fogão a lenha, bebidas. Também havia um depósito que fazia a distribuição de bananas na cidade. Semelhante a um clube, o lugar constituía-se em espaço da sociabilidade árabe da fronteira, recebendo compatriotas que residiam em Rivera e Santana. Ali costumavam confraternizar ao final de tarde, quando terminava o expediente de trabalho. Os companheiros buscavam o local para se distraírem, fosse conversando em árabe, fumando arguile ou jogando gamão. Contudo, não eram todos que frequentavam a casa de Rage. Os que já estavam integrados a sociedade santanense, raramente visitavam o lugar.Os libaneses mais antigos da comunidade ainda recordam-se com acentuada melancolia do clube de Rage, local de relembrar a “terra dos cedros”. O comércio fechou as portas no início da década de 1960, quando  mudou-se com a família para Porto Alegre, deixando seus amigos inconsoláveis. 
Ao contrário do que se imagina o trabalho no comércio, que invariavelmente começava como mascate, não fazia parte do cotidiano dos sírios libaneses e palestinos em sua terra natal. Em seus povoados árabes eles costumavam trabalhar na agricultura. Eram em sua maioria camponeses desabituados com o cotidiano urbano e o comércio, e tiveram que se reinventar para sobreviver aqui. Os sírios libaneses que optaram por percorrer as estâncias do interior uruguaio e a fronteira se depararam com um universo distinto daquele que estavam acostumados, embora encontrassem espaço garantido nessa nova profissão de trabalhadores informais. A presença árabe foi além do comércio, impregnada na cultura nacional e local. Muitos se tornaram professores, intelectuais e artistas. Em Rivera temos a segunda geração com Tall Ramis, que nos anos trinta criou o brasão da cidade, Hipólito Zaz Recarey, grande literato e memorialista, Clarel Neme, artista plástico, que se celebrizou internacionalmente. Em Santana, os sobrenomes descendentes estão na medicina, no direito, na docência nas universidades.
A chegada da comunidade Palestina
Os primeiros imigrantes palestinos chegaram em menor número, em meados dos anos 50, como Ibrahim Hussein e mais tarde, Hilmi Abadallah. A presença mais significativa dos palestinos na região só viria a ganhar novo impulso após os conflitos da guerra israelo-palestina, em 1967. A violência da ocupação fez com que muitas famílias deixassem suas terras e casas na Palestina. Em sua maioria, os homens chegavam sozinhos. Geralmente casados, ou compromissados, viajavam com amigos ou familiares, deixando a mulher e filhos com parentes. A diáspora impunha-se frente às impossibilidades de trabalho e ao amparo da família em uma região de conflito e dor. Se a emigração era associada ao sinônimo de lugares seguros onde trabalhar e viver, também significava encarar novos caminhos e novas culturas. Os palestinos chegavam dispostos a trabalhar, adquirir capital para, mais tarde, trazer suas esposas e filhos e reunirem-se com a família, mesmo que em alguns casos esse processo perdurasse por vários anos. A relação afetiva era mantida através de cartas, fotografias, lembranças, onde os pais viam seus filhos crescendo através de imagens enviadas por suas esposas.
Para relaxar e amenizar a distância da terra mãe, seja o Líbano ou a Palestina, alguns imigrantes, no início dos anos 50, nas manhãs de domingo, reuniam-se em frente ao obelisco do Parque Internacional, para conversar em sua língua, tratar de temas como a turbulenta situação política do Oriente Médio ou, simplesmente fofocar. Alguns costumavam levar seu chimarrão, como Samir e Sami Kazzaka, outros iam acompanhados dos filhos, como Ibrahim Tarabay. Ali, reunidos, estavam  integrantes da velha guarda, como o pioneiro Nahim Chein, e recém-emigrados, Samir Kazzaka, Ismail Hussein, Antônio El Ters.
Logo de sua chegada, os palestinos traziam as angústias de uma trajetória acentuada pelo êxodo e pelo trauma da guerra. Em muitas narrativas, acentuam-se as dificuldades em se adaptar ao Brasil, seja cultural, social ou economicamente. A inserção em uma cultura diferente é desafio constante para a comunidade, pois ocasionará dilemas com relação aos hábitos e a sua identidade. Muitos se adaptaram ao novo modo de vida fronteiriço, integrando-se aos costumes locais, outros tiveram dificuldades de introduzir algum hábito. Certamente os pioneiros vivenciaram um processo dolorido de afastamento e ausência, consequência direta do conflito de 1967. Na terra natal que ficava para trás, restava à imposição de cruéis condições de subsistência com infelizmente, ainda vemos atualmente.
Nesse período a comunidade local passou a conviver com uma cultura distinta, diversa daquela tida como “fronteiriça”. O que inicialmente gerou certo encantamento, dado à diversidade e à cultura do mundo árabe, a variedade de mercadorias e métodos de vendas, também impulsionou o sucesso de suas “lojinhas”, muito coloridas, diferentes da sobriedade das casas tradicionais. Semelhante ao que ocorrido com os libaneses, que trabalharam de mascates, caixeiros viajantes, comerciantes e tinham suas lojas baseada na variedade de gêneros, mercadorias e método de vendas parcelado. Quando os palestinos chegaram encontraram os vigorosos comércios de origem libanesa, já referenciais na comunidade. Os preconceitos que alguns sofreram não alteraram a abertura positiva que sentiram por parte do povo brasileiro, e as condições favoráveis de comércio, bem como o acesso e assimilação da nova cultura.
Varejistas, em sua grande maioria, introduziam novas formas de comercializar e uma multiplicidade de mercadorias, unindo preços populares e diversidade. Geralmente suas lojas eram batizadas como um símbolo que identificavam sua terra, seja Casa Natal, Jerusalém, Belém, Palestina, ou mesmo Casa Paulista, curiosamente, em homenagem a cidade de São Paulo, que primeiramente os acolheu e que era provedora de suas mercadorias, onde havia numerosa comunidade de imigrantes e descendentes que formavam uma vigorosa identidade árabe.
O êxito dos pioneiros pode explicar o estímulo dado ao processo imigratório dos anos seguintes em todo o Rio Grande. Mas se o relacionamento com os fronteiriços foi caracterizado pela negociação entre as duas culturas, também não foi imune de desentendimentos e incompreensões mútuas. Logo após os primeiros anos da chegada, e com o êxito de seus comércios, muitas famílias tiveram que se aprimorar na língua portuguesa e observar atentamente ao seu redor a cultura local. Como seus irmãos libaneses, muitos empresários sofreram também algum tipo de preconceito, seja pela religião – a maioria muçulmana – seja pelo sucesso natural de seus empreendimentos populares e de produtos diversos que acabavam por arrebanhar uma clientela fiel. A partir dos anos 90, outro elemento foi incorporado a esse quadro, com a invasão dos EUA ao Iraque e após o 11 de setembro de 2001. Algumas famílias palestinas sofreram discriminação por serem muçulmanas em uma região predominantemente conservadora e cristã.
A partir de então, a comunidade palestina, com sua cultura fortalecida, graças também ao sucesso econômico de seus empreendimentos, vai resistir a novas ondas de estigma e preconceito, recriando estratégias de sobrevivência e convivência com a comunidade local. Seja na divulgação de seus hábitos culturais, como a adoção do véu - hijab - pelas mulheres, ou no lazer, com o fortalecimento da Sociedade Palestina e Árabe, e também a construção da Mesquita, a comunidade impõe seus costumes, revigorando sua identidade.
 Passadas mais de quatro décadas após sua tímida chegada à fronteira, a comunidade palestina santanense pode enfim comemorar sua unidade cultural e prosperidade econômica. Atualmente os palestinos fixados em Santana e Rivera contam com cerca de 550 integrantes, a maioria muçulmana. Muitos dos pioneiros residem no Brasil, porém tem empreendimentos em Rivera. Isso os distingue daqueles primeiros libaneses do início do século 20, que viviam e trabalhavam em Rivera.
As famílias pioneiras tanto as siro libanesas como palestinas inscreveram-se nos anais do crescimento econômico da região, graças a sua força de trabalho, determinação e, finalmente, a consolidação de um crescimento econômico ímpar. São proprietários de redes de hotelaria, imóveis, meios de comunicação, mega empreendimentos no comércio de importados, devolvendo a região um vigor somente vivenciado nas primeiras décadas do século passado. Embora nessa trajetória tenham encontrado alguns obstáculos para reestruturar suas vidas em uma terra estrangeira, estiveram sempre ligados a uma admirável persistência e vontade de lutar por dias melhores.
Assim constituíram novos laços culturais na região, sem esquecer sua cultura e a resistência política em busca de justiça para a terra tomada de seus pais e avós: a Palestina. Outros descendentes de pioneiros libaneses sentem orgulho de suas raízes árabes, seja da culinária, do sobrenome ou do cedro símbolo da terra de seus pais ou avós, o Líbano. Finalmente, a herança árabe é uma marca permanente em nosso cotidiano. Seus elementos culturais estão plenamente integrados seja na escrita, na arquitetura, na gastronomia, nas danças e contos populares, o fato é que o universo mourisco perdura e faz parte da nossa identidade brasileira, uruguaia e gaúcha.  Apesar de ainda haver certa dose de preconceito, por conta da desinformação e dos mitos que circulam inclusive na mídia, felizmente a maioria da comunidade árabe tem ótima relação com as demais, em um ambiente de tolerância e diversidade. Também não faltam imigrantes e descendentes de árabes que se tornaram “fãs” do churrasco e do chimarrão. O chimarrão pode ser considerado uma bebida dos “dois mundos”, pois hoje em dia, tanto palestinos, libaneses e sírios sorvem um mate amargo em seu cotidiano seja de lazer ou trabalho.
        O imaginário da presença árabe no Brasil e Uruguai é diferente que em outros países  por exemplo, é comum que os brasileiros e uruguaios associem os árabes apenas aos sírios e libaneses, povos que formaram a maior parte da colônia nos dois países. Na França, no entanto, quando se fala em árabes, eles pensam nos argelinos, nos marroquinos. Na fronteira do RS, lembramos os palestinos.
 Por último temos de lembrar que esse processo imigratório árabe que aconteceu no Uruguai e Brasil, no final do século 19 e inicio do 20 foi muito diferente do processo diaspórico que ocorre atualmente nos países árabes. Os primeiros imigrantes síro libaneses que deixaram suas casas, sua famílias, viajaram por variados motivos, mas também por melhores condições de vida na nova terra que escolheram para viver. Muitos ainda têm uma casa para retornar. A maioria pôde escolher seu destino. Os palestinos que emigraram depois de 1948 e principalmente, logo após 1967, foram obrigados a deixar sua família, seu lar e sua terra. Por conta da ocupação israelense que os expulsou violentamente, e até hoje continua fazendo que muitos jovens, que desejavam apenas constituir sua família, morar na terra de seus ancestrais, tenham que viver segregados ou em outros países, alimentando o sonho de um dia retornar e ter sua família e casa de seus avós de volta . Esses ficaram apenas com a chave da casa, mas continuam lutando e sonhando. 

Liane Chipollino Aseff.

Texto apresentado na Sala Antel (Rivera) durante o IV Festival Sul Americano da Cultura Árabe, Unipampa.

Fotos: 1. Os jovens jornaleiros de Humberto Curi, em frente a livraria El Estudiante, em Rivera, 1939. (acervo Osmar Santos). 2. Jose Seluja e um amigo, mascates no Uruguai do início do século XX (acervo Antonio Seluja). 3. O fotógrafo pioneiro Elias Normey, em seu estúdio de Rivera (acervo Osmar Santos). 4. Os irmãos Sami e Samir Kazakka, em frente a Casa Sami, rua dos Andradas, na Santana do Livramento dos anos 50 (acervo Samir Kazakka). 5. A tradicional Casa Salim, em Santana do Livramento. 6. Vitoria Maluf e sobrinhos, em frente ao comércio de Rage Maluf, na Avenida João Pessoa (Santana do Livramento), na década de 50 (acervo família Maluf). 7. O pintor Clarel Neme, fotografado em 1971 por Osmar Santos. 8. A palestina é sua, liberte-a (foto Marlon Aseff). 9.  O comerciante palestino Ahmad Musa Abdell Karin Shueik, em sua loja na cidade de Santana do Livramento. (clique nas imagens para ampliar).

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