quinta-feira, 16 de junho de 2016

Mil vezes Robertinho Silva !



Dizer que Robertinho Silva é um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos é chover no molhado. Desde suas primeiras incursões na música, acompanhando Caubi Peixoto, em 1964, o baterista e percussionista nascido e criado em Realengo, no subúrbio do Rio de Janeiro, sempre cultivou a virtude de estar no lugar certo, na hora certa. Foi assim que ajudou Milton Nascimento a construir uma obra universal. O mesmo fez com Egberto Gismonti, como no seminal Academia de Danças, de 1974. Foi o baterista que deu impulso ao que veio a ser conhecido como o Som de Minas, com o Clube da Esquina abrindo caminhos. Tocou com Flora Purim e Airto Moreira no auge do jazz fusion, quando a música brasileira dava as cartas em Los Angeles. Fez amizades musicais com Wayne Shorter, Sarah Vaughan, Ron Carter, Herbie Hancock, Art Blakey, entre outros dinossauros do jazz americano. Quer mais? Então segura o fôlego. Robertinho foi baterista em alguns dos principais álbuns da iluminada MPB das décadas de 70 e 80, de nomes como João Donato, Marcos Valle, Lô Borges, Bebel Gilberto, Chico Buarque, João Bosco, Moacir Santos, Paulo Moura, Toninho Horta, Gal Costa, Gilberto Gil, Virgínia Rodrigues, Celso Fonseca, Zé Renato, Fagner, Nana Caymmi, Beto Guedes, entre muitos, muitos outros.  

Mas não pense que essa invejável folha de serviços prestados ao melhor da cultura brasileira mudou Robertinho. O homem mantém uma alegria e simplicidade que só os verdadeiros gênios sabem ter. De turnê por Santa Catarina, “Bob Silva”, como é conhecido pelos amigos mais chegados, apresentou o show “Sonhador Celestial”, nome do CD que gravou com o parceiro Foguete Barreto, da novíssima formação “Dudarua”, um duo de percussão que mistura referências percussivas brasileiras e orientais. Nos palcos catarinenses o show teve a especialíssima participação do violonista Thiago Zaidan, jovem mestre das cordas, de Rezende (RJ). Durante a passagem de som no Teatro do Sesc, em Florianópolis, Robertinho puxou pela memória e conversou com a gente. 
Com vocês, Bob Silva, the man.

JM - Um carioca de Realengo, então.
Robertinho – É, área militar. Criado em frente ao paiol de pólvora (risos), mas eu não tinha nada a ver com militar não, meu pai era pernambucano e minha mãe é paulista. Só não tenho avô mineiro nem tataravô baiano. No show quando eu digo isso todo mundo ri, - ainda bem...eles dizem (risos). Agora, conversando com você eu lembrei que já acompanhei até o Roberto Carlos, na TV Tupi. Ele não era ninguém. Isso foi anos 50, quando ele gravou um disco de bossa nova, antes da bossa estourar, em 1958.

JM - E o som de Minas, como foi que entrou na sua história?  porque você ajudou a construir toda uma obra que hoje é referencial para a música brasileira.
Robertinho – Eu tive vários olheiros na minha vida, desde que eu comecei a tocar no centro do Rio. Era um olheiro aqui, outro olheiro ali, e aí chegou um cidadão quando eu trabalhava no Dancing Brasil. Eu trabalhava nos domingos fazendo a folga de um baterista cearense. Aí chegou esse cara muito bem vestido, de óculos fundo de garrafa, me observando. Eu pensei: polícia. Isso aí é cana. Porque eu tinha cara de garotinho. Disfarçava, olhava, tava o cara ali, parecia um boneco. Eu pensei, meu Deus do céu, é hoje. Vou ser preso e não fiz nada. Eu desci do palco e ele disse, quero falar com você. Eu levei um susto, meu coração disparou. Aí ele disse, parabéns, você toca bem né? Sei lá, eu sou estudante ainda, eu disse. Aí ele me perguntou se eu tinha ouvido falar na Boate Drinks, em Copacabana. Eu disse que todo o músico conhece e já sonhou em tocar lá, mas ninguém  consegue. 

Aí ele me disse, então você está convidado a tocar lá! Eu falei, qué isso cara..... Porque essa boate, do Djalma Ferreira, um grande organista, era “o lugar”....No Rio tinha a Drinks e o Sacha, que eram os lugares que a high society de Copacabana frequentava, e os americanos quando chegavam no Rio, atrizes de Hollywood...  E o Djalma Ferreira vendeu para a família Peixoto, do Caubi, então esse convite foi um prêmio na minha vida. Mas eu só toquei lá só um ano, porque apareceu outro olheiro. Sempre tinha um cara de olho. E no domingo na boate, era folga. Garçom para garçom e músico para músico. Trabalhava a semana inteira e colocava um substituto para passar o final de semana com a família. Mas eu não fazia isso não, porque eu precisava trabalhar. Eu fui pai novinho. Quando entrei na boate, tinha 23, mas já tinha filho. Aí nessas folgas assim, entrou um cara que parecia garçom, meio italianado, assim...eu disse, é garçom novo na área. De repente eu ouvi um som de piano meio diferente, disse, pô o garçom toca...sabe quem era? Wagner Tiso.  Aí eu fui atrás dele, na rua, pra tomar um... E disse, pô, parabéns, você toca bem. Pensei que você era garçom. Ele me dizendo, é, eu sou mineiro, sou do sul de Minas. Aí eu disse, tem um amigo que comprou um disco de músicos de Belo Horizonte, que tem uma valsa bonita, de um tal de Wagner...e ele me diz, sou eu. Aí eu falei, caramba! E começou essa história de músicos, bate papo de músico de lá para cá. Era 1964. E ele um dia me apresentou um músico mineiro, chamado Milton Nascimento. Neguinho com violão debaixo do braço, com aquela capinha poeira, da roça...

JM – O Milton lá no início de tudo...
Robertinho – É, porque o Milton saiu de Belo Horizonte e foi morar em São Paulo. E em 1967 o Milton estoura no festival internacional da canção. Dois anos depois, o Milton vai gravar o primeiro disco pela Odeon. Tá certo, e quem vai tocar? o Milton pergunta pro Wagner. “Olha, tem o baterista  Robertinho Silva e o baixista Luiz Alves”. Aí, depois disso, a galera da MPB, todo mundo passou a me convidar. Taiguara, Marcos Valle, fulano e fulano...aí o Dori Caymmi, quando eu fui gravar com ele, traçou: “O Robertinho é a bola da vez” (risos) . Aí eu falo pro meu filho Tiago, que tem 31 anos, eu digo...Tiago, eu já fui bola, eu sei ! (risos).

JM – E como é que foi esse começo?
Robertinho – É o seguinte, foi um empresário...Tinha a boate Sachas. E tinha o filho dele, que disse, pai, eu queria fazer o Sachinha. Porque músico não entrava nessas boates. E era mais para encontro de músicos, porque tinha um movimento estudantil forte, que tinha o Gonzaguinha e outros. Então abriram o Sachinha na esquina da Avenida Atlântica. E todo mundo começou a frequentar lá, tinha um piano no centro. Foi lá que eu conheci o Zé Rodrix, e ia também a Joyce, Nelson Angelo, o Milton também.... E eu, o Wagner e o Luiz estavámos a fim de formar um trio para acompanhar cantores de bossa nova...durango kid, né? Uma cerveja para três.... E apareceu um cara maluco lá, dizendo que estava querendo investir na música do Milton, que estava cansado de ver ele no banquinho e violão. Porque acabava o festival e neguinho voltava para o banquinho e violão.
E o Luis levantou da mesa, não acreditou no cara. Só que o cara era o José Mynssen, empresário, tinha vendido a sapataria da família, tava com a maior grana no bolso. E o Wagner, como mineiro, ficou quieto. E ele me perguntou onde eu morava, e era longe dali, na zona norte....E ele me diz, você não quer morar na zona sul? Eu pago! Aí eu vi que o negócio era verdade. E disse, segunda-feira começa o trabalho porque eu já arrendei o Teatro Opinião. Eu disse, tô dentro. Já tava cansado de tocar em boate, queria palco de teatro. E o Wagner também.  Mas o Luiz não queria, disse que ia ficar tocando em bar.. aí eu disse, cara, o Milton Nascimento, já estourou no festival. Foi um sacrifício pra levar ele. E o Mynssen investiu o dinheiro todinho na gente. Ensaiamos uma semana, a irmã dele era artista plástica, pintou a nossa cara no teatro...e um dia antes eu pergunto, e o nome do grupo, não tem? Aí ele me diz, já tem sim. O show vai se chamar  “Milton Nascimento, ah, e o Som Imaginário”. E o show era o seguinte, quando o público entrava a gente já estava tocando. E estourou. Fomos para Belo Horizonte, São Paulo.... E depois deu uma parada porque o Milton voltou para Minas. E a Gal ia fazer uma turnê e a gente entrou. Foi a primeira vez que eu conheci o Brasil. Até então eu só era conhecido pelos músicos de boate, foi aí que apareceu meu nome.

JM – Você concorda que o Som Imaginário foi a grande vanguarda da época, que antecipou o Clube da Esquina e outras vertentes?
Robertinho Silva – O Som Imaginário, Egberto Gismonti, foi tudo isso. Quando eu gravei o primeiro disco com o Egberto, chamado Academia de Danças. E com a música do Milton, no começo eu achei tudo estranho. Acho que fiquei uma semana sem sentar na bateria. O Wagner é que me dava uns toques, uns compassos compostos que eu nunca tinha tocado. E o Milton não falava nada, mineiro, caladão...e eu tocava do meu jeito. De vez em quando ele fazia assim – um positivo com a mão – e foi aí que eu tive aí a liberdade de expressão de encaixar o tambor, que foi a minha formação. Na bossa nova não tinha nada disso. Foi na música mineira que eu tive essa liberdade.

JM – E o Som Imaginário ia junto....
Robertinho Silva – O Som Imaginário fez coisas que ninguém fazia. O primeiro disco que a gente gravou era de percussão livre, e ninguém tinha feito isso. Nós somos pioneiros em percussão livre, de efeito. Naquele tempo, eu conheci o Fredera, em 1967, e ele era universitário, caretinha, de gravatinha e tal. Frederico Mendonça de Oliveira. E o Som Imaginário precisava de um guitarrista solista. E quando ele chegou lá e viu aquela onda de todo mundo tocando de pés descalços, ele virou John Lennon. Deixou a barba crescer e botou os bixos pra fora. Depois foi expulso da banda, porque começou a brigar ele e Zé Rodrix. Era John Lennon e Paul McCartney (risos). Nessa época pintou também o Naná (Vasconcelos), que morava na Siqueira Campos. E no apartamento dele foi a primeira vez que eu vi alguém tocando berimbau diferente de todo mundo, sem ser levada de capoeira. Eu já tinha um berimbau, que eu tinha ido a Bahia, que estava na parede da minha casa. Aí tirei da parede e aprendi a tocar, foi com o Naná. Aí ele gravou o primeiro disco que o Som Imaginário gravou com o Milton, outros discos também, aí ele foi embora para a França, partiu para o mundo né.

JM – E como foi que você colocou o pé na música lá fora?
Robertinho Silva – Em 1974, fomos convidados eu, Milton Nascimento e Wagner Tiso para gravar o disco Native Dancer, do Wayne Shorter, em Los Angeles. Em 1975 a situação tava braba no Rio de Janeiro, com aquele negócio da ditadura. E um cara chamado Mayuto Corrêa me ligou um dia e disse que ia rolar em Los Angeles um festival chamado Brazilian Afro e que queria me levar. Mas aí eu disse que só ia se ele levasse também meu amigo, Luiz Alves. Ele disse que não dava, e eu recusei o convite. Fudido, fudido e meio. Aí ele acabou conseguindo passagem para nós dois. E a gente foi para morar mesmo. Fomos numa sexta feira de carnaval e voltamos na sexta feira de carnaval do outro ano. Só que eu vim para renovar o meu visto e voltar, mas o Luiz quis ficar. Eu voltei e fiquei lá mais três anos.

JM – Você conviveu com maestro Moacir Santos, Airto Moreira, Flora Purim, que viviam em Los Angeles.
Robertinho Silva – Eu não conhecia pessoalmente Moacir Santos no Brasil. E ele morava na rua La Mirada, que era a mesma rua que a gente morava em Los Angeles. Só que quando a gente chegou ele foi morar em Pasadena. Aí quando a gente se falou eu disse, poxa Moacir, agora que a gente chegou você foi para Pasadena. E ele era um cara sério, mas sacana. Me disse, sabe o que é, eu tinha uma aluna que não aprendia o dó maior, e para ensinar eu tive que ser vizinho dela (risos).

JM – Você considera que o Brasil hoje possui a mesma força criativa musical das décadas de 70 e 80, ou está diferente ?

Robertinho Silva – Foi a partir de 1958, com o estouro da Bossa Nova e depois no Carnegie Hall, que eu costumo dizer que ficamos todos iguais. Porque antes a gente era macaco de americano. E eles ficaram impressionados. E tem gente que acha que a bossa nova era alienada, mas veja só o que mudou depois disso. Hoje tem talento também, mas a cultura – as secretarias, o estado enfim- hoje não ajuda. Porque era assim, as gravadoras davam a chance de você ir construindo seu talento. O Milton vendia dois mil discos, mas a gravadora bancava. Hoje nem existe mais gravadora. Eu não sou contra nada não, mas veja o sertanejo e o que virou a música caipira. Isso é um veneno terrível. Não sou contra nada, mas podia distribuir, dividir, como era dividido antigamente. 


por Marlon Aseff
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